O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador salvação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador salvação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A SALVAÇÃO


 

Frei Betto

 

Se a Igreja Católica não passar por reformas profundas, como erradicar o clericalismo e tornar efetiva a opção pelos pobres, perderá cada vez mais fiéis. Incluo-me entre os que sonham com uma Igreja que não tenha sacerdotes entre os indígenas, os quilombolas, os moradores de favelas e as mulheres, e sim indígenas sacerdotes, quilombolas sacerdotes, moradores de favelas sacerdotes e mulheres sacerdotes.

 

 

         Maria X. veio da zona rural de Minas à procura de trabalho em São Paulo. Acolhida por família conterrânea na favela do Jaguaré, Maria perambulou uma semana pelo centro da cidade, na esperança de se empregar no comércio. Devido à pouca escolaridade, sem sequer ter concluído o ensino fundamental, se viu reprovada nos testes de português e aritmética. O recurso foi trabalhar como faxineira em casas particulares.

         Maria não conhecia ninguém na cidade grande, que lhe parecia hostil, exceto a família conterrânea que, um mês depois, começou a dar sinais de que ela era demais no barraco que abrigava o casal e seus três filhos.

         Católica, Maria procurou a igreja do bairro, distante da favela, para cumprir o preceito dominical. Estranhou o ambiente. No templo, havia mais madames do que Marias. Todos assistiam, silentes, ao desempenho do padre no altar, e ela não entendeu quase nada do que ele pregou no sermão. Maria se perguntou se o Deus no qual acreditava havia ficado na capela de Nossa Senhora do Rosário que ela frequentava em Minas.

         Uma tarde, na volta do trabalho, tomou assento no ônibus ao lado de uma vizinha. A moça se interessou pela história de Maria e, ouvida a desilusão com a metrópole, convidou-a a frequentar a Igreja Evangélica. Maria ficou curiosa e, embora recordasse do que a avó lhe dizia, que os protestantes eram inimigos do papa, aceitou o convite.

         No domingo, Maria foi recebida no culto como se todos ali a esperassem há tempos. Ao contrário da missa, havia um coral que entoava animados hinos, acompanhado por um conjunto musical. O pastor também morava na favela do Jaguaré e pregou o que Maria entendeu. E entendeu melhor porque, projetado o vídeo no telão, Maria teve ideia de onde ficam a Judeia, a Samaria e a Galileia, lugares por onde Jesus andou.

         Ao final do culto, um café, com variedade de bolos e biscoitos, foi servido aos fieis, e muitos se aproximaram de Maria como se a conhecessem há tempos, a ponto de tratá-la por “irmã”.

         Maria se sentiu acolhida. Não se importou de o templo não ter imagens de santos e notou que todos falavam em orar, jamais rezar. Maria sentiu que, ali, Deus estava mais próximo dela. Pela primeira vez, deixara de ser uma anônima na cidade grande.

         Maria passou a frequentar a escola dominical após o culto. Ali, pela primeira vez, aprendeu o que é a Bíblia, e por que contém a palavra de Deus. A comunidade não ofereceu a ela apenas iniciação catequética própria a adultos. Interessou-se também por suas condições de vida e seu trabalho, e inclusive lhe ofertou um novo domicílio, uma cesta básica mensal, roupas em bom estado e os remédios que precisasse.

         A Igreja evangélica conquistou Maria por imprimir-lhe identidade social e acolhê-la em uma comunidade solidária na megalópole sem rosto. E ensinou a dispensar a intermediação de padres e santos para entrar em contato direto com Deus através da oração de súplica e louvor.

         Maria acredita que o pastor deseja sinceramente o bem dela e da congregação de fiéis. Por isso, não duvida de que ele busca também o melhor para a população da cidade, do estado e do país. Razão pela qual ela não reluta em dar seu voto aos candidatos que ele indica.

         Lembrei-me da história de Maria ao receber a notícia de que o papa Francisco vetou a possibilidade de indígenas casados atuarem como sacerdotes na Amazônia. A Igreja Católica está fadada a perder terreno enquanto não fizer inserção inculturada.

         Dados do IBGE, de dezembro de 2019, e do demógrafo José Eustáquio Alves, indicam que, hoje, os católicos são 50% da população brasileira. Em 2022 serão menos e, em 2032, 38,6%, enquanto os evangélicos agregarão 39,8% da população, alcançando a maioria absoluta em 2050.

         Se a Igreja Católica não passar por reformas profundas, como erradicar o clericalismo e tornar efetiva a opção pelos pobres, perderá cada vez mais fiéis. E não me incluo entre os que torcem pela competição entre católicos e evangélicos. Incluo-me entre os que sonham com uma Igreja que não tenha sacerdotes entre os indígenas, os quilombolas, os moradores de favelas e as mulheres, e sim indígenas sacerdotes, quilombolas sacerdotes, moradores de favelas sacerdotes e mulheres sacerdotes.

         Fora dessa enculturação, a Igreja Católica não terá salvação.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus” (Vozes), entre outros livros.

Adquira os livros do autor a preço mais barato pelo site (www.freibetto.org) e receba-os em casa. 

 

 

®Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 ®


terça-feira, 21 de novembro de 2017

DOS POBRES VEM A SALVAÇÃO



Por Marcelo Barros

No domingo passado, em Roma, o papa Francisco encerrou uma Semana especial de comunhão e solidariedade com os pobres para cumprir a proposta de, a cada ano, no domingo anterior à festa de Cristo Rei, todas as comunidades católicas celebrarem "o dia mundial dos pobres". Nesse ano, o tema escolhido para a reflexão foi a palavra da carta de João: "Não amemos somente com palavras...".

Mesmo dentro da Igreja, grupos tradicionalistas acusam o papa de "pauperismo", uma preocupação exagerada com os pobres que, em si, a Igreja sempre ajudou, mas não deveria fazer disso seu único discurso. Mesmo consciente dessas críticas, o papa Francisco se mantém fiel à sua opção profética de lembrar ao mundo que o único caminho para a paz é a solidariedade e a superação do egoísmo e desumanidade de uma sociedade dominante que só visa o lucro. Na sua carta sobre a alegria do evangelho, ele escreveu: "Às vezes, sentimos a tentação de ser cristãos mantendo uma distância prudente das chagas do Senhor. Jesus quer que toquemos na miséria humana, na carne sofredora das pessoas. Ele espera que renunciemos à tendência de ficar distantes dos dramas humanos. Devemos nos manter ligados à vida dos outros. Assim, conheceremos a força da ternura. Ao fazermos isso, a vida se complica, mas é maravilhoso e vivemos a experiência de ser povo" (EG 270). 
Aos cristãos que se perguntam se isso seria missão de uma comunidade cristã, o papa responde: "A Igreja é a única sociedade que existe para aqueles que não fazem parte dela". É o que ele chama de "Igreja em saída" (E G 24).

Nesses dias, o comitê internacional que prepara o próximo Fórum Social Mundial confirma: A forma de organizar o mundo a partir do Capitalismo e da competição está fracassando. A concentração da riqueza nas mãos de apenas sessenta ricos do mundo, o desemprego estrutural provocado por esse modelo de desenvolvimento e a destruição da Terra e da natureza determinam um aumento da insegurança que toma conta das cidades. Isso põe em risco o futuro do planeta e da vida sobre a terra.

No Brasil, o governo e o congresso  nos fazem retroceder às leis existentes antes da abolição da escravatura. Os meios de comunicação social repetem mentiras sobre a necessidade da reforma da previdência. As privatizações a entrega das riquezas nacionais nas mãos do Império e das empresas multinacionais se multiplicam. Diante de tudo isso, os movimentos sociais e as comunidades de base resistem insistindo: "Nenhum direito a menos". 

Mesmo sendo vítimas de uma cada vez maior escalada de violências, os povos indígenas propõem para toda a humanidade um caminho novo: reorganizar as sociedades a partir do paradigma do Bem-viver. Nos morros cariocas e nas periferias de nossas cidades, jovens formam grupos musicais de reggae e hip-hop e criam um ambiente de solidariedade e uma cultura de resistência. Mesmo em meio a riscos de vida e a um ambiente de muita violência, esses grupos alternativos revelam que o amor é possível e, mesmo depois de todos os perigos, as luzes se acendem na madrugada do mundo. Essas pessoas e seus grupos escutam ainda hoje aquilo que, conforme o evangelho, Jesus disse aos discípulos. Após lavar os seus pés, Jesus afirmou: "Vocês serão felizes se fizerdes uns com os outros isso mesmo que eu fiz a vocês: abaixar-se diante dos outros e os servir" (Cf. Jo 13, 17).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br

  

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CRISE E SALVAÇÃO DA E NA IGREJA

MARIA CLARA BINGERMAN

        Figura polêmica na Igreja por suas posições ousadas e provocativas, o teólogo católico suíço Hans Küng não deixa de ser uma das cabeças teológicas inteligentes dos dias de hoje.  A teologia deve a ele algumas obras importantes de seu acervo de pensamento, muito concretamente no que diz respeito ao papel das religiões no mundo de hoje e às propostas para uma ética global. Antes disso, Hans Küng se ocupou com questões candentes de eclesiologia, tendo escrito inclusive um livro questionando a infalibilidade papal.


          Chamado à ordem e advertido inúmeras vezes pelo Vaticano, Küng perdeu a “missio canônica”, ou seja, a permissão eclesiástica para ensinar em qualquer faculdade de teologia católica.  No entanto, continuou a publicar e permaneceu ligado à Universidade de Tübingen, Alemanha, até sua aposentadoria.  Apesar da idade (mais de 80 anos), continua produtivo e dá conferências e entrevistas em várias partes do mundo. 


          É assim que caiu-nos nas mãos e sob os olhos uma entrevista recente, por ele concedida à revista Le Point, de 27 de setembro de 2012.  Ali fala sobre seu último livro intitulado A Igreja tem salvação?, no qual critica severamente a Igreja Católica que teria, segundo ele, traído suas origens. Essas mostram uma comunidade democrática e não monárquica, governada por homens que não desejavam ser senhores mas servidores do povo de Deus. Segundo o teólogo,  a Igreja hoje é centralizadora, absolutista e clerical, em nada parecida à comunidade primeva. 


          Após essa primeira afirmação, Küng critica outros pontos delicados da disciplina católica, como o lugar da mulher na comunidade eclesial, impedida de receber o sacramento da ordem e assumir funções de maior destaque; o celibato dos padres etc. Pela interpretação de Hans Küng, o fato de tais reformas ainda não terem se efetivado na Igreja se deve a uma traição ao Concílio Vaticano II levada a cabo pelos pontificados posteriores a Paulo VI.


          Em 2005, Küng foi recebido pelo atual Papa – seu antigo colega de docência e amigo em Tübingen -  para uma conversa de quatro horas, gesto que ele até hoje agradece. No entanto, se confessa decepcionado porque não se seguiu a essa conversa nenhuma mudança substancial na orientação do pontificado de Bento XVI em questões de fé e moral. 


          O mais belo dessa entrevista, dada por um homem brilhante e amargurado em muitos aspectos, porém, encontra-se em sua confissão de fé situada na parte final da mesma.  Arguido pelo repórter sobre o porquê de permanecer católico, Hans Küng confessa desassombradamente sua fé: “Não sou católico por causa do papa, mas pelo  Evangelho e o povo cristão...A Igreja Católica é minha pátria espiritual, na qual tive uma história às vezes difícil, mas apesar disso muito feliz.  Há milhões de católicos que partilham de minhas convicções. “ 


          Küng toca aí – talvez apesar de si mesmo – no coração do mistério da Igreja.  Santa e pecadora, “casta meretriz” que o Cristo desposa a cada dia.  A comunidade eclesial sempre estará atravessada de ambiguidades e contradições. E estas serão do tamanho e da proporção dos homens e mulheres que a compõem, seus membros e chefes, filhos amados do Pai, que faz nascer seu sol e cair sua chuva sobre todos e todas em toda ocasião.  


          A entrevista de Hans Küng não é carente de esperança e amor pela Igreja.  Se ele não amasse essa Igreja que chama ternamente de sua pátria espiritual, sofreria tanto pelos males que a afligem?  Estaria tão angustiado pelo fato de ver seus efetivos decrescerem, seus templos se esvaziarem e tantas pessoas debandarem de suas fileiras?  


          Ao final, perguntado se Jesus, vindo ao mundo hoje, reconheceria seus ensinamentos diante do atual Papa, Küng responde com alguma acidez, mas deixando entrever uma abertura afetuosa em relação ao atual Pontífice Bento XVI, seu antigo colega e amigo Joseph Ratzinger.  Responde que Jesus não se reconheceria na riqueza das vestes e adereços papais, nem veria nisto algo adequado ao sucessor de seu apóstolo Pedro.  Igualmente não se encontraria refletido no Cristo que o Papa descreve em seus livros.  Porém, termina, “está persuadido que, se ele olhasse no interior do coração de Joseph Ratzinger, encontraria traços de seu ensinamento.” 


          Enquanto o coração humano for fiel a Jesus de Nazaré, reconhecido e proclamado Cristo de Deus, a Igreja terá salvação.  Ainda que entre todos os seres humanos espalhados pelo planeta existisse apenas o coração de Joseph Ratzinger...ou o de Hans Küng...batendo ao ritmo do coração amante de Jesus, Verbo Encarnado e salvador do mundo.

 
Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre  ética,   mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.  

 
Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)