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terça-feira, 9 de maio de 2017

DEMOCRACIA E UTOPIA POSSÍVEL

Por Marcelo Barros


Ao verificar que os filmes de ficção científica mostram um futuro sombrio e de "guerra nas estrelas", o pensador Zigmunt Bauman via nisso um sinal de que no mundo atual a utopia de um futuro melhor tinha se transformado em mera nostalgia de um passado idealizado. A essa esperança projetada no passado e não no futuro, ele chamava de retrotopia. Como se o futuro melhor para o mundo estivesse em uma volta ao passado. De tal forma, os poderosos do mundo e a elite dominante comprometem o futuro da sociedade que a esperança parece ser a volta a um passado que, apesar de tudo, parece melhor. 

Outro dia, ao comemorar seu aniversário, um amigo da geração dos setenta afirmava: "Em muitos aspectos, o mundo dos meus pais era melhor do que esse que passaremos à geração de nossos filhos". Para confirmar isso, temos de concordar que guerra nuclear é pior do que a guerra artesanal anterior à bomba atômica. As atuais regras de migração são mais desumanas do que as anteriores. A realidade do desemprego estrutural, organizado para dar mais lucro às empresas e provocado pela própria forma de organizar a economia é mais desumana do que a sobrevivência dos pobres na sociedade industrial. E assim podemos elencar diversos pontos e elementos nos quais o mundo em que vivemos é menos comunitário e solidário do que o mundo de nossos avós. E estamos vivendo no Brasil onde os poderosos de plantão se unem para destruir direitos adquiridos pelos pobres, trabalhadores e índios na Constituição Cidadã de 1988. Com a conivência do Judiciário e apoio dos grandes meios de comunicação, governo e Congresso mudam a Constituição, sem nenhuma consulta ou referendo popular. No mundo inteiro, parece se respirar um clima no qual o Capitalismo neoliberal proclama que a Democracia é um rito formal a ser conservado na medida do possível, mas já não é atual, nem necessária.

Ainda bem que, cada vez mais, a sociedade civil internacional parece consciente de que temos de fazer alguma coisa para o bem da maioria da humanidade e até para salvar o planeta Terra. Esses homens e mulheres de boa vontade sabem que essa mudança de caminho não pode ser uma volta ao passado, mas uma construção mais sustentável e cuidadosa do futuro para nós e para a mãe Terra.  As pessoas que assumem uma Ética da dignidade humana e do Direito de todos querem radicalizar mais e mais a Democracia. Sabem que, como diz a sabedoria da Bíblia: "Aqueles que fazem carreira nem sempre são os mais capazes" (Ecle 9, 11). De fato, quem observa com atenção os ambientes políticos sabe que raramente quem está nos cargos públicos se preocupa com o bem comum. Por isso, os movimentos sociais e comunidades de bairro se propõem a derrubar a pirâmide social e, a partir de baixo, construir um poder que seja de todos. Trata-se de um poder compreendido não como dominação, mas como possibilidade, capacidade de libertar a todos/as. E não se pode esperar que quem toma as decisões pela sociedade possa ou queira fazer isso. 

Todo poder é excludente, mesmo quando é eleito. Nos tempos da monarquia, parecia um sonho impossível imaginar que, um dia, seria possível construir um poder através da eleição dos cidadãos e não simplesmente ver o poder passar estupidamente do rei para o seu filho. Do mesmo modo, precisamos crer e confiar na possibilidade de verdadeiramente construir uma democracia participativa, mais comunitária e a partir dos mais pobres.

A Bíblia tem como centro a fé de que Deus ordenou aos hebreus saírem da escravidão. Ele revelou que a vocação de todo ser humano é ser livre e ter sua dignidade reconhecida. Nessa semana, lemos nas Igrejas o texto do evangelho no qual Jesus se proclama o verdadeiro pastor do povo que veio para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10, 10). A dimensão social libertadora é o eixo central da revelação bíblica e o coração da espiritualidade judaico-cristã. 

Ela expressa a relação com um Deus que é amor e cujo projeto é a libertação de todos os humanos, o direito à vida de todos os seres viventes e a comunhão do universo. Devemos lutar pacificamente para sermos cidadãos e cidadãs desse mundo como testemunhas do reino de Deus que, a cada dia, os cristãos oram no Pai Nosso para que venha e se estabeleça entre nós.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O MÊS DE MARIA


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



            Maio é um mês intenso: das noivas, das mães, das temperaturas amenas e dos jardins floridos. É o mês em que o ar é fresco e convive com o sol em perfeita harmonia.  O sol não é sufocante e apenas esquenta a pele e acaricia o rosto mostrando sua presença reconfortante.

            Porém, mais que tudo e antes de tudo, maio é o mês de Maria.  A judia fiel Maria de Nazaré, mãe de Jesus, preside esses trinta e um dias e, ao longo deles, é celebrada, venerada e cantada em todos os tons por seus filhos que não esmorecem no amor e carinho que por ela experimentam. 

Maria é, sem dúvida, a rainha de maio. No colégio em que estudei, as irmãs colocavam em cada uma de nós uma fita branca larga com uma medalha.  Era a fita de Nossa Senhora.  E cada uma de nós ia recebendo a fita ao longo dos dias do mês de Maria junto com uma grande responsabilidade: a de ser dignas filhas desta que era mãe de Deus e nossa.

            Qual a criança católica que já não sonhou em ser anjinho de procissão?  É lindo ver o carinho na preparação da procissão solene do dia 31 de maio e como as crianças, felizes, cantam e rezam ao redor da grande homenageada: Maria. Nossos países latinos são inegavelmente impregnados pelo culto a essa que super todos os santos porque de seu ventre nasceu aquele que seria o Salvador do mundo e da humanidade, Jesus, o filho de Deus, o Cristo Redentor.

             Na história do Ocidente cristão e muito especialmente na história do “continente cristão” que seria a América Latina, Maria sempre teve um lugar protagônico.  Sua figura foi eminentemente ativa em toda a história latino-americana após a colonização e desde o início desta. E mesmo se criticamos o procedimento dos colonizadores espanhóis e portugueses por seus métodos desrespeitosos e truculentos para com os povos originários do sul da América é imperativo igualmente reconhecer sua fé profunda e fervorosa devoção à Virgem Maria. 

             Trazida ao novo mundo pelos portugueses e espanhóis, Maria foi chamada “A Conquistadora”.  Este título é significativo, porque com ele, Maria se incorpora à totalidade da empreitada de conquista espiritual ou reconquista que os missionários pretendiam realizar no Novo Mundo. Esta invocação está carregada de ambiguidades, gerando uma visão de Maria igualmente ambígua sobretudo frente aos indígenas, que se sentiram agredidos e explorados pelos colonizadores, e frente aos africanos que aqui chegaram como escravos e foram cruelmente oprimidos pela herança colonial personalizada nos novos organizadores da economia e do trabalho.  

            Juntamente com isso, essa visão de Maria como Conquistadora e intercessora do projeto colonial teve grande impacto na vida das mulheres indígenas e africanas, que tiveram de sofrer a colonização e a “mestiçagem” em seus próprios corpos e descendência. E a devoção a Maria, como única mulher poderosa e conquistadora, a quem se prestava culto, confirmava a opressão das outras mulheres que jamais conseguiriam imitá-la em sua virgindade maternal ou sua maternidade virginal. 

O Concílio Vaticano II inaugurou uma nova visão de Maria, libertadora e não mais conquistadora. Na leitura da Bíblia, pode-se encontrar uma Maria enraizada na história e também modelo de fé. Tal como é encontrada nos Evangelhos, como membro ativo e construtora do Reino, distante e diferente da Maria que legitimou a violência e a guerra contra os povos originários do continente e que protegeu os conquistadores em seu intento de “evangelizar” a América, mesmo pagando o preço do sangue de muitas gerações de indígenas e afrodescendentes.  

             Maria é aquela que tem maior intimidade com o povo.  É aquela para quem os pobres podem fazer confidências e contar segredos.  É capaz de escutar e guardar tudo em seu coração.  Caminha com os pobres através das duras sendas da vida nas áreas pobres do continente. Compreende os problemas das mulheres, mesmo os mais íntimos, e não se escandaliza com coisa alguma. 

             Em Maria está presente a dimensão maternal muito valorizada pelo povo e também pela igreja católica.  A maternidade a torna mais próxima do povo.  Para os pobres na América Latina, a vida é uma luta tão dura que a relação com Maria – que é terna e misericordiosa, mas ao mesmo tempo poderosa e gloriosa – desenvolve-se no nível de suas necessidades básicas.  Eles creem firmemente que Maria os compreende e pode ajudá-los quando sofrem fome, quando não têm como cuidar e curar seus filhos doentes e vulneráveis. Ela está ao lado de todas as mulheres no momento do parto e do alumbramento.  Ajuda quando o trabalho falta, quando os campos não produzem, quando o marido foi embora com outra mulher ou é alcoólatra e violento, quando as crianças se tornam presa da droga e do tráfico, quando a doença ameaça a vida e tantas outras dificuldades acontecem na vida cotidiana.  Ela é alívio, compreende, ajuda e eles creem nela e a invocam. 

Tem um rosto coletivo essa Maria e não apenas individual.  Seu rosto é o rosto do povo.  Nesses momentos duros e importantes, ela é presença compassiva e materna.  E para ela o povo clama e grita seus desejos insatisfeitos, suas orações, seus medos, suas inseguranças.  E a presença da Mãe se faz sentir ao seu lado.  

      Na relação com a mãe está presente a busca pela proteção das origens. Neste sentido, o nascimento, a nutrição e os primeiros anos de vida são momentos da mais completa intimidade entre os frágeis e indefesos seres humanos, que se sentem seguros sob sua proteção.  Este retorno às origens é repetido inúmeras vezes na existência humana e especialmente dentro da estrutura religiosa.  A religião reconstrói idealmente a vida, partindo de novas figuras e relações familiares, afetivas e sociais com figuras prototípicas – como Maria e os santos – que são mais que humanos e cheios de extraordinárias qualidades e virtudes. 

      Maria é vista como a mãe ideal também porque o povo a sente ao seu lado, incluindo em seu cuidado maternal seu desejo de ser salvo e liberto, sob o aspecto individual, coletivo e cultural. Em Maria encontram acolhida e abertura maternal para sua libertação.

      Neste mês de maio que começa, à vossa proteção recorremos, Mãe de Deus. Abriga-nos sob teu manto que os tempos são difíceis e sombrios. Consola-nos das aflições e ilumina nosso caminho.  E vela por nossas crianças que também são tuas.  Amém. 

  Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio A teóloga é autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).    


sábado, 6 de maio de 2017

NOTA DA CNBB: O GRAVE MOMENTO NACIONAL


“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, por ocasião de sua 55ª Assembleia Geral, reunida em Aparecida-SP, de 26 de abril a 5 de maio de 2017, sente-se no dever de, mais uma vez, apresentar à sociedade brasileira suas reflexões e apreensões diante da delicada conjuntura política, econômica e social pela qual vem passando o Brasil. Não compete à Igreja apresentar soluções técnicas para os graves problemas vividos pelo País, mas oferecer ao povo brasileiro a luz do Evangelho para a edificação de “uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (Bento XVI – Caritas in Veritate, 9).

O que está acontecendo com o Brasil? Um País perplexo diante de agentes públicos e privados que ignoram a ética e abrem mão dos princípios morais, base indispensável de uma nação que se queira justa e fraterna. O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção. Urge, portanto, retomar o caminho da ética como condição indispensável para que o Brasil reconstrua seu tecido social. Só assim a sociedade terá condições de lutar contra seus males mais evidentes: violência contra a pessoa e a vida, contra a família, tráfico de drogas e outros negócios ilícitos, excessos no uso da força policial, corrupção, sonegação fiscal, malversação dos bens públicos, abuso do poder econômico e político, poder discricionário dos meios de comunicação social, crimes ambientais (cf. Documentos da CNBB 50– Ética, Pessoa e Sociedade – n. 130)

O Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos na medida em que crescem o descrédito e o desencanto com a política e com os Poderes da República cuja prática tem demonstrado enorme distanciamento das aspirações de grande parte da população. É preciso construir uma democracia verdadeiramente participativa. Dessa forma se poderá superar o fisiologismo político que leva a barganhas sem escrúpulos, com graves consequências para o bem do povo brasileiro.

É sempre mais necessária uma profunda reforma do sistema político brasileiro. Com o exercício desfigurado e desacreditado da política, vem a tentação de ignorar os políticos e os governantes, permitindo-lhes decidir os destinos do Brasil a seu bel prazer. Desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de “salvadores da pátria” e o surgimento de regimes autocráticos. Aos políticos não é lícito exercer a política de outra forma que não seja para a construção do bem comum. Daí, a necessidade de se abandonar a velha prática do “toma lá, dá cá” como moeda de troca para atender a interesses privados em prejuízo dos interesses públicos.

Intimamente unida à política, a economia globalizada tem sido um verdadeiro suplício para a maioria da população brasileira, uma vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário. Essa economia mata e revela que a raiz da crise é antropológica, por negar a primazia do ser humano sobre o capital (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Em nome da retomada do desenvolvimento, não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista. Recorde-se, com o Papa Francisco, que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium 58).

O desenvolvimento social, critério de legitimação de políticas econômicas, requer políticas públicas que atendam à população, especialmente a que se encontra em situação vulnerável. A insuficiência dessas políticas está entre as causas da exclusão e da violência, que atingem milhões de brasileiros. São catalisadores de violência: a impunidade; os crescentes conflitos na cidade e no campo; o desemprego; a desigualdade social; a desconstrução dos direitos de comunidades tradicionais; a falta de reconhecimento e demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; a degradação ambiental; a criminalização de movimentos sociais e populares; a situação deplorável do sistema carcerário. É preocupante, também, a falta de perspectivas de futuro para os jovens. Igualmente desafiador é o crime organizado, presente em diversos âmbitos da sociedade.

Nas cidades, atos de violência espalham terror, vitimam as pessoas e causam danos ao patrimônio público e privado. Ocorridos recentemente, o massacre de trabalhadores rurais no município de Coloniza, no Mato Grosso, e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão, são barbáries que vitimaram os mais pobres. Essas ocorrências exigem imediatas providências das autoridades competentes na apuração e punição dos responsáveis.

No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum. Do Judiciário, a quem compete garantir o direito e a justiça para todos, espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei. Da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.

Não há futuro para uma sociedade na qual se dissolve a verdadeira fraternidade. Por isso, urge a construção de um projeto viável de nação justa, solidária e fraterna. “É necessário procurar uma saída para a sufocante disputa entre a tese neoliberal e a neoestatista (…). A mera atualização de velhas categorias de pensamentos, ou o recurso a sofisticadas técnicas de decisões coletivas, não é suficiente. É necessário buscar caminhos novos inspirados na mensagem de Cristo” (Papa Francisco – Sessão Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais – 24 de abril de 2017).

O povo brasileiro tem coragem, fé e esperança. Está em suas mãos defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.

A CNBB está sempre à disposição para colaborar na busca de soluções para o grave momento que vivemos e conclama os católicos e as pessoas de boa vontade a participarem, consciente e ativamente, na construção do Brasil que queremos.

No Ano Nacional Mariano, confiamos o povo brasileiro, com suas angústias, anseios e esperanças, ao coração de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Deus nos abençoe!

Aparecida – SP, 3 de maio de 2017.

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

HOUVE UM PROFETA ENVIADO POR DEUS: GENTILEZA


por leonardo boff



Seguramente no Rio de Janeiro é por muitos conhecida aquela figura singular, de cabelos longos, barbas brancas, vestindo uma bata alvíssima com apliques cheios de mensagens. Carregava um estandarte na mão, com muitos dizeres em vermelho. A partir dos inícios de 1970 até a sua morte em 1996 percorria toda a cidade, viajava nas barcas Rio-Niterói, entrava nos trens e ônibus para fazer a sua pregação.
A partir de 1980 encheu as pilastras do viaduto do Caju, perto da rodoviária do Rio com inscrições em verde-amarelo fazendo sua crítica do mundo atual e propondo sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização. Não era louco como parecia, mas um profeta da têmpera dos profetas bíblicos como Amós ou Oséias.
Como todo profeta, sentiu também ele um chamamento divino que veio através de um acontecimento de grande densidade trágica: o incêndio do circo norte-americano em Niterói no dia 17 de dezembro de 1961 no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas.
Ele era um pequeno empresário de transporte de cargas em Guadalupe, bairro na periferia do grande Rio. Sabedor daquela tragédia, sentiu-se chamado para ser o consolador das famílias destas vítimas.
Deixou tudo para trás e tomou um de seus caminhões e colocou sobre ele duas pipas de cem litros de vinho e lá se foi junto às barcas em Niterói. Distribuía o vinho em pequenos copos de plástico dizendo:”quem quiser tomar vinho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido”.
De José da Trino, esse era seu nome, começou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza. Interpretou a queima do circo como um metáfora da queima do mundo assim como está organizado: ele é um circo montado pelo “capeta-capital…que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade”.
Fez uma pequena miniatura do mundo-Gentileza transformando o local do incêndio, num belíssimo jardim, chamado “Paraiso Gentileza”.
O quarto aplique de sua bata dizia: ”Gentileza é o remédio de todos os males, amor e liberdade”. E fundamentava assim: ”Deus-Pai é Gentileza que gera o Filho por Gentileza…Por isso, Gentileza gera Gentileza”.
Ensinava com insistência: em lugar de “muito obrigado” deveríamos dizer “agradecido” e ao invés de “por favor”, usar “por gentileza” porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor”.
Junto com o princípio de geometria (Pascal), típico do pensamento técnico-científico dominante, a Gentileza (esprit de finesse de Pascal) funda um princípio alternativo de convivência civilizada, princípio descurado pela modernidade e hoje de extrema importância para humanizar as relações demasiadamente funcionais e frias e marcadas pela truculência.
A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres da Escola de Frankfurt. O Profeta Gentileza, representante do pensamento popular e sapiencial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres. Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a Gentileza como irradiação do cuidado e da ternura essencial para com os outros e principalmente para com a natureza.
Esse paradigma tem mais chance de nos humanizar e de garantir a preservação da vida ameaçada do planeta do que aquele que ardeu no circo de Niterói.
A cultura do capital é a principal, não a única, responsável pelo aquecimento global e pela a insustentabilidade do sistema-Terra e do sistema-vida.
Ou daremos razão ao Profeta Gentileza e assumimos sua proposta do paradigma da Gentileza que supõe uma relação respeitosa e cuidadosa para com a natureza, ou então poderemos ir ao encontro do pior. O futuro da vida e de nossa civilização dependem da Gentileza.
Podemos dizer: houve um homem simples e pobre, ignorante dos saberes científicos de nosso tempo mas portador de uma sabedoria cordial e amiga da vida que nos foi enviado por Deus. Ofereceu-nos a chave para sairmos de nossos impasses atuais: pelo paradigma da Gentileza.
Mas quem escutou e seguiu o Profeta Gentileza? Foi uma voz proclamada no deserto da cidade grande.
O Profeta Gentileza nos remete ao relato triste do livro do Eclesiastes no qual se lê:
“Havia uma pequena cidade de poucos habitantes: um rei poderoso marchou sobre ela, cercou-a e levantou contra ela grandes obras de assédio. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio, que poderia ter salvo a cidade com sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou daquele homem, porque era pobre. E a cidade foi tomada e destruída”(Ecl 9, 14-16).
Comenta, pesaroso, o Eclesiastes: ”Mais vale a sabedoria que o poder, mas a sabedoria do pobre é menosprezada e suas palavras não são ouvidas”(Ecl 9, 16).
Oxalá essa atitude de desvalorização da sabedoria do pobre como a do Profeta Gentileza não se perpetue. Ela possui uma verdade escondida que, descoberta e acolhida, nos poderá proteger de catástrofes altamente destrutivas ou tornar a cidade do Rio de Janeiro mais amigável e com seu conhecido glamour.
Mas se cultivarmos “a Gentileza que gera Gentileza”, como uma relação alternativa para com a natureza, a Casa Comum e a nossa cidade, seguramente teremos escolhido o comportamento adequado que nos poderá salvar.
Leonardo Boff é filósofo,teólogo e colunista do JB on line.