O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

EU TE AMO HOMEM



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Nada melhor do que a poesia de Adelia Prado para dizer hoje o que quero a este homem, ao meu homem: Ekke, na ocasião de nossos 50 anos de casados. Bodas de ouro, dizem.  Bodas da carne e do espírito, digo. Casados fomos, somos e seremos, unidos no gozo da carne assim como em seu declínio; na ebriedade do espírito assim como em sua aridez. Hoje como há 50 anos te amo, homem. 

            Eu te amo homem como no primeiro dia, no primeiro olhar e no primeiro beijo.  Na primeira palavra e na primeira conversa.  E quantas, quantas, e tantas conversas houve e ainda haverá entre nós dois, homem e mulher de palavra. Em nossa união, a palavra cria, elabora, expressa, liberta, reconcilia.  Eu te amo homem como na primeira palavra que ouvi de tua boca e que ainda ressoa em meus ouvidos. 

            Eu te amo, homem, hoje como toda vida quis e não sabia, diz a poeta.  E eu, que poeta não sou, digo. Não sabia mas pressentia.  E reconheci teu passo ao chegar, teu cheiro e tua voz.  E meu querer encontrou seu porto e seu lugar.  Quis e não sabia.  Agora ainda não sei tudo Mas pressinto e descubro a cada dia.  E me surpreendo e me excito com essa caixa perpétua de surpresas que é te conhecer e aprender a te amar na ausência perpétua de monotonia.

            Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama fica eterno.

Te amo com a memória imperecível
.
  Contigo aprendo desde e para sempre que amor é aprendizagem.  E neste meio século aprendi muita coisa, muito mais do que em estudos diplomas, títulos e doutorados.  Sigo aprendendo.  O que a memória ama fica eterno. Acrescento e é fecundo.  Fica eterno porque não morre.  É fecundo porque gerou e gera vida. Aprendemos juntos a criar. Criamos e continuamos imprimindo no mundo essa memória imperecível que ficou eterna. 

            Nessa vida jutos muito fizemos. Construímos, plantamos, geramos viajamos.  Mas nossa principal viagem tem sido ao interior e ao redor de nós mesmos.  Peregrinar todo dia ao encontro do coração da humanidade é bom bastante e lindo.  E, para nós, a humanidade tem múltiplos rostos e nomes.  Mas todos sintetizados concentrados em um só: você, homem e eu, mulher. Por isso te amo homem por me ensinares a diferença e a comunhão, a tolerância e o perdão, o maravilhar-me e o horrorizar-me, o riso e o pranto.

            Te alinho junto das coisas que falam uma coisa só: Deus é amor. Isso que foi dito desde o princípio e mesmo antes de todos os princípios, pois o Verbo era no princípio, me tem sido dito por tua boca e sobretudo por tua pessoa, homem, ao longo de todos esses anos. No teu amor, na tarefa de amar-nos todo dia, às vezes leve, às vezes pesada, às vezes fácil, outras tão difícil, às vezes prazer, às vezes esforço, às vezes evidente bênção, às vezes tentação de mágoa e rancor, às vezes silêncio de morte, às vezes explosão de vida, tenho aprendido o que quer dizer essa definição que o Novo Testamento faz de Deus.  Deus é amor. 

            Todas as coisas disso falam, mas tu falas disso tudo com mais eloquência.  E mais pertinência.  E mais verdade.  Por isso, te amo homem, agora como ontem, ontem como hoje, hoje como daqui a muitos anos em nossa carne imortalizada na prole genética e espiritual, em obras que só Deus conhece, razão pela qual existem grande e maravilhosamente. 

            Te amo homem, amante, companheiro e amigo, sonhador de sonhos comuns. Te amo pelas aventuras excitantes e pelo ritmo diuturno das pequenas coisas. Pelas corridas mundo afora e pelos passos palmilhados pelo chão da casa. Pelas noites e pelos dias. Pelo pôr do sol de beleza estonteante empalidecido pela beleza de teu corpo descansando na rede, enquanto as crianças corriam no jardim. Pela paixão e pelo afeto repousado. Pelos corpos entrelaçados e pelo afeto e pelo afago meigo.

            Te amo homem pelo respeito e pelo carinho, na saúde e na doença.  Pela paciência e pelo estímulo no sucesso e no fracasso. Pela história escrita a quatro mãos que junto a muitas outras vão transformando o mundo.  Pela fidelidade a toda prova que tece e borda a nossa vida, protegendo-a de desvios e des-fios, de distrações e traições. 

            Te amo homem por esse sorriso e esse olhar.  Sorriso capaz de ordenar meu caos primitivo.  Olhar capaz de embelezar-me e enfeitar-me como noiva adornada para esposo. Te amo neste momento como em todos.  Tem sido tão bom viver juntos, ser jovens juntos, maduros juntos.  E agora envelhecer juntos.  Graça dada e recebida hoje com imensa gratidão. 

            Te amo homem, porque tens sido meu e eu, tua. E isso é belo de se ver e melhor ainda de se viver.   

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco).

 Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 7 de junho de 2019

SEMANA NO MEIO-AMBIENTE: GARANTIR O FUTURO DA VIDA E DA TERRA





por leonardo boff

No mundo inteiro e também entre nós se celebra com eventos e discussões ecológicas a Semana do Meio-Ambiente. Logicamente, não nos satisfaz o meio-ambiente, pois queremos o ambiente inteiro.
O Papa em sua encíclica “Sobre cuidar da Casa Comum”(2015) superou este reducionismo e propôs uma ecologia integral que recobre o ambiental, o social, o político, o mental, o cotidiano e o espiritual. Como disseram grandes expoentes do discurso ecolo[ogico: com este documento dirigido à humanidade e não apenas aos cristãos, o Papa Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica mundial. Em sua detalhada exposição, segue o ritual metodológico da Igreja de Libertação e sua teologia: o ver, o julgar, o agir e o celebrar.
Fundamenta suas afirmações (ver) com os dados mais seguros das ciências da Terra e da vida; submete a uma rigorosa análise crítica (julgar) ao que ele chama de “paradigma tecnocrático”(n.101), produtivista, mecanicista, racionalista, consumista e individualista cujo “estilo de vida só pode desembocar em catástrofes”(n.161); o julgar implica uma leitura teológica onde o ser humano emerge como cuidador e guardador da Casa Comum (todo o capítulo II). Coloca com fio condutor a tese básica da cosmologia, da física quântica e da ecologia o fato de que “tudo está relacionado e, todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa…que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n.92). Parte para práticas alternativas (agir) demandando com urgência uma “radical conversão ecológica”(n.5) no nosso modo de produzir, de consumir “alegrando-nos com pouco”(n.222) “com sobriedade consciente”(n.223), “na convicção de que quanto menos, tanto mais”(n.222); enfatiza a importância de “uma paixão pelo cuidado do mundo”, “uma verdadeira mística que nos anima”(celebrar) para assumirmos nossas responsabilidades face ao futuro da vida.
Atualmente se trava uma batalha acirrada entre duas visões com respeito à Terra e à natureza que afetam nossa compreensão e nossas práticas. Elas se fazem presentes em quase todos os debates.
A predominante que constitui o núcleo do paradigma da modernidade, vê a natureza como algo que nos foi destinado, cujos bens e serviços (o sistema prefere “recursos”, os andinos “bondades da natureza”) estão disponíveis para nosso uso e bem estar. O ser humano está numa posição adâmica de quem se considera “mestre e senhor”(Descartes) da natureza, fora e acima dela. Considera a Terra, uma realidade sem propósito (res extensa), uma espécie de baú cheio de bens e serviços infinitos que sustentam um projeto de desenvolvimento/crescimento também infinito. Desta atitude de “dominus” (dono) surgiu o mundo técnico-científico que tantos benefícios nos trouxe. Mas ao mesmo tempo criou uma máquina de morte que, com armas químicas, biológicas e nucleares, nos pode destruir a todos e pôr em risco a biosfera.
A outra visão, contemporânea, que possui mais um século de vigência mas que nunca conseguiu fazer-se hegemônica, entende que somos parte da natureza e que a Terra é viva. Ela se comporta como um super-organismo vivo, auto-regulado, combinando os fatores físico-químicos e ecológicos de forma tão sutil e articulada que sempre mantém e reproduz a vida. O ser humano é parte da natureza e aquela porção da Terra que num elevadíssimo processo de complexidade começou a sentir, pensar, amar e a venerar. Nossa missão é cuidar deste grande “Ethos”(em grego significa casa) que é a Casa Comum. Somos o “frater”(irmão) de todos. Devemos produzir para atender as demandas humanas mas em consonância com os ritmos de cada ecossistema, cuidando sempre que os bens e serviços possam ser usados com uma sobriedade compartida, visando as futuras gerações.
Numa mesa redonda com representantes de vários saberes, discutia-se formas de proteção da natureza. Havia um cacique pataxó do Sul da Bahia que falou por último e disse: “não entendo o discurso de vocês, todos querem proteger a natureza; eu sou a natureza e me protejo”. Aqui está a nuance: todos falavam sobrea natureza como quem está de fora, ninguém sentindo-se parte dela. O indígena sentia-se natureza. Protegê-la é proteger a si mesmo que é natureza.
Esse debate está ainda em curso. O futuro aponta para a segunda visão, a de olhar a Terra como Gaia, Pachamama, Grande Mãe e Casa Comum. Lentamente vamos tomando consciência de que somos natureza e defendê-la significa defender a nós mesmos e a nossa própria vida. Caso contrário, a primeira visão, a Terra e natureza como baú de “recursos infinitos”, nos poderá levar a um caminho sem retorno.
Leonardo Boff  escreveu:”Como cuidar da Casa Comum”, Vozes 2018.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O CARDEAL ELETRICISTA

Frei Betto

          Eu me encontrava na Itália quando um prédio de Roma, na Via Santa Croce,ocupado por 450 pessoas, entre as quais uma centena de crianças, ficou dias às escuras devido à dívida de 300 mil euros com a empresa fornecedora de energia. Contudo, teve a luz religada graças à habilidade de eletricista do cardeal Konrad Krajewski. Ele simplesmente entrou no poço do edifício, onde fica a central energética, removeu os lacres e a pôs a funcionar.
          Perrini, um dos moradores, contou: "O cardeal, que no passado já foi nosso hóspede, porque vem para cuidar de idosos, doentes e crianças que moram aqui, chegou na tarde de sábado, por volta das 17h, a bordo de uma van cheia de presentes para as crianças. Ele sabia que estávamos sem eletricidade há três dias. Assim que chegou, telefonou para a Acea (empresa de energia) e a prefeitura de Roma, pedindo que reativassem a eletricidade às 20h, caso contrário ele próprio faria isso. Por volta das 20h15, o cardeal retornou, nos explicou que entendia de energia elétrica porque, antes de ser padre, na Polônia, havia trabalhado no setor, e novamente chamou as autoridades municipais para manifestar a sua intenção. Depois entrou no poço onde fica a nossa instalação elétrica, fez uma série de procedimentos, como se fala no jargão técnico, e a luz voltou. Eu realmente não sei como ele fez isso, mas fez."
          O ministro Salvini, que comanda a política italiana, ficou bravo com a ousadia do cardeal e declarou que ele “agora deve pagar as contas em atraso”.
         Krajewski declarou: "Intervi pessoalmente para religar os medidores. Foi um gesto desesperado. Havia mais de 400 pessoas sem eletricidade, com famílias, crianças, sem sequer a possibilidade de manter ligadas as geladeiras."
       O cardeal polonês, de 55 anos, é o principal assessor do papa Francisco no cuidado dos pobres. Cedeu o seu apartamento em Roma para abrigar uma família refugiada da Síria e passou a dormir no cômodo que lhe serve de escritório.
       À noite ele circula pela capital italiana dirigindo um furgão repleto de alimentos, roupas e cobertores para distribuir às pessoas que dormem ao relento. Foi ele que tomou as providências para construir, por ordem do papa, instalações sanitárias, incluindo chuveiros e barbearia, para uso dos mendigos que fazem ponto em torno do Vaticano, na esperança de receberem algum dinheiro de peregrinos e turistas.
          Na conferência que proferi na Universidade Lumsa, no Vaticano, sobre a conjuntura política do Brasil, ao lado de Jessé de Souza, me perguntaram o que achava da atitude do cardeal. Respondi não ver nada de estranho no fato de um cardeal, discípulo de um carpinteiro palestino, ser eletricista. Estranhos são os cardeais que se julgam príncipes, moram em palácios e gastam fortunas com seus trajes eclesiásticos.
          A instituição cardinalícia é herança do Império Romano, e não encontra fundamento na comunidade apostólica formada por Jesus. Sempre me pergunto se foi a Igreja que converteu Constantino, no século IV, ou se foi o imperador que converteu a Igreja em uma instituição monárquica que, ao longo da história, muitas vezes trocou seu serviço evangélico pela pompa do poder.
      O título de “cardinalis” era dado pelo imperador a generais e prefeitos pretorianos. Os cardeais são os senadores da Igreja e têm por função eleger o papa e assessorá-lo. Até o século XII o papa era eleito pelo clero e fiéis de Roma.
        A cor predominante nos trajes cardinalícios é a vermelha, também usada outrora pelos senadores romanos. Na Igreja,  significa a disposição de derramar o próprio sangue na defesa dos valores evangélicos. Mas nem todos os cardeais se mostram dispostos a trilhar o caminho de Jesus, como o fez o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo que destemidamente assumiu a defesa das vítimas da ditadura, entre os anos de 1969 e 1985. Muitos preferem as pompas imperiais às sandálias dos pescadores. Por isso, se opõem abertamente às reformas do papa Francisco, empenhado em desclericalizar a Igreja e livrá-la da corrupção sexual e financeira.

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
 Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português, espanhol ou inglês - mediante assinatura anual viamhgpal@gmail.com

terça-feira, 4 de junho de 2019

A UNIDADE NA BUSCA DA JUSTIÇA




Marcelo Barros

Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16, 18- 20) é o tema central da Semana de orações pela unidade dos cristãos em 2019. Cada ano, no hemisfério sul, a Semana da Unidade se realiza entre o domingo da Ascensão e a festa de Pentecostes. Nesse ano, ocorre exatamente nesses dias. Ela é promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) e pelo Secretariado da Unidade dos Cristãos, organismo da Igreja Católica. 

De fato, ainda hoje, muitos cristãos e mesmo ministros de Deus não se deram ainda conta da importância do movimento pela unidade cristã (Ecumenismo). Já em 1964, há 55 anos, todos os bispos católicos do mundo, reunidos no Concílio Vaticano II afirmaram: a divisão do Cristianismo em Igrejas separadas uma da outra é totalmente contrária à vontade de Jesus Cristo. Essa divisão é consequência e expressão do pecado humano e é um escândalo para o mundo. Os cristãos, aos quais Jesus mandou pregar ao mundo o mandamento do amor e da unidade, eles mesmos estão divididos. Por isso, o trabalho para recompor a unidade das Igrejas é essencial à fé e à missão de toda Igreja cristã (Decreto Unitatis Redintegratio, n. 1).

O caminho para reconstituir a unidade é trabalho de conversão interior e comunitário de todos os cristãos das diversas Igrejas. Trata-se de conversão a Jesus Cristo e ao seu projeto de amor e justiça. Essa unidade não se fará como uniformidade institucional e sim no respeito à diversidade e autonomia das Igrejas. Em 1898, o papa Leão XIII propôs a todas as comunidades católicas prepararem a festa de Pentecostes através de uma Semana de Orações pedindo a manifestação da vinda do Espírito Santo. E o papa indicou que essa semana especial de orações deveria ter como tema central a oração pela unidade das Igrejas. A unidade é dom gratuito de Deus. Por isso, a primeira coisa que se pode fazer pela Unidade é orar pela Unidade. No começo desse movimento, se afirmou: a Unidade que Deus quer e do modo que ele quiser. A oração proposta é vivida por cada pessoa individualmente. Também deve ser vivida por cada Igreja local que aceitar esse convite. Além disso, se possível e como for possível, é bom que cristãos/ãs de Igrejas diferentes se encontrem, nessa semana, para dar ao mundo esse sinal da busca da unidade pela oração e pelo diálogo.

De fato, orar pela unidade supõe que tenhamos no coração essa angústia que foi a de Jesus. Até na noite em que iria ser preso, antes de partir para o horto das Oliveiras, Ele orou: “Pai, te peço por todas as pessoas que, algum dia, ainda crerão em mim. Que elas todas sejam Um, como Tu e eu somos um. Que os meus discípulos sejam Um para que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (Jo 17, 19 – 20).

Exatamente, nessa semana, se completam 56 anos do dia 01 de junho de 1963, quando o papa João XXIII entrava em agonia. Em meio a dores fortíssimas e agonia que durou três dias, o santo João XXIII declarou que queria oferecer a sua vida e os seus sofrimentos pela unidade dos cristãos. Em 1998, na preparação do solene Jubileu do ano 2000, o papa João Paulo II escreveu a encíclica “Ut unum sint” (Para que sejam UM). Era a primeira vez em que um papa dedicava uma encíclica ao tema da unidade dos cristãos. Ali ele afirmava que o ecumenismo não é apenas uma das tarefas da Igreja Católica, mas é o coração de toda a sua missão (UUS 1). 

 A maioria dos católicos e mesmo dos padres se diz de acordo com a preocupação pela unidade. No entanto, infelizmente, até hoje, esse assunto ainda não parece central na vida das comunidades paroquiais e das Igrejas. Mesmo dioceses abertas costumam nomear uma comissão ecumênica. Encarregam seus membros de, em nome da diocese, participarem das relações com outras Igrejas. Fazem isso e se sentem descomprometidas com o assunto. Como se a comissão de ecumenismo fosse para substituir e não para representar o conjunto da Igreja que deve ser todo envolvido nesse caminho.

Já em 1968, a coordenação da CNBB publicou um documento preparatório ao Diretório Ecumênico proposto pelo Vaticano. Ali os nossos bispos ensinavam que a pastoral ecumênica e a abertura para outras Igrejas só acontecem se se basearem em uma “ecumenicidade” de toda a pastoral e de todas as atividades eclesiais. Isso significa: ou toda a Igreja se compromete nesse caminho e vive uma abertura espiritual para a unidade, ou a pastoral ecumênica terá sempre poucos resultados positivos. 

Atualmente, esse assunto é fundamental não somente para as Igrejas, mas para a sociedade contemporânea. Em um mundo no qual, como diz o papa Francisco, milhões de pessoas vivem como descartáveis, governos  se colocam a serviço da economia que mata e propõem reformas trabalhistas, da previdência e outras que vão contra a vida dos mais pobres. É preciso que as Igrejas se unam na defesa da justiça. O Conselho Nacional de Igrejas cristãs propõem que, nessa semana da unidade de 2019, as comunidades orem especialmente em solidariedade às muitas vítimas dos crimes ambientais, especialmente pessoas afetadas pela ação predadora das empresas mineradoras. A unidade que pedimos a Deus é também comunhão com a natureza ameaçada e especialmente com os rios destruídos pela mineração como estão o rio Doce, o rio Paraopeba e mesmo o grande São Francisco. Que, nessa celebração de Pentecostes, o Espírito Santo nos ilumine para que busquemos a unidade visível das Igrejas no trabalho comum pelo direito dos pobres. Que todos/as nós demos testemunho de que Deus é Amor e Justiça.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br