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sexta-feira, 22 de julho de 2016

REVOLUÇÕES SILENCIOSAS: A CONVIVIALIDADE


Por Leonardo Boff



Com a queda do muro de Berlim em 1989 e com ele o socialismo que fazia o contraponto (independentemente de seus graves erros internos) ao capitalismo, este terminou triunfalmente ocupando todos os espaços na economia e na política. Com a chegada ao poder de Margareth Thatscher na Inglaterra e de Ronald Reagan nos USA, a lógica capitalista ganhou livre curso: liberalização completa dos mercados com a ruptura de todos os controles, a introdução do estado mínimo, das privatizações, da concorrência sem fronteiras e do crescimento sem qualquer consideração para com a natureza.

Essa assim chamada de“mundialização feliz” não foi tão feliz assim.
O prêmio Nobel de economia Joseph Stigliz pôde escrever ainda em 2011: ”somente o 1% dos mais ricos fazem funcionar a economia e o inteiro planeta em função de seus interesses”(“Of the 1% by 1% em Vanity Fair, maio 2011). Em razão disso um dos maiores bilionários, o especulador Warren Buffet se vangloriava: ”sim, a luta de classes existe, mas é a minha classe, a dos ricos, que conduz a luta e a estamos ganhando”(Entrevista na CNN de 2005).

Só que todos esses endinheirados nunca colocaram em seus cálculos o fator ecológico, os limites dos bens e serviços naturais, tidos como desprezíveis externalidades. Isso ocorre também nos debates econômicos em nosso país, retardatário nesta questão, à exceção de alguns poucos como L.Dowbor entre outros poucos.

Ao lado da hegemonia mundial do sistema do capital, crescem por todas as partes revoluções silenciosas. São grupos de base, cientistas e outros com sentido ecológico que estão ensaiando alternativas a este tipo de habitar o planeta Terra. A continuar estressando de forma impiedosa a Terra, esta poderá dar o troco e provocar um abalo, capaz de destruir grande parte de nossa civilização.

É num contexto assim dramático que surgiu um movimento chamado de “Os convivialistas” que reúne por ora mais de 3200 pessoas do mundo inteiro (veja www.lesconvivialistes.org). Procuram o viver juntos (daí convivialidade), cuidando uns dos outros e da na natureza, não negando os conflitos mas fazendo deles fatores de dinamismo e criatividade. É a politica do ganha-ganha.

Quatro princípios sustentam o projeto: o princípio da comum humanidade. Com todas as nossas diferenças, formamos uma única humanidade, a ser mantida unida.

O princípio da comum socialidade: o ser humano é social e vive em vários tipos de sociedades que devem ser respeitadas em suas diferenças.

O princípio de individuação: mesmo sendo social, cada um tem direito de afirmar sua individualidade e singularidade, sem prejudicar os outros.

O princípio da oposição ordenada e criadora: os diferentes podem se opor legitimamente mas sempre tendo o cuidado de não fazer da diferença uma desigualdade.

Esses princípios implicam consequências éticas, políticas, econômicas e ecológicas que não cabe aqui detalhar.

O importante é começar: a partir de baixo, com o bioregionalismo, com as pequenas unidades de produção orgânica, com a geração de energia a partir dos dejetos, com a convivência com o semiárido, com a proteção das matas ciliares e das nascentes de água doce, com um sentido de auto-limitação e justa medida, vivendo um consumo frugal compartido entre todos. São as revoluções silenciosas que estão acumulando energia para, num momento maduro da história, poder fazer a grande transformação e a passagem da era do antropoceno para a era do ecozoico.

É importante hoje acentuar a convivialidade porque atualmente há muitos que não querem mais viver juntos.

A convivialidade como conceito, foi posta em circulação por Ivan Illich (1926-2002) com seu livro A convivialidade (1975). Ele foi um dos grandes pensadores proféticos do século XX. Austríaco, viveu grande parte de sua vida nas duas Américas e por anos em Petrópolis. Para ele a convivialidade consiste na capacidade de   fazer conviver as dimensões de produção e de cuidado; de efetividade e de compaixão; de modelagem dos produtos e de criatividade; de liberdade e de fantasia; de equilíbrio multidimensional e de complexidade social: tudo para reforçar o sentido de pertença universal.

A convivialidade pretende também ser uma resposta adequada à crise ecológica. Ela pode evitar um realcrush planetário.

Importa restaurar o pacto natural coma Terra e o social entre os povos, articulando sempre ambos conjuntamente. O primeiro parágrafo do novo pacto será o sagrado princípio da autolimitação e da justa medida; em seguida, o cuidado essencial por tudo o que existe e vive, a gentileza para com os humanos e o respeito para com a Mãe Terra. Tudo isso não se alcançará sem dar primazia ao capital humanístico-espiritual sobre o capital meramente material, sob o qual ainda vivemos.

É possível organizar uma sociedade boa, uma Terra da boa-esperança (Sachs e Dowbor) na qual as pessoas preferem cooperar e partilhar em vez de competir e acumular ilimitadamente. Estas são as condições básicas de uma felicidade possível neste mundo.

Leonardo Boff articulista do JB on line escreveu com M.Hathaway, O Tao da libertação: explorando a ecologia de transformação, Vozes 2012.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO?

por Frei Betto



      Nada mais tendencioso do que o Movimento Escola Sem Partido. Basta dizer que um de seus propagadores é o ator de filmes pornô Alexandre Frota. O movimento acusa as escolas de abrir espaços a professores esquerdistas que doutrinam ideologicamente os alunos.

      Uma das falácias da direita é professar a ideologia de que ela não tem ideologia. E a de seus opositores deve ser rechaçada. O que é ideologia? É o óculos que temos atrás dos olhos. Ao encarar a realidade, não vejo meus próprios óculos, mas são eles que me permitem enxergá-la. A ideologia é esse conjunto de ideias incutidas em nossa cabeça e que fundamentam nossos valores e motivam nossas atitudes.

      Essas ideias não caem do céu. Derivam do contexto social e histórico no qual se vive. Esse contexto é forjado por tradições, valores familiares, princípios religiosos, meios de comunicação e cultura vigente.

      Não há ninguém sem ideologia. Há quem se julgue como tal, assim como Eduardo Cunha se considera acima de qualquer suspeita. Como ninguém é juiz de si mesmo, até a minha avó de 102 anos tem ideologia. Basta perguntar-lhe o que acha da vida, da globalização, dos escravos, dos homossexuais etc. A resposta será a ideologia que rege sua visão de mundo.

      A proposta da Escola Sem Partido é impedir que os professores eduquem seus alunos com consciência crítica. É trocar Anísio Teixeira, Lauro de Oliveira Lima, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Rubem Alves por Cesare Lombroso e Ugo Cerletto.

      Ninguém defende uma escola partidária na qual, por exemplo, todos os professores comprovem ser simpatizantes ou filiados ao PT. Mesmo nessa hipótese haveria pluralidade, já que o PT é um saco de tendências ideológicas que reúne ardorosos defensores do agronegócio e esquerdistas que propõem a estatização de todas as instituições da sociedade.

      Não faz sentido a escola se aliar a um partido político. Muito menos fingir que não existe disputa partidária, um dos pilares da democracia.

      Em outubro, teremos eleições municipais. Deve a escola ignorá-las ou convidar representantes e candidatos de diferentes partidos para debater com os alunos? O que é mais educativo? Formar jovens alheios à política ou comprometidos com as lutas sociais por um mundo melhor?

      Na verdade, muitos “sem partido” são partidários de ensinar que nascemos todos de Adão e Eva; homossexualidade é doença e pecado (e tem cura!); identidades de gênero é teoria promíscua; e o capitalismo é o melhor dos mundos.

      Enfim, é a velha artimanha da direita: já que não convém mudar a realidade, pode-se acobertá-la com palavras. E que não se saiba que desigualdade social decorre da opressão sistêmica; a riqueza, do empobrecimento alheio; a homofobia, do machismo exacerbado; a leitura fundamentalista da Bíblia da miopia que lê o texto fora do contexto.

      Recomenda-se aos professores de português e literatura da Escola Sem Partido omitirem que Adolfo Caminha publicou, em 1985, no Brasil, Bom crioulo, o primeiro romance gay da história da literatura ocidental; proibirem a leitura dos contos D. Benedita e Pílades e Orestes, de Machado de Assis; e evitar qualquer debate sobre os personagens de Dom Casmurro, pois alguns alunos podem deduzir que Bentinho estava mais apaixonado por Escobar do que por Capitu.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial Hotel Brasil (Rocco), entre outros livros.


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terça-feira, 19 de julho de 2016

O IMPÉRIO E A RESISTÊNCIA



Por Marcelo Barros


Quanto mais o mundo se abre à comunicação imediata e se popularizam os recursos de internet e redes sociais, mais os ambientes de poder se cercam de serviços secretos e estratégias ocultas. A maioria dos latino-americanos nunca ouviu falar de algumas cláusulas dos tratados de livre comércio que os governos de seus países fazem com os Estados Unidos. Isso é mais grave porque tem repercussão direta na vida dos mais pobres. Pequenos comerciantes nem sabem porque, de repente, começam a ter prejuízos.

 Produtos do outro lado do mundo, muitas vezes, fabricados com trabalho semiescravo, são vendidos com preços menores e destroem o mercado local. Através do Tratado de Associação Trans-Pacífico, doze países latino-americanos como o Chile, o Peru e a Colômbia assinaram isenção de impostos para 18 mil produtos norte-americanos. Enquanto esses milhares de produtos, vindos dos Estados Unidos, poderão ser vendidos em nossos países, isentos de impostos, nossos produtos não terão condições de competir com eles, nem poderão entrar nos Estados Unidos nas mesmas condições comerciais. Bernie Sanders, pre-candidato democrático à presidência dos EUA, afirmou: "Nos países mais pobres, o TTP vai devastar a economia de muitas famílias de trabalhadores".

Na Europa, a opinião pública sabe muito pouco sobre o Transatlantic Trade and Investiment Partnership (Ttip). Esse tratado de livre comércio significa a liberação total do comércio e dos investimentos. Põe fim a todas as barreiras tarifárias. Abrange 800 milhões de pessoas e quase 45% de todo o comércio mundial. Mas, entre governantes e empresas, guarda-se segredo sobre como ele será implementado. Sabe-se apenas que a Comissão Europeia se comprometeu a entrar nesse caminho. Ninguém votou em nada. Um dos segredos que saiu a público foi que o TTIP acabará com o chamado "princípio da precaução". Até agora para comercializar um produto na Europa o produtor precisa demonstrar que ele não fará mal à saúde das pessoas e ao ambiente. Nos Estados Unidos, se faz o contrário: até que não se prove que o produto faça mal e polua, se pode vender. O novo tratado tornará essa lei norte-americana válida para a União Europeia.

Nos países latino-americanos que tiveram governos progressistas e mais populares, o presidente Hugo Chávez havia conseguido substituir o ALCA (Tratado de livre comércio com os EUA) pela ALBA, um acordo cultural e comercial entre os países pobres da América na linha da solidariedade e do apoio mútuo. Para os interesses norte-americanos era tão importante derrubar esse projeto que valeu a pena patrocinar a volta de governos de direita em países como Argentina e Peru, financiar um golpe de Estado em Honduras e golpes parlamentares no Paraguai e agora no Brasil.

Uma das primeiras providências do governo brasileiro, que, teoricamente, ainda seria interino, é privatizar tudo o que é possível, destruir todos os programas sociais e principalmente entregar o Pré-sal às multinacionais norte-americanas.

Enquanto as massas continuam anestesiadas pelo plim-plim da televisão e pelos jornais a serviço do Império, essa realidade nova criou uma maior articulação dos diversos movimentos sociais. Além dos objetivos específicos de luta pela terra, pelo teto ou por condições dignas de trabalho, os movimentos sociais se unem em defesa da democracia. Eles lutam pacificamente para que o atual retrocesso que ocorre no caminho de integração latino-americana e de autonomia dos nossos países não destrua todas as conquistas já realizadas por nossos povos.


Em toda a América Latina esse caminho novo e de libertação tem sido impulsionado pelas comunidades indígenas e pelos movimentos de lavradores em nome de sua espiritualidade cósmica. É a própria veneração à Mãe Terra e à natureza que exigem o respeito à dignidade de toda pessoa humana e que ninguém, nem a natureza sejam tradados como mera mercadoria. Para quem tem a fé bíblica, a liberdade dos povos e a dignidade de toda pessoa humana são sinais da vinda ao mundo do projeto divino de justiça, paz e integridade para todo o universo. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O PESO DA LEVEZA

por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



Ela é alta, negra, esguia, jovem e bela.  Seu vestido de verão é leve e uma discreta brisa o levanta deixando adivinhar pernas torneadas e corpo esbelto e atlético. Sua leveza não vem apenas de seu físico, mas do interior de sua alma pacífica e crente.  Leisha Evans, de Nova York, é enfermeira.  Com seu vestido longo e ondulante, postou-se, sem armas e sem defesa, em frente aos policiais armados.

A manifestação acontecia em Baton Rouge, no estado da Louisiana, contra a brutalidade das forças de segurança americanas. Era parte de uma onda de protestos desencadeada após a morte de dois negros por policiais brancos, em Minnesota e Louisiana. O crime agravou ainda mais as tão candentes tensões raciais no país.  Em Dallas, um franco-atirador matou cinco policiais.

Leisha Evans chegou diante da força bruta e das armas com suas mãos vazias. Esperou que a prendessem, o  que aconteceu.  E descreveu sua ação como obra de Deus. O fotógrafo Jonathan Bachman, que capturou a imagem que viralizou nas redes sociais, ficou impressionado.  "Ela não foi violenta, não disse nada, não resistiu. No final, a polícia a deteve."

Leisha não é figura isolada.  Segue uma longa e gloriosa tradição muito presente em seu próprio país e no mundo também.  A caminhada dos negros em busca de seus direitos em meio ao racismo presente nos Estados Unidos se fez pela via do protesto pacífico.  Assim foi com Martin Luther King, que liderou marchas e levantou multidões sem dar um tiro ou cometer um só ato de violência.  Ao final, foi assassinado em Memphis, Tennessee.

Mas não só das tensões raciais se trata aqui e sim de todas as lutas por direitos humanos no lado norte da América. Assim foi igualmente com a grande ativista católica Dorothy Day, presa várias vezes por protestar pacificamente contra a guerra do Vietnam, contra a convocação de jovens para essa e outras guerras, contra a violência aos imigrantes e camponeses nas fronteiras do México, enfim, contra tudo aquilo que a força traz em termos de brutalidade e sofrimento.
No último domingo, foi a vez da Europa.  A final da Eurocopa, campeonato europeu de futebol, dava como quase certa a vitória da França, favorita e jogando em casa.  Após uma partida renhida e dura, Portugal marcou o gol da vitória pelos pés negros de Eder, da Guiné-Bissau, revelação do time português.

Houve choro e ranger de dentes na torcida francesa.  E embora discreto e contido, sem a exterioridade brasileira, foi possível ver na mídia torcedores chorando lágrimas doídas diante da derrota de seu país e das orgulhosas cores da pátria da liberdade, igualdade, fraternidade. 

E novamente a leveza deu o toque da graça em meio ao peso da força.  Desta vez, não com uma bela mulher, mas com uma sensível criança.  Um menino português, de camisa vermelha, pode ser visto pelo mundo inteiro consolando um torcedor francês em lágrimas. Enquanto este último, dobrado em dois, chorava desconsoladamente, o menino o abraçava e batia em suas costas, em gesto de amizade que mostrou algo que parece que estamos esquecendo de maneira perigosa: esporte é competição, mas não é guerra.  E quem é adversário no campo pode ser amigo fora dele.
Além de ser criança, o pequeno consolador é imigrante.  Português em terras francesas, cujos pais ou avós foram seguramente buscar vida melhor no país mais rico e com mais oportunidades de trabalho, aí permanecendo.  Em um momento onde acontecem tantos conflitos devido à migração na velha Europa, ver o menino migrante consolando o cidadão francês foi algo bonito de se ver.

A leveza da jovem mulher negra, a ternura da criança descendente de migrantes vem trazer uma mensagem urgente, que precisa ser lida e decodificada em profundidade. Em um mundo tão violento, onde a paz é  algo de primeira necessidade, só o “peso da leveza” pode trazer redenção.  O peso que é doce, mas intenso, que nos revela que nos foram dadas asas e somos corpo animado pelo Espírito do Criador, que nos deseja em voo permanente e livre para viver a bela vocação humana.

Se a leveza é esmagada, se a beleza é encarcerada, se a infância é ignorada e a inocência desprezada, estaremos construindo um futuro feito apenas de força bruta, morte e sangue.  Em termos um tanto intrinsecamente contraditórios, um futuro sem futuro, pois de tanto esmagar e matar, não vai sobrar ninguém para contar a história.
  
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ.  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 




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