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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Há saída para a guerra entre Israel e Palestina?




por  Eduardo Hoornaert


A julgar as reações dos líderes mundiais diante da interminável guerra entre Israel e Palestina, não há saída possível pelo momento: a matança de inocentes vai continuar. Hoje, 2 de agosto,  já são 1.349 palestinos mortos, na grande maioria civis. Ontem o presidente dos Estados Unidos reafirmou o compromisso de seu país com Israel e acrescentou, como de passagem, que os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo. São palavras preocupantes, pois mostram que o homem do ‘sim, podemos’ está virando o tradicional ‘senhor da guerra’, assumindo o papel de presidentes dos Estados Unidos desde os anos 1950, quando colocaram no poder um ditador (Ngo Dihn Diem) no Vietnã do Sul, para combater o ‘comunismo’. Desde então, as intervenções americanas têm sido proveitosas para os Estados Unidos e perniciosas para os estados subalternos, como se verifica no apoio dado a Israel, Catar e Arábia Saudita, em contraste com as intervenções desastrosas no Iraque e em numerosas outras regiões do mundo. O cinismo da declaração de Obama ontem não deixa dúvidas: os ‘poderes deste mundo’ não estão realmente interessados em por fim à matança na Faixa de Gaza. 

Diante desse quadro aparecem, como é normal, reações de indignação, clamores por justiça e manifestações de rejeição da postura assumida pelos políticos das grandes potências. Por baixo dessas reações há uma impressão geral de impasse. A situação parece mesmo sem saída. As matanças continuarão, ao que tudo indica. Nessas circunstâncias vale fazer a seguinte pergunta: há mesmo uma saída para uma guerra entre oponentes tão desiguais como são Israel e Palestina? Quais as condições dessa (improvável) saída? O cristianismo tem algo a dizer sobre isso? Há textos do Novo Testamento que podem trazer luz neste momento? Trago aqui dois textos breves do Novo Testamento que podem ser aplicados à situação que vivenciamos. Deixemos de lado os Estados Unidos e nos concentremos nos dinamismos humanos existentes nos dois povos em litígio.

1. Nos anos 50, uns 20 anos depois da morte de Jesus, o apóstolo Paulo escreveu uma frase que ficou famosa: ‘Não há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea, pois vocês todos são um em Jesus Cristo’ (Gl 3, 28). É uma frase que pode ser aplicada à situação em que se encontram atualmente judeus e palestinos, da maneira seguinte: ‘Não há judeu nem palestino’. Assim formulada, a frase é uma provocação: onde está minha identidade? Está na minha nacionalidade? Eu me identifico por me declarar belga, alemão, brasileiro, israelense, palestino? Levo comigo uma carteira de identidade, mas será que ela me define? Aqui o problema reside no fato que as pessoas costumam confundir identidade e nacionalidade e esquecem como isso é perigoso. Potencialmente, eu me torno conivente com crimes cometidos por minha nação, se não tomar distância diante da ideia que nacionalidade significaria identidade. Identidade nacional pode ser mortífera. No momento em que um israelense se identifica com o projeto colonizador de sua nação, ele colabora implicitamente com a morte das vítimas desse projeto nacional. Assim a ideia nacional (nem falo aqui de ‘nacionalismo’) pode provocar as maiores desastres, como verificamos na última Guerra Mundial. Penso inclusive que um dos pontos mais fracos da atual Organização das Nações Unidas (ONU) consiste exatamente no fato de ser baseada na ideia de nação e não na ideia do universalismo humano, defendida por São Paulo na carta aos Gálatas, que estamos aqui comentando.  Graças a Deus, vejo pela televisão que muitos israelenses não se identificam com o projeto colonizador de seus dirigentes. 

Não seria uma boa ideia mandar imprimir as palavras ‘não há judeu nem palestino’ em largas faixas e afixá-las no Território de Gaza, em Jerusalém, na frente do Knesset (o parlamento israelense), sem esquecer a Casa Branca e o Senado em Washington?  Mas, será que os ilustres diplomatas do Knesset e do Senado americano estão interessados em captar o que Paulo quer dizer com essa frase? Muitos dirão logo que dizer ‘não há judeu nem palestino’ pode soar bonito, mas não resolve nada. Eles dirão: essas palavras são utópicas, impossíveis de serem realizadas. Sim, no momento parecem impossíveis, mas não é verdade que a utopia é, em última análise, o mesmo que realismo?  O que escrevi acima acerca de identidade e nacionalidade corresponde, ou não, à realidade?  Vale aqui evocar uma das frases mais contundentes da revolução estudantil de 1968: ‘sejamos realistas, exijamos o impossível’. Na atual crise do Oriente Médio, só o ‘impossível’ (o utópico) é realista, enquanto o ‘possível’ pragmático dos líderes mundiais nada soluciona, é irreal. As palavras do presidente Obama não correspondem à realidade vivida, nem as do secretário geral da ONU e do secretário americano Kerry. São palavras ao vento.

2. Aqui entra um segundo texto do Novo Testamento, desta vez do evangelho de Mateus, que registra um diálogo ocorrido entre Jesus e Pedro: ‘Pedro pergunta: Senhor, quantas vezes devo fechar os olhos diante de uma falha de meu irmão a meu respeito? Sete vezes? Jesus responde: Não digo sete vezes, mas setenta vezes sete vezes’ (Mt 18, 22). O perdão setenta vezes sete vezes é o ponto culminante da mensagem de Jesus. Só o perdão é realista, só ele abre as portas do futuro, pois só ele rompe o círculo vicioso da ‘espiral da violência’ (como dizia Dom Helder Câmara).

Os palestinos argumentam que a criação de um estado de Israel em terras tradicionalmente habitadas por palestinas é um crime, e eles têm razão. Mas será que existe no mundo um estado cuja origem não seja criminosa? Filósofos como Emmanuel Kant e Blaise Pascal nos lembraram, já faz muito tempo, que não há estado que não seja fundado sobre ação criminal. Tomemos o exemplo do estado brasileiro, fundado sobre o assassinato de milhões de habitantes que viviam nestas terras antes de 1500 e sobre o transporte criminoso de milhões de africanos trazidos para cá como escravos. Como esse crime já é antigo, silenciado pelos que detêm o poder, fica esquecido (prescrito, como se diz hoje).  A desfortuna de Israel é que o crime de sua fundação é recente. Faz apenas 66 anos (em 1948) que os tanques israelenses (americanas) varreram do mapa as habitações palestinas na terra hoje chamada Israel. Além disso, esse crime foi perpetrado num tempo em que a consciência humana não tolerava mais uma invasão tão brutal em terra habitada. Entendo que esse crime não sai da cabeça e principalmente do sentimento dos palestinos, mas temos de ser realistas.  Israel tem atualmente mais de 8 milhões de habitantes (324 por km2) enquanto a Autoridade Nacional Palestina controla por volta de 4 milhões de habitantes (595 por km2). Dá para ‘eliminar’ Israel? ou ‘eliminar’ Palestina?  Com tanta gente que vive de ambos os lados? Por que não romper esses ‘lados’ e pensar que se trata, doravante, de uma única terra em que tanto israelenses como palestinos têm de viver? É a ‘parte que lhes cabe no latifúndio’. Para palestinos e israelenses de hoje, trata-se aqui de conflitos perpetrados por antepassados de uma ou duas gerações atrás, pois o conflito entre Israel e Palestina tem suas raízes numa determinação da ONU em 1947. Diante do leite derramado, a única solução realista consiste em limpar o chão ou a mesa. No conflito do Oriente Médio, só o perdão (utópico?) é realista. Esqueçamos as excelências diplomáticas e ouçamos o homem na rua. Para ele, fica claro que israelenses e palestinos estão ‘condenados’ a conviver dentro de um mesmo território, aquele em que nasceram.  Só conseguirão viver juntos se deixarem de se ‘identificar’ como sendo ‘palestinos’ opostos a ‘israelenses’, e vice versa. Pois a terra que lhes cabe para viver é uma só, assim como a vida, frágil e passageira. Só há uma Jerusalém, não adianta esticá-la até a morte. É a cidade de todos, cristãos, judeus, islamitas, crentes e descrentes.  É nessa terra e nessa cidade que os habitantes têm de viver lado a lado. Não há outra perspectiva senão a morte. A solução está na miscigenação, no sentido ao mesmo tempo preciso e amplo do termo.

Essas reflexões se baseiam parcialmente no livro ‘Violência’, da autoria do filósofo Slavoj Zizek, que a Editora Boitempo de São Paulo acaba de lançar. 


Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Mártires que não morrem nunca



Marcelo Barros



Em grego, o termo mártir significa testemunha. Comumente é quem dá a vida ou sofre consequências por ser testemunha da dignidade humana e da liberdade. Há mártires nas lutas sociais por um mundo mais justo,no combate ao racismo, na defesa da natureza e na defesa da fé. Nesses dias, na faixa de Gaza, em meio aos ataques do Estado de Israel à população palestina, voluntários de vários países e de diversas religiões arriscam a vida ao socorrer feridos e ajudar pessoas a sobreviver. São mártires vivos, embora alguns acabam feridos e até mortos pelos tiroteios. Na América Latina, a luta contra as ditaduras, pela democracia e pela justiça teve e tem ainda muitos mártires. Como, na Bíblia, diz a carta aos hebreus: “eles formam uma imensa nuvem de testemunhas”. Nesses dias, no Brasil, as comunidades cristãs de base e os movimentos sociais celebram os 40 anos do martírio do frei Tito Alencar. Por causa de sua fé no reino de Deus e pelo seguimento do profeta Jesus, junto com outros jovens dominicanos, no final dos anos 60, esse irmão enfrentou a ditadura militar brasileira. Foi preso em São Paulo e durante vários dias foi barbaramente torturado. Ainda na prisão, ele escreveu o relato fiel e sóbrio dessas sessões de tortura, comandadas pelo delegado Sérgio Fleury e por sua equipe do DOPS em São Paulo. Esse escrito, fielmente transcrito em um livro de Frei Betto, até hoje, comove profundamente qualquer pessoa que o lê. Ao escutá-lo, um cristão sente os ecos dos primeiros cristãos contando nos evangelhos os sofrimentos e morte de Jesus na cruz. 

Mais de um ano depois, o nome de Frei Tito foi incluído na lista dos presos políticos a serem libertados pela ditadura, em troca do embaixador suíço que tinha sido sequestrado. Obrigado a viver no exílio, longe do Brasil, Frei Tito não conseguiu libertar-se dos traumas sofridos durante as torturas. Na permanente angústia e terror de ver o seu torturador em todo lugar, ele acabou se enforcando em um convento da França, onde estava exilado. Desde a sua morte, em 10 de agosto de 1974, as comunidades cristãs latino-americanas o consideram um irmão que deu a vida pela causa do reino de Deus e sua justiça. Vinte anos depois, seus restos foram transferidos ao Brasil e, atualmente, repousam em Fortaleza, sua cidade natal. 

Nesses dias,a província dominicana do Brasil e as comunidades da caminhada promovem vários eventos para recordar os 40 anos do martírio de frei Tito e refletir sobre a atualidade do seu testemunho para os nossos dias. Graças a Deus, não vivemos mais os tempos duros da repressão militar, mas até hoje, tantos anos depois, não conseguimos esclarecer a maioria dos crimes, fazer justiça às famílias dos muitos desaparecidos e, principalmente, garantir que crimes como a tortura nunca mais se repitam. No Brasil de hoje, a tortura continua sendo praticada em muitas delegacias de todo o país. No ano passado, no Rio de Janeiro, o pedreiro Amarildo foitorturado e assassinado por soldados que tinham como missão pacificar os morros do Rio. Em todas as regiões do país, quase diariamente, são sumariamente assassinados adolescentes e jovens de periferia, em sua maioria, negros e pobres. Nesses dias, começamos o tempo de campanha política para as próximas eleições. A segurança pública e a questão da violência urbana são temas frequentemente lembrados nas campanhas, mas raramente são abordados a partir da vida dos mais pobres e desprotegidos. 

Ao recordar os 40 anos do martírio de Frei Tito, temos a responsabilidade de fazer com que o seu sacrifício continue sendo fecundo e possa nos comprometer na construção de uma sociedade nova.
No final dos anos 70, na Nicarágua, um chefe da guarda nacional, responsável pela repressão na ditadura de Somoza, quis dobrar a resistência dos prisioneiros políticos. Entrou no cárcere e com grande alegria, anunciou:
- Hoje, o comandante Carlos Fonseca caiu em uma emboscada que preparamos. Morreu  

Um dos prisioneiros, o comandante sandinista Tomás Borge respondeu na mesma hora:
Carlos Fonseca é dos mortos que nunca morrem. 

Hoje, ao recordar essa história podemos dizer o mesmo com os mártires da caminhada. Principalmente, se renovamos nosso compromisso de luta pela justiça e pela libertação do nosso povo e de todo o continente, podemos afirmar com confiança: Frei Tito é dos mártires que não morrem nunca. Estão sempre vivos na atualidade das causas em que acreditamos e pelas quais pacificamente lutamos. 


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  

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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Promessas de outro tipo de Transformação(III)


por Leonardo Boff

 Para pormos em curso outro tipo de Grande Transformação que nos devolta a sociedade com mercado e elimine a deletéria sociedade unicamente de mercado, precisamos fazer algumas travessias impostergáveis. A maioria delas está em curso mas elas precisam ser reforçadas. Importa passar:

-do paradigma Império, vigente há séculos para o paradigma Comunidade da Terra;

-de uma sociedade industrialista que depreda os bens naturais e tenciona as relações sociais para uma sociedade de sustentação de toda a vida;
-da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos sujeitos à venda e à exploração para a Terra como um Ente vivo, chamado Gaia, Pacha Mama ou Mãe Terra;

-da era tecnozoica que devastou grande parte da biosfera para a era ecozoica pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e juntas cooperam na salvaguarda da vida.

-da lógica da competição de se rege pelo ganha-perde e que opõem as pessoas para a lógica da cooperação do ganha-ganha que congrega e fortalece a solidariedade entre todos.

-do capital material sempre limitado e exaurível, para o capital espiritual e humano ilimitado feito de amor, solidariedade, respeito, compaixão e de uma confraternização como todos os seres da comunidade de vida;

-de uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocentrada que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à logica do processo cosmogênico que se caracteriza pela sinergia, pela interdependência de todos com todos e pela cooperação.

Se é perigosa a Grande Transformação da sociedade de mercado, mais promissora ainda é a Grande Transformação da consciência. Triunfa aquele conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de esperança para todos. Essa seguramente é a Grande Transformação das mentes e dos corações a que se refere a Carta da Terra. Esperamos que se consolide, ganhe mais e mais espaços de consciência com práticas alternativas até assumir a hegemonia da nossa história.

Há um documento acima citado a Carta da Terra por seu alto valor de inspiração e gerador de esperança. Ela é fruto de uma vasta consulta dos mais distintos setores das sociedades mundiais, desde os povos originários, das tradições religiosas e espirituais até de notáveis centros de pesquisa. Foi animada especialmente por Michail Gorbachev, Steven Rockfeller, o ex-primeiro ministro da Holanda Lubbers, Maurice Strong, subsecretário da ONU e Mirian Vilela, brasileira que, desde o início coordena os trabalhos e dirige o Centro na Costa Rica. Eu mesmo faço parte do grupo e tenho colaborado na redação do documento final e de sua difusão por onde posso.

Depois de 8 anos de intensos trabalhos e de encontros frequentes nos vários continentes, surgiu um documento pequeno mas denso que incorpora o melhor da nova visão nascida das ciências da Terra e da vida, especialmente da cosmologia contemporânea. Ai se traçam princípios e se elaboram valores no arco de uma visão holística da ecologia, que podem efetivamente apontar um caminho promissor para a humanidade presente e futura. Aprovado em 2001 foi assumido oficialmente em 2003 pela UNESCO como um dos materiais educativos mais inspiradores do novo milênio.

A Hidrelétrica Itaipu-Binacional, a maior do gênero no mundo, tomou a sério as propostas da Carta da Terra e seus dois diretores Jorge Samek e Nelton Friedrich conseguiram envolver 29 municípios que bordeiam o grande lago onde vive cerca de um milhão de pessoas. Deram início de fato a uma Grande Transformação. Lá se realiza efetivamente a sustentabilidade e se aplica o cuidado e a responsabilidade coletiva em todos os municípios e em todos os âmbitos, mostrando que, mesmo dentro da velha ordem, se pode gestar o novo porque as pessoas mesmas vivem já agora o que querem para os outros.

Se concretizarmos o sonho da Terra, esta não será mais condenada a ser para a maioria da humanidade um vale de lágrimas e uma via-sacra de padecimentos. Ela pode ser transformada numa montanha de bem-aventuranças, possíveis à nossa sofrida existência e uma pequena antecipação da transfiguração do Tabor.

Para que isso ocorra, não basta sonhar, mas importa praticar.

Leonardo Boff escreveu A opção-Terra: a salvação da Terra não cai do céu, Record 2009.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

POR QUE UM DIA DO PADRE?

por  Maria Clara Lucchetti Bingemer



        Por que um dia especial para os padres?  Assim como tem o dia das mães, dos pais, dos namorados?  Esses são fontes de lucro para o comércio.  Assim também o dia das avós – que eu soube que existia depois que fui avó – dia do escritor, do filósofo e do padre. São categorias de pessoas que desempenham papel importante na sociedade, que se tornam luminosos e orientadores para as pessoas, que marcam o caminho de muitos.

            O que é o padre – o presbítero, aquele que recebe o que se chama “ordem maior” na Igreja – para que mereça um dia especial consagrado a ele? O que tem de importante em nossa sociedade ocidental para merecer essa homenagem?

            A palavra presbítero em grego quer dizer ancião. Presbítero, então, nas igrejas cristãs primitivas era cada um dos anciãos aos quais era confiado o governo da comunidade cristã. O termo ancião vem do latim antianus, via francês arcaico ancien, referindo-se a pessoa de idade avançada.    A palavra hebraica equivalente é za·qen e identificava os líderes do Antigo Israel, quer no âmbito de uma cidade, da tribo ou em nível nacional. Já presbítero vem do grego, πρεσβυτερος, presbyteros, pessoa de idade, ancião. Significa antigo, velho, venerável, respeitável. E com todas essas conotações que vêm junto com a ancianidade - sabedoria, experiência de vida, dom de conselho etc. - Padre, significando pai, é uma forma de tratamento que recebe o presbítero na Igreja Católica, Igreja Ortodoxa e algumas correntes protestantes, como no anglo catolicismo.  Evoca a paternidade que nas sociedades patrilineares ou patriarcais é o significante da proteção, da maioridade, da confiança possível.

      Um presbítero ou padre é, pois, alguém que, plenamente humano, recebe um chamado, uma vocação, que o separa dentre os seres humanos e o constitui em favor desses mesmos seres humanos para anunciar a Palavra, celebrar o culto, construir a comunidade e ser administrador e dispensador dos mistérios de Deus. Entre os compromissos assumidos por aquele que se sente chamado por Deus a essa vocação – concretamente dentro da Igreja Católica - está o de não contrair matrimônio nem constituir família. Ou seja, o presbítero, em virtude de sua vocação e missão, assume no momento de sua ordenação o compromisso de permanecer celibatário e casto pelo resto de sua vida.

       Trata-se de algo que traz perplexidade a muita gente.  Sobretudo porque muitos se perguntam: o celibato em nossos dias tem ainda razão de ser? Em uma sociedade tão erotizada como a nossa, não será uma falta de sentido de realidade insistir em uma norma tão difícil de ser cumprida e por isso mesmo transgredida em alta proporção? Por que homens corretos e religiosos não podem sentir e responder à vocação sacerdotal sendo simplesmente casados e pais de família? Por que essa exigência tão dura de um compromisso de celibato para a vida toda?

       Creio que aqui não cabem as tradicionais respostas "funcionais", tais como: o padre não se casa para ter mais tempo para o ministério. Ou para estar mais disponível para atender às pessoas que o procuram. Ou para poder guardar melhor o segredo da confissão sem ser ameaçado pela presença constante da mulher ao seu lado. Parece-me que nada disso procede, ou pelo menos não vai ao cerne do problema. Ainda mais nos dias de hoje, quando vemos cada vez mais leigos, homens e mulheres, que se dedicam integralmente ao serviço da Igreja, dando o melhor de suas forças, tempo e energias. O celibato do padre não pode ser apenas um elemento de uma distorcida visão de sua vocação e ministério enquanto mero "funcionário do sagrado".

     A única ótica pela qual não apenas o celibato sacerdotal, mas toda a vida do ministro ordenado faz sentido é a do amor. Pois é de amor que se trata quando um homem sadio, em plena posse de suas faculdades físicas, mentais e afetivas, decide atender ao chamado de Deus e bater na porta do seminário pedindo a ordenação sacerdotal. Este homem só pode estar apaixonado. Só pode haver encontrado na vida um amor tão total e radical, que ocupa todo o espaço de sua pessoa e de seu coração. Inteiramente tomado e conquistado por esse amor, que lhe pede tudo, sua vida inteira, sente então que faz sentido renunciar a positivas e legítimas alegrias humanas - entre elas a realização afetiva do matrimônio e da família - para assumir o ministério sacerdotal.

       No entanto, e apesar da graça imensa que recebe e que o "escolhe" e o põe à parte do meio dos outros seres humanos, este homem continua sendo humano, e, portanto frágil, pecador, passível de erros, falhas e desvios de personalidade. Precisará ser ajudado a perceber suas lacunas afetivas, suas carências e mesmo suas enfermidades. Necessitará de auxílio para discernir se sua vocação é verdadeira ou se, ao contrário, será melhor para ele e para os outros que procure outro caminho em sua vida. E aqueles ou aquelas que foram vítimas de seu pecado e seu desvio deverão ser muito concreta e carinhosamente amparados pela Igreja, responsável pelas quedas e falhas de seus membros.

     A graça de Deus não torna ninguém super-pessoa. Pelo contrário, se visibiliza e brilha mais intensamente ali onde a fragilidade e a fraqueza humanas são maiores e mais profundas. Pecadores e traidores é o que mais existe na Igreja de Cristo.  Por isso mesmo, o extraordinário é que essa mesma Igreja santa e pecadora ainda consiga produzir santos.  E ela o consegue, mesmo entre o clero, abundantemente entre o clero.

     É aí, e somente a partir daí pode-se e deve-se examinar e compreender o sentido do sacerdócio ministerial hoje. A partir do amor que é mais forte que o pecado e a morte, e que é feito não só de exigências e artificiais perfeições, mas também de perdão e compaixão extremas, que amparam e levantam aquele que caiu. Santa e pecadora, a Igreja repousa somente sobre a santidade de seu Senhor para poder ser no mundo sinal de salvação. A vocação sacerdotal vivida por pessoas frágeis e pecadoras faz parte desse grande mistério. Portanto, não é motivo de escândalo, mas sim de ação de graças. 

       E por tudo isso e muito mais: Feliz Dia do Padre para aqueles que tiveram a coragem de responder ao chamado de Deus e entregar suas vidas inteiramente a serviço de seu povo. 

 Maria Clara Lucchetti Bingemer  é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “Ser cristão hoje" (Editora Ave Maria). 
 Copyright 2014 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

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