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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Mística, ética e ecosofia



por FREI BETTO

  Há estreito vínculo entre religião e ecologia. Os calendários litúrgicos refletem os ciclos da natureza. Toda religião expressa o contexto ambiental que lhe deu origem.
      Os hebreus e, em geral, os povos semitas, viviam em regiões inóspitas, desérticas, o que os levou a desenvolver o senso do sagrado centrado na transcendência. Onde a natureza é exuberante, como nos trópicos, se acentuou a imanência do sagrado. Todo o entorno geográfico e climático influi na relação religiosa que se tem com a natureza. 

      O cristianismo teve sua origem em áreas urbanas. Via a natureza à distância, como algo estranho e adverso. A palavra pagão, que englobava todos os não cristãos, significa etimologicamente “habitante do campo”.

      Todas as tradições religiosas indígenas mantêm estreito vínculo com a natureza. São teocósmicas, o divino se manifesta no cosmo e em seus componentes, como a montanha (Pachamama).

      Hinduísmo e taoísmo cultuam a natureza. Já o confucionismo e o budismo são tradições mais antropocêntricas, voltadas à consciência e às virtudes humanas.

      O islamismo mantém uma relação singular com a natureza. É uma religião semítica, cultua a transcendência de Alá, mas conserva, como o judaísmo, estreito vínculo com o entorno ambiental, o que se reflete na distinção entre alimentos puros e impuros, jejum, cuidado com a higiene pessoal etc.

      As religiões aborígenes (ab-origem = que estão na origem de todas as outras) não separam o humano da natureza. Há um forte sentido de equilíbrio e reciprocidade entre o ser humano e a Terra. O que dela se tira a ela deve ser devolvido.

      Entre as grandes tradições religiosas é o hinduísmo que melhor cultiva essa harmonia. Toda a Índia respira veneração sagrada por rios, animais, árvores e montanhas. A veneração pelas vacas reflete esse senso de equilíbrio, pois se trata de um animal do qual se obtém muitos produtos, do leite e seus derivados ao esterco como fertilizante, e isso é mais importante do que comê-las.

      Três grandes desafios, segundo o místico catalão Javier Melloni, estão inter-relacionados: a interioridade, a solidariedade e a sobriedade. A interioridade nos impele à via mística; a solidariedade, à ética; e a sobriedade à preservação ambiental.

      Nossa civilização estará condenada à barbárie se as pessoas perderem a capacidade de interiorização, de fazer silêncio, de meditar, de modo a saber escutar as necessidades do próximo (solidariedade) e o grito agônico da Terra (sobriedade).

      Urge submeter a ecologia à ecosofia, a sabedoria da Terra, na expressão de Raimon Panikkar. Não se trata de impor a razão humana sobre a natureza (eco-logos), mas sim de dar ouvidos à sabedoria da Terra, captar o que ela tem a nos dizer com seus ciclos, suas mudanças climáticas e até com suas catástrofes.

      Embora haja avanços em nosso comportamento, graças ao crescimento da consciência ecológica (reciclagem, uso da água, produtos ecologicamente corretos etc), ainda estamos atrelados a um modelo civilizatório altamente nocivo à saúde de Gaia e dos seres humanos.

      Continuamos a consumir combustíveis escassos e poluentes e, na contramão de todo o movimento ecológico, submergimos à onda consumista que produz, a cada dia, perdas significativas da biodiversidade e toneladas de lixo derivado de nosso luxo.

      Três grandes mentiras precisam ser eliminadas de nossa cultura para que o futuro seja ecologicamente viável e economicamente sustentável: 1) Os recursos da Terra não são suficientes para todos; 2) Devo assegurar os meus recursos, ainda que outros careçam dos mesmos; 3) O sistema econômico que predomina no mundo, centrado na lógica do mercado, e o atual modelo civilizatório, de acumulação de bens, são imutáveis.

      Nosso planeta produz, hoje, alimentos suficientes para 12 bilhões de pessoas, e é habitado por 7 bilhões. Portanto, não há excesso de bocas, há falta de justiça.

      Não haverá futuro digno para a humanidade sem uma economia de partilha e uma ética da solidariedade.

      Durante milênios povos indígenas e tribos desenvolveram formas de convivência baseada na sustentabilidade, na harmonia com a natureza e com os semelhantes. Como considerar ideal um modelo civilizatório que, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, condena 4 bilhões a viverem na pobreza ou em função de suas necessidades animais, como se alimentar, abrigar-se das intempéries e educar as crias?
    

Frei Betto é escritor, autor do romance “Aldeia do Silêncio”, que a Editora Rocco faz chegar às livrarias este mês.
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

 Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)
 

Creio



por GORETTI SANTOS




Creio no Deus que amou todas as criaturas

E foi assim que as criou...

Creio no Deus que é amor e liberdade

E por isso sopra onde quer...

Creio no Deus que é Irmão, Pai, Filho

E nos preenche de solidariedade e misericórdia...

Creio no Deus que Crê na humanidade

E não desiste de vê-la amadurecer em graça e sabedoria...

Creio no Deus que ri, se alegra e ama,

Ama infinitamente...

Creio no Deus que está presente

Aqui e agora,

Na história da vida

E para sempre
                                         Além de todos nós...

Goretti Santos é fisioterapeuta e poeta. Clique no nome pra ler outros poemas.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Para que essa Páscoa seja sem fim



Por MARCELO BARROS 


Clínicas de beleza oferecem tratamento de rejuvenescimento. Academias proporcionam malhações e fisioterapias que prometem milagres físicos. Grupos espiritualistas fazem terapias de renascimento. Todos desejam renovar-se a si mesmos e às pessoas que amam. A tradição bíblica oferece às comunidades judaicas e cristãs a mística pascal como instrumento para uma renovação que atinge a pessoa e todo o universo.  


Em tempos muito antigos, a Páscoa era uma dança da primavera e que fazia as pessoas participarem da renovação da natureza no hemisfério norte. Mas mesmo no sertão do Nordeste do Brasil, essa é a época das tão esperadas chuvas e é costume cantar na Páscoa um hino que vem de séculos antigos: “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra, água surgiu, era noite e o sol raiou, aleluia!”. Essa esperança é o que as Igrejas cristãs celebram nessa semana pascal e ainda por 50 dias como se teimassem em transformar o cotidiano da luta em uma energia de festa permanente.


Na noite do sábado passado ou madrugada do domingo, na grande Vigília pascal, mais importante celebração da Igreja durante todo o ano, as comunidades escutavam um evangelho que narra a corrida das mulheres, amigas de Jesus ao seu túmulo, “na madrugada, quando o sol ainda não havia nascido” (Cf. Lc 24, 1). Essa é a melhor imagem da Páscoa: uma madrugada ainda escura na qual temos certeza de um amanhecer esplendoroso e brilhante. Aurora de um mundo novo, presente do amor divino ao universo que se realiza em nós e toma a forma de uma organização social mais justa e fraterna. Nesses dias, em Túnis, na Tunísia, homens e mulheres, cidadãos de vários países e ligados às mais diversas tradições religiosas ou a nenhuma encerraram mais um fórum social mundial no qual tomaram como bandeira comum: “um novo mundo é possível!”. Essa palavra é a tradução civil e laical correspondente ao que os cristãos proclamam em sua fé: O Cristo ressuscitou realmente e assim Deus inaugurou uma nova criação da qual nós fazemos parte e somos chamados a ser testemunhas. 


Quando olhamos a realidade do mundo, constatamos a urgência de que o escuro da madrugada se transforme em luz do dia. Ansiamos por uma economia mais justa e transparente. Em nosso país, queremos uma organização social e política mais participativa. E precisamos de um novo modo de nos relacionar com a natureza. A aurora do dia tem seus mistérios. Se vai raiar um dia de sol ou a manhã será chuvosa e feia, não depende de nós. A aurora social e humana, sim. Podemos ajudar a que a madrugada ainda escura de nossa realidade se transforme em dia ensolarado da justiça e da fraternidade. Isso é Páscoa. Fazemos isso ao participarmos de todo esforço social por um mundo mais justo, mas também no nosso dia a dia ao tornarmos mais amorosas nossas relações com as pessoas. No Oriente, nesses dias, os cristãos recordam a memória de um santo monge que foi uma espécie de Francisco de Assis russo. Viveu no século XIX e se chamava Serafim de Sarov. Vivia em uma floresta e cada vez que em seu caminho encontrava alguém, se curvava diante do desconhecido e dizia: “Ao ver você, constato que verdadeiramente Jesus ressuscitou e atua em você fazendo de você uma pessoa nova. Graças a Deus!”. 


Marcelo Barros, monge beneditino e peregrino de Deus

Bancada evangélica? O que é isto, gente?



Por JURACY ANDRADE



Apesar de constituições descartáveis fabricadas por maioria de profissionais da malandragem política, de proclamações de republicanismo acendrado, etc., continuamos vítimas da mistura e confusão entre religião e política, religião e Estado e governo, da intolerância de alguns religiosos que transformam suas igrejas em partidos políticos, seus púlpitos em palanques para galgar o excelente emprego que é ser congressista neste país. Não bastaram, para se atingir o real progresso de um Estado laico, o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa. E já estamos no século 21, não é, gente? Mas ainda há muitos saudosos do tempo do padroado, quando a confirmação de bispos dependia da anuência do imperador, quando a Igreja Católica Romana gozava de amplos privilégios, chamavam-se os protestantes de bodes, samba e candomblé eram mantidos a respeitável distância.



     Martinho Lutero foi um grande reformador e a ele se deve a quebra do monopólio do catolicismo e do papado no Ocidente. Mas acredito que ele cometeu um erro básico ao pregar o livre exame dos textos sacros da Bíblia. Inconformado com a interpretação exclusiva que se arrogavam os donos da Igreja Romana (que, aliás, não encorajavam os fieis a ler os textos sagrados), ele partiu para o extremo oposto. Fez tábula rasa da tradição apostólica. Segundo Alister McGrath, em sua obra A revolução protestante (Editora Palavra), a ideia, no cerne da Reforma do século 16, é que a Bíblia pode ser entendida por todos os cristãos e que todos eles têm o direito de interpretá-la e de insistir que suas percepções sejam levadas a sério. Mas essa afirmação de democracia espiritual acabou por liberar forças que ameaçavam desestabilizar a Igreja, levando à cisão e à formação de grupos dissidentes. Isso se provou incontrolável, conforme esse autor.



     Ele prossegue se indagando: quem tem autoridade para definir a fé da religião?  instituições ou os indivíduos? Quem tem o direito de interpretar seu documento fundamental, a Bíblia? E prossegue: “A erupção da Guerra dos Camponeses, em 1525, deixou perfeitamente claro para Lutero que essa nova abordagem era perigosa e, em última instância, incontrolável. Se cada indivíduo pudesse interpretar a Bíblia conforme sua vontade, o resultado só poderia ser a anarquia e o individualismo religioso radical. Tarde demais. Lutero tentou controlar o movimento, enfatizando a importância dos líderes religiosos autorizados, como ele mesmo, e das instituições na interpretação da Bíblia. Mas quem, perguntavam seus críticos, havia ‘autorizado’ essas chamadas autoridades?”



     Essa livre interpretação radical levou a aberrações como você deixar morrer um filho porque a transfusão de sangue é proibida. Como já levara a Igreja pré-Reforma a monstruosidades como as Cruzadas e a Inquisição. Mas essa introdução é para chegarmos à “bancada evangélica” que pretendem constituir no Congresso Nacional 68 deputados e três senadores de diversas denominações protestantes (partidos são apenas biombos para eles), como Assembleia de Deus, Batista, Presbiteriana, Universal Quadrangular, Internacional e outras digamos “menos votadas”. Toda pessoa tem direito de professar sua religião e felizmente isso já é hoje bastante respeitado em nosso país. Mas, num Estado pretensamente laico, o cara não pode se apresentar ao eleitorado como candidato porque pertence a tal religião, porque é pastor ou adepto de tal igreja, porque faz suas orações na sinagoga, na mesquita etc.



     Essa vinculação político-religiosa foi expressamente combatida por Jesus Cristo, cuja paixão, morte e ressurreição estamos celebrando neste final de março. Nos primeiros três séculos de prática cristã, essa novidade (pois a praxe eram religiões tribais ou estatais) foi respeitada. Mas tudo foi melado quando o imperador romano Constantino, preocupado com a decadência do Império Romano, resolveu cooptar o cristianismo e dele fazer a religião oficial dos seus domínios. Foi o que de pior poderia acontecer à pureza e novidade do cristianismo. Bispos se tornaram nobres do Império e faziam parte da corte imperial. E, finalmente, o bispo de Roma decidiu, face à transferência da sede do Império para Constantinopla, ser o novo imperador criando a instituição do papado, que nada tem com o Evangelho e a tradição.



     O livre exame radical leva uma pessoa como Edir Macedo a se proclamar bispo, dizer-se inspirado por uma revelação (ver na sua biografia oficial) e pregar uma estranha teologia da prosperidade. Mas o radicalismo não é privilégio das confissões protestantes (que hoje preferem se dizer evangélicas; um duvidoso monopólio). Apesar de na contramão da lei, escolas públicas obrigam alunos a orar e cantar músicas católicas e a um compulsório ensino religioso (que, na verdade, é facultativo). Será que não se percebe que um Estado realmente laico é o melhor para qualquer religião ou espiritualidade?



     PS – Salve o papa Francisco, que fala e age como cristão. Se ele fizer uma limpeza na imundície da Cúria Romana, será um início de caminho para a volta ao cristianismo dos Atos dos Apóstolos. Acredito em Pérez Esquivel, combatente antiditadura, o qual garante que o então cardeal Bergoglio (hoje papa Francisco) não entregou ninguém aos gorilas argentinos.





Juracy Andrade é jornalista, com formação em filosofia e teologia