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terça-feira, 17 de outubro de 2017

A FRAGILIDADE DE UM PAPA


Por Marcelo Barros

Cada vez mais grupos católicos tradicionais, como também membros da hierarquia têm se posicionado abertamente contra as posições, palavras e propostas do papa Francisco. Esses católicos tradicionalistas proclamam a fidelidade ao papa como sucessor de Pedro quando se trata de um papa com o qual ideologicamente concordam. No caso de Francisco que toma posições que interpelam o mundo e a Igreja, eles se proclamam contrários e o criticam abertamente. É ainda um grupo minoritário. No entanto, por trás deles, um número bem maior de eclesiásticos não falam o mesmo idioma do bispo de Roma.

Criticar o papa porque ele insiste em renovar a Igreja na observância do evangelho de Jesus revela a distância que ainda existe entre a tradição da hierarquia e a proposta do reino de Deus e da bem-aventurança dos pobres. No entanto, o mais grave é que essa divisão enfraquece a luta por um outro mundo possível. Divide pessoas e organizações que deveriam estar juntas na luta pelas mesmas causas políticas e eco-sociais. Tudo isso é lamentável e temos de nos colocar solidários às propostas do papa.

 Além disso, talvez devamos olhar na contramão dos sinais e tentar ler nessa realidade algo de positivo. Ao responder com palavras mas nunca ameaçar, nem tomar qualquer posição repressiva em relação a seus críticos e detratores, o papa Francisco faz um grande bem à Igreja. Nos anos 60, João XXIII e Paulo VI afirmaram que nunca mais a hierarquia usaria os meios de repressão e sim a linguagem do amor. Apesar disso, dois de seus sucessores retomaram a prática da repressão. Centenas de teólogos/as e pastores sofreram na pele as consequências de discordarem do papa. Agora, ao aceitar críticas e dissensões, o atual papa dá um passo fundamental: ajuda a Igreja de Roma e as Igrejas locais da comunhão católica a viverem a catolicidade de forma nova em um mundo plural.

Os católicos e crentes de Igrejas históricas reconhece o primado do bispo de Roma. Desde séculos antigos, a tradição atribui ao bispo de Roma uma missão especial em relação a todas as Igrejas. Atualmente, a maioria dos exegetas concorda que não se pode deduzir dos textos bíblicos ("Tu és Pedro"- Mt 16, 18), o primado de Pedro. Conforme dados históricos, o primeiro bispo do qual se têm notícias em Roma é Víctor, com quem Irineu de Lyon discutiu a unificação da data da Páscoa entre Oriente e Ocidente - (180 D. C). No entanto, isso em nada diminui a importância para as Igrejas do ministério petrino. Para o conjunto do Cristianismo, pode ser importante que a Igreja de Roma e o seu bispo, coletivamente, exerçam essa missão de unidade. Quanto à forma e ao estilo do papado, o próprio João Paulo II pediu aos cristãos de outras Igrejas que o ajudassem a descobrir como transformar (Ut unun sint, 96).

Ao contestar abertamente o papa Francisco, os grupos tradicionalistas retomam uma tradição dos primeiros séculos, quando a diversidade e mesmo a discordância não eram consideradas como ameaça à unidade. Ao contrário, a liberdade de contestar manifestava a unidade do diálogo, mesmo na discordância. Assim, nos tempos dos apóstolos, Paulo escreve que contestou abertamente a Pedro (Gl 2, 1ss). No século III, São Cipriano de Cartago tomou posição oposta a Estêvão, bispo de Roma. Contestou-o fortemente e chegou a afirmar em uma carta: Você é bispo de Roma, mas na Igreja, não existe super-bispo”,  No século IV, São Basílio, bispo de Cesaréia, “recusou-se a reconhecer o bispo de Roma como juiz supremo da Igreja universal, embora aceitasse que esse exercesse uma autoridade própria em campo doutrinal”[1]. Em outro momento e se relacionando com outro papa em Roma, Santo Ambrósio, como bispo de Milão, afirmou: “Desejo estar unido à Igreja Romana, mas ela deve lembrar que nós também temos raciocínio e juízo, assim como também somos dotados de razão humana. Eles têm costumes litúrgicos e teológicos e os justificam pelas melhores razões. Nós também mantemos os costumes que nos são próprios, pelas melhores razões” [2].

Atualmente, o papa Francisco tem retomado a importância das Igrejas locais e propõe a descentralização. Recentemente, assinou um decreto que dá às conferências episcopais pleno direito de decidir as traduções de textos litúrgicos. O papa precisa da nossa oração e apoio para que as suas propostas possam chegar às bases e, de fato, colocar a Igreja a serviço da humanidade.  Não podemos deixá-lo isolado. Ele nos chama à profecia. Todos sabemos que a profecia nunca conviveu bem com unanimidade. Todos os profetas e profetizas sofreram marginalização. O que é novo agora é que isso acontece até quando o profeta, por acaso, é um papa.....

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países



[1] - TIM DOWLEY (Organizador), Storia del Cristianesimo, Torino, Ed. Elle di Ci, 1992, p. 175.
[2] - Cf. AMBROISE DE MILAN, De Sacramentis, III, 1, 5. Sources Chrétiennes, 25 bis, Cerf, Paris, 1980, p. 95, 5. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O DIA DO MESTRE E A MATANÇA DOS INOCENTES


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            O estado da educação brasileira é tão lamentável que nem dá ânimo de comemorar o Dia do Mestre, em 15 de outubro.  Este profissional, que deveria ser o mais valorizado entre todos por ser quem forma as novas gerações e com isso poder fazer de um país uma nação e um povo com projeto de futuro, encontra-se hoje em estado de absoluta frustração. 
            Vemos universidades fechando, docentes sem receber salários há quase um ano, reitores cometendo suicídio por culpa de uma Justiça abusiva e inconsciente. Sem falar no ensino fundamental.  Escolas sem professor, professores que devem ter cinco a seis matrículas para poder viver de seu trabalho.  Estudantes desanimam e desistem de seus projetos e seus sonhos por acreditarem que, na verdade, o que importa é correr atrás do dinheiro em profissões talvez não tão nobres, porém mais lucrativas do que o ensino. Ou então preferem embarcar em outras viagens mais imediatas e perigosas (mas excitantes) do que a grande aventura do conhecimento. 
            De repente - e surpreendentemente -  uma tragédia sem parâmetro, absurda em sua infinita crueldade, rasga o horizonte e nos diz que nem tudo está perdido.  Janaúba, pequena cidade de Minas Gerais, e a creche municipal Gente Inocente foram o cenário dessa tragédia e também dessa esperança.  Ali o vigia noturno Damião Soares Santos, um homem solitário de 50 anos, que durante o dia fabricava e vendia picolés para completar a renda, derramou um dos galões de álcool que usava para acelerar o congelamento dos sorvetes sobre as crianças, queimando-as vivas.  
            Foi no pátio da creche, onde várias crianças se encontravam, que Damião deu início a seu macabro ritual. A “gente inocente” que ali brincava e se educava, acompanhada por professoras e pedagogas, foi transformada em labaredas vivas. Mas no meio do caminho havia uma professora: Helley de Abreu Silva Batista.  Jovem mulher, mãe de três filhos sendo o menor de um ano. Ao ver o que acontecia, entrou em luta corporal com o assassino para impedir que levasse avante seu gesto tresloucado e fatal. 
            Lutou em desigualdade de condições e forças, mas fortalecida por sua determinação de fazer tudo para salvar aqueles pequenos a ela confiados. Damião acabou ateando fogo a seu próprio corpo e morreu junto com suas vítimas.  Helley não conseguiu salvar todos, mas vários não morreram devido à sua intervenção.  Ela passou um a um pela janela de volta à vida. Porém, a ela mesma não pôde salvar-se.  Sua entrada corajosa no meio das chamas para dali retirar as crianças a fez sofrer queimaduras em 90% do corpo.  Levada para o hospital, não resistiu e morreu. 
            Todos os testemunhos sobre sua pessoa são unânimes em afirmar que era apaixonada pelo que fazia. Sempre preocupada em promover novas formas de ensino, para que os alunos tivessem melhor desempenho no aprendizado.  Uma de suas principais preocupações era a inclusão de alunos com algum tipo de deficiência, área em que se especializou. 
            Ao ver a tragédia acontecendo e o perigo letal que ameaçava as crianças esqueceu-se de si própria e pensou apenas neles. Lutou até o fim, mesmo quando as labaredas já a atingiam e ameaçavam sua vida.  A heroína de Janaúba é a figura que hoje me parece dever ser homenageada quando se aproxima o Dia do Mestre. 
Seu gesto mostra que ser professor não é apenas despejar conteúdos sobre os alunos que muitas vezes, com as mentes distantes, apegadas a outros estímulos, ou malnutridos, ou deprimidos pelas condições familiares em que vivem, não os assimilam.  Trata-se de uma profissão que é indissociável da vida e, ousaria dizer, da entrega da vida. 
            Helley se preocupava com os que tinham alguma deficiência, era sensível aos que apresentavam algum problema.  Não se tratava de uma docente que corria atrás de sucesso e estatísticas de desempenho premiadas em rankings e jornais.  Amava o que fazia e por isso amava seus alunos, as crianças que a ela ficavam entregues por boa parte de seu dia. 
            Demonstrou esse amor quando o ser professora não significou escrever no quadro negro, ou mostrar mapas.  O momento de sua intervenção, que foi também o de sua morte, mostra alguém comprometido e responsável até as últimas consequências com aqueles que estão entregues a sua docência.  Ela lhes deu a melhor lição, a melhor aula: a entrega da vida para salvar suas vidas.
            Janaúba segue de luto e o país segue perplexo.  Helley começa a receber muitas homenagens, mais do que merecidas.  Sua família sofre muitíssimo.  Nada substituírá sua presença maternal ao lado dos filhos, sobretudo do pequenino de um ano.  Nada pode igualmente consolar as famílias das crianças que morreram vitimadas pelo fogo. 
            Mas em meio a toda essa tragédia e esse horror, a figura de Helley brilha como luz, assim como o livro da Sabedoria diz que brilham os justos, como fagulhas, como estrelas.  E sua atitude diz que não há pecado maior que a graça, não há desgraça maior que o amor, não há morte que vença a vida quando esta está ancorada no bem e no serviço aos outros.  
            A matança dos inocentes em Janaúba permanece sombria tragédia.  Mas tem a iluminá-la a professora Helley, heroína que não se preocupou com a própria vida, mas com a das crianças que lhe eram confiadas.  Enquanto existirem professores como ela, podemos dizer: nem tudo está perdido.  É possível reencontrar o verdadeiro caminho da educação.  Tem que ser possível.  Do contrário, veremos nosso país afundado na lama da corrupção e da libertinagem política, sem esperança de dias melhores.
 Helley, a heroína de Janaúba, - que deve ter outras irmãs em coragem e capacidade de amar esparsas pelo país – nos diz que há que lutar sem perder a esperança.  E por isso podemos dizer: Feliz Dia do Mestre aos que são docentes e aos discentes que com eles aprendem e aprenderam.  Ou aprenderão.  Feliz Dia da Educação.  Educando e educador são chamados a renovar seu compromisso de interação e diálogo constante e profundo no desejo de descobrir o mundo e construir o futuro em comunhão de destino.  

   Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, a teóloga é autora de “Teologia latino-americana – Raízes e ramos” (Editoras Vozes e PUC-Rio), livro que acaba de ser lançado.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O POVO DO MÉXICO DEU UM EXEMPLO AO MUNDO



por leonardoboff

Nos dias 19 e 23 de setembro, o México foi sacudido por dois terremotos, um de magnitude 7,1 e outro de 6,1 da escala Richter, atingindo 5 Estados, dezenas de municípios inclusive a capital, a Cidade do México, colapsando centenas de casas e produzindo rachaduras em  outras centenas de edifícios. Belíssimas igrejas como a de São Francisco de Assis em Puebla tiveram suas torres derrubadas. Todos se lembram ainda do terrível terremoto de 1985 que vitimou mais de dez mil pessoas. Este, embora forte, vitimou cerca de 360.
Estando posteriormente no México e em Puebla a convite para palestras, pude verificar in loco os estragos e o trauma deixado nas pessoas.
Mas o que chamou a atenção geral foi o espírito de solidariedade e de cooperação do povo mexicano. Sem que ninguém as conclamassem, milhares de pessoas,  especialmente os jovens, se puseram a remover escombros para salvar as vítimas soterradas. Organizavam-se grupos espontaneamente e este espírito de solidariedade pode salvar  muitas vidas.
Imediatamente criaram-se centros de recolhimento de ajuda às vítimas, seja muita água, víveres,  roupas, cobertores e todo o tipo de utensílios importantes para uma casa. Ainda neste momento em que escrevo esta crônica (13/10/17) veem-se muitos lugares de “acopio”(recepção de ajudas). A cooperação não conhece limites.
Narro somente dois fatos de causar comoção. O primeiro: o edifício de uma escola colapsou lentamente com muitas crianças dentro. Um jovem vendo que no meio das ruinas havia se formado uma espécie de canal, penetrou rapidamente pelo buraco e retirou várias crianças de 5-7 anos. Mal havia retirado a última, atrás dele caiu outra parte da escola, salvando-se por questões de segundos.
Segundo fato: uma jovem senhora, talvez de uns 30 anos de idade, ficou 34 horas debaixo dos escombros. Deu uma comovente entrevista pela televisão, narrando as várias fases de sua tragédia. Presa entre os escombros, uma lage de concreto se fixara a um palmo de seu rosto. Por 30 horas não ouvia nenhuma voz, nem passos,  nem qualquer ruído que pudesse significar a aproximação de alguém que a pudesse resgatar.
Então narrou os vários estágios psicológicos, semelhantes àqueles que conhecemos, quando um enfermo recebe a notícia do caráter incurável de sua doença e da proximidade da morte.
Num primeiro momento, esta senhora se perguntava: por que eu exatamente devo passar por esta desgraça? Depois, quase desesperada, se põe a chorar até se secarem as lágrimas. No momento seguinte, se põe a rezar e a suplicar a Deus e a todos os santos e santas, especialmente à Virgem de Guadalupe, a de maior devoção dos mexicanos. Finalmente, se resigna e confiadamente se entrega à vontade misteriosa de Deus. Mas não perdera a esperança.
Por fim, ouviu passos e depois vozes. A esperança se fortaleceu. Após 34 horas, literalmente sepultada sob uma montanha de escombros, pode ser resgatada. Eis que, alegre e inteira, em companhia de uma psicanalista, especializada em tratar traumas psicológicos como os causados por um repentino terremoto, lá estava ela  testemunhando  sua terrível experiência.
O México é uma região geologicamente marcada por terremotos, dada a configuração das placas tectônicas de seu subsolo. O ser humano não tem poder sobre estas forças telúricas. O que ele pode, é precaver-se, aprender a  construir suas edificações, resistentes a terremotos a modo dos japoneses e mais que tudo, pode acostumar-se a conviver com esta realidade indomável. Semelhantemente o faz a população do semiárido nordestino que deve se adaptar e aprender a conviver com a  seca que pode perdurar por longos anos, como ocorre atualmente.
No debate após uma conferência na Universidade Ibero-americana, na cidade do México, uma senhora declarou: “se nosso país e se a humanidade inteira vivessem esse espírito de solidariedade e de cooperação, não haveria pobres no mundo e teríamos resgatado uma parte do paraíso perdido”.
Eu reforcei este seu desiderato e lhe disse que foi a cooperação e a solidariedade de nossos antepassados antropoides que começaram a comer juntos, que lhes permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. O que foi verdade ontem, deve ser verdade ainda hoje. Sim, a solidariedade e a geral a cooperação de todos com todos poderá resgatar a essência humana e fazermo-nos plenamente humanos.
Nos dias atuais foi o povo do México que nos deu um esplêndido exemplo desta verdade fundamental.
Leonardo Boff é articulista do JB on line, conferencista e escritor.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

QUANDO ME TORNEI FANÁTICO



por Frei Betto

       Abracei o fanatismo ao descobrir que só o Deus pregado por minha Igreja é o verdadeiro. Todos os outros deuses, todas as outras religiões, todas as outras tradições espirituais que não creem como eu creio são heréticas, ofendem a Deus, procedem do diabo e merecem ser varridas da face da Terra.

       Os fiéis dessas Igrejas que não professam o meu Credo estão condenados às chamas do Inferno e só haverão de se salvar aqueles que se arrependerem, abandonarem seus cultos idólatras e abraçarem a única e verdadeira fé – esta que a minha Igreja manifesta.

       Tornei-me fanático em sucessivas etapas. Fui criado em uma família católica e, desde cedo, aprendi que os protestantes são infiéis por não respeitarem a virgindade de Maria nem acatarem a autoridade do papa.

       Ridicularizei os espíritas por admitirem que se comunicam com os mortos. Acusei os judeus de terem assassinado Jesus. Abominei os ritos de matriz africana como supersticiosos e orquestrados pelo demônio.

       Tivesse eu poder, haveria de banir da sociedade todas essas crendices que tomam o Santo Nome de Deus em vão.

       Até que um dia sofri um acidente de trânsito no centro de Salvador, onde me encontrava a trabalho. Fui atropelado por uma moto que surgiu inesperadamente quando eu atravessava o Largo Terreiro de Jesus.

       Fui socorrido por um desconhecido que me levou a um hospital evangélico em seu carro. Por eu estar inconsciente, devido à pancada da cabeça no solo, ele assumiu os custos apresentados pelo pronto-socorro e ainda assinou um termo de responsabilidade. Como deixou telefone e endereço, ao receber alta fui agradecer-lhe. Soube que é ateu.

       Fiquei me perguntando se todos os fiéis de minha Igreja seriam capazes de prestar igual solidariedade ou se passariam indiferentes diante de um acidentado, e ainda se autodesculpariam com este raciocínio cínico: “Nada tenho a ver com isso.”

       No hospital, fui visitado por uma senhora espírita, que me deu grande consolo, já não tenho parentes na capital baiana. Manifestei a ela meu estranhamento ao fato de os espíritas afirmarem conversar com os mortos. Ela retrucou com um sorriso: “Vocês, católicos, conversam com quem quando oram a São Jorge, Santo Expedito e Santo Antônio?”

       Meu médico era um judeu casado com uma palestina. E as duas enfermeiras, muito atenciosas, frequentavam o candomblé e a umbanda.

       Ao deixar o hospital, tive a surpresa de encontrar, na pousada na qual me hospedara, a mochila que havia perdido no acidente. Dentro, todos os meus pertences, inclusive o dinheiro que eu tinha retirado do banco para pagar a hospedagem.

       Um taxista encontrou o cartão da pousada entre meus documentos, devolveu a mochila e informou o que me havia ocorrido. Como deixara o telefone dele, liguei para agradecer. Não resisti à pergunta: “Por que o senhor devolveu todos os meus pertences, inclusive o dinheiro?” Ele simplesmente respondeu: “Sou muçulmano.”

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria

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