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sexta-feira, 15 de abril de 2022

Páscoa: a irrupção do inesperado

                             Leonardo Boff


Os cristãos celebram na páscoa aquilo que ela significa: a passagem. No nosso contexto, é a passagem da decepção para a irrupção do inesperado. Aqui a decepção  é a crucificação de Jesus de Nazaré e o inesperado, sua ressurreição.

Ele foi alguém que passou pelo mundo fazendo o bem. Mais que doutrinas introduziu práticas sempre ligadas à vida dos mais fracos: curava cegos, purificava hansenianos, fazia andar coxos, devolvia à saúde a muitos doentes, matava a fome de multidões e até ressuscitava mortos. Conhecemos seu fim trágico: uma trama urdida entre religiosos e políticos o levaram à morte na cruz.

Os que o seguiam, apóstolos e discípulos, com o fim trágico  da crucificação ficaram profundamente frustrados. Todos,menos as mulheres que também o  seguiam,  começaram a voltar para suas casas. Decepcionados, pois esperavam que trouxe a libertação de Israel. Tal frustração aparece claramente nos dois discípulos de Emaús, provavelmente, um casal que caminhavam cheios de tristeza. A alguém que se uniu a eles no caminho dizem lamuriosos:”Nós esperávamos que fosse ele quem iria libertar Israel,mas já passaram três dias que o condenaram à morte”(Lucas 24,21).Esse companheiro, se revelou depois, como sendo Jesus ressuscitado, reconhecido na forma como benzeu o pão, o partiu e distribuiu.

A ressurreição estava fora do horizonte de seus seguidores. Havia um grupo em Israel que acreditavam na ressurreição mas no final dos tempos, a ressurreição entendida como uma volta à vida como sempre foi é.

Mas com Jesus aconteceu o inesperado, pois na história sempre pode ocorrer o inesperado e o improvável. Só que o improvável e o inesperado aqui são de outra natureza,um evento realmente improváqvel e inesperado: a ressurreição. Ela deve ser bem entendida: não se trata da reanimação de um cadáver como o de Lázaro. Ressurreição representa uma revolução dentro da evolução. O fim bom da história humana se antecipa. Ela significa o inesperado da irrupção do ser humano novo, como diz São Paulo, do “novissimo Adão”.

Este evento é realmente a concretização do inesperado. Teilhard de Chardin cuja mística é toda centrada na ressurreição como uma absoluta novidade dentro do processo da evolução a chamava de um “tremendous”, de algo, portanto, que mexe com todo o universo.

Essa é a fé fundamental dos cristãos. Sem a ressurreição não existiriam as comunidades cristãs. Perderiam seu evento fundador e fundante.

Por fim cabe ressaltar que os dois mistérios maiores da fé cristã estão intimamente ligadas à mulher: a encarnação do Filho de Deus com Maria (Lucas 1,35) e a ressurreição com Maria de Magadala (João 20,15). Parte da Igreja, a hierárquica, refém do patriarcalismo cultural, não atribuiu a este fato singular nenhuma relevância teológica. Ela seguramente está  nos desígnio de Deus e deveria ser acolhido com algo culturalmente inovador.

Nestes tempos sombrios, marcados pela morte e até com o eventual desaparecimento da espécie humana por um cataclismo nuclear, a fé na ressurreição nos rasga um futuro de esperança. Nosso fim não é a autodestruição dentro de uma tragédia final mas a a plena realização de nossas potencialidades pela ressurreição: a irrupção do homem e da mulher novos.

Feliz Páscoa a todos os que conseguem crer e também a quem não o consegue.

Leonardo  Boff é teólogo e escreveu: A ressurreição de Cristo e a nossa na morte, Vozes 2012.

  

 

 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

A CONDENAÇÃO DE JESUS

 Frei Betto


 

       Entramos na Semana Santa, quando se comemora a prisão, morte e ressurreição de Jesus, episódios centrais para a fé de todos nós, cristãos. Para quem tem fé, Jesus é o Salvador, o Filho de Deus presente entre nós. Para o historiador, um profeta apocalíptico que percorreu a Palestina na primeira metade do século I, defendeu os direitos dos pobres, criticou a ocupação do Império Romano, denunciou a religião opressiva do Templo de Jerusalém e morreu na cruz. 

       Desde o século XVIII se intensificou o debate sobre o Jesus histórico. O filósofo alemão Hermann Reimarus inaugurou os estudos não confessionais sobre a vida de Jesus. Bauer, Couchoud, Drews e, mais tarde, os partidos comunistas, defenderam que ele jamais existiu. Tal conclusão foi desprezada pela quase totalidade da crítica, e Bultmann disse que nem valia a pena discutir o assunto. Há mais evidências da existência de Jesus do que a de Sócrates e, no entanto, não se coloca em dúvida o que Platão nos transmitiu a respeito do famoso filósofo. 

       Do ponto de vista histórico, não há muitas certezas a respeito de Jesus, exceto o que nos informam o Novo Testamento, em especial os quatro evangelhos, e alguns autores judeus e romanos, como Flávio Josefo. E ainda hoje perdura uma interrogação: quem foi o responsável por sua morte? Infelizmente, a primeira resposta da Igreja foi culpar os judeus. Preconceito infundado que favoreceu o antissemitismo. E, ainda hoje, malha-se Judas – cujo nome é associado ao judaísmo – no sábado de Aleluia. 

       A leitura crítica do Novo Testamento nasceu na Alemanha, se estendeu pela França, com Renan, Loisy, Goguel e Guignebert e, em seguida, para o Reino Unido e os Estados Unidos, onde, ainda hoje, a discussão é calorosa. Os judeus também participaram com Klausner e Montefiore. 

       Três teses se destacam como principais. A primeira, que os verdadeiros culpados foram os judeus. A segunda, que foram os romanos. A terceira, que a culpa foi de ambos: o Sinédrio – a suprema corte religiosa e política do judaísmo no século I -, como denunciante e acusador, e o interventor romano, o governador Pôncio Pilatos, como juiz e executor. 

       Ora, hoje em dia a Igreja admite que os Evangelhos não são livros de história, nem registros judiciais. Por isso, é inútil pretender encontrar neles um relato preciso do julgamento de Jesus. Na verdade, os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) se contradizem em vários pontos, como nos relatos dos dois ladrões crucificados ao lado de Jesus, do sonho da mulher de Pilatos e da interferência de Herodes Antipas, governador da Galileia.

        Contudo, Mateus, Marcos e Lucas concordam em um ponto: Jesus foi preso à noite por uma turba de judeus, que o levou imediatamente para o Sinédrio. Para Lucas, o prisioneiro foi conduzido à casa de Caifás, o Sumo Sacerdote. João acrescenta em seu evangelho que, em apoio aos guardas do Templo, havia uma guarnição romana. Ou seja, os romanos participaram da captura, já que sobre o Nazareno pesava a suspeita de sedição. Afinal, dentro do reino de César ele ousara anunciar outro reino possível – o de Deus, baseado em novas relações pessoais e sociais - o amor e a partilha dos bens. 

       Naquela madrugada, o prisioneiro político compareceu à presença de Pilatos para ser julgado. Isso significa que o governador romano já tinha sido avisado e estava decidido a processá-lo.

       Tais circunstâncias induziram muitos autores a concluir que a denúncia teria partido das autoridades judaicas, alarmadas com a atividade do pregador itinerante, que já se tornara conhecido ao expulsar os vendilhões do Templo. 

       Pela ótica do Sinédrio, pesava sobre Jesus a acusação de blasfêmia, já que ousara se autoproclamar Messias. Pela ótica dos romanos, de crime de lesa-majestade, já que teria se arvorado em rei dos judeus. Enquanto a primeira acusação pouco importava aos judeus, a segunda merecia a pena de morte na cruz. Embora os evangelhos tendam a ressaltar a culpa dos sacerdotes e até mesmo dos judeus, e atenuar o papel de Pilatos, a sentença final foi proferida pelo interventor imperial.

       No século passado, o Concílio Vaticano II, após longa discussão, aboliu a infâmia de acusar o povo judeu de deicídio. O que diz, entretanto, o julgamento da história? Ora, saber algo de preciso sobre o Jesus histórico é quase impossível, como salientou, há um século, o renomado médico e teólogo Albert Schweitzer, que tudo abandonou na Alemanha para cuidar, na África, de pacientes muito pobres.

       As certezas que temos sobre o Jesus histórico são muito poucas. E pelo que sabemos de sua morte só se pode concluir, com o historiador das religiões, o francês Charles Guignebert, que o Nazareno foi submetido a um julgamento romano, por uma acusação romana, condenado por um juiz romano a uma pena exclusivamente romana, e afixada sobre sua cabeça uma sentença romana ofensiva aos judeus: Iesus Nazarenus Rex Iudeorum (Jesus Nazareno, rei dos judeus). Assim, do ponto de vista puramente histórico a culpa do assassinato de Jesus foi romana. 

       Hoje, Jesus continua virtualmente assassinado por todos aqueles que usam em vão o seu nome para legitimar fake news, opressões, governos tirânicos e desigualdades sociais.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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quarta-feira, 13 de abril de 2022

PALAVRAS DE PEDRO

 

Dom Pedro Casaldáliga 


 

Em algumas Igrejas do Brasil os povos indígenas estão sendo uma prioridade. Em minha sensibilidade pastoral, eles o são. Porque é a prioridade mais evangélica. Por dois motivos. Primeiro porque são os mais pobres, como pessoas e como povo. Não digo que sejam os menos felizes. Como pessoas e como povo têm sobre si a sentença de morte mais imediata, a morte mais lógica a partir do sistema. Estorvam. Suas terras, sua floresta, sua caça, seu habitat maravilhoso, este lago Tapirapé. . . são estímulo, ceva da cobiça dos grandes, dos poderosos, do latifúndio, das estradas famosas, da integração nacional, do tristíssimo desenvolvimento (maldito seja o desenvolvimento nestas circunstâncias mortíferas, não é?) e do turismo.

 

Pedro Casaldáliga, Na Procura do Reino

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

terça-feira, 12 de abril de 2022

Meditação para preparar o Tríduo Pascal

 Marcelo Barros


Há sempre um galo que canta.

 

               Nesta quinta-feira santa, entramos na celebração do Tríduo Pascal, o centro de todas as celebrações do ano. Nos tempos antigos, os pais da Igreja chamavam esses dias:  as celebrações pascais. A quinta-feira santa é considerada A Páscoa da Ceia, memória da noite em que, conforme a tradição da Igreja, Jesus tomou sua última ceia com seus discípulos e discípulas e nos deu a eucaristia como sacramento da aliança nova. Na sexta-feira, celebramos a Páscoa da Cruz, atualmente um grande desafio para nós: reler e reinterpretar a fé e o evangelho da Paixão não mais em uma linha sacrificial e sim como testemunho (martírio) do Cristo que, pela doação de sua vida, renovou o mundo e a todas as pessoas que se incorporam à sua doação. O sábado como dia de espera e a noite do sábado para o domingo, a mãe de todas as vigílias da Igreja, o sacramento por excelência de nossa fé: a Páscoa da ressurreição. 

 

              A quinta-feira santa é o dia que nos chama a uma volta para a intimidade de Deus e para recuperar a intimidade mais profunda da aliança e da fé... De fato, sem dúvida, é pena que justamente, tantas vezes, as nossas Igrejas tenham perdido esse caráter de intimidade que, conforme os evangelhos, na sua última ceia com seus discípulos e discípulas, Jesus viveu. Sem dúvida, o evangelho de João coloca nos lábios de Jesus as palavras mais íntimas, mais carinhosas e ternas que jamais foram escritas.  No discurso durante a ceia, Jesus chama os seus discípulos e discípulas de Meus filhinhos, diz claramente: "Assim como o Pai me amou, eu amo vocês....". E durante quatro capítulos (do 13 ao 17), o evangelho de João passa de uma declaração de amor a outra... Cada uma mais íntima e mais profunda.

E tudo isso tem uma preparação. No evangelho de Mateus, os discípulos perguntam a Jesus: Onde o Senhor quer que lhe preparemos a Páscoa? (Mt 26, 16- 17). Quantas vezes, chegamos à Eucaristia, sem nos preparar profundamente. E o evangelho diz que um determinado homem, cujo nome ninguém sabe, o texto não diz, põe à disposição de Jesus uma sala. Basta que escute a palavra: O Mestre te manda dizer: O meu tempo chegou. Quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos em tua casa....

            Meu Deus, que coisa incrível, esse homem, do qual nem sabemos o nome nem quem era, dispõe a sala e provavelmente (sendo o dono da casa) participa daquela ceia de Jesus com os discípulos e discípulas (as mulheres que os tinham acompanhado desde a Galileia).

          Preparar essa Páscoa é em primeiro lugar preparar e dispor a sala interior do meu ser. Como aquela sala que é interior a uma casa de família e que, ao que tudo indica, depois da ceia do Senhor, continuou a ser uma sala de uso cotidiano da família.

          Será que isso indica que Jesus gostaria que nossas eucaristias fossem assim, como era nas primeiras comunidades cristãs, nas casas e de forma que não se separassem da vida cotidiana? Por que o evangelho colocou a palavra de Jesus sobre a traição de Judas e sobre a negação de Pedro no contexto da ceia? Será que está aludindo que isso (a traição ao projeto maior de Jesus) ocorre também conosco na Igreja, pelo modo de celebrar e de viver esse mistério?

                 Os evangelhos começam e encerram o relato da eucaristia com a entrega. Entrega da vida de Jesus, entrega feita por ele de si mesmo, mas também entrega que Judas praticou ao traí-lo... E a liturgia repete: Na noite em que foi entregue... Será que pela nossa forma de celebrar, temos alguma coisa a ver com essa entrega, que é a tradição da fé, mas às vezes, pode se tornar a traição da fé, como o evangelho diz a respeito de Judas?

              Assim como Jesus fez com Pedro ao advertir: Antes que o galo cante, você me negará três vezes.... , será que o galo não canta também nas nossas eucaristias? Será que os padres de hoje são capazes de ouvir o galo que canta para nos advertir a respeito das nossas pequenas ou grandes traições? Será que o papa Francisco ao nos advertir do pecado do clericalismo é um galo que não tem sido escutado?

            Será que a proposta da Sinodalidade como forma de ser da Igreja (uma Igreja verdadeiramente eucarística no sentido de comunhão) tem alguma chance de ser aceita por padres que procuram e fazem questão dos primeiros lugares no culto, por jovens seminaristas e tantos leigos e leigas que gostam de celebrações rituais e clericais?

          O homem anônimo que abriu a sala superior de sua casa para Jesus celebrar a Páscoa a dispôs para acolher... Receber gente que ele nunca viu na vida, peregrinos que devem ter chegado sujos dos caminhos desde a Galileia. Deste modo, a primeira eucaristia foi marcada pela partilha e as Igrejas primeiras a chamaram partilha do pão. Partilha vivida na tensão da anunciada prisão de Jesus e no anúncio de uma entrega, doação que é de todo o ser (o meu corpo) e da sua intimidade (o meu sangue).

           Quanto mais conseguirmos ser profundos/as na interioridade do amor e da intimidade com Deus, mais seremos revolucionários/as como  Jesus, na doação da vida e na radicalidade do anúncio de um reino divino que transforma todas as estruturas do mundo. É nisso que cremos e é isso que queremos testemunhar. Pela força do Espírito.

             Em todas as dioceses católicas (de rito latino), na 5a feira santa, o bispo reúne os padres e representações das paróquias na Missa dos Santos Oleos, única celebração permitida na quinta-feira santa, antes da Missa da Ceia do Senhor que deve ser feita depois do pôr do sol deste dia.

             Nesta missa, o bispo consagra os óleos que a Igreja usará durante todo o ano (o óleo dos catecúmenos para os ritos batismais, o óleo para a unção das pessoas doentes e especialmente o Santo Crisma para a confirmação das pessoas batizadas e para as ordenações ministeriais). E desde o Concílio Vaticano II, na base da tradição que vê a ceia como tendo sido a instituição do sacerdócio ministério, costuma-se fazer nesta missa a renovação das promessas e compromissos dos ministros. Em geral, isso ainda é feito de forma muito clerical, separando ordenados e os/as cristãos/ãs não ordenados/as. Como se Jesus tivesse feito essa distinção. E fosse possível manter essa divisão sem cair no Clericalismo que o papa Francisco condena.

           É significativo que, nesta celebração da manhã deste dia, o evangelho proclamado seja Lucas 4, 16 a 21, o texto no qual Jesus proclama a sua vocação profética e diz que o Espírito Santo o ungiu e o enviou para trazer a cura a todas as pessoas doentes e anunciar a libertação a todas que estão presas e oprimidas. Essas palavras de Jesus que revelam sua vocação carismática/ pentecostal e, ao mesmo tempo, transformadora do mundo (social e politicamente revolucionária) nos indicam o projeto divino de uma Páscoa nova não somente para nós, nao apenas para as Igrejas, mas para o mundo. Amém.