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sexta-feira, 2 de março de 2018

FACE À MISÉRIA DA POLÍTICA, A ESPERANÇA NÃO PODE MORRER





Por Leonardo Boff

Apesar de toda a alegria do carnaval passado em quase todas as cidades de nosso pais, há um manto de tristeza e desamparo que se pode ler nos rostos da maioria que encontramos nas ruas das grandes cidades como o Rio e São Paulo entre outras.
É que politicamente o golpe parlamentar-jurídico-mediático (e hoje sabemos apoiado pelos órgãos de segurança dos USA) nos fechou o horizonte. Ninguém pode nos dizer para onde vamos. O que aponta de forma inegável é o aumento da violência com um número de vítimas que se igualam e até superam as regiões de guerra. E ainda sofremos uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Se bem observarmos, vivemos dentro de uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas, agora o são mais ainda pelos cortes dos programas sociais que o atual governo de Estado de exceção impôs a milhares de famílias.
Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. E não se diga que foram as políticas dos governos do PT. Essas nos tiraram do mapa. A aplicação rigorosa do neoliberalismo mais radical pela nova classe dirigente instalada no Estado, está produzindo fome e miséria. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram submetidas.
As discussões dos vários organismos, responsáveis pela segurança, nunca vão à raiz da questão. O real problema que não querem abordar reside na nefasta desigualdade social, vale dizer, na injustiça social, histórica e estrutural sobre a qual está construída a nossa sociedade. A desigualdade social cresce quanto mais se concentra a renda e quanto mais avança o agronegócio sobre terras indígenas e dos povos da floresta e quanto mais se fazem cortes na educação, na saúde e na segurança.
Ou se faz justiça social nesse pais, que implica reformas: a agrária, a tributária, a política e a do sistema de segurança ou nunca superaremos a violência. Ela tenderá a crescer em todo o país.
Se um dia, é o que tememos, a marginália das grandes periferias abandonadas se rebelarem, por causa da fome e da miséria e decidirem assaltar supermercados e invadir os centros urbanos, poderá produzir um “bogotaço” brasileiro como ocorreu nos meados do século passado em Bogotá, destruindo, por semanas a fio, quase tudo que se via pela frente.
Estimo que as elites do atraso, apoiadas por uma mídia conservadora e golpista por uma justiça fraca, para não dizer cúmplice e pelo aparato policial do Estado, reocupado por elas, poderão usar de grande violência, sem resolver mas agravando a situação.  Ou haverá uma mudança radical que dê outro rumo ao nosso país.
Nesse quadro, como ainda alimentar a esperança de que o Brasil tem jeito e que podemos criar uma sociedade menos malvada,no dizer Paulo Freire?
Bem disse o bispo profético, o ancião Dom Pedro Casaldáliga lá dos fundos do Araguaia matogrossense: portadores de esperança são aqueles que caminham e se empenham para superar situaçãoes de barbárie. Estas mudanças nunca virão de cima, nem do atual stablishment, virão de baixo, dos movimentos sociais organizados e com parcelas de partidos comprometidos com o bem-estar do povo.
O Papa Francisco ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, cunhou três expressões resumidas nos três T: terra para as pessoas produzirem, teto para se abrigarem e trabalho para ganharem sua vida.
Lançou um desafio: não esperem nada de cima pois virá sempre mais do mesmo; sejam vocês mesmos os profetas do novo, organizem a produção solidária, especialmente a orgânica, reinventem a democracia. E sigam estes três pontos fundamentais: a economia para a vida e não para o mercado; a justiça social sem a qual não haverá paz; e o cuidado com a Casa Comum sem a qual nenhum projeto terá sentido.
A esperança nasce deste compromisso de transformação. A esperança aqui deve ser pensada na linha do que nos ensinou o grande filósofo alemão Ernst Bloch que formulou “o princípio esperança”. Quer dizer, a esperança não uma virtude entre outras tantas. Ela é muito mais: é o motor de todas elas, é a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaiado; é a coragem de sonhar um outro mundo possível e necessário; é a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que nunca nos deixam parados nas conquistas alcançadas ou quando derrotados, nos fazem levantar para retomarmos a caminhada. A esperança se mostra no fazimento, no compromisso de transformação, na ousadia de superar obstáculos e enfrentar os grupos de opressores, a maioria descendentes da Casa Grande.Essa esperança não pode morrer nunca.
Leonardo Boff é teólogo, filosofo e escritor e escreu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência? a sair pela Vozes em março.
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quinta-feira, 1 de março de 2018

TEMPO DE INFLEXÃO E REFLEXÃO




Por Frei Betto

      As quaresmeiras florescem nesta época do ano. Lindas e tristes as flores roxas, delicadas miçangas de um colar inconsútil.

      Nos quarenta dias prévios à Páscoa, a fé cristã celebra, antecipadamente, a vitória da vida sobre a morte. Ressurreição experimentada a cada manhã ao despertar. Vindos da inércia e da inconsciência, da perda de si no sono, súbito revivemos! Na curva final da existência, proclama a fé, desponta a eterna benquerença.

      Tempo de inflexão e reflexão. De que vale abster-se de carne terrestre ou aérea se as marítimas nos repletam a pança? Sacrifício, ofício de cultuar o sagrado. Não Deus, que se basta, e sim nós humanos, ossos revestidos de carne, o que há de mais sagrado. Feitos de pó cósmico, de partículas elementares consubstanciadas em átomos, congregadas em moléculas, revitalizadas em células. Quarenta trilhões de células em um corpo humano. Umas, revestidas de seda pura, fragrâncias raras e joias preciosas. Outras estiradas nas calçadas, fétidas, famélicas, entorpecidas pela química da fuga.

      Jejuar, mas não de alimentos nessa era de dietas anoréxicas que não transferem ao prato alheio o que se priva no próprio. Valem os jejuns da maledicência, da ira gratuita, da empáfia autoritária, do preconceito arrogante, da discriminação insultuosa. Jejuar do monólogo solipsista no celular e dar atenção ao diálogo com o próximo.

      Vale abster-se da indiferença e abraçar causas solidárias. Deixar de praguejar contra o mundo e tratar de transformá-lo. Esperar mais de si do que dos outros. Poupar críticas aos efeitos e denunciar as causas. Evitar o pessimismo da razão e alentar o otimismo da vontade. Ousar converter o protesto em proposta.

      Tempo de penitência. Descer do pedestal e admitir os graves pecados contra a natureza: poluição dos ares, contaminação das águas, agrotoxização dos alimentos. A corrupção em doses cínicas, pois enquanto se torce pela higienização da política, emporcalha-se o varejo com a sonegação de impostos, o furto de objetos no local de trabalho, o salário injusto pago à faxineira, a propina ao guarda de trânsito, as maracutaias que engordam o lucro pessoal e lesam a coletividade.

      Tempo de refluir à interioridade. Dedicar-se às flexões da subjetividade. Trilhar sendas espirituais. Extirpar gorduras da alma. Arrancar a trave do próprio olho antes de apontar o cisco no olho alheio. Cuspir camelos que entopem o coração antes de vociferar perante quem engole mosquitos.

      Ah, como é cômodo ser juiz do mundo e proferir duras sentenças condenatórias! Fácil apontar o suposto criminoso, difícil erradicar as causas da criminalidade. Fácil identificar os maus políticos, difícil abandonar a própria zona de conforto para inovar a política.

      Em tempo de quaresma há de ter presente que o pior pecado não é o da transgressão, é o da omissão. Graças a ele proliferam tantas transgressões imunes e impunes. 

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas de prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.

Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com)  

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Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português, espanhol ou inglês - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
E-mail - mhgpal@gmail.com


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

JESUS JUDEU




 Por Eduardo Hoornaert 


Muitos problemas que nos aparecem quando lemos os evangelhos provêm do fato que lhes formulamos perguntas que eles são incapazes de responder. Perguntamos se Jesus fundou a Igreja, se ele instituiu o papado, o sacerdócio, os sacramentos. Por vezes forçamos a leitura dos evangelhos, na ânsia de neles encontrar respostas que confirmem a atual organização da vida cristã.

 Uma coisa bem diferente consiste em querer saber o que Jesus mesmo tem a dizer sobre si mesmo. Só dando a palavra ao próprio Jesus, respeitamos devidamente a memória de uma pessoa falecida dois mil anos atrás. Só escutando o que o próprio Jesus nos tem a dizer, conseguiremos saber algo a seu respeito. Embora só consigamos nos apoiar em textos escritos a seu respeito por terceiros, há como colher, em diversos tópicos dos evangelhos, declarações feitas por Jesus mesmo sobre si mesmo. Desde alguns decênios, há um esforço, por parte de especialistas em estudos neo-testamentários, em distinguir entre declarações ‘autênticas’ de Jesus e declarações ‘redacionais’, ou seja, palavras ou ações atribuídas a Jesus, mas cuja autenticidade é questionada. Os resultados desse trabalho seletivo não são definitivos, mas mesmo assim oferecem pistas por onde é possível continuar estudando. É nesse sentido que se situa este breve texto, que apresenta de modo bem resumido algum resultado de muitas pesquisas, que consegui colher lendo o recente livro alemão ‘Jesus Handbuch’, compilado por Jens Schröter & Christine Jacobi, e editado por Mohr Siebeck de Tübingen em setembro de 2017.

Efetivamente, nos últimos anos a figura de Jesus tem sido estudada intensivamente com a ajuda de ciências como a história, a sociologia, a análise linguística e a arqueologia. Hoje estamos em condições de penetrar mais no modo em que Jesus entendeu a si mesmo e a sua missão que algumas décadas atrás. Todos os estudos dos últimos anos apontam para um Jesus judeu, que pensa em categorias judaicas, próprias de seu tempo e do ambiente em que vive. Sua cosmovisão difere muito da nossa. Basta dizer que seu mundo é habitado por sopros, santos ou impuros, por anjos e demônios, forças positivas e negativas que influenciam poderosamente a vida humana. Portanto, uma ‘análise da realidade’ modo bem diferente da nossa, mas não desprovida de uma lógica convincente. 


Aqui vão alguns pontos que revelam como Jesus entende sua vida: 


1. Ele acredita que Deus detém o poder no céu, enquanto seu adversário Satanás manda na terra e no inferno. É dentro da resolução, tomada por Deus, no sentido de alargar seu Reino na terra, que Jesus entende sua ação, seus milagres e suas expulsões de demônios. Jesus acredita agir em nome de Deus e assim encara sua ação, que é inevitavelmente de caráter pontual e passageira. Ela é sinal da resolução, por parte de Deus, de estender seu domínio sobre a terra. Jesus entende que sua ação é obra de Deus, ou seja, que ele age em nome e no poder de Deus. Não se trata de uma ação propriamente humana, mas de uma ação de Deus (Jesus fala em ‘graça de Deus’). 

2. Acreditando ser o enviado de Deus, Jesus entende que suas ações, em última análise, são ações de Deus. Quem pensa que ele pratica milagres, expulsa demônios e afasta ‘sopros malvados’ pelo poder de Satanás, e desse modo se escandaliza com Jesus, está mal-intencionado, pois a cura de doentes, por exemplo, não pode ser obra de Satanás, já que obedece à lógica do Reino de Deus, que combate a doença e outros males. 

3. Jesus acredita que, quanto mais se alarga o círculo onde se praticam curas e exorcismos (expulsões de demônios), mais se alarga o Reino de Deus. Os setenta discípulos são enviados para circular pelas aldeias, curando e expulsando demônios. A ideia não é de fundar uma instituição religiosa, mas de difundir o Reino de Deus pela luta contra o que prejudica as pessoas, como a doença, a marginalização, etc. 

4. Um engano comum consiste em pensar que aderir a Jesus significa aderir a alguma religião, sem agir em consequência do que ouviu da boca de Jesus. ‘O homem que ouve minhas palavras se parece com quem, querendo construir sua casa, cava fundo e assenta a casa na pedra. Vem a tempestade, lançam-se as águas contra a casa, mas ela não se abala. Quem ouve, mas não faz nada, se compara com um homem que constrói uma casa sem fundamentos. A água se joga contra a casa, ela desaba. Sua ruína é total (Lc 6, 47-49). Não basta dizer: ‘felizes os pobres’, há de se fazer algo para que os pobres sejam felizes. 

5. Embora acompanhado de numerosos discípulos (setenta), Jesus faz questão de escolher um círculo mais íntimo de doze, ‘escolhidos para ficarem perto dele, serem enviados em seu nome e terem autoridade para caçar demônios. Assim ele fundou os doze’ (Mc 3, 14-16). Esses apóstolos são comparáveis aos doze patriarcas de Israel. São os patriarcas de um novo Israel, colaboradores na construção do Reino de Deus. 

6. A predileção de Jesus por montanhas e lugares altos provém da ideia que a montanha é o lugar onde o céu de Deus fica mais próximo e a terra de Satanás mais distante. Deus fala de preferência na montanha, perto de sua morada. Em tempos de dominação satânica sobre a terra, faz bem subir à montanha, como disseram os grandes profetas. Que seja o Tabor, o Carmelo, o Horeb, ou ainda o Sinai, a montanha é um lugar que fica mais perto do céu. É no monte Sinai que Deus fala com Moisés e no monte Carmelo que, diante de todo o Reino do Norte reunido em festa, Elias mostra de forma espetacular que Ihwh é o maior. É no monte Tabor que Jesus conversa com Moisés e Elias. Na montanha, ele encontra inspiração para fazer suas declarações mais contundentes:  Venda todos os seus bens, dê o dinheiro aos pobresVocê amontoará assim um tesouro no céu (Mt 19, 21). Na terra, ou seja, no mundo segundo a vontade dos homens, o dinheiro vale muito.  Contudo, no céu, ou seja, no mundo segundo a vontade de Deus (o Reino de Deus), é preciso cambiar os valores monetários por outros valores, ou seja, pela atenção à situação em que vive a humanidade. 

7. Como Jesus trabalha psicologicamente essa convicção de ser o enviado de Deus para estabelecer seu Reino na terra? Um texto forte de Lucas descreve isso. A ideia deixa Jesus inquieto, impaciente e ao mesmo tempo resoluto: Vim botar fogo na terra e não vejo a hora dele pegar. Devo me meter num batismo e me atormento, pois não vejo nada mudar. Vocês pensam que vim trazer a paz sobre a terra? Mas não: eu trago a divisão (desunião). Doravante, cinco pessoas moram numa casa, e elas estarão divididas. Serão três contra dois e dois contra três. Pai contra filho, filho contra pai. Mãe contra filha, filha contra mãe. Sogra contra nora, nora contra sogra (Lc 12, 49-53). O profeta Elias teve uma emoção parecida:  Sou tomado por uma paixão furiosa por Ihwh (1Rs 19, 10). E no Salmo 39 se lê: Meu coração arde em mim, dentro de mim se acende um fogo (Sl 39, 4). 

8. Não é por menos. Com Jesus, o reino de Satanás sobre a terra está abalado.  Demônios são expulsos, melhor, convertidos em anjos. Desvanecem, na mente de Jesus, os espíritos maus que milenarmente rondam o mundo, os demônios das sete profundezas subterrâneas, os dragões, as serpentes, os monstros, as maldições, as perturbações assombrosas, as máscaras de cifres ameaçadores, os carrascos, os tiranos do mal, os ‘divisores’ (diabolos), as turvações, as perturbações, as dissoluções, as tiranias, a cauda que varre o mundo, os morcegos que chupam a vida, as unhas que arranham todo sinal de vida, as presas enormes, o sol negro, as trevas de Lucifer (o anjo carregado de levar a luz vira o príncipe das trevas), o adversário, os maus pensamentos, a desordem na consciência humana, a enganação, o demônio infiltrado na história. Aparecem os anjos, mensageiros de Deus, guardiões da vida, condutores de astros e homens, protetores de plantas e de filhos de Deus. Entram Michael, Gabriel, Rafael, os protetores da vida. Jesus visualiza, com Isaías, os serafins em torno do trono de Deus. Ele enxerga os anjos da guarda a proteger as pessoas, fazer a festa, fundamentar a alegria e divulgar. Algo inteiramente novo acontece.  

9. Essa convicção enche a alma de Jesus de uma inconfundível alegria. Imagens terríveis, que atormentam a humanidade desde sempre, desvanecem, enquanto aparecem imagens de luz e festa. Por onde Jesus anda se espalha um clima de festa. Em sua presença ninguém jejua. ‘Numa festa de casamento, será que os acompanhantes de honra do noivo jejuam? Enquanto ele está com eles, não jejuam. O dia virá em que o noivo lhes será tirado. Então jejuarão. Ninguém conserta roupa velha com emenda nova: o pedaço novo puxará o velho, novo sobre velho, e o rasgão será pior. Ninguém mete vinho novo em odres velhos. O vinho arrebenta os odres e tudo fica perdido. Vinho novo, odres novos’ (Mc 2, 18-22). O vinho novo da alegria, do convívio alegre: ‘um homem oferece um grande festim’ (Lc 14, 16). ‘Façam a festa, pois meu filho estava morto e vive de novo, estava perdido e foi encontrado’ (Lc 15, 24). Jesus convida as pessoas a comer e beber com ele, inclusive ‘pecadores e cobradores de impostos’. A Carta aos Hebreus, dos anos 65, traduz essa alegria contagiante: (Vocês não têm de que se queixar, pois) é do monte de Sião, da cidade de Deus vivo, de Jerusalém celeste e da miríade de anjos em festa que vocês se aproximam (Hb 12, 22). 

10. Como Jesus se apresenta? Enviado de Deus, revestido do poder de Deus, mais que profeta, ele sofre o destino dos profetas. Mais que anunciador do Reino de Deus, ele o realiza ao derrotar o Reino de Satanás e demonstrar poder sobre os demônios. Mais que idealizador do novo Israel, ele é seu iniciador, embora de modo apenas tópico. Está empenhado em alargar o Reino de Deus na terra e de fundar um novo Israel. Para tanto, envia seus discípulos pelas aldeias da Galileia. Seu ‘vinho’ é novo, exige ‘odres novos’. Jesus não se apresenta como fundador de uma nova religião, nem mesmo como ‘mestre em Israel’, antes como iniciador e animador de atividades e comportamentos, na humildade.

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A VITÓRIA DA RESISTÊNCIA



Por Marcelo Barros

Em todo o Brasil, as mais de 2200 comunidades afrodescendentes, formadas por remanescentes de quilombos, espalhadas pelo território nacional, comemoram uma importante vitória jurídica e política. Nesses dias, exatamente, na quinta-feira, 08 de fevereiro, depois de um longo processo, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou válido o Decreto 4887/ 2003 do presidente Lula que reconhecia aos quilombolas o direito a suas terras ancestrais. O Partido Liberal (DEM) impetrou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade para invalidar o decreto e impedir os quilombolas de ter as suas terras. Finalmente, o STF declarou que essa ação era improcedente e deu ganho de causa às comunidades afrodescendentes.

Em todo o território nacional, muitas comunidades negras resistem, com seus costumes próprios e, em alguns casos, até seu idioma ancestral. Desde o século XVI, chamam-se no Brasil quilombos as comunidades de homens e mulheres que fugiam da escravidão. Ali se reuniam homens e mulheres negros, assim como brancos pobres e índios. Formavam comunidades no meio das matas e nas montanhas, geralmente em pontos de difícil acesso aos brancos, para melhor se defenderem dos “capitães do mato” e dos soldados, a serviço dos senhores de engenhos e escravocratas. Assim como a senzala era o símbolo da escravidão, os quilombos significavam resistência e luta pela liberdade, conquistada no meio de muitos perigos e ameaças. Desde os tempos da escravidão até quase nossos dias, muitas dessas comunidades se mantiveram isoladas e com suas culturas próprias. Somente com a Constituição de 1988, elas foram reconhecidas. Assim mesmo, até hoje, só uma minoria das comunidades quilombolas tem a terra demarcada e garantida. É a mesma luta vivida pelos povos indígenas, ainda expropriados de suas terras ancestrais. A publicidade capitalista apregoa que índios e quilombolas têm terras demais e as suas terras não produzem lucro. Além disso, como protegem a floresta, veneram os rios que correm em seus territórios, impedem a destruição ambiental e vão na linha contrária ao agronegócio que quer transformar o país em uma imensa plantação de soja, de eucalipto ou um imenso pasto para o maior rebanho bovino do mundo.

Em 2013, a CNBB criou um grupo de Trabalho para estudar e aprofundar a missão da Igreja junto às comunidades quilombolas. Esse grupo produziu um excelente subsídio, publicado no livro de Estudos da CNBB, número 105, intitulado: “A Igreja e as Comunidades Quilombolas”, Ali, os bispos católicos reconhecem que, no passado, a maioria da Igreja foi conivente e cúmplice da escravidão. Por isso, continuando o gesto do papa João Paulo II, os representantes da Igreja Católica no Brasil, pedem perdão às comunidades remanescentes de Quilombos e reconhecem uma dívida histórica e moral da Igreja para com essas comunidades, suas culturas e religiões. A CNBB se solidariza com a caminhada dos quilombolas em sua luta pela terra e pelo direito a viverem suas culturas. Diz que na luta dessas comunidades há um apelo de Deus para todos nós. Diante do avanço do capital, a resistência das comunidades quilombolas é uma profecia a ser acolhida e sustentada.

O documento aprecia a riqueza cultural que as comunidades quilombolas vivenciam e transmitem. Faz uma leitura bíblica contrária ao fundamentalismo que condena as culturas e religiões negras. Alerta sobre o racismo religioso que ainda existe no Brasil. Lembra que, já em 1967, em uma exortação, o papa Paulo VI reconheceu o valor positivo das religiões de matriz africana. Denuncia a maldade com a qual os terreiros de Candomblé e de outros cultos afro têm sido discriminados e perseguidos por grupos que se dizem cristãos. Nesses dias, em que ainda vivemos a memória do Carnaval, ressoa por todo o Brasil, o canto profético que, no desfile do Rio de Janeiro, a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti cantou e que se tornou a oração de todos nós: “ Meu Deus, meu Deus, Se eu chorar, não leve a mal. Pela luz do candeeiro, Liberte o cativeiro social!”.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br