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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

OBAMA: UMA VITÓRIA DAS MINORIAS


por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER

            Há quatro anos o mundo parou para ver algo impensado: a entrada de um negro na Casa Branca, sede da presidência dos Estados Unidos.  E não entrando pela porta dos fundos ou da cozinha.  Mas como presidente eleito pela maioria dos estadunidenses, a fim de governá-los por quatro anos consecutivos.

            Naquela ocasião, após torcer e rezar durante meses, eu escrevi aqui que “Black is beautiful” e que o rosto da maior potência do mundo havia mudado radicalmente naquela ocasião histórica. A força do símbolo alargava os pulmões e dilatava os espaços interiores.  E era possível acreditar que o novo abria caminho onde o mesmo e o continuísmo pareciam instalados para sempre.  Era possível acreditar na liberdade do ser humano que escolhe, que opta, que decide e  consegue manter-se imune às coações de qualquer tipo.

            Agora, quatro anos depois, o sentimento e a expectativa foram os mesmos, senão maiores.  A campanha foi dura, sofrida, apertada.  Primeiro debate perdido, ataques contínuos que se repetiam.  O olhar preocupado de Michelle perscrutando o rosto cansado do marido trazendo maus presságios. E os números, os números.  As percentagens mínimas fazendo diferenças que pareciam enganosas e davam mais medo que esperança.  O furacão Sandy abatendo-se sobre Nova York, acabando com a eletricidade, deixando os eleitores isolados e sem poder votar.

            Mas quando a contagem começou, o alívio tomou conta dos corações e pulmões.  E Obama subiu mais uma vez no palanque de Chicago para dar “forward” – adiante! Para a frente! - nas expectativas de milhões de cidadãos que confiaram nele e apostaram na continuidade de seu governo.

            Escolha mais importante porque mais consciente essa de agora do que a de quatro anos atrás.  Verdadeira eleição no sentido de escolha de uma opção para deixar de lado as outras.  Os estadunidenses agora já conhecem seu presidente.  Para o bem e para o mal.  Alegraram-se com seu carisma e inteligência, e com a harmonia transmitida por sua relação com a esposa e a família.  Comemoraram algumas das magras conquistas que conseguiu sob as mais diversas pressões.

            Igualmente decepcionaram-se com o que pareceu ser sua pouca firmeza quanto a questões espinhosas como a saúde pública e a volta das tropas do Oriente Médio. Nem todos terão apreciado a maneira como foi capturado e morto Osama Bin Laden. Ou as posições do presidente sobre o aborto.  E sobre o matrimonio gay.

            No entanto, alguns destes, muitos votaram nele.  Porque reconheceram que apesar de todas as decepções a outra escolha seria nitidamente pior.  Escolheram dar a Barack Obama a oportunidade de levar adiante o positivo trabalho de governo iniciado e que precisa de tempo para amadurecer.

            E apesar de todas as pressões, os ataques, as incertezas, deram seu voto ao presidente negro, que ficará mais quatro anos na Casa Branca. E os que votaram e os que acompanharam de longe esta eleição que influi nos destinos de todos os habitantes do planeta continuam torcendo e rezando.

            Ficam esperando, sobretudo que o olhar de Obama se volte para aqueles que novamente o colocaram onde está por quatro anos mais.  Ele sabe que não foi eleito pelos brancos WASP.  Foi eleito pelas minorias: pelos latinos, que desejam não sofrer mais com deportações injustas; pela comunidade afro-americana, que reitera seu apoio a esse que é de sua raça; pelas mulheres, que seguramente gostaram de vê-lo ao lado de Michelle e apostaram no novo que ele traz; pelos jovens,  que são a esperança de um país que tem tão tremendo potencial, mas ao mesmo tempo tão imensas dificuldades em levar adiante sua utopia livre e democrática.

            Espera-se que Obama governe para as minorias  que, na verdade, já se tornam maioria, como demonstra sua eleição.  Espera-se que o presidente reeleito mostre ao mundo que os EUA de hoje não são mais a terra do Kukluxklan, do enriquecimento irresponsável e do preconceito contra outras culturas e raças.

            A América para os americanos, dizia um velho refrão branco.  Agora, com a reeleição de Obama isso se repete.  Com a diferença de que sabemos quem são os americanos: são os latinos, os afrodescendentes, as mulheres, os jovens, os “diferentes” de todo tipo que mudaram o rosto desse país continente tão fascinante, mas tão conflitivo e contraditório. Para eles e com eles espera-se que aconteça o segundo governo de Obama.


Maria Clara Bingemer é autora de "Secularização: novos desafios"  (Editora da PUC)

http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br


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NEGRITUDE E SOCIEDADE


por MARCELO BARROS


As comemorações do 20 de novembro, dia de união e consciência negra e os eventos dessa semana de valorização da negritude  são importantes não apenas para as pessoas que se definem como de raça e cultura afrodescendente, mas para toda a sociedade brasileira. Embora em nosso país, toda expressão de racismo seja considerada crime grave e imprescritível, ainda há muito por fazer para retirar da memória cultural dos brasileiros o preconceito e a discriminação racial, heranças da escravidão, abolida oficialmente, mas, na prática, mantida em relações de trabalho injustas e em uma estratificação social rígida e impiedosa. O racismo e a discriminação social não fazem bem a ninguém e não ajudam a criar um mundo mais justo e feliz. Ao contrário, trazem dor e violência tanto para as vítimas da injustiça, quanto para os que a praticam e ainda para os que com esse tipo de prática são coniventes. 

O Brasil é um dos países mais negros do mundo. De acordo com o censo de 2010, voluntariamente 50, 7 da população se declarou negra, o que significa mais da metade dos brasileiros. Infelizmente, a maioria desses irmãos e irmãs ainda representa a parte mais empobrecida da população brasileira. Em todo o Brasil, jovens negros são mais vítimas da violência estrutural de cada dia do que qualquer outra faixa da população. A maioria dos assassinatos atinge a população negra. Por isso, são importantes as medidas para integrar e dar igual direito de cidadania social e política aos afrodescendentes. 

Há duas décadas, várias cidades brasileiras consagram o 20 de novembro, aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares, como feriado municipal e todo o país celebra o dia consagrado à união e consciência negra. Toda essa semana é coroada com eventos sobre a imensa contribuição das raças negras na história e na construção das culturas formadoras do Brasil de hoje. 

A Constituição de 1988 garante o direito das comunidades negras e remanescentes de quilombos à posse de suas terras ancestrais e à manutenção de sua cultura própria. Conforme cálculos do governo, existem hoje no Brasil cerca de 2.842 comunidades quilombolas. São verdadeiras repúblicas de homens e mulheres livres, formadas por descendentes de escravos, fugidos do cativeiro e de alguns índios e brancos que decidiram viver solidariamente com eles. Estes quilombos espalham-se por quase todos os estados do país e são símbolos da resistência dos pequenos. Servem de modelos como comunidades verdadeiramente solidárias. Entretanto, ainda faltam leis complementares para por em prática à Constituição que, quando não favorece à elite, é facilmente esquecida.  Por outro lado, há iniciativas no Congresso que visam anular o prescrito na Constituição federal e dar poder aos estados de retirar quilombolas e indígenas de suas terras ancestrais.
Todos nós, brasileiros, temos responsabilidade social, junto com o governo, de trabalharmos por um país mais igualitário e justo. A manutenção das religiões ancestrais e de expressões culturais negras, mantidas vivas de geração em geração, têm sido instrumentos importantes para a unidade dessas comunidades e para garantir uma mais profunda consciência da dignidade dos seus membros. Para os cristãos, um valor central que a Bíblia aponta é a consciência da cidadania de todos os seres humanos, como filhos e filhas de Deus e cidadãos do seu reino. Essa revelação divina pode ser encontrada, como valor intuído e praticado nas comunidades afrodescendentes. Paulo escreveu que onde há aspiração e luta pela liberdade, aí está presente e atuante o Espírito Divino (Cf. 2 Cor 3, 16. Que esse aniversário do martírio do Zumbi confirme e reavive em todos nós o caminho de comunhão e partilha!


DESAFIOS DAS NOVAS FORMAS DE COABITAÇÃO




por LEONARDO BOFF
A mobilidade da sociedade moderna abriu espaço para várias formas de coabitação. Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitação e uniões-livres) que se formam consensualmente fora do marco institucional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal.

A introdução do divórcio deu lugar a famílias unipessoais (a mãe ou o pai com os filhos/filhas) ou multiparentais (com filhos/filhas provenientes de matrimônios anteriores); surgiram também as uniões entre homoafetivos (homens e mulheres) que, em vários países, ganharam um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.

Procuremos entender um pouco melhor estas formas novas de coabitação. Um especialista brasileiro, Marco Antônio Fetter, o primeiro entre nós a criar a Universidade da Família com todos os graus acadêmicos, assim define: ”a família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”(cf.www.unifan.com.br).

A família conheceu grande transformação com a introdução dos preservativos e dos anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, a despeito da oposição de várias Igrejas.
A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, por tais meios e pelo planejamento familiar fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos/filhas deixam de ser consequência fatal de uma relação sexual mas são queridos de comum acordo.

A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são propriamente matrimônio. Expressão disso são as uniões consensuais e livres sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos.

Tais práticas, por novas que sejam, nomeadamente entre homoafetivos, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, ocorre algo que tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1Jo 4,12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações. Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e colocá-los também diante de Deus. Se as pessoas assumem a relação com responsabilidade não selhes pode negar relevância espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a fidelidade e a estabilidade que são bens de toda relação entre pessoas. O núcleo imutável da família é o afeto, o cuidado de um para com o outro e a vontade de estar junto, estando também abertos, quando possível, à procriação de novas vidas.

Se assim é, cabe considerar então, para além do caráter institucional da família, especialmente seu caráter relacional. Importa ver o complexo jogo de relações que se realiza entre os parceiros. Nestas relações é que está a vida, emergem as expressões de amor, de fidelidade, de encontro e de felicidade, numa palavra, aparece o lado permanente. O lado institucional é socialmente legítimo e assume as mais diferentes formas consoante as culturas, romana, céltica, chinesa, indiana etc.

Estudos transculturais revelaram que se o capital social familiar se apresenta alto e sadio dá origem a uma maior confiança no próximo, há menos violência e mais participação social. Quando este capital social familiar vai se diluindo, lentamente emergem crises e desfaz-se a relação afetiva.
A questão é superarmos certo moralismo que não ajuda a ninguém; prejulga as várias formas de família ou de coabitação, a partir de uma específica, e que nos faz perder os valores, por certo, ai presentes, vividos com sinceridade diante de Deus.

O significado maior da doutrina da Igreja sobre a família é recalcar os valores humanos e morais que ai se devem viver. Assim o faz, por exemplo, a Carta Apostólica Familiaris Consortio (1981) e a Carta às Famílias (1994) de João Paulo II. Em ambos os documentos, enfaticamente se afirma que “a família é uma comunidade de pessoas, fundada sobre o amor e animada pelo amor, cuja origem e meta é o divino Nós”.

Na Familiaris Consortio predomina, curiosamente, a dimensão relacional sobre a institucional. Define-se a família “por um complexo de relações interpessoais – relação conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na família humana”.

Que seria da família e dos parceiros se não ardesse neles as relações intersubjetivas de afeto e de cuidado, a linguagem do encantamento e do sonho? Sem esse motor que continuamente anima a caminhada, sem esse nicho de sentido, ninguém suportaria as dificuldades inerentes a toda relação intersubjetiva, nem as limitações da condição humana.

São estes valores que abrem a família para além dela mesma. O sonho mesmo é que a partir dos valores da família, em suas diferentes formas, surja a família-escola, a família-trabalho a família-comunidade, a família-nação e a família-humanidade, para se chegar enfim, à família-Terra, trampolim derradeiro para a família-Deus.

Leonardo Boff é autor de São José: o pai numa sociedade sem pai, Vozes 2005.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

ELOGIO DE BOTECO


pot LEONARDO BOFF


Em razão do meu “ciganismo intelectual” falando em muitos lugares e ambientes sobre um sem número de temas que vão da espiritualidade, à responsabilidade socioambiental e até sobre a possibilidade do fim de nossa espécie, os organizadores, por deferência, costumam me convidar para um bom restaurante da cidade. Lógico, guardo a boa tradição franciscana e celebro os pratos com comentários laudatórios. Mas me sobra sempre pequeno amargor na boca, impedindo que o comer seja uma celebração. Lembro que a maioria das pessoas amigas não podem desfrutar destas comidas e  especialmente os milhões e milhões de famintos do mundo. Parece-me que lhes estou roubando a comida da boca. Como celebrar a generosidade dos amigos e da Mãe Terra,  se, nas palavras de  Gandhi,”a fome é um insulto e a forma de violência mais assassina que existe?”

É neste contexto que me vem à mente como consolo os botecos. Gosto de freqüentá-los, pois aí posso comer sem má consciência. Eles se encontram em todo mundo, também nas comunidades pobres nas quais, por anos, trabalhei. Ai se vive uma real democracia: o boteco ou o pé sujo (o boteco de pessoas com menos poder aquisitivo) acolhe todo mundo. Pode-se encontrar lá tomando seu chope um professor universitário ao lado de um peão da construção civil, um ator de teatro na mesa com um malandro, até com um bêbado tomando seu traguinho. É só chegar, ir sentando e logo  gritar: “me traga um chope estupidamente gelado”.

O boteco é mais que seu visual, com  azulejos de cores fortes, com  o santo protetor na parede, geralmente um Santo Antônio com o Menino Jesus, o símbolo do time de estimação e as propagandas coloridas de bebidas. O boteco é um estado de espírito, o lugar do encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida, da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos. Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.

Ninguém repara nas condições gerais do balcão ou das mesinhas. O importante é que o copo esteja bem lavado e sem gordura senão estraga o colarinho cremoso do chope que deve ter uns três dedos. Ninguém se incomoda com o chão e o estado do banheiro.

Os nomes dos botecos são os mais diversos, dependendo da região do pais. Pode ser a Adega da Velha, o Bar do Sacha, o boteco do Seo Gomes, o Bar do Giba, o Botequim do Jóia, o Pavão Azul, a Confraria do Bode Cheiroso, a Casa Cheia e outros. Belo Horizonte é a cidade que  mais botecos possui, realizando até, cada ano, um concurso da melhor comida de boteco.

Os pratos também são variados, geralmente, elaborados a partir de receitas caseiras e regionais: a carne de sol do Nordeste, a carne de porco e o tutu de Minas. Os nomes são ingeniosos:” mexidoido chapado”, “porconóbis de sabugosa”, “costela de Adão” (costelinha de porco com mandioca), “torresminho de barriga”. Há um prato que aprecio sobremaneira, oferecido no Mercado Central de Belo Horizonte e que foi premiado num dos concursos:”bife de fígado acebolado com jiló”. Se depender de mim, este prato deverá constar no menu do banquete do Reino dos céus que o Pai celeste vai oferecer aos benaventurados.

Se bem repararmos, o boteco desempenha uma função cidadã: dá aos freqüentadores especialmente aos mais assíduos, o sentimento de pertença à cidade ou ao bairro. Não havendo outros lugares de entretenimento  e de lazer, permite que as pessoas se encontrem, esqueçam seu status social e vivam uma igualdade, geralmente, negada no cotidiano.

Para mim o boteco é uma metáfora da comensalidade sonhada por Jesus, lugar onde todos podem sentar à mesa e celebrar o convívio fraterno e fazer do comer, uma comunhão. E para mim, é o lugar onde posso comer sem má consciência.