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domingo, 26 de dezembro de 2021

GRAVAR NUM DISCO VOADOR. LANCAR NO ESPAÇO SIDERAL

 Fabio Potiguar dos Santos


Eu vou fazer uma canção pra ela. Uma canção singela, brasileira. Para lançar depois do carnaval. Eu vou fazer um iê iê iê romântico. Um anticomputador sentimental. Eu vou fazer uma canção de amor.  Para gravar num disco voador. Eu vou fazer uma canção de amor. Para gravar num disco voador. Uma canção dizendo tudo a ela. Que ainda estou sozinho, apaixonado. Para lançar no espaço sideral

Caetano Veloso canta na sua música “Não Identificado”, gravado por ele em 1969 e um ano antes, por nada mais nada menos pelo corpo e voz de Gal Costa, que ele, o filho de Dona Canô,  ia gravar um disco não numa gravadora e tão pouco lançar na rádio ou na televisão. Esse cara é genial! Conectado lá e, que o diga, logado mais ainda agora no seu último álbum. Tá ligado? Penso e sinto o mesmo. É preciso inventar e se reinventar o tempo todo, principalmente desde de agosto de 2016 pra cá. Precisamos mais do que a lua se reinventar nova, crescente, gibosa, cheia, minguante. Teimosamente se inventar cotidianamente com o sol.  Esta canção se tornou para mim como um hino de ano novo.

Mais do que nunca, com o avanço das iníquas ondas do nazifascismo cheias de ódio   é preciso inventividade intelectual e afetiva proposta por esta canção. Igualmente, com o aumento da pobreza e o desequilíbrio ecológico pautados por uma agenda econômica ultra neoliberal, é necessária muita criatividade cheia de amorosidade, sabedoria e força para o enfrentamento das injustiças ecosociais que a humanidade clama e a terra geme. Ao mesmo tempo, com o adoençamento físico, psíquico e espiritual que nos entristece e nos angustia, que nos deprime e causa ansiedades e outras dores, a gente tem que ter mesmo esse engenho de gravar um disco voador e lançá-lo no espaço sideral com uma canção de amor, brasileira.

Cantar de Caetano a Dalva de Oliveira que naquela “Marcha de quarta-feira de Cinzas” não via mais ninguém a sorrir, a se abraçar, a se beijar, a cantar e a dançar cantigas de amor, mas, nos juntamos agora eu e você, leitora e leitora amiga/a a essa Diva, e cheia de esperança entoava fortemente que, no entanto, é preciso cantar “Mais que nunca é preciso cantar. É preciso cantar. E alegrar a cidade. A tristeza que a gente tem. Qualquer dia vai se acaba. Todos vão sorrir. Voltou a esperança. É o povo que dança. Contente da vida feliz a cantar”. Das folhas cibernéticas deste artigo ainda que o ódio, mesmo que as agressões e mesmo assim com tantos opressores e oprimidos no país e no mundo, nós, sem alienação, “enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”, Belchior, pois a gente via sorrir de novo.  “Vê, como é bonita a vida. Vê, há esperança ainda. Vê, as nuvens vão passando. Vê, um novo céu se abrindo. Vê, o sol iluminando. Por onde nós vamos indo”. Que tal a gente escutá-las em uma dessas plataformas digitais?

2022. Vamos gravar num disco voador, muita criatividade. 2022. Vamos lançar músicas no espaço sideral, bastante inventividade. 2022.  Vamos cantar uma canção de amor copiosas engenhosidades. Canta, Santo Amaro! Melhor, canta, Natal! Canta, Recife! Canta, Brasil e mundo inteiro porque “a verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão” como na canção tão antiga e tão nova do Salmo 85.  A frase de começo desta canção de amor será a mesma do início do livro bíblico dos Cânticos dos Cânticos, do Amado cantando para Amada, “beija-me com os beijos de tua boca”. Quando a gente estiver cantando e dançando em ciranda  e coco, frevo e maracatu,  samba e bossa, baião e xaxado, funk e rap, reggae e brega, clássica e pop, forró e rock roll  e toda diversidade musical,  me lembrarei dos salmistas bailando com címbalos sonoros o Salmo 25 “Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, parecíamos sonhar; encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios, de canções”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 18 de março de 2019

FEMINICÍDIO: TERROR NO ESPAÇO DOMÉSTICO




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Há muita coisa digna de nota e de reflexão acontecendo no Brasil: ruptura de barragens, enchentes, violência urbana, descoberta da rede tentacular das milícias etc.  E, no entanto, sinto-me movida a escrever sobre o feminicídio. Talvez porque ele venha aumentando exponencialmente em nosso país, que ocupa o quinto lugar no mundo em números absolutos dessa forma de violência de gênero. A cada duas horas uma mulher é morta no Brasil.  

No entanto, talvez o propulsor mais imediato de minha perplexidade diante desse crime e seus terríveis e abomináveis rostos esteja em um dos últimos casos registrados pela mídia.   Aconteceu no último fim de semana, exatamente após o dia internacional da mulher.   Jonathan escreveu uma mensagem amorosa para Lidiane, com quem vivia há um ano. Postou-a nas redes sociais.  Depois disso, à raiz de uma briga motivada provavelmente por ciúmes, matou-a com várias facadas, atacando igualmente a mãe da jovem.  Lidiane morreu e a mãe se encontra hospitalizada em estado grave. 

Passa-se do amor ao ódio em poucas horas, agride-se aquela a quem antes se abraçava e beijava, ataca-se até matar a companheira um dia depois de declarar nas redes sociais que ela era “a mulher que qualquer homem queria ter”. A casa onde a jovem estudante de direito morava com a mãe tornou-se palco de tragédia e de derramamento de sangue. 

Complexo é o feminicídio justamente porque nele as fronteiras são movediças e dificilmente definidas.  O amor e o ódio convivem, a vítima e o algoz têm relação de proximidade e mesmo de intimidade.  São companheiros, namorados, amantes até que o ódio e a violência tomem a frente da cena e a morte ocupe o lugar da vida. 

O conceito é recente, dos anos 70.  Foi cunhado pela socióloga sul-africana Diana E. H. Russel.  Com ele, a pensadora pretendia contestar a neutralidade presente na expressão “homicídio”, que por sua generalidade contribuiria para manter invisível a vulnerabilidade experimentada pelo sexo feminino em todo o mundo. Enquanto os homicídios dolosos atingem todo tipo de pessoas, idades e gêneros, o feminicídio diz respeito fundamentalmente às mulheres, que em sociedades marcadas pelo patriarcalismo como a nossa, ainda são consideradas – consciente ou inconscientemente – propriedade dos homens. 

Além disso, o feminicídio acontece em geral em casa, no espaço onde o assassino e a vítima vivem relações familiares e íntimas.  A violência é despertada pelo ciúme, ou pela recusa da mulher em levar avante a relação.  E o lar, a casa, passam a ser palco de terror e agressões letais dirigidas contra as mulheres, porque se rebelam ou não se acomodam na condição subordinada na qual séculos de machismo as situaram. 

Argumentos contra a concepção do feminicídio como fenômeno social diferente do homicídio sustentam que a maioria dos assassinatos acontecidos no mundo todo – cerca de 80% - têm como vítimas pessoas do sexo masculino.  É fato.  Mas enquanto tais assassinatos acontecem no espaço público, os feminicídios se produzem na calada da noite, no segredo da casa e do quarto, no avesso do amor que se tornou agressão e terror. E se os motivos para os homicídios são de diversos formatos e procedências, como violência urbana, tráfico de drogas e outros muitos, os feminicídios acontecem por ódio pelas mulheres serem o que são: mulheres. Representam a culminância de um processo de agressões e intimidações, no qual a vítima é abusada em sua inferior força física, em sua fragilidade e vulnerabilidade e em sua sexualidade, que é subjugada, violada até o assassinato. 

Diante desse quadro sombrio, a teologia cristã tem algo a dizer. Naquele tempo, o rabi de Nazaré salvou a vida de uma mulher adúltera que ia ser apedrejada por vários homens religiosos. Aceitou o carinho e a homenagem de uma prostituta conhecida na cidade protegendo-a da condenação a que se expunha por amor a ele. Deixou-se tocar por uma mulher hemorroíssa considerada impura e, em lugar de rejeitá-la, curou-a. Em meio a esta realidade deplorável em que seres humanos tiram a vida de outros – outras – por não aceitar sua diferença, o Cristianismo pode contribuir com uma palavra própria e diferenciada.

A prática de Jesus de Nazaré reflete a fé no Deus que criou a humanidade à sua imagem e semelhança. A imaginação do Criador é fecunda e as diferenças são condição indiscutível para que haja vida e vida em abundância.  Quando a diferença é sufocada e estrangulada para que não se faça visível nem audível; quando a dominação já não consegue exercer seus direitos abusivos e reage com violência assassina, é hora de saber que o feminicídio é o assassinato não de uma ou outra das vítimas sobre as quais lemos nos jornais ou até eventualmente conhecemos.  É o assassinato do futuro da humanidade e de toda a criação. Admiti-lo ou minimizar sua importância é ser cúmplice desse assassinato que encurta os horizontes e condena as novas gerações a uma lamentável esterilidade. 

 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


segunda-feira, 7 de abril de 2014

Reintegrar-se no espaço e no tempo



Por Leonardo Boff
  
A partir dos anos 70 do século passado ficou clara para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. A Terra se apresenta com tal dosagem de elementos, de temperatura, de composição química da atmosfera e do mar que somente um organismo vivo pode fazer o que ela faz. A Terra não contem simplesmente vida. Ela é viva, um super-organismo vivente, denominado pelos andinos de Pacha Mama e pelos modernos de Gaia, o nome grego para a Terra viva.
A espécie humana representa a capacidade de Gaia de ter um pensamento reflexo e uma consciência sintetizadora e amorosa. Nós humanos, homens e mulheres, possibilitamos à Terra a apreciar a sua luxuriante beleza, a contemplar a sua intrincada complexidade e a descobrir espiritualmente o Mistério que a penetra.

O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em relação ao cosmos por nós conhecido. O cosmos não é um objeto sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é, segundo muitos cosmólogos contemporâneos, (Goswami, Swimme e outros) um sujeito vivente que se encontra num processo permanente de gênese. Caminhou 13,7 bilhões de anos, se enovelou sobre si mesmo e madurou de tal forma que num canto dele, na Via láctea, no sistema solar, no planeta Terra emergiu a consciência reflexa de si mesmo, de donde veio, para onde vai e qual é a Energia poderosa que tudo sustenta.
Quando um eco-agrônomo estuda a composição química de um solo é a própria Terra que estuda a si mesma. Quando um astrônomo dirige o telescópio para as estrelas, é o próprio universo que olha para si mesmo.

A mudança que esta leitura deve produzir nas mentalidades e nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no século XVI ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao redor do sol. Especialmente a transformação de que as coisas ainda não estão prontas, estão continuamente nascendo, abertas a novas formas de auto-realização. Consequentemente a verdade se dá numa referência aberta e não num código fechado e estabelecido. Só está na verdade quem caminha com o processo de manifestação da verdade.

Importa, antes de mais nada, realizar a reintegração do tempo. Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento. Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há 13,7 bilhões de anos quando principiaram a se organizar todas aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso corpo e de nossa psiqué. Quando isso madurou então nascemos de verdade e sempre abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.

Se sintetizarmos o relógio cósmico de 13,7 bilhões de anos no espaço de um ano solar, como o fez ingeniosamente Carl Sagan no seu livro Os Dragões do Eden (N.York 1977, 14-16) e querendo apenas realçar algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:
A primeiro de janeiro ocorreu o big bang. A primeiro de maio o surgimento da Via-Láctea. A nove de setembro, a origem do sistema solar. A 14 de setembro, a formação da Terra. A 25 de setembro, a origem da vida. A 30 de dezembro, o aparecimento dos primeiros hominídeos, avós ancestrais dos humanos. A 31 de dezembro, irromperam os primeiros homens e mulheres. Os últimos 10 segundos de 31 de dezembro inauguraram a história do homo sapiens/demens do qual descendemos diretamente. O nascimento de Cristo ter-se-ia dado precisamente às 23 horas 59 minutos e 56 segundos. O mundo moderno teria surgido no 58º segundo do último minuto do ano. E nós individualmente? Na última fracção de segundo antes de completar meia-noite.

Em outras palavras, somente há 24 horas que o universo e a Terra têm consciência reflexa de si mesmos. Se Deus dissesse a um anjo: “procure no espaço e identifique no tempo a Denise ou o Edson ou a Silvia”, certamente não o conseguiria porque eles são menos que um pó de areia vagando no vácuo interstelar e começaram a existir a menos de um segundo atrás. Mas Deus sim, porque Ele escuta o pulsar do coração de cada filho e filha seus, porque neles o universo converge em autoconsciência, em amorização e em celebração.

Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria introduzir nestas dimensões que nos evocam o sagrado do universo e o milagre de nossa própria existência. Isso em todo o processo educativo, da escola primária à universidade.

Em seguida faz-se mister reintegrar o espaço dentro do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, nos descobrimos um elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Estamos numa das 100 bilhões de galáxias, a Via Láctea. Numa distância de 28 mil anos luz de seu centro; pertencemos ao sistema solar que é um entre bilhões e bilhões de outras estrelas, num planeta pequeno mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução de formas cada vez complexas e conscientizadas de vida: a Terra.

Na Terra nos encontramos num Continente que se independizou há cerca de 210 milhões de anos atrás quando a Pangea (o continente único da Terra) se fraturou e que ganhou a configuração atual. Estamos nesta cidade, nesta rua nesta casa, neste quarto, e nesta mesa diante do computador partir donde me relaciono e me sinto ligado à totalidade de todos os espaços do universo.

Reintegrados no espaço e no tempo nos sentimos como Pascal diria: um nada diante do Todo e um Todo diante do nada. E nossa grandeza resie em pensar e celebrar tudo isso.



*Leonardo Boff é filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra
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