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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O PROTAGONISMO DOS EXCLUÍDOS

por Frei Betto



      Todo esse fluxo migratório que o papa Francisco chama de Terceira Guerra Mundial é fruto do que Europa e EUA plantaram na Ásia, África e Oriente Médio. Foram séculos de colonialismo brutal. E quem garante que, hoje,  os drones que atiram bombas no Afeganistão e na Síria como chuva abundante, não ceifam a vida de inúmeros civis inocentes?

      Devemos esperar que o camponês, ao ver a propriedade agrícola da sua família ser destruída por um drone, e matar seu avô, pai e irmão, e o bebê de sua irmã, se refugie agradecido no Ocidente?
      “A paz só virá como fruto da justiça”, dizia o profeta Isaías, sete séculos antes de Cristo. Ou seja, jamais virá como mero equilíbrio de forças.

      Por que razão os donos do Ocidente (a Europa Ocidental e os EUA) estenderam, durante décadas, tapete vermelho para as famílias (Bashar) al-Assad, da Síria; Hussein, do Iraque; Kadafi, da Líbia; e, de repente, todas foram jogadas no lixo da história? A resposta está na evolução do comércio de petróleo.

      Política é muito importante. Mas nem todos devem ser políticos. É preciso ter vocação e, de preferência, decência também. Porém, em qualquer atividade fazemos política. Tomamos posição em um mundo desigual. Não existe neutralidade. Em tudo ajudamos a manter ou a transformar a realidade; dominar ou mudar; oprimir ou libertar. Essa foi a postura de Jesus.

      Quando me perguntam por que me envolvo com política, por via pastoral ou dos movimentos sociais (pois nunca me filiei a partido político), respondo: porque sou discípulo de um prisioneiro político.

      Jesus não morreu doente na cama. Morreu como Vladimir Herzog: preso, torturado, julgado por dois poderes políticos, e condenado à pena de morte dos romanos, a cruz.

      Por que foi condenado, se era tão espiritualizado, tão santo? Ora, que tipo de fé temos hoje que não questiona essa desordem estabelecida? Condenaram-no pela mesma razão que você, leitor, seria, de maneira preconceituosa, se começar a dizer que o mundo não tem saída fora do socialismo.

      Mas o socialismo foi derrotado, e você ainda é socialista? Haverá futuro para a humanidade sem a partilha dos bens da natureza e do trabalho humano?

      Ora, dentro do reino de César, Jesus de Nazaré anunciava um Reino de Deus! Para ele, o Reino de Deus ficava na frente, no futuro histórico. Anunciar um Reino de Deus no reino de César era alta subversão.

      Jesus não veio fundar uma Igreja ou uma religião. Veio nos trazer as sementes de um novo projeto civilizatório, baseado na justiça e no amor. E que resumiu na expressão própria da época (Reino de Deus), que hoje quase nada significa para nós (ainda mais na América Latina, que não tem nenhum reino). Ele veio trazer as sementes do projeto de um  mundo como Deus quer. Basta ler as Bem-aventuranças (que explico em Oito vias para ser feliz, editora Planeta) e o Sermão da montanha - um mundo de partilha, como na chamada multiplicação dos pães.

       Na Declaração Universal dos Direitos Humanos são merecedores de direitos aqueles que têm certo nível de vida. Para Jesus, ao contrário, a pessoa pode ser cega, coxa, hanseniana, excluída - ela é templo vivo de Deus, dotada de ontológica sacralidade! Eis a radical defesa dos direitos humanos.

      O marxismo europeu, por exemplo, graças ao qual a modernidade avançou em termos de inclusão social, nunca defendeu os direitos indígenas, como fez o marxista peruano Mariátegui. Até se entende a razão, pois é uma filosofia, um método criado na Europa, onde quase não havia índios. Mas também nunca defendeu o protagonismo dos moradores de rua, chamados de lúmpem proletariado. Ou seja, seriam os beneficiários de um futuro projeto socialista ou comunista, mas não protagonistas.

      A diferença é que, para Jesus, todos são chamados a serem protagonistas. Ou como conclamou o papa Francisco aos jovens, no Rio, em 2013: “Sejam revolucionários, vão contra a corrente!”

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
  
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ULTRACONSERVADORISMO DE ALGUNS PROTESTANTES DEVERIA RELER LUTERO, CALVINO E OUTROS REFORMADORES



Por Juracy Andrade



Muitas das posições dos protestantes tradicionais são libertárias, embora posteriormente alguns tenham recaído em práticas do Império Romano Papal que condenavam. O embate político entre líderes reformadores e católicos levou às chamadas guerras de religião que tanto ensanguentaram a Europa. Martinho Lutero lutou bravamente contra as pretensões da Cúria Romana de, com promessas simoníacas de salvação eterna, arrancar dinheiro dos alemães. Thomas Müntzer  foi um “teólogo da revolução”, segundo Ernst Bloch. Quem sabe, a Teologia da Libertação receba alguma inspiração dos reformadores, mais do que do marxismo como pretendiam papas como Wojtyla e Ratzinger. E Calvino pregava que os governantes de um povo livre devem envidar todo esforço a fim de que a liberdade do povo pelo qual são responsáveis não desvaneça de modo algum em suas mãos: “Mais do que isso, quando dela descuidarem ou a enfraquecerem, devem ser considerados traidores da pátria”. Lembremos que no governo holandês de Pernambuco (calvinista), a Inquisição portuguesa foi banida e conviveram em paz, infelizmente por pouco tempo, protestantes judeus e católicos. Considera-se que os huguenotes (nome dado aos protestantes franceses) também teriam influenciado a tradição revolucionária daquele país.

Escrevo sobre isso para mostrar como grande parte dos protestantes brasileiros engajados na política perderam essa perspectiva. Não querem mais ser conhecidos pela tradicional designação de protestantes (aqueles que protestaram contra abusos do papado e da Cúria Romana), mas como evangélicos. Um pretenso e enganoso monopólio da prática do Evangelho. Temos o caso exacerbado do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, comprovadamente acusado de vários crimes, mas que continua se proclamando evangélico, embora aja contra tudo o que Jesus Cristo pregou.

Essa politização desabrida da religião em um Estado nominalmente laico não faz sentido. Ou não faria em um país minimamente sério. 

O filósofo italiano Giorgio Agamben fala da dependência entre as estruturas institucionais dos Estados laicos e as construções teológicas. Ocorre que, a partir das primeiras décadas do século passado, denominações mais recentes do protestantismo do sul dos Estados Unidos decidiram que o nosso país não era cristão como eles gostariam e decidiram vir evangelizá-lo. No Deep South dos EUA está ancorado o Bible Belt (pretenso cinturão bíblico) que dá suporte religioso à ala mais reacionária do Partido Republicano, conhecida como Tea Party (alusão a episódio da história da independência estadunidense). A invasão bíblica dos chamados pentecostais ao Brasil foi aproveitada pelo Departamento de Estado para contrabalançar os avanços da Igreja Romana por aqui. Daí que, para Vladimiu Safatle, professor da USP, o nosso país está atualmente diante de uma recrudescência da força política das igrejas evangélicas, sobretudo as que se denominam neopentecostais, associadas a uma pauta conservadora radical em matéria de costumes e política.

Ao fazer estas observações, faço questão de frisar que me apresento como cristão. Sou de formação católica, mas acho que o nome “católico” está carregado de conotações negativas. E, como só existe um Jesus Cristo, todo autêntico cristão faz parte dessa imensa Ekklesía espalhada pelos apóstolos por todo o mundo. E finalizo recordando Martin Luther King Jr. Apesar de sulista, ele não lutou só contra a discriminação dos negros, mas também contra a desigualdade econômica em seu país e contra a escandalosa Guerra do Vietnã. Ele defendia a reforma agrária feita do Vietnã do Norte.

 “Deveria haver uma melhor distribuição de recursos e talvez a América devesse ir em direção ao socialismo democrático.” Convém ousar. Hoje os EUA têm um presidente negro e um candidato democrata que professa o socialismo. Está na hora de os nossos protestantes neopentecostais, tão empenhados em fazer da religião uma escora política e eleitoral, meditarem sobre essa outra tradição dos reformadores.

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Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A FESTA DO ENCONTRO

por Marcelo Barros



Em todo o Brasil, já se respira o clima do Carnaval. Em algumas capitais do Nordeste e do litoral, a festa começou há vários dias e se prolonga por outros. Muita gente espera o ano inteiro por esses dias. Outros aproveitam para descansar ou viver alguma experiência alternativa. Grupos contrários à folia fazem encontros paralelos. Grupos de tradição católica fazem o que chamam de “Cristoval”, ou “carnaval de jovens cristãos”. Evangélicos e pentecostais fazem acampamentos de juventude. Essa diversidade é positiva. Só devemos tomar cuidado para não dar a impressão de que Deus está conosco e não com os outros.  

Em 1975, em uma crônica de rádio, assim se expressava Dom Helder Camara, então arcebispo de Olinda e Recife: "Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Estive recordando sambas e frevos, do disco do Baile da Saudade: ô jardineira por que estas tão triste? Mas o que foi que aconteceu....Tú és muito mais bonita que a camélia que morreu... Brinque meu povo querido! É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!" (crônica de 01/ 02/1975 no programa “Um olhar sobre a cidade”- Rádio Olinda - AM). 

É verdade que daquele tempo para cá, o mundo mudou muito. Aliás, já tinha mudado antes. O Carnaval surgiu em tempos de cultura religiosa, quando as pessoas brincavam três dias para depois entrar na penitência da Quaresma. Atualmente, o Carnaval se torna um intervalo em meio a um ano de trabalho. É verdade que até as festas populares se tornaram comerciais. No entanto, vários filósofos atuais mostram como, para um mundo doente, o remédio mais eficaz é a “Ética da Convivência”. Muitas vezes, a delicadeza é vista como sinal de insegurança ou fraqueza. Por isso, é importante insistirem relações humanas baseadas na gentileza e na ternura, como algo belo e humano. A maioria dos meios de comunicação de massa tem a tendência de apresentar o outro, principalmente o desconhecido, como ameaça e perigo à segurança. Nesse contexto, brincar juntos nas ruas com conhecidos e desconhecidos é profecia de outro modo de organizar o mundo. Nesses dias, em várias cidades do Brasil e do mundo, é isso que as pessoas fazem. Sem dúvida, é preciso evitar excessos que ocorrem, tanto no plano do abuso de bebidas, uso de drogas, banalização do sexo e instrumentalização do outro e mesmo da violência que ocorre em qualquer manifestação de grande massa. No entanto, no ano passado, um sociólogo europeu, depois de ver nas ruas do centro do Recife dois milhões de pessoas brincando e pulando ao sol do Galo da Madrugada quis saber da polícia qual a estatística de violência, roubos e problemas ocorridos na ocasião. Voltou à sua terra e escreveu um artigo dizendo: Não poderia imaginar em Paris ou em Berlim tal manifestação de massa com tão poucas violações da lei e da paz. No Carnaval de uma capital nordestina, se constataram menos problemas sociais do que em uma noite de ano novo na praia de Copacabana.

Seja como for, pelo seu caráter de festa de rua, o Carnaval aponta que  é possível sentir prazer em se estar juntos. A cada ano, em Campina Grande, PB, se reúnem pessoas de todo o Brasil e ligadas às mais diversas tradições espirituais, para mais um “Encontro da Nova Consciência”. É um encontro que começa na noite da sexta feira antes do Carnaval e se encerra na noite da terça.  Ali se encontram de várias religiões, índios nordestinos na defesa de suas culturas, ecologistas e pessoas interessadas na medicina natural. Muitas das iniciativas têm em comum a dança e o prazer de se estar juntos. Ali se ensaia um jeito de viver, alternativo aos dogmas da produção, consumo e competição. No domingo à tarde, todos/as são convidados/as a uma marcha e ato interreligioso pela Paz. Nesse ano, o encontro terá como tema: “Civilização ou Barbárie: suas ações vão definir o futuro do planeta”.

Na sociedade atual, as tradições religiosas têm a função de incentivar um convívio amoroso da humanidade para testemunhar que  somos todos irmãos e irmãs de uma única humanidade. A Bíblia tem um salmo que canta: “Como é bom e suave os irmãos viverem – conviverem em harmonia” (Sl 132).


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

PRECISAMOS CONSTRUIR PONTES NA VIDA E NA POLÍTICA


Por Leonardo Boff



Hoje no Brasil constatamos grave dilaceração entre as pessoas por razões político-partidárias. Houve gente que deixou de participar da confraternização de Natal em razão de divergências políticas: uns por críticas ao partido que está no poder porque teria mentido na campanha; outros por causa da excessiva corrupção tributada a grupos importantes do PT. Uns são ferrenhos defensores do impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Outros não consideram as famosas “pedaladas” razão suficiente para tirá-la do cargo mais alto da República, conquistado com o voto da maioria da população.

Admitamos que as pedaladas seja um pecado apenas venial, cometido sem má intenção. Por um pecado venial, em sã teologia, ninguém é condenado ao inferno. No máximo, passa um tempo na clínica purificadora de Deus que é o purgatório. Este não é a antesala do inferno mas a antesala do céu.

Desconsideremos esses argumentos. O fato é que existe inegavelmente na sociedade grande irritação, intolerância racial e política, discussões ácidas e muitas palavras pesadas que crianças sequer poderiam ouvir. Especialmente na internet se abriu a porta por onde passa todo tipo de ofensa. Alguns se engessaram no passado e se imaginam ainda na guerra-fria. Chamar o outro de comunista significa uma ofensa. Esquecem que o império soviético ruiu e o muro de Berlim caiu 1989.

As pontes que ligavam os espaços sociais, diferentes, mas aceitos e respeitados, foram avariadas ou destruídas. Uma sociedade não pode sobreviver saudavelmente vendo seu tecido social sendo dilacerado. Aí há o risco dos radicalismos de direita (ditaduras como a dos militares) ou de esquerda (como o socialismo totalitário).

Mais que fazer muitas argumentações teóricas, estimo que as histórias nos podem dar boas lições e nos convencer da verdade das coisas. Passo adiante uma história que ouvi há muito tempo. Ela, me parece, convencer e esclarecer. Ei-la:

Dois irmãos viviam harmoniosamente em duas fazendas vizinhas. Tinham boa produção de grãos, algumas cabeças de gado e suínos bem tratados.

Certo dia, eles tiveram uma pequena discussão. As razões eram sem maior importância: uma vaquinha do irmão mais novo escapou e comeu um belo pedaço do milho do outro irmão mais velho. Discutiram alto e com certa irritação. A coisa parecia que tinha morrido ai mesmo.

Mas não foi bem assim. De repente, não se falavam mais. Evitam de se encontrar na bodega ou pelo caminho. Faziam-se de desconhecidos.

Mas eis que num belo dia, um carpinteiro apareceu na fazenda do irmão mais velho pedindo trabalho. O fazendeiro o olhou de cima abaixo e, meio com pena, lhe disse: “está vendo aquele riacho ali em baixo? É a divisa entre a minha fazenda e a de meu irmão. Pegue toda aquela madeira que está no paiol, e construa uma cerca bem alta, para que eu não seja obrigado a ver o meu irmão, nem a fazenda dele. Assim ficarei em paz”.

O carpinteiro aceitou o serviço, pegou as ferramentas, e foi trabalhar. Nesse entretempo, o irmão que lhe dera o trabalho, foi à cidade para resolver alguns negócios.

Quando voltou à fazenda, já no final do dia, ficou estarrecido com o que viu. O carpinteiro não havia feito cerca nenhuma, mas uma ponte que atravessava o riacho e ligava as duas fazendas.

Eis senão quando, no meio da ponte, vinha o seu irmão mais novo dizendo: “Mano, depois de tudo que aconteceu entre nós, eu mal posso acreditar que você mandou fazer esta ponte só para se encontrar comigo. Você tem razão, está na hora de acabar com a nossa desavença. Me dê aqui um abraço, mano”

E se abraçaram efusivamente e se reconciliaram. Irmão encontrou o outro irmão.

E aí viram que o carpinteiro estava indo embora. Eles gritaram dizendo: ”Ei, carpinteiro, não vá embora, fique uns dias com a gente… Você nos trouxe tanta alegria”.

Mas ele respondeu: “Não posso, há outras pontes a construir pelo mundo afora. Há muitos que precisam ainda se reconciliar”. E foi caminhando, serenamente, até desaparecer na curva da estrada.

O mundo e nosso país precisam de pontes e de pessoas-carpinteiro que generosamente, relativizem as desavenças, e construam pontes para que possamos conviver para além dos conflitos e diferenças, inerentes à incompletude humana. Temos sempre que aprender e reaprender a nos tratar humana e fraternalmente.

Talvez este seja um dos imperativos éticos e humanitários mais urgentes no atual momento histórico.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Homem: satã ou anjo bom? Record, Rio 2008.