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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

PALAVRAS DE PEDRO - 24.08.2022

 



 

         Diário, 6-8 – saí com uns 30homens (de Serra Nova) para derrubar as árvores do ‘roçado’ aberto a quase 5 km daqui. ‘Uma bruta roça’, como dizia admirado o próprio Benedito Boca-Quente. Foi um dia de mutirão – de trabalho comunitário – maravilhoso. Eu e um rapazinho trabalhamos de carregadores de água para os que trabalhavam no machado. Esse dia, senti o júbilo de ver caírem as árvores: desaprumadas, como nadadores olímpicos, sobre as águas reunidas de todo um povo. Abria-se uma grande porta ao sol e ao futuro e as folhas sacudidas dançavam ao ritmo do ar como confete de um festival de liberdade...

         Está soando alguma ameaça. Ronda a angústia. E a espera se faz, às vezes, como coagulada. A Fé está à prova e eu quero continuar ‘sabendo’ em Quem me tenho confiado...

         Foi nesse dia de “derrubada” que escrevi numa folha de bananeira brava e com a ponta de meu canivete o Hino de Serra Nova que depois, cantado em muitos setores rurais do Brasil, chamou-se “Hino da Comunidade Rural”: “Hino do Lavrador”.

 

         “Somos um povo de gente

         Somos o povo de Deus

         Queremos terra na Terra

         Já temos terra nos Céus”.

 

Pedro Casaldáliga, Creio na Justiça e na Esperança

#Casaldàliga!

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#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

#RomariaDosMártiresDaCaminhada

sábado, 20 de agosto de 2022

A arte de Adélia Carvalho.

 

Eduardo Hoornaert.


 

Faleceu em Recife (Pernambuco, Brasil), no dia 16 de agosto de 2022, a Irmã Adélia Carvalho, brasileira, religiosa salesiana e ‘artista da caminhada’. Ela acompanhou, durante longos anos, trabalhos junto a lideranças populares ligadas à Teologia da Libertação, tanto no Brasil como - por um curto período - no Moçambique. Ilustrou numerosas publicações do Cehila-Popular (uma iniciativa do Centro de Estudos da História da Igreja na América Latina, que funcionou entre 1980 e 2000 aproximadamente), e ajudou a elaborar, igualmente por longos anos, grandes painéis que serviam de quadro de fundo em Cursos de Verão promovidos pelo CESEEP (Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), situado em São Paulo, Brasil. Além dos clássicos ‘cartões de Natal’. Adélia formava parte de um pequeno grupo de desenhistas, pintores e poetas, que se autodenominavam ‘artistas da caminhada’.

 

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Para apresentar a artista Adélia Carvalho, copio aqui seu texto autobiográfico ‘Falando sobre minha trajetória artística’, que ela redigiu em 25 de agosto de 2015, em preparação de um encontro rememorativo do Cehila, realizado em Belo Horizonte.

Vai aqui a breve autobiografia:

‘Meu nome é Adélia Oliveira de Carvalho. Assino Adélia Carvalho. Sou brasileira, nordestina, natural do Rio Grande do Norte, no município de Santo Antônio, agreste potiguar e bioma caatinga. Nasci em Lagoa das Cobras (25/10/1937), no sítio de meu avô materno. Sou descendente indígena, por parte de minha avó materna, provavelmente da Nação Cariri. Esses indígenas, vindos do sul do Brasil, tempos atrás, andavam em busca da ‘Terra sem Males’. Aqui, nesta região nordestina, se assentaram. Por não entenderem sua língua, os portugueses os chamavam ‘tapuios’, ‘povo calado’.

Desde cedo, gostei de me expressar em desenhos e trabalhos manuais. Diante das cores, sombras, relevos, paisagens, imagens, esculturas, o meu instinto é de contemplação e admiração. A natureza é o meu espaço preferido. Na escola, meus desenhos eram admirados por serem bem feitos, com combinações de cores.

Aos 22 anos, (24/01/1960), fiz minha consagração religiosa no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas) em Recife – PE, onde resido. Minha caminhada artística, propriamente dita, tem início no noviciado (1958-1959), quando começo a pintar a óleo temas religiosos. Nos anos seguintes ao noviciado, continuo pintando, mas sem orientação. Pintei cenários, murais e quadros. Minha preferência é por figuras humanas. Paisagens e outros elementos aparecem como complemento.

Então, sou autodidata, ainda que tenha feito alguns exercícios de trabalhar com modelo vivo (a figura humana), em 1972, no atelier do Prof. Inaldo Medeiros (em memória), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Não tive condições de continuar. Parei no início do caminho, com esperança de poder, algum dia, estudar regularmente a arte do desenho e da pintura. Sentia-me insegura com o que produzia. Em 1995, a esperança se fez presente quando cheguei a frequentar o atelier do prof. Maerlant Denis, aqui em Recife, à Rua das Pernambucanas. Logo ele observou que tinha um estilo próprio, tanto nos conteúdos como nas cores. Em menos de um ano, ele me deu um certificado ‘com distinção’.

A partir de então, me considerei artista profissional. Meus quadros eram adquiridos com facilidade e eu recebia encomendas. Mas não me sinto qualificada para adotar o nome de artista plástica. Isso me incomoda. Acho que é grande demais para mim. Este sentimento talvez tenha sido motivo de nunca ter feito uma mostra individual, preferindo expor coletivamente, na qualidade de ‘artista da Caminhada’.

Em minhas expressões artísticas, gosto de representar temas contemporâneos (sacros/religiosos/místicos e, ao mesmo tempo, de caráter social). Com este viés falo em arte religiosa ‘profanada’, onde o religioso e o profano se misturam, tornando um só motivo. A figura feminina de olhares grandes e profundos, ganha destaque especial.

 

Perante meus trabalhos em exposições, percebo três reações diferentes nas pessoas: 1) admiração e contemplação pelas cores vivas e alegres, pelas formas e pela temática; 2) identificação com o estilo e com os temas. Muitos começam a fazer uma leitura do ‘seu mundo’ e do seu derredor; 3) provocação, um certo escândalo, um choque, vendo o religioso e o profano misturados. Isso é bom para mim e me convence de que estou alcançando objetivos concretos.

Dizem que meus quadros são considerados obras de arte. Já são conhecidos internacionalmente, têm nome e estilo próprios. Neles eu expresso e revelo meus sentimentos, minha psicologia, mística, espiritualidade e o caminho por onde caminho, enfim, minha personalidade.

Sei que a arte, como expressão do belo e como comunicação, tem necessidade de expansão e de buscar leitores de diferentes olhares, de diferentes culturas. Isso levou meus trabalhos a caminharem não apenas pelo Brasil, mas por outros continentes como Europa, Estados Unidos e África (Moçambique). Minha arte também foi tema de dissertações e teses acadêmicas. Ela caminhou e continua caminhando como beleza e profecia de Deus. Fui muito além do que imaginava’. Até aqui, o depoimento de Adélia Carvalho sobre sua trajetória até 2015.

 

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Tomo a liberdade de copiar aqui o texto, emitido no dia da morte de Adélia, 16/08/2022, pelo CESEEP. Vai intitulado Páscoa de Adélia de Carvalho (16/08/2022)

 

 

Um passarinho, uma flor e um caju. Nas imagens de pessoas, olhos grandes e expressivos como marca de seus traços na tela, com capacidade de prender o olhar e até a respiração de quem vê cada obra de arte. A tela como forma de comunicação de uma alma leve, generosa e cheia de amor.

A voz baixa, o olhar sereno e os passos tranquilos pelos corredores da PUC sempre foram inconfundíveis. O sorriso meigo trazia a luz presente em sua alma e que nela não cabia, então era preciso partilhar.
Adélia de Carvalho deixa em nós todas e todos que com ela convivemos, a dor da partida, mas também a alegria pela dádiva da convivência.

Ela fica entre nós, pela lembrança de sua pessoa, sempre suave e amorosa e pela vasta obra de arte que deixa como legado.

Os cartões de Natal do CESEEP, sempre tiveram sua arte como ilustração e inspiração e, no Curso de Verão, deixou, nesses anos todos, a beleza de cada quadro ou painel, como produção individual ou coletiva.

Registre-se aqui a GRATIDÃO imensa por toda a sua generosa contribuição ao Curso de Verão e a cada uma e cada um que com ela conviveu.
Deus a acolha em sua glória!

 

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Gostaria de focalizar, por uns instantes, a colaboração de ‘artistas da caminhada’, especificamente de Domingos Sávio e Adélia de Carvalho, nos trabalhos do Centro de Estudos da História da Igreja na América Latina (Cehila). Copio um texto que escrevi em 2015 a esse respeito: ‘O Cehila só será plenamente Cehila, quando estiver em diálogo contínuo com a cultura popular. Fomos eclesiásticos, hoje somos universitários. Um dia, seremos ‘populares’? Isso dependerá de nossa capacidade de tocar os instrumentos culturais do povo e de fazer com que as pessoas do povo reconheçam seu próprio rosto na arte criada pelo Cehila. Como escreveu o teólogo Hans Urs von Balthasar: ‘Deus entre no homem pelos sentidos, pela beleza e pela arte, não por abstrações nem por lógica. Penso que os ‘artistas da caminhada’ abriram uma senda nessa direção.

 

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No já mencionado Encontro de 2015, em Belo Horizonte, Adélia de Carvalho apresentou sua pintura Ameríndia. Nela representa, por meio de uma proliferação de símbolos, a história de cinco séculos de cristianismo no  continente ameríndio e as esperanças que o povo latino-americano nutre. Copio aquí essa pintura, que merece ser vista com atenção.

 

Há a verticalidade do tradicional simbolismo cristão medieval: o céu desce à terra. Desce o Cordeiro de Deus;  desce, em cima do corpo de Ameríndia, o bico agudo de um  pássaro (será o Espírito Santo? É ele que dará vida ao embrião?).

Em torno de Ameríndia, tudo é problemático. As bandeiras dos Estados Unidos, da China e do Brasil flutuam no alto; a caravela de Cristo derrama sangue na cabeça do indígena; aparece a favela pobre na periferia da cidade altiva;  esgotos e crânios; crianças inocentes morrendo na violência das ruas; o prato de comida vazio; ‘retirantes’ em busca de nova vida na cidade grande; o labor na cana de açúcar dos engenhos.

 

Mas a Ameríndia está grávida. Plumas indígenas, cajus, flores, fogo novo. Vai nascer a criança, um novo mundo aparecerá. Viagens para as estrelas. Uma nova terra e um novo sol.

 

 

domingo, 14 de agosto de 2022

TRÊS MARCELOS

 Marcelo Mário de Melo


 

Três Marcelos se encontram

em uma celebração

onde se faz homenagem

a esse grande cristão

que é Reginaldo Veloso 

companheiro-amigo-irmão.

 

Reginaldo já se foi

mas sempre estará presente

nas pregações no exemplo

nas dores que o povo sente

no compromisso e na luta

por um mundo diferente.

 


Mas agora estão eles

os três Marcelos unidos

regando o mesmo sonho

seremos e decididos

por justiça e liberdade

para todos oprimidos.

 

Dois cristãos e um.ateu

lavrando do mesmo lado

pela vida em abundância

segundo foi proclamado

pelo companheiro Jota

por todos admirado.

 

Marcelo Barros é monge

teólogo e escritor

e Marcelo Santa Cruz

que já foi vereador

é advogado testado

junto ao povo sofredor.

 

O ateu dessa trindade

Marcelo Mário de Melo

juntando Marx e Cristo

com os outros dois faz elo

seguindo assim os três juntos

vermelhando o amarelo.

 

O M de mundo e mais

o M massa e misturas

o M modos e meios

o M contra amarguras

o M sem tirania

o M das criaturas.

 

Os três Marcelos Unidos

seguindo esse ideário

pela escola da vida

buscando o itinerário

para juntar todas letras

no alfabeto libertário.

sábado, 13 de agosto de 2022

A saga da Amazônia

 Prof. Martinho Condini


 

Caras amigas e amigos, desde do assassinato de Bruno Pereira e Dom Philips, muito já se falou sobre os problemas na Amazônia, bem como o descaso com que a Carniça desse atual desgoverno trata as questões relacionada ao desmatamento, reservas indígenas, garimpeiros ilegais e grileiros.

Sabemos que estão distantes as resoluções e soluções para os problemas amazônicos, mas devemos acreditar que as mudanças são possíveis, desde que haja vontade política para que isso ocorra, é claro. Não é o caso atualmente, apesar de haver milhares de pessoas do bem imbuídas no processo de preservação de tudo que compõe o ecossistema da imensa região amazônica.   

Diante desse contexto conhecido por vocês, não quero ser repetitivo, mas apenas fazer uma justa homenagem a esses dois ativistas, por meio da letra da belíssima canção composta em 1984, pelo cantor e compositor baiano de Vitória da Conquista, Elomar Figueira Mello, também conhecido como o “Menestrel das Caatingas”.

  Acredito que através das manifestações artísticas, neste caso a poesia e a música, os artistas fazem o seu ativismo, e conseguem atingir os ouvidos e corações de todas as pessoas sensíveis às causas sociais, ambientais e raciais que afligem o nosso país desde sempre. Mas um dia há de mudar, afinal de contas, “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”, como nos lembra o mestre Paulo Freire.

Espero que essa poesia nos mantenha alerta, porque neste Brasil a luta por justiça e igualdade social e racial é permanente. Estou convencido que cada cidadão está nessa luta a sua maneira, com a sua leitura de mundo e compreensão ética da realidade em que está inserido.

Boa sorte amigas e amigos e “ninguém solta a mão de ninguém”. 

 

Saga da Amazônia

 

Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta

Mata verde, céu azul, a mais imensa floresta

No fundo d'água as Iaras, caboclo lendas e mágoas

E os rios puxando as águas

Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores

Os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores

Sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir

Era fauna, flora, frutos e flores

Toda mata tem caipora para a mata vigiar

Veio caipora de fora para a mata definhar

E trouxe dragão de ferro, pra comer muita madeira

E trouxe em estilo gigante, pra acabar com a capoeira

Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar

Pra o dragão cortar madeira e toda mata derrubar

Se a floresta meu amigo, tivesse pé pra andar

Eu garanto, meu amigo, que o perigo não tinha ficado lá

O que se corta em segundos gasta tempo pra vingar

E o fruto que dá no cacho pra gente se alimentar?

Depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar

Igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar

Mas o dragão continua na floresta a devorar

E quem habita essa mata, pra onde vai se mudar?

Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá

Tartaruga, pé ligeiro, corre, corre tribo dos Kamaiurá

Mas o dragão continua na floresta a devorar

E quem habita essa mata, pra onde vai se mudar?

Corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá

Tartaruga, pé ligeiro, corre, corre tribo dos Kamaiurá

No lugar que havia mata, hoje há perseguição

Grileiro mata posseiro só pra lhe roubar seu chão

Castanheiro, seringueiro já viraram até peão

Afora os que já morreram como ave de arribação

Zé de Nana tá de prova, naquele lugar tem cova

Gente enterrada no chão

Pois mataram o índio que matou grileiro que matou posseiro

Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro

Roubou seu lugar

Pois mataram o índio que matou grileiro que matou posseiro

Disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro

Roubou seu lugar

Foi então que um violeiro chegando na região

Ficou tão penalizado e escreveu essa canção

E talvez desesperado com tanta devastação

Pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção

Os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa

Dentro do seu coração

Foi então que um violeiro chegando na região

Ficou tão penalizado e escreveu essa canção

E talvez desesperado com tanta devastação

Pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção

Os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa

Dentro do seu coração

Aqui termina essa história para gente de valor

Pra gente que tem memória, muita crença, muito amor

Pra defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta

Era uma vez uma floresta na linha do Equador