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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

AS MUITAS RAZÕES PARA VOTAR EM DILMA



Por Leonardo Boff

Reconhecendo os percalços e erros que houve nos últimos 12 anos do governo de Lula-Dilma e vendo os esboços de projetos políticos apresentados pelos partidos de oposição, estou convencido de que o projeto liderado pelo PT com Dilma é ainda o mais adequado para o Brasil. Só por isso já meu voto vai para Dilma Rousseff.

Mas tenho outras razões a serem ponderadas.

A primeira delas se trata de algo de magnitude histórica inegável. A partir de 2002 com Lula e seus aliados ligados às bases da sociedade, fez-se, pela primeira vez, uma revolução democrática e pacífica no Brasil. Importa dizer claramente: o que ocorreu não foi apenas uma alternância de poder, mas a alternância de classe social. As classes dominantes que ao longo de toda a história ocuparam o Estado, garantindo mais seus privilégios do que os direitos de todos, foram apeadas do Estado e de seus aparelhos. Um representante das classes subalternas, Lula, chegou a ser Presidente. E realizou uma verdadeira revolução no sentido que Caio Prado Jr. deu em seu clássico A Revolução Brasileira (1996): revolução significa “transformações capazes de atender as aspirações das grandes maiorias que nunca foram atendidas devidamente; revolução que leva a vida do país por um novo rumo”.

Não podemos negar que milhões viram suas aspirações atendidas e que hoje o rumo do Brasil é outro. Pode não ser do agrado das classes dominantes que foram derrotadas pelo voto. De um Estado neoliberal e privatista que se alinhava ao neoliberalismo dominante, passamos a um Estado republicano, Estado que coloca a res publica, a coisa pública, o social no foco de sua ação, Daí a centralidade que o governo Lula-Dilma deu aos milhões que estavam secularmente à margem e que foram – são 36 milhões – inseridos na sociedade organizada.

Esta conquista histórica não podemos perdê-la. Há que consolidá-la e aprofundá-la. Os que antes comiam caviar tem que se acostumar a comer carne de sol ou baião de dois.

Para consolidar esta revolução é que voto em Dilma.

A segunda razão consiste em garantir as duas revoluções que ocorreram: uma rumorosa e outra silenciosa. A rumorosa foram as muitas políticas sociais que são do conhecimento geral. Estas ficaram visíveis nas multidões que começaram a usufruir daqueles benefícios mínimos de uma sociedade moderna. Tal fato correu mundo e serviu de ponto de referência para outros paises. Quantas vezes, andando nos meios populares, ouvi a frase: “O PT pensa nos pobres” Não só pensa nos pobres mas faz para os pobres e mais ainda, na linha de Paulo Freire, faz com os pobres. Mas houve tambem uma revolução silenciosa: as várias universidades federais criadas em todo o pais e as dezenas de escolas técnicas e cursos profissionalizantes que habilitaram mihões de pessoas. Essa política de educação deve ainda ser estendida, multiplicada e ganhar qualidade. Por esta razão meu voto vai para Dilma.

Uma terceira razão é o crescimento com a multiplicação de empregos. É verdade que o nosso crescimento é pequeno mas nunca se manteve o desemprego a níveis tão baixos, 5,5% dos trabalhadores. No mundo, dada a crise neoliberal, existem cerca de 400 milhões de desempregados; só na zona do euro são 102 milhões em países   com nenhum ou com irrisório crescimento.
De forma vergonhosa, a Inglaterra para aumentar seu PIB incluiu nele  o tráfico de drogas e a prostituição, ganhando assim 37 bilhões de dólares a mais (veja o The Guardian de 29 de maio de 2014).

Nossa geração viu cair dois muros, o de Berlim em 1989 e o de Wall Street em 2008. Resistimos às duas quedas: não perdemos os ideais do socialismo democrático nem tivemos que desempregar e renunciar às políticas públicas. Os salários nesses 12 anos subiram 70% acima da inflação. Por isso minha preferência é por Dilma.

Um quarta razão: em alguns estratos do PT houve corrupção. Esta não vem de agora mas de muito antes. Há que reconhecê-la rejeitá-la e condená-la Mas jamais, em nenhum momento se acusou a Presidenta Dilma de corrupta. Nem nunca ela aceitou aprovar projetos que fossem danosos ao povo brasileiro. Sempre foi fiel ao povo, point d’honneur de sua gestão.

Lutaremos para vencer. Não para vencer simplesmente. Mas para consolidar o que já se ganhou, avançar e aprofundar em muitos pontos, especialmente, naqueles que foram gritados nas ruas em junho de 2013. Resumindo ai se pedia: queremos uma democracia participativa, na qual os movimentos sociais possam ajudar a discutir, pensar e decidir os melhores caminhos especialmente para os mais vulneráveis. Isso implica melhor educação, mais saúde, transporte decente, saneamento, cultura onde o povo possa mostrar o que sabe e participar do que se faz nas várias regiões do Brasil.

Temos que avançar na redução da desigualdade, na sustentabilidade ambiental, na reforma agrária, no proteção das terras indígenas e na cultura em todas as suas expressões. Pela cultura se supera a mentalidade meramente consumista e materialista e se cria o espaço para aquilo que só o ser humano pode realizar: criatividade nas artes, na música, no teatro, no cinema, nas letras e em outros campos em que a cultura se expressa. Na cultura se revela mais claramente a alma de um povo. Estou seguro que Dilma acatará esses pontos. Para que isso aconteça com mais segurança voto em Dilma.

Por fim, estamos assistindo ao alvorecer de uma nova civilização biocentrada, quer dizer, que coloca a vida no centro, a vida humana, a vida da natureza e a vida da Mãe Terra, à qual devem servir a economia, a política e a cultura. O Brasil tem todas as condições de ser um dos primeiros a inaugurar esta nova fase da história. Com Dilma será mais fácil percorrer esse caminho. Por isso voto em Dilma na esperança de que seja o mais certo e seguro  para o futuro do povo brasileiro.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

NEM SACRIFÍCIOS NEM OBLAÇÕES: DESTE-ME UM CORPO




por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



      Nas  sociedades ocidentais, pensa-se normalmente que o corpo humano é um objeto  relevante apenas para as áreas do saber da biologia ou da fisiologia, por  exemplo, e que sua realidade material deve ser pensada de maneira  independente das representações sociais ou da preocupação das ciências  humanas. Por causa da longa tradição filosófico-religiosa da separação da  alma e do corpo, este último afastou-se do campo do conhecimento objetivo,  enquanto a apreensão do psiquismo estaria submetida à flutuação das  representações. Ora, os trabalhos antropológicos, assim como os filosóficos  e teológicos, apresentam uma extrema variedade de concepções do corpo  segundo as diferentes sociedades, de seu tratamento social, sua relação com  o outro e com o mundo.

         A teologia  encontrará na Bíblia as orientações que ensinarão como se deve entender o  corpo e regular a relação com ele. Os  livros do Primeiro  Testamento nos colocam diante da visão semita, que compreende o ser  humano como corpo animado pelo espírito de Deus, mas também percebe esta  corporeidade existencial conspurcada pelas muitas situações de conflito e  violência que perpassam a história da humanidade, que não é outra senão a  mesma história da salvação.
 

Assim, nestes textos, criação, bondade,  fecundidade, cuidado e bênção se misturam com atração pelo sexo oposto, que  é gozo e realização ao mesmo tempo que desvio, deturpação, excesso, ciúme,  maldição, traição etc., que resultam em violência, com assassinato, coerção,   segregação, mentira, desrespeito.
 

Ao olhar para o Novo  Testamento, percebemos que a experiência e a reflexão teológica no  cristianismo são experiência e reflexão teológica sobre um Deus encarnado.   Fora deste dado central e absolutamente necessário, não há  cristianismo.  Não havendo encarnação, não há a possibilidade de Deus  assumir todas as coisas por dentro e viver a história passo a passo, por  assim dizer “na contramão” de sua eternidade.  Não havendo encarnação,  não há cruz, não há redenção, não há salvação.  Não há, portanto,  aliança entre a carne e o Espírito.


Confessar com a boca e o coração  que o Verbo se fez carne e o Espírito foi derramado sobre toda carne implica  buscar a experiência e a união com o Deus que assim determina comunicar-se  com a humanidade através desta carne na qual é possível experimentá-Lo.  Desde aí somente é possível começar a reflexão sobre a corporeidade humana  sexuada e pensar igualmente sua conflitiva interlocução com a violência.
  

        O  corpo humano está no centro da revelação cristã, no momento em que se trata  de algo que foi assumido pelo próprio Deus, na Encarnação de seu Filho Jesus  Cristo.  A Encarnação do Verbo, que toma corpo humano e habita entre  nós, embora carregue consigo uma forte dimensão kenótica e humilhante, de  acordo com as palavras do hino da Carta aos Filipenses, por outro lado eleva  e engrandece a corporeidade humana, resgatando-a de uma vez para sempre,  pois a divindade a abraça por  dentro.


          Com  a vinda do Espírito Santo, a corporeidade humana redescobre novas dimensões  de si própria, que vêm completar a revelação que Jesus Cristo dela faz.   Percebendo-se semelhantes a Jesus de Nazaré encarnado, vivo e morto,  os discípulos da comunidade cristã primeva percebem-se igualmente destinados  a uma ressurreição semelhante à sua, onde o corpo humano, semeado  corruptível, ressuscitará  incorruptível.


         O  Espírito na Bíblia, porém, está sempre estreitamente vinculado ao corpo.   Não se trata de uma força etérea que leve o ser humano a ultrapassar a  barreira do tempo, do espaço e, sobretudo, da corporeidade e da espessura do  real. O Espírito tende para o corpo: esta é a realidade revelada através dos  textos do Primeiro Testamento, quando o Espírito de Deus cria mundos a  partir do nada, transforma desertos em jardim, ossos secos em militante  exército e engravida ventres estéreis.
 

         Nessa  vinda de Deus ao nosso encontro, o Espírito entra na violência do mundo, das  parcialidades, das relações conflitivas e entrecortadas, das intempéries,  das catástrofes, das carências de sentido.

Habitando na corporeidade  humana, o Espírito faz do ser humano seu templo, sua morada. O Cristianismo  traz, entre as grandes novidades que introduz na história da humanidade, o  fato de o eixo do Sagrado ser deslocado do Templo, lugar de culto e de  oração tradicional, para o ser humano, para a corporeidade humana, para a  carne.

         Portanto,  não é necessário multiplicar ritos e sacrifícios para agradar ao Senhor.   Basta o nosso corpo, onde Ele habita, oferecido e disponível para o  projeto de Seu Reino.



Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do  Departamento de Teologia da PUC-Rio Autora de "Simone Weil - A força e a  fraqueza do amor” (Ed.  Rocco).         

Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O BRASIL E O MUNDO HOJE



Frei Betto


      O diagnóstico da ONU sobre a “saúde” do mundo se chama IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. Divulgado a 24 de julho, abarca 187 países. O Brasil ficou em 79º lugar. Melhorou, mas ainda anda mal das pernas.

      Na América Latina, quatro países ocupam melhor posição que o Brasil: Chile (41º), Cuba (44º), Argentina (49º) e Venezuela (67º). E não dá para acusar a ONU de esquerdista...

      No mundo, os cinco melhores colocados são, pela ordem: Noruega, Austrália, Suíça, Holanda e EUA.

      O diagnóstico reconhece que o Brasil avançou em quase todos os quesitos, mas tropeçou na educação. E aplaude o Bolsa Família, o aumento de consumo das classes de baixa renda, o avanço do emprego e a redução das disparidades raciais graças ao sistema de cotas nas universidades.

      O governo federal não gostou do que ouviu. Alega que a saúde do Brasil está bem melhor. Mereceria o 67º lugar, empatado com a Venezuela. A ONU é que teria se baseado em dados ultrapassados.

      O IDH tem por objetivo indicar o calcanhar de Aquiles, os pontos vulneráveis de cada país, de modo a evitar retrocessos sociais.

      Nós, brasileiros, segundo a ONU, temos 7,2 anos de escolaridade. O governo diz que são 7,6. Ainda assim é pouco, considerando que no Chile e na Argentina a frequência à escola é de 9,8 anos e, em Cuba, 10,2, o melhor índice da América Latina.

      Nossa expectativa de vida é de 73,9 anos. Para o governo, 74,8 anos. Na década de 1980, não passava de 64 anos. Esse prolongamento de vida se deve à redução da mortalidade infantil, às políticas de direitos sexuais e reprodutivos, à ampliação do atendimento de emergência em hospitais e ao Programa Mais Médicos, que atua sobretudo na prevenção.

      Se o balanço da ONU considerasse a desigualdade social, o Brasil figuraria na 95ª posição. Embora este fosso  tenha diminuído na última década, aqui os 10% mais ricos detêm 42% da renda. E 1% destes possui renda 87 vezes superior à dos 10% mais pobres.

      A ONU alerta que dos 7 bilhões de habitantes da Terra, 2,2 bilhões vivem na pobreza, dos quais 1,2 bilhão sobrevivem na miséria, com renda mensal de, no máximo, R$ 80. No Brasil, 6 milhões de pessoas são muito pobres.

      O nó que ainda impede o nosso país de avançar no placar da ONU é a educação. Embora quase todas as crianças cursem o ensino fundamental, faltam creches e é grande a evasão no ensino médio. A escola particular é cara e a pública, de má qualidade, com professores que trabalham muito e ganham pouco. E o que esperar de um aluno que fica apenas quatro horas por dia na escola? Ensino básico de qualidade só se consegue com tempo integral.

      Como cada um de nós pode ajudar o Brasil a melhorar seu IDH? Temos em mãos uma boa ferramenta para isso: o voto, dia 5 de outubro. São as políticas sociais adotadas pelo governo que fazem um país melhorar ou piorar. E o governo é integrado por homens e mulheres eleitos pelo nosso voto.

Frei Betto é escritor, autor da obra infantil “Começo, meio e fim” (Rocco), entre outros livros
  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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terça-feira, 16 de setembro de 2014

EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DO DIÁLOGO



Por Marcelo Barros

 Como a ONU instituiu o 08 de setembro como dia internacional da alfabetização, toda a semana passada foi consagrada à educação e a busca de novos meios para erradicar o analfabetismo. Conforme os mais recentes dados do IBGE, no Brasil atual, ainda existem 13 milhões de brasileiros/as de mais de quinze anos que são analfabetos. Além deles, existem os chamados “analfabetos funcionais” que, apesar de saberem ler, não se apropriaram ainda do direito de compreender o que leem, escrever o quiserem e ter sua voz e vez na sociedade. Todo esse assunto nos faz recordar o imenso legado de  Paulo Freire, com o seu método revolucionário de alfabetização de adultos e suas propostas novas de educação. Conforme esse grande educador, a educação é o processo que nos torna mais humanos. Alfabetizar não é apenas ensinar o ABC, mas possibilitar a todas as pessoas a participação cidadã na sociedade.  

De fato, nascemos todos autocentrados. Estamos todos permanentemente sujeitos às influências nocivas que satisfazem o nosso ego e tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. Daí a necessidade de uma educação profunda da consciência e da sensibilidade das pessoas e das coletividades. Eric Fronn, psicólogo americano, insistia que o amor é objeto de aprendizagem. Um de seus livros se chama: “A arte de amar”. Para aprendermos a amar, são necessárias práticas educativas que infundam valores altruístas, gestos solidários, ideais sociais pelos quais a vida ganha sentido e as relações humanas se tornam verdadeira comunicação. Só se pode chamar de verdadeira educação o processo que forma seres humanos mais felizes, dotados de consciência crítica, participantes ativos do desafio permanente de aprimorar os sistemas sociais e políticos no sentido do amor solidário, da igualdade social e da justiça. A tarefa da educação é suscitar nas pessoas o espírito crítico e a militância transformadora para construirmos um mundo novo possível. Caminhar nesse sentido implica vencer alguns desafios da atual conjuntura. O primeiro deles é superar o avassalador processo neoliberal de desistorização da história. Sem perspectiva histórica não há consciência nem projetos políticos. O filósofo alemão Theodor Adorno afirmava que o desafio mais urgente da educação é desbarbarizar a sociedade. Ele compreendia por barbárie uma sociedade que, de um lado, se encontra em um alto grau de desenvolvimento tecnológico e, do outro, mantém as pessoas privadas de viver e expressar a sua dignidade humana.

Paulo Freire afirmava que somente a Educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental. E nessa educação humanitária e libertadora, o diálogo é o elemento fundamental.

Diálogo não é qualquer tipo de comunicação. Não é apenas uma troca de opiniões e menos ainda um debate. É uma relação entre pessoas que se colocam em atitude de escuta mútua para buscar juntas a verdade. Assim sendo, o diálogo inclui uma dimensão interior: o diálogo consigo mesmo. Ele se realiza mais profundamente no encontro amoroso com as outras pessoas e é também postura de abertura e comunhão com a natureza e o cosmos. Para quem tem fé, tudo isso compõe o diálogo com o mistério que as religiões chamam de Deus. Ruben Alves, grande educador que nos deixou recentemente, afirmava: “Educar é mais difícil do que ensinar. Para ensinar, basta saber. Para educar, precisa ser”. 

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  


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