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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Desafios aos Países da CELAC



 Frei Betto


       Em nenhum outro Continente há, nas últimas três décadas, mudanças tão significativas quanto na América Latina e no Caribe. A II Cúpula da CELAC (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe), reunida em Havana a 28 e 29 de janeiro, refletiu esse processo renovador e os desafios que se apresentam aos 33 países – com 600 milhões de habitantes - que integram o organismo criado, oficialmente, em Caracas, a 3 de dezembro de 2011.

       Cuba propôs fortalecer a luta contra a pobreza, a fome e a desigualdade, e declarar o Continente “zona de paz”, livre sobretudo de armas nucleares.
       A CELAC condenou o criminoso bloqueio dos EUA a Cuba; apoiou a soberania argentina sobre as Ilhas Malvinas; e respaldou a independência de Porto Rico e seu posterior ingresso no organismo.

       Como instituição de articulação política, a CELAC tem o mérito de excluir a participação dos EUA e do Canadá, que sempre trataram a América Latina e o Caribe como seu quintal...

       Após o fracasso do NAFTA (Tratado de Livre Comércio entre os EUA e o México, e o Chile como associado), e a rejeição da proposta da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) pela maioria dos países do Continente, este iniciou seu percurso por um caminho próprio. A América Latina e o Caribe atingiram, enfim, a sua maioridade.

       Muitos fatores contribuíram para esse avanço. Primeiro, a resistência, a persistência e a permanência da Revolução Cubana, que não sucumbiu frente às agressões dos EUA nem em consequência da queda do Muro de Berlim e do esfacelamento da União Soviética.

       Vieram, em seguida, a rejeição eleitoral aos candidatos que encarnavam a proposta neoliberal e a vitória daqueles identificados com as demandas populares, em especial dos mais pobres: Chávez, Daniel Ortega, Lula, Bachelet, Kirchner, Mujica, Correa, Morales etc.

       Vários organismos foram criados para fortalecer a integração continental: ALBA, UNASUL, CARICOM, ALADI, PARLATINO, SICA  etc.

       Muitas dificuldades, entretanto, se configuram no horizonte. Nessa economia globalizada e hegemonizada pelo capitalismo neoliberal, a crise de moedas fortes, como o dólar e o euro, afetam negativamente os países do Continente. Embora haja avanços no combate à extrema pobreza, ainda hoje a região abriga 50 milhões de miseráveis; os salários pagos aos trabalhadores são baixos frente aos custos inflacionados das necessidades vitais; a desigualdade social cresce vertiginosamente (dos 15 países mais desiguais do mundo, 10 se encontram no Continente).

       Na Europa, onde a crise econômica desemprega 30 milhões de pessoas, a maioria jovens, já não há uma esquerda capaz de propor alternativas. O Muro de Berlim desabou sobre a cabeça de partidos e militantes de esquerda, quase todos cooptados pelo neoliberalismo.

       Nos países da CELAC, a histórica dependência de suas economias ao mercado externo dá indícios de uma crise que tende a se agravar. Os índices de crescimento do PIB caem; a inflação ressurge; e se agravam a desindustrialização e o êxodo rural com a consequente expansão do latifúndio.

       Não basta ter discursos e políticas progressistas se não encontram correspondência e adequação nos programas econômicos. E nossas economias continuam sob pressão de países metropolitanos; de organismos inteiramente controlados pelos donos do sistema (FMI, Banco Mundial, OCDE etc.); de um sistema de tarifas, em especial do preço de alimentos, intrinsecamente injusto, e segundo o qual os lucros privados do mercado têm mais importância que a vida das pessoas.

       Este dado da OXFAM, divulgado a 16 de janeiro deste ano, retrata bem o mundo em que vivemos: 85 pessoas no planeta possuem, juntas,  uma fortuna de US$ 1,7 trilhão, a mesma renda de 3,5 bilhões de pessoas – metade da população mundial.

       Todos os governos progressistas que, hoje, se congregam na CELAC, sabem que foram eleitos pelos movimentos sociais e pelos segmentos mais pobres que constituem a maioria da população. No entanto, será que há um efetivo trabalho de organizar os segmentos populares? Há uma metodologia que vá além de meras “palavras de ordem” (consignas) e que imprima senso revolucionário nos cidadãos? Os movimentos sociais são protagonistas de políticas de governos ou meros beneficiários de programas de caráter assistencialista e não emancipatório de combate à pobreza?

       A cabeça pensa onde os pés pisam. Nossos governos progressistas correm o sério risco de se verem sucumbidos pela contradição entre política de esquerda e economia de direita, caso não mobilizem o povo para implementar reformas estruturais.

        Como dizia Onelio Cardozo, as pessoas têm “fome de pão e de beleza”. A primeira é saciável; a segunda, infindável. Isso significa que o desejo humano, que é infinito, só deixará ser refém do consumismo e do hedonismo – tentáculos do neoliberalismo – se tiver saciado sua fome de beleza, ou seja, de sentido à existência, de emulação moral, de valores éticos capazes de moldar o homem e a mulher novos.

       Isso não se alcança apenas com mais feijão  no prato e mais dinheiro no bolso. E sim com uma formação capaz de imprimir em cada cidadão e cidadã a convicção de que vale a pena viver e morrer para que todos tenham vida, e vida em abundância, como disse Jesus (João 10, 10).

       Retornamos, assim, à questão da educação política. Por natureza, o ser humano é egoísta. Porém, ninguém nasce reacionário, preconceituoso, machista ou racista. Tudo depende da educação recebida. É a educação que desperta em nós o altruísmo, a solidariedade, o amor, o senso de partilha e a disposição de sacrifícios em função dos outros.

       À proposta de Raúl Castro, de combater a miséria, a fome e a desigualdade, eu acrescentaria a urgência de também combater a “pobreza de espírito” e saciar a “fome de beleza”, cultivando metodologicamente nas novas gerações e nos movimentos sociais o anseio de construção de um mundo de homens e mulheres novos.


Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros. 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Um Olhar Protestante sobre a Igreja Católica



por J u r a c y   A n d r a d e


     O terceiro número da nova revista Olhar Cristão, editada pela mesmo grupo da excelente revista pernambucana Algomais, traz breve artigo intitulado ‘Por uma Igreja mais simples’, que retrata a impressão causada pelo novo papa em comunidades protestantes. Desculpem, pois protestante parece uma denominação antiquada; hoje se fala muito mais em evangélico para designar os membros de igrejas reformadas. Acredito, contudo, que protestante é um termo forte e mais adequado mostrando a ruptura com a Igreja de Roma, o protesto de cristãos e teólogos inconformados com as estripulias do Vaticano e dos papas, como venda de indulgências, supercentralização contrária à tradição apostólica, etc. etc. etc. Além de que todo cristão não pode deixar de ser evangélico. E tem mais: há uma chusma de assim ditas igrejas, que se apresentam como neopentecostais e evangélicas, mas não são mais que grandes empresas financeiras que fariam Lutero e outros reformadores se mexerem em seus túmulos.

     O que mais impressiona o articulista, que não assina seu nome, é o discurso e a prática de Francisco contra o luxo e a ostentação; por uma Igreja mais simples que faça uma opção preferencial pelos pobres; e contra as raízes das injustiças sociais. É a volta aos princípios que marcaram os primórdios da fé cristã. É a crítica à supervalorização da Igreja como instituição. Refere-se ainda aos debates e mudanças que foram impulsionados pelo Concílio dos anos 1960 (convocado por João 23), com seus desdobramentos do lado de cá do Atlântico nas conferências episcopais de Medellín, na Colômbia em 1968, e de Puebla, no México em 1972.

     Lembro, por minha conta, a retomada do controle pela Cúria Romana, a corte papal do Vaticano, que levou a recuos do papa Paulo 6º em relação aos aggiornamenti e propostas do Concílio e à gigantesca volta atrás dos papas João Paulo 2º e Bento 16, que pretendiam voltar ao Concílio de Trento (o concílio contra o protestantismo) e a uma Igreja medieval. O Sínodo dos Bispos, tradição apostólica restaurada pelo Concílio dos anos 1960, foi escanteado em proveito da corte dos cardeais. As conferências episcopais passaram a sofrer feroz censura valendo apenas o que fosse aprovado no Vaticano, como ocorreu anos atrás em Aparecida.
Outra revista voltada para os protestantes mas com grande marca ecumênica, Ultimato, dirigida pelo pastor Elben M. Lenz César em Viçosa, MG, chama especialmente a atenção de seus leitores para a opção preferencial pelos pobres do papa Francisco. Lembro que trata-se de uma marca da Teologia da Libertação, tão malvista e perseguida pelos valentes papas medievais (autênticos imperadores de Roma) Wojtyla e Ratzinger. Assina o artigo René Kivitz. Lembra que Francisco apresentou-se à multidão na Praça de São Pedro como bispo de Roma e não Sumo Pontífice (título imperial), trocou o trono dourado por uma cadeira branca bem simples, usa um anel de prata e sapatos comuns (Bento usava Prada), uma cruz de aço pendurada no pescoço. Mora num hotel simples que hospeda bispos que viajam a Roma. Mistura-se ao povo e não usa carro blindado. Foi a Lampedusa ver os miseráveis que tentam migrar para a Europa. Num grande engarrafamento de trânsito no Rio, não deixou de acenar para as pessoas. Simplicidade, serviço aos pobres, agenda social mais importante que a moral e a dogmática. Ele está familiarizado com as mazelas do Terceiro Mundo.

    O exemplo de Francisco leva o autor a lembrar passagens bíblicas e neotestamentárias. Os seguidores de João Batista são instados a dar frutos dignos de arrependimento, apresentar evidências de seu compromisso com o Reino de Deus: quem tem duas túnicas deve dar uma e quem tem comida deve reparti-la.

     Acrescento algumas observações. Nem a preocupação e a ação de Francisco contra a chaga da pedofilia (fruto do autoritarismo clerical e do celibato forçado) contentaram o encarregado de um relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que se afastou de suas atribuições desacreditando as ações da própria organização, como disse o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi. Não é raro que esse tipo de funcionário misture suas convicções com a realidade adotando posições preconceituosas, anticatólicas no caso. A acusação valia até há pouco tempo: sobrepor o interesse do Vaticano ao das vítimas, adotando um código de silêncio.

    O caso desse relatório da ONU lembra o caso do padre Lancelotti, que cuida em São Paulo do povo da rua, inclusive menores. Foi falsamente acusado de pedofilia (depois absolvido) e, na ocasião, uma emissora pertencente a uma igreja rival deitou e rolou dias e dias sobre o falso caso de pedofilia.

     A chaga de que falamos é uma realidade crua e embaraçosa. Papas anteriores ao Hermano procuraram jogar o lixo para baixo do tapete, passando a mão na cabeça de pedófilos e até (João Paulo 2º) beatificando um notório pedófilo mexicano, um tal de Maciel. Mas como ignorar, num documento oficial de uma organização desmoralizada, mas ainda firme, os esforços e ações da Igreja de Francisco?


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

As veias solidárias da América Latina



Por Marcelo Barros



     Nos últimos dias de janeiro, realizou-se em Havana, Cuba, a 2ª reunião de cúpula da CELAC, Comunidade de Estados da América Latina e Caribe. Sob a liderança do presidente Raul Castro, coordenador atual dessa organização, reuniram-se 33 chefes de Estado, além de embaixadores, chanceleres, ministros e estudiosos. Ali representavam quase 600 milhões de pessoas, habitantes da América Latina e Caribe. Ali tomaram consciência dos enormes problemas que afetam o mundo e especificamente a América Latina. 

   No informe apresentado no Fórum Econômico Mundial que começou em Davos na 4ª feira, 22 de janeiro, a OXFAM tinha advertido aos governos e empresários: a desigualdade social aumentou descaradamente nos últimos quatro anos. Atualmente, 85 pessoas no mundo possuem juntas a mesma riqueza de metade da humanidade. Isso quer dizer que a metade da riqueza mundial está nas mãos de menos de 1% da humanidade. A parcela da população mais rica possui mais dinheiro que a metade da humanidade toda. Nos Estados Unidos, desde 2009, o 1% mais rico acumulou 95% do crescimento total do país e isso depois da crise. O patrimônio dos dez europeus mais ricos é de 217 milhões de euros, quantia superior aos 200 milhões de euros, custo das medidas aplicadas pela União Europeia entre os anos 2008 e 2010 para salvar as economias em crise e ajudar países à beira do precipício. Isso significa que as ditas “medidas de austeridade”, impostas pelos governos da Europa a seus cidadãos, estão prejudicando os pobres e enriquecendo ainda mais os ricos. (Cf.  La Vanguardia, jornal de Barcelona, 21/ 01/ 2014, p. 22). 

     Na América Latina e Caribe, a situação é um pouco melhor. A pobreza extrema atinge atualmente a 8% da população latino-americana e chega a 18% no Caribe. O Haiti continua o país mais pobre do continente e um dos dois mais empobrecidos e explorados do mundo. Essa situação é escandalosa quando se sabe que o continente tem uma das maiores quantidades de terras cultiváveis e férteis do planeta. Além disso, embora não acreditemos na solução de explorar o subsolo e destruir a natureza para gerar riquezas, é bom saber que 65% das reservas de todo o lítio do mundo estão na Bolívia e Peru, assim como as maiores reservas de estanho. O Brasil guarda uma das mais ricas reservas de ferro, o Chile, de cobre. O México tem 42% das minas de prata do mundo e assim por diante. Mas, tudo isso está servindo para enriquecer empresas multinacionais e uma pequena elite que delas se beneficiam e não resultam de modo algum em uma melhoria de vida para a população do país, menos ainda para os trabalhadores explorados nessas minas. Ao contrário, o colonialismo e a organização social e econômica vigentes em muitos de nossos países aumentam a situação de pobreza extrema e de desigualdade social.

    Assim, os líderes da CELAC viram claro: ou mudamos o modo de organizar a economia de nossos países ou acentuamos as desigualdades e as injustiças. Segundo a ONU, os únicos países do continente nos quais a pobreza diminuiu e as desigualdades sociais foram reduzidas são os que seguem um caminho bolivariano: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. Os membros da CELAC se comprometeram em continuar a luta contra a pobreza injusta, se declararam fortemente favoráveis à libertação do povo de Porto Rico, até hoje, colônia dos Estados Unidos, sem direito a ter seu governo e sua independência social e política. 

    Pela primeira vez na história, temos um organismo verdadeiramente eficaz na integração do continente e na justa solidariedade entre nossos povos. Há décadas, Eduardo Galeano escreveu “As veias abertas da América Latina” para denunciar a situação de exploração e dependência que tínhamos em relação aos impérios do mundo. Atualmente, a CELAC se reúne não para fechar as veias abertas aos países amigos, mas para sanar a transfusão injusta de sangue e riqueza e para possibilitar que sejamos um organismo vivo e sadio a testemunhar paz e justiça no mundo.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 45 livros publicados, entre os quais “O Amor fecunda o Universo (Ecologia e Espiritualidade) com co-autoria de Frei Betto. Ed Agir, 2009.
 
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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Helder Camara, um homem universal.



 Por Eduardo Hoornaert.




   A cada ano fica mais claro que as dimensões da figura de Helder Câmara ultrapassam as funções que ele ocupou na vida, especificamente a função de arcebispo católico de Olinda e Recife. A cada ano se ressalta mais seu valor universal, para além da diocese, da igreja do Brasil, do catolicismo e mesmo do cristianismo em geral.  O primeiro a enxergar isso, 15 anos atrás, foi o escritor e dirigente comunista francês Roger Garaudy. No livro ‘Helder, o Dom’ editado pela Vozes em 1999 e coordenado por Zildo Rocha, ele escreve textualmente: ‘Meu primeiro encontro com Dom Helder foi o momento mais importante de minha vida’ (p. 29). Não se escreve uma frase dessas à toa. Ela resume uma vida inteira. Ele explica: ‘em 1967, eu estava participando de um encontro em Genebra e, no intervalo de uma das sessões, alguém me procurou para dizer: um arcebispo o espera no corredor´. Era Helder Câmara, que logo tomou a palavra e propôs ao dirigente comunista um pacto: você diz aos comunistas que religião nem sempre é alienação e eu digo aos católicos o socialismo não é algo condenável. Num de seus escritos, Helder Câmara comentou esse momento com as seguintes palavras: ‘eu sentia que no essencial Roger Garaudy e eu pensávamos da mesma maneira’. Um dirigente comunista e um arcebispo católico pensam da mesma maneira! Isso não é sinal de universalismo? E o texto de Garaudy termina com as seguintes palavras: ‘Graças a Dom Helder Câmara, o muçulmano que sou e o marxista que não deixei de ser consideram Jesus o eixo central de minha vida’ (p. 31).

    Esse episódio mostra que, já em 1967, Helder Câmara era capaz de transcender o cargo que exercia para enxergar um horizonte mais amplo, o da humanidade como um todo. O mesmo Roger Garaudy, num de seus livros, tinha soltado um grito, dirigido às igrejas cristãs: ‘Devolvam-nos Jesus: Ele nos pertence’. Jesus é do mundo, não das igrejas. E penso que por trás do encontro entre ele e Helder se pode ouvir um grito parecido, dirigido à igreja católica:

 
Devolvam-nos Helder Câmara,

Ele nos pertence.

 
     É o grito silencioso da bandeira do Movimento dos Sem Terra estendida sobre o caixão de Helder Câmara no dia de seu enterro.

      Não, não podemos prender Helder Câmara nas nossas instituições. Como discípulo fiel de Jesus de Nazaré, Helder Câmara pertence ao mundo. Não é bom que suas mensagens fiquem apenas circulando dentro de uma determinada organização. Jesus e Helder: pássaros de voo livre, que não podem ficar presos numa gaiola, por dourada que seja.

     Pode parecer um tanto ousado o que digo aqui, mas corresponde perfeitamente ao que nós, seus colaboradores, presenciamos diversas vezes no convívio com Helder Câmara. Pessoalmente trabalhei durante quase 17 anos com ele, desde sua posse em 1964 até a minha saída do clero em 1980. Sempre tive a impressão de que a igreja era para ele um trampolim para a sociedade. Um palanque, um microfone, uma tela de TV, uma difusora. Isso tanto é verdade que a publicidade foi seu maior escudo contra as ameaças de morte que recebia. Ele só não foi morto porque temia-se a repercussão da morte de um bispo famoso. Escapou pela publicidade em vez de fugir na clandestinidade. 
 
     Quero comentar com vocês que numa determinada ocasião ele realmente nos surpreendeu. Numa tarde, parece que foi nos inícios dos anos 1970 ou no final dos anos 1960, ele nos chama para o Palácio dos Manguinhos. Uns vinte padres, mais ou menos. Aí ele começa a dizer que a igreja católica não tem a projeção que merece: o mundo oriental tem Gandhi, os Estados Unidos têm Martin Luther King, mas a igreja católica não tem nenhuma figura que represente o que ela está realmente fazendo neste momento. Fiquei sem saber o que pensar dessas palavras, pois naquele tempo eu não tinha capacidade de perceber o real alcance delas. Pensei: ele está se comparando a Gandhi e Martin Luther King, isso é muito atrevimento. Só depois de sua morte em 1999, cheguei a compreender o real alcance da comparação daquela tarde nos Manguinhos. Hoje, entendo que Helder Câmara efetivamente figura como um símbolo universal, comparável a Gandhi, Martin Luther King e, para falar nos termos de hoje, Mandela. São personagens que por assim dizer delineiam figuras que representam o que há de mais humano no pensamento de uma época, cultura, continente, país, agrupamento humano. São figuras universais, já desligadas da trajetória concreta de suas vidas. Elas tornam-se símbolos universais: independência e verdade (a Satyagraha de Gandhi), superação do racismo (Mandela), opção pelo pobre (Helder Câmara). Hoje vejo claramente que, naquela tarde nos Manguinhos, Helder não estava afirmando sua personalidade, mas revelando uma profunda intuição política, uma visão do âmago das questões.  Se, naquela época, a desenvoltura com que Helder falou de grandes figuras da história me causou certo espanto, era, no fundo, porque naquele tempo eu não tinha a maturidade para pensar em Helder Câmara. Só consegui pensar em Dom Helder. É foi isso, afinal, que me impediu de enxergar a grandeza de suas colocações.

      Continuemos por uns instantes com a comparação entre Gandhi, Mandela e Helder Câmara, desta vez em termos de estratégia de ação. Gandhi foi o mestre, ele avançou a ideia da não-violência ativa como uma estratégia que escapa ao círculo vicioso da dialética entre ação e reação, situação e revolta,  dominação e insurreição, ou seja, para falar em termos helderianos, da ‘espiral da violência’. Nas conferências entre representantes da Índia e da Inglaterra, Gandhi repetia: a independência da Índia não é só boa para os indianos, mas também para os ingleses. Com isso, ele se mostrou capaz de olhar para além das fronteiras da Índia e de compartilhar os sentimentos ingleses. Nisso se mostrou universalista. Mandela aprendeu isso com Gandhi. De início aderiu a movimentos violentos, o que lhe custou 27 anos de prisão, mas com o tempo aprendeu que a superação do apartheid na África do Sul não era algo bom só para os negros, mas também para os brancos. Nesse ponto, Helder Câmara mostrou-se igualmente discípulo de Gandhi quando nos dizia, muitas vezes: ‘não se trata de vencer, mas de convencer’. Em suas cartas circulares ele repetia: a rejeição dos métodos de tortura e repressão violenta não é só proveitosa para a população, mas também para os militares. Na época, muitos não compreendiam essa postura aparentemente fraca por parte do arcebispo e esperavam dele posturas de confronto aberto. Queriam, sem saber, que ele se metesse no círculo vicioso da espiral da violência, mas Helder tinha lido os evangelhos e estava convencido do princípio supremo do amor ao inimigo, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes. Nisso, ele seguia Jesus como Gandhi seguia os antigos mestres hindus.



    Podemos avançar um pouco mais e dizer que Helder Câmara alçou uma bandeira mais difícil de segurar que as de Gandhi e Mandela. Em seu livro ´A espiral da violência’, de 1978, ele descreve três tipos de violência: a institucional, a revolucionária e a repressiva. A novidade está na descrição da primeira violência, geradora das demais: a instituição de sociedades baseadas na injustiça e, portanto, na violência. Aqui Helder vai além de Gandhi e de Mandela e ataca um problema que subjaz a todos os demais: a pobreza como consequência da violência institucional. O livro ‘A espiral da violência’ mostra que a opção pelo pobre é a grande novidade no cenário mundial dos anos 1970, algo mais profunda e mais complexa que a opção pela descolonização ou pela valorização da raça negra. É uma opção que exige uma análise continuada e sempre atualizada da sociedade.



   Hoje muitas das ideias helderianas começam a se difundir no mundo e na igreja. O papa Francisco pode ser chamado de helderiano. Mas o programa traçado por Helder Câmara é muito exigente:



Quando dou uma esmola a um pobre, me chamam santo

Quando pergunto por que ele é pobre, me chamam comunista.



    Essas duas linhas expressam uma exigência muito grande, melhor, um desafio para todos nós.



     Não posso terminar sem esclarecer que não quero dizer que está errado quem continuar falando em Dom Helder, nosso querido Dom. Em minha fala só quis realçar que Helder não necessita do Dom para ser grande. Não se trata de desvalorizar ou ‘secularizar’ o querido Dom. À primeira vista, temos a impressão que dizer ‘Helder’ é diminuir ‘Dom Helder’. Mas isso é apenas uma impressão. O que importa é que a memória de Helder seja um espaço universalista no coração do mundo e lembre a vocação universalista que todos nós carregamos conosco. Para além da igreja, do cristianismo e mesmo das minorias abraâmicas, em direção às minorias de espírito abraâmico espalhadas pelo mundo inteiro.


Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

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