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segunda-feira, 18 de março de 2019

FEMINICÍDIO: TERROR NO ESPAÇO DOMÉSTICO




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Há muita coisa digna de nota e de reflexão acontecendo no Brasil: ruptura de barragens, enchentes, violência urbana, descoberta da rede tentacular das milícias etc.  E, no entanto, sinto-me movida a escrever sobre o feminicídio. Talvez porque ele venha aumentando exponencialmente em nosso país, que ocupa o quinto lugar no mundo em números absolutos dessa forma de violência de gênero. A cada duas horas uma mulher é morta no Brasil.  

No entanto, talvez o propulsor mais imediato de minha perplexidade diante desse crime e seus terríveis e abomináveis rostos esteja em um dos últimos casos registrados pela mídia.   Aconteceu no último fim de semana, exatamente após o dia internacional da mulher.   Jonathan escreveu uma mensagem amorosa para Lidiane, com quem vivia há um ano. Postou-a nas redes sociais.  Depois disso, à raiz de uma briga motivada provavelmente por ciúmes, matou-a com várias facadas, atacando igualmente a mãe da jovem.  Lidiane morreu e a mãe se encontra hospitalizada em estado grave. 

Passa-se do amor ao ódio em poucas horas, agride-se aquela a quem antes se abraçava e beijava, ataca-se até matar a companheira um dia depois de declarar nas redes sociais que ela era “a mulher que qualquer homem queria ter”. A casa onde a jovem estudante de direito morava com a mãe tornou-se palco de tragédia e de derramamento de sangue. 

Complexo é o feminicídio justamente porque nele as fronteiras são movediças e dificilmente definidas.  O amor e o ódio convivem, a vítima e o algoz têm relação de proximidade e mesmo de intimidade.  São companheiros, namorados, amantes até que o ódio e a violência tomem a frente da cena e a morte ocupe o lugar da vida. 

O conceito é recente, dos anos 70.  Foi cunhado pela socióloga sul-africana Diana E. H. Russel.  Com ele, a pensadora pretendia contestar a neutralidade presente na expressão “homicídio”, que por sua generalidade contribuiria para manter invisível a vulnerabilidade experimentada pelo sexo feminino em todo o mundo. Enquanto os homicídios dolosos atingem todo tipo de pessoas, idades e gêneros, o feminicídio diz respeito fundamentalmente às mulheres, que em sociedades marcadas pelo patriarcalismo como a nossa, ainda são consideradas – consciente ou inconscientemente – propriedade dos homens. 

Além disso, o feminicídio acontece em geral em casa, no espaço onde o assassino e a vítima vivem relações familiares e íntimas.  A violência é despertada pelo ciúme, ou pela recusa da mulher em levar avante a relação.  E o lar, a casa, passam a ser palco de terror e agressões letais dirigidas contra as mulheres, porque se rebelam ou não se acomodam na condição subordinada na qual séculos de machismo as situaram. 

Argumentos contra a concepção do feminicídio como fenômeno social diferente do homicídio sustentam que a maioria dos assassinatos acontecidos no mundo todo – cerca de 80% - têm como vítimas pessoas do sexo masculino.  É fato.  Mas enquanto tais assassinatos acontecem no espaço público, os feminicídios se produzem na calada da noite, no segredo da casa e do quarto, no avesso do amor que se tornou agressão e terror. E se os motivos para os homicídios são de diversos formatos e procedências, como violência urbana, tráfico de drogas e outros muitos, os feminicídios acontecem por ódio pelas mulheres serem o que são: mulheres. Representam a culminância de um processo de agressões e intimidações, no qual a vítima é abusada em sua inferior força física, em sua fragilidade e vulnerabilidade e em sua sexualidade, que é subjugada, violada até o assassinato. 

Diante desse quadro sombrio, a teologia cristã tem algo a dizer. Naquele tempo, o rabi de Nazaré salvou a vida de uma mulher adúltera que ia ser apedrejada por vários homens religiosos. Aceitou o carinho e a homenagem de uma prostituta conhecida na cidade protegendo-a da condenação a que se expunha por amor a ele. Deixou-se tocar por uma mulher hemorroíssa considerada impura e, em lugar de rejeitá-la, curou-a. Em meio a esta realidade deplorável em que seres humanos tiram a vida de outros – outras – por não aceitar sua diferença, o Cristianismo pode contribuir com uma palavra própria e diferenciada.

A prática de Jesus de Nazaré reflete a fé no Deus que criou a humanidade à sua imagem e semelhança. A imaginação do Criador é fecunda e as diferenças são condição indiscutível para que haja vida e vida em abundância.  Quando a diferença é sufocada e estrangulada para que não se faça visível nem audível; quando a dominação já não consegue exercer seus direitos abusivos e reage com violência assassina, é hora de saber que o feminicídio é o assassinato não de uma ou outra das vítimas sobre as quais lemos nos jornais ou até eventualmente conhecemos.  É o assassinato do futuro da humanidade e de toda a criação. Admiti-lo ou minimizar sua importância é ser cúmplice desse assassinato que encurta os horizontes e condena as novas gerações a uma lamentável esterilidade. 

 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

ELEIÇÃO DEMOCRÁTICA DO TERROR



por Frei Betto

       Ele nada entendia da situação real do país. Nem demonstrava interesse por ela, embora atuasse ativamente na política. Por isso não gostava de ser questionado, irritava-se diante das perguntas como se fossem armas apontadas em sua direção. Não queria que a sua ignorância se tornasse explícita.

       Ser estranho, ele tinha olhos alucinados afundados nas órbitas, lábios espremidos, gestos cortantes. Todo o seu corpo era rígido, como se moldado em armadura. Ao ficar na defensiva, parecia uma fera acuada. Ao passar à ofensiva, a fera exibia garras afiadas e de suas mandíbulas pingava sangue.

       Sua fala exalava ódio, rancor, preconceito. Aliás, não falava, gritava. Não sabia sorrir, tratar alguém com delicadeza, ter um gesto de cortesia ou humildade. Evitava ao máximo os repórteres. Julgava suas perguntas invasivas. E temia que a sua verdadeira face antidemocrática transparecesse em suas respostas.

       Educado em fileiras militares, aprendera apenas a dar e cumprir ordens, enquadrar quem o cercava e ultrajar quem se opunha às suas opiniões. Jamais aceitava o contraditório ou praticava um mínimo de tolerância. Considerava-se o senhor da razão.

       A nação estava em frangalhos, mergulhada em crise ética, política e econômica, e o horizonte da esperança espelhado em trevas. Pelo país afora havia milhares de desempregados, criminalidade generalizada, corrupção em todas as instâncias de poder. O câmbio disparara, a moeda nacional perdia valor, o descontentamento era geral. O governo carecia de credibilidade e se via cada vez mais fragilizado. O povo clamava por um salvador da pátria.

       Jovens desesperançados viam nele um avatar capaz de inaugurar a idade de ouro. Era ele o cara, surfando na descrença generalizada na política e nos políticos. O Executivo se debilitara por corrupção e incompetência, o Legislativo mais parecia um ninho de ratos, o Judiciário se partidarizara submisso a interesses escusos.

       Ele se dizia cristão, e se considerava ungido por Deus para livrar o país de todos os males. Advogava soluções militares para problemas políticos. Movido pela ambição desmedida, se apresentou como candidato à eleição democrática para ocupar o mais alto posto da República, embora ostentasse a patente de simples oficial de baixo escalão do Exército.

       De sua oratória raivosa ressoava o discurso agressivo, bélico, insano. Haveria de modificar todas as leis para implantar uma ordem marcial que poria fim a todas as mazelas do país. Eleito, seria ele o comandante-em-chefe, e todos os cidadãos passariam a ser tratados como meros recrutas obrigados a cumprir estritamente as suas ordens.

       Prometia fortalecer o aparato policial e as Forças Armadas. Sua noção de justiça se resumia a uma bala de revólver ou a um tiro de fuzil. Eleito, excluiria da vida social um enorme contingente de pessoas consideradas por ele sub-humanos e indesejáveis, mulheres, homossexuais, trabalhadores em luta por seus direitos e comunistas. Todos que se opunham às suas opiniões eram por ele apontados como bodes expiatórios da desgraça nacional.

       Seu mandato presidencial haveria de trazer a era de fartura e prosperidade. Reergueria a economia e asseguraria oportunidades de trabalho a todos. Exaltaria os privilégios do capital sobre os direitos dos trabalhadores. Aqueles que o seguissem seriam felizes, e livres para sobrepor a lógica das armas ao espírito das leis. Os demais, excluídos sumariamente do convívio social.
       Enfim, após uma série de manobras políticas e forte repressão às forças adversárias, ele foi eleito chefe de Estado. A nação entrou um júbilo. O salvador havia descido dos céus! Ou melhor, brotado das urnas.

       Tudo isso aconteceu há 85 anos, em 1933. Na Alemanha alquebrada pela derrota na Primeira Grande Guerra. O nome dele era Adolfo Hitler.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

BARCELONA: O TERROR E A SOLIDARIEDADE


   Maria Clara Lucchetti Bingemer 

            O terror sabia que ali encontraria muita gente.  De inúmeras raças, nacionalidades, proveniências. Gente despreocupada, que vinha de longe para experimentar algo de liberdade, lazer e diversão.  Desejavam justamente, em boa parte, experimentar aquele espírito cosmopolita que a cidade de Barcelona oferece hoje talvez mais do que nenhuma outra.  E de forma diferente de outras capitais como Nova York por exemplo.

            Na Península Ibérica, em plena Europa Mediterrânea, a capital da Catalunha tem um raro perfil: combina história, antiguidade e tradição com arte, modernidade, arrojo. Podem ser encontrados em Barcelona tesouros de épocas passadas, como a belíssima igreja de Santa Maria del Mar e também monumentos de artistas dos séculos XIX e XX, como a Sagrada Família de Antoni Gaudi. E igualmente a Vila Olímpica com suas linhas modernas e arrojadas construída na ocasião das Olimpíadas de 1992. 

            No coração da Catalunha, a cidade de Barcelona, representa a prosperidade espanhola. Desde sempre comerciantes, industriosos e laboriosos, os catalães são responsáveis por uma fatia importante da riqueza espanhola que tem conseguido atravessar a crise europeia.   Além disso, a cidade é Meca do futebol, com o time do Barsa, onde até há pouco jogava o craque Neymar, mas onde ainda se encontra o craque argentino Messi.  O futebol catalão atrai a sensibilidade esportiva do mundo inteiro. 

            No meio da leveza e do bem-estar, tudo aconteceu.  Foi na Rambla, via de pedestres situada no coração da cidade, onde sempre se aglomera grande quantidade de gente, em boa parte turistas que por ali caminham.  São famílias, jovens, adultos, uma enorme diversidade, prototípica da época em que vivemos - de globalização e relativização de fronteiras e geografia.

            A caminhonete terrorista entrou pelo meio da multidão, em ziguezague, procurando atingir o máximo possível de pessoas.  Arrastou em sua trajetória letal desde crianças de três anos até uma senhora idosa de mais de 70.  Separou famílias. Matou e feriu gravemente espanhóis, europeus, e muitos outros de países e continentes mais ou menos distantes.  Era mais um atentado do Estado Islâmico, que tem marcado a vida do mundo inteiro com o medo e a apreensão, a todos sobressaltando com a imprevisibilidade e a violência de seus ataques.

           É a segunda vez de um atentado terrorista na Espanha vindo de um grupo radical islâmico.  A primeira foi em 2004, com a explosão de vários trens em Madri e seus arredores. Mas para a Europa não é a segunda vez.  Contam-se já vários atentados na França, na Alemanha, na Inglaterra.  E nos perguntamos apreensivos: quando e onde será o próximo?

            A reação da população local e estrangeira de Barcelona foi semelhante à das outras capitais em alguns aspectos: não permitir que o medo tome conta da vida cotidiana, não se deixar paralisar e seguir com normalidade.  Mas distinguiu-se em um aspecto: a solidariedade não só de catalães e espanhóis, mas também de estrangeiros residentes e visitantes adquiriu proporções além do esperado.

            São incontáveis as manifestações de solidariedade que se seguiram ao atentado Em 24 horas chegava a 8000 o número de pessoas que ofereceram acolhida, ajuda, das mais variadas formas.  Desde o momento em que a van riscou a Rambla de sangue e pânico e se deteve forçada pela ativação do air bag sobre o mosaico do artista Joan Miró até o dia de hoje, milhares de pessoas fazem filas para doar sangue ou oferecem suas casas para alojar as famílias dos feridos que vêm de fora.  Há hotéis que disponibilizaram hospedagem gratuita para parentes de vítimas do atentado, motoristas de táxis e vans que transportam pessoas gratuitamente de um lado para o outro, percorrendo hospitais em busca de seres queridos cujo paradeiro é ignorado. Supermercados oferecem alimentos e gêneros de primeira necessidade.

            Não se sente na reação da luminosa cidade catalã raiva ou desejo de vingança.  Mas tenacidade em ajudar, proteger a vida ali onde ela se fez mais frágil e vulnerável pelo fanatismo assassino que tem causas tão complexas. Muitos muçulmanos se manifestaram, deixando claro que o Islã não se resume a um grupo radical djihadista.  O Islã é e quer paz e não morte e destruição. E mesmo as famílias dos terroristas sofrem as consequências de seu fundamentalismo que se torna violento e acaba atingindo elas próprias. 

            O recado dos djihadistas parece claro: na tentativa de islamizar o mundo inteiro, eliminam aqueles que não são islamizados e atacam os locais e ícones simbólicos do estilo de vida ocidental, diferente daquele por eles proposto e idealizado. 

            O que mais nos intriga, porém, é o fato de tudo isso acontecer em nome de Deus.  O Deus Uno, o Deus Grande, o Único que é clemente e misericordioso.  Em meio à dor e à perplexidade de mais um atentado assustador e inexplicável, nos vemos diante de uma interrogação para a qual não temos resposta.  Até quando?  Por quê? Que sentido tem tudo isso?

            Enquanto não se encontram soluções que sejam ao mesmo tempo eficazes e pacíficas e não penalizem inocentes, a melhor atitude é a que o povo de Barcelona e seus amigos encontraram: ser solidários, entrar em comunhão.  Ajudar, prover, proteger e socorrer. Fazer do atingido um irmão, não importa de onde venha, nem para onde vá.  Assim se reafirma a condição humana de todos que foram atingidos, seja perdendo a vida, sendo feridos, traumatizados, ou sofrendo profundamente perdas e danos.  Somos todos um e estamos em comunhão.  Isso é ser imagem daquele que nos criou à sua semelhança.

            Atingida e sangrando, a bela Barcelona dá um testemunho ao mundo da fé em que o bem é capaz de vencer a violência e o amor é mais forte do que a morte.  

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Violência e Religião" (Editora PUC-Rio/Edições Loyola), entre outros livros.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

terça-feira, 16 de agosto de 2016

RELIGIÃO E TERROR


por Marcelo Barros


Nesses dias, um dos assuntos mais frequentes na imprensa internacional é o Terrorismo. Ele é apresentado como ações de fanáticos desumanos que atentam criminosamente contra a civilização. Quem olha de forma mais crítica jamais se colocará do lado de quem mata inocentes e, seja por qual for a causa, semeia no mundo o ódio e a violência. No entanto, sabe que não existe um império do bem em luta contra as forças do mal. Há denúncias sérias e comprovadas de que grupos terroristas são criados e armados pelo próprio Império norte-americano para se legitimar e para dar aos governos aliados do Ocidente o pretexto para exercerem maior controle sobre os cidadãos. Assim, se cria uma situação de insegurança, na qual a guerra se torna necessária. Afinal, como terroristas de países periféricos podem ter as armas mais sofisticadas? Quem os assessora em técnicas de guerra que só governos e empresas do mundo rico conhecem?  

Atualmente, a opinião pública liga qualquer ato terrorista com o que se convencionou chamar de Estado Islâmico (EL). De fato, o EL nem é Estado, nem é islâmico. Prisioneiros que dele escaparam com vida afirmaram que seus militantes não conhecem e não praticam o Islamismo.

Pelo fato de lidar com as pulsões mais íntimas do ser humano e buscar resposta para as questões mais profundas da vida, toda religião mal compreendida pode se transformar em fanatismo e gerar atitudes violentas. Os fundamentalismos são movimentos religiosos que se colocam contra quaisquer formas novas de interpretar a fé. O fundamentalismo surgiu no início do século XX, em meios cristãos evangélicos dos Estados Unidos e até hoje, em todo o mundo, os Estados Unidos são o centro no qual o fundamentalismo é mais forte. Ali, em pleno século XXI, nas universidades, professores e estudantes ainda se dividem entre evolucionistas e os tais criacionistas que creem que a criação do mundo ocorreu conforme o relato da Bíblia, lido ao pé da letra.

Em 2002, diante de milhões de telespectadores, o presidente dos EUA afirmou que, naquela noite, Deus Pai lhe tinha ordenado invadir o Iraque. E assim foi feito com as consequências que o mundo inteiro vê até hoje.

No mundo atual existem grupos fundamentalistas judeus, cristãos, budistas e também muçulmanos. Embora o termo fundamentalista seja sempre ocidental e uma forma ocidental de julgar, existe um radicalismo islâmico que justifica, em nome de Deus, a violência simbólica e mesmo física, quando necessária. A maioria desses grupos radicalistas justifica a pena de morte. No entanto, normalmente, não praticam o terrorismo como meio para impor suas ideias.

No mundo atual, o terrorismo de grupos marginais parece se multiplicar como reação a um mundo organizado de forma cruel e injusta,  no qual 62 indivíduos possuem uma riqueza correspondente à metade da humanidade. Se somarmos todas as vítimas do terrorismo no mundo, nem de longe se aproximam do número de crianças e pessoas idosas que a, cada dia, morrem de desnutrição e fome, provocadas por esse sistema. Menos ainda se juntarmos a esse número, as vítimas das invasões e guerras preventivas realizadas pelos governos ocidentais. Já em 1968, os bispos católicos da América Latina, reunidos na sua 2a conferência geral, em Medellín, Colômbia, chamaram atenção para o que chamaram de "injustiça institucionalizada". É isso que torna o mundo mais inseguro e violento. É isso que, de forma lamentável, acaba legitimando os atos terroristas.

Embora os fanáticos não saibam fazer essa distinção, o que os grupos radicais ligados ao Islamismo odeiam não é o Cristianismo das comunidades ou a fé cristã como aparece na Bíblia e sim a Cristandade. Essa é o regime social e político que, desde o século XVI, legitimou os impérios do Ocidente e sempre se colocou do lado dos conquistadores. Na invasão dos países da África e Ásia, os missionários sempre estavam ao lado dos soldados. Os alvos principais dos grupos terroristas são países europeus que colonizaram de forma violenta países da África e da Ásia e até hoje mantêm políticas de tipo imperialista. Nesse ano, quem mais sofreu atentados foi a França, que mantém operações militares na Síria, Iraque e Mali, além de ser o país europeu que abriga o maior contingente de migrantes de cultura islâmica. Eles, juridicamente são cidadãos franceses, mas sofrem diariamente consequências do forte racismo da sociedade francesa de origem e vivem em periferias pobres, confinados em verdadeiros guetos. Muitos jovens que partem para pertencerem ao EL são oriundos dessa população marginalizada e discriminada pelos franceses. Sem dúvida, têm havido ataques terroristas em outros países e mesmo em cidades como Kabul e Bagdá. No entanto, por trás de cada um desses atos está sempre a revolta generalizada contra o Ocidente, identificado como "cristão".

O remédio contra o terrorismo jamais será entrar na mesma lógica e responder ao terrorismo de grupos fanáticos com terrorismo de um Estado dominador que se pretende impor pelas armas. O mundo só terá paz quando, como canta o poeta Zé Vicente: "as armas da destruição foram destruídas, as mesas se encherem de pão e tombarem as cercas que fecham os jardins. Aí o dia da paz renascerá nos corações e na vida de todos os seres humanos".     

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O FIO DA MEADA


por Frei Betto


       O ataque terrorista ao jornal “Charlie Hebdo” não foi apenas um gesto tresloucado de dois jovens franceses de fé muçulmana. Ele se origina em um dos últimos capítulos da Guerra Fria: a ocupação do Afeganistão pelos soviéticos (1979-1989). Em 1979, um golpe de Estado levou ao poder afegãos pró-soviéticos.
       Zbigniew Brzezinsky, responsável pela Segurança Nacional dos EUA na gestão Jimmy Carter, viu na ocupação soviética excelente oportunidade de colocar em prática seu mirabolante plano para rechaçá-la e instalar um governo pró-EUA: incrementar o fanatismo religioso contra os “comunistas ateus”.
       Havia alternativas, como grupos nacionalistas afegãos, laicos, que se opunham a Moscou. Porém, a Casa Branca preferiu chocar o ovo da serpente e patrocinar os grupos fundamentalistas reunidos na Aliança Islâmica do Mujahedin (combatente) Afegão, que reagia indignada aos propósitos da infiel modernização soviética, como permitir às meninas acesso à escola...
       Agentes da CIA passaram a incentivar a jihad (guerra santa) contra os soviéticos. A Arábia Saudita, aliada da Casa Branca, se dispôs a doar US$ 20 bilhões para a cruzada da Aliança Islâmica treinar seus fanáticos guerrilheiros e armá-los inclusive com mísseis anti-helicópteros. A CIA desembolsou mais US$ 20 bilhões. Assim, lograriam expulsar os “comunistas ateus” e levar ao poder um governo aliado dos EUA.
       George Bush pai era, desde os anos 60, amigo íntimo de um saudita do ramo da construção: Muhammad Bin Laden, pai de Osama. Após o Afeganistão ser invadido pelos russos, ele propôs ao amigo que seu filho trabalhasse para a CIA, na Arábia Saudita, disfarçado de monitor da ONG Blessed Relief. Logo, o jovem Osama, de 23 anos, foi transferido para Cabul, entusiasmado com a jihad financiada pelos EUA. Através de sua ONG, atraiu 4 mil voluntários sauditas que, no Afeganistão, foram incorporados à Aliança Islâmica – berço do Taliban e, a médio prazo, do Estado Islâmico.
       A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética apressaram a saída das tropas de Moscou do Afeganistão. Porém, os 4 mil voluntários sauditas, ao retornarem a seu país de origem, já não se readaptaram à vida civil. Sem formação política, haviam sido transformados em “máquinas de matar”.
        O rei Fahd ainda tentou cooptar o jovem rebelde Osama Bin Laden. Nomeou-o conselheiro real. Mas ele retornara encantado com a jihad, obcecado em combater os infiéis. No ano seguinte, foi expulso da Arábia Saudita. E em 1996 declarou a jihad contra os EUA.
       Os atos terroristas contra o “Charlie Hebdo” e o supermercado judaico resultaram da política equivocada dos EUA e da Europa Ocidental no Oriente Médio.
       Em 2003, Geoge W. Bush invadiu o Iraque sob pretexto de armas de destruição em massa e alinhamento com Bin Laden. Ao terminar a guerra, os xiitas tomaram o poder no Iraque, para decepção dos EUA, que preferiam os sunitas. Passam, então, a estimular os sunitas a derrubarem os xiitas, também influentes na Síria.
       O gênio escapou da garrafa: os sunitas formaram o Estado Islâmico. O EI agora domina parte da Síria e do Iraque e oferece ao mercado petróleo bem mais barato, angariando uma fortuna.
       Diante do terror, todas as atitudes segregadoras, da islamofobia à “guerra infinita”, são inúteis. O terror é imprevisível. E continuará a sê-lo, enquanto o Ocidente acreditar que a paz resultará da imposição das armas, e não como fruto da justiça e do reconhecimento de que a diversidade de ideias e crenças é um direito - e merece respeito.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros livros.
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