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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

PAPA FORTALECE MOVIMENTOS SOCIAIS



Por Frei Betto


      Em outubro, Francisco acolheu, no Vaticano, dirigentes de movimentos populares de vários países, entre os quais o Brasil.

      Disse ao recebê-los: “Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela! Não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar. Isso é meio perigoso. Vocês sentem que os pobres já não esperam e querem ser protagonistas, se organizam, estudam, trabalham, reivindicam e, sobretudo, praticam essa solidariedade tão especial que existe entre os que sofrem, entre os pobres.”

      Em linguagem coloquial, Francisco frisou que solidariedade significa algo mais do que atos de generosidade esporádicos: “É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas. É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro.”

      Ao destoar da retórica dos políticos que temem o protagonismo popular, Francisco acentuou: “Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que, unicamente, tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas.”

      Ao lembrar que, hoje, a maioria dos seres humanos não dispõe de terra, teto e trabalho, o papa ironizou: “É estranho, mas, se falo disso para alguns, significa que o papa é comunista. Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados.”

      Sobre terra, disse Francisco: “A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal.”

      Quanto à fome, alertou o papa: “Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo. (...) Sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral."

      E quanto ao teto, Francisco lançou o apelo: “Uma casa para cada família. (...) Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas.”

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros livros.
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
  
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terça-feira, 11 de novembro de 2014

O DIVINO PROJETO DE MUDAR



Por Marcelo Barros

Dizem que Deus é bom, mas vive cercado de amigos que, embora, em sua maioria, não sejam maus, usam seu nome para manter costumes e estruturas que deveriam mudar. De fato, no decorrer da história, em nome de Deus, líderes religiosos das mais diversas religiões  defenderam a escravidão dos negros, o racismo, a violência contra os que não creem como eles, a pena de morte e até guerras contra outros povos. Atualmente, no Congresso Nacional, um bom número de parlamentares que se dizem cristãos faz os verdadeiros cristãos ficarem com vergonha de se apresentarem como tais. Se Deus fosse como esses senhores dizem, egoísta, prepotente, mesquinho, homofóbico, cruel com os que não creem e pouco sensível à justiça, nós todos deveríamos pregar o ateísmo e combater o mal terrível para a humanidade que seria a religião.

De fato, a um rapaz que lhe disse: “Sou ateu”, o bispo profeta Dom Pedro Casaldáliga respondeu: “De que Deus?”. Ele quis mostrar que do deus, cujo nome aparece nas cédulas de dólar, na sede alguns bancos e em certos templos suntuosos, nós todos deveríamos ser. Afinal, somos discípulos de Jesus que, embora profundamente fiel à fé e à espiritualidade judaica, combateu a forma de religião do templo de Jerusalém e denunciou como hipócritas chefes religiosos do seu tempo.

Em um mundo no qual governos que usam o nome de Deus são menos humanos e menos solidários do que os que se dizem ateus, o papa Francisco propõe uma nova forma de testemunhar Deus. Há poucos dias, no Vaticano, reuniu um sínodo de bispos para mudar a forma como a Igreja Católica continua falando de moral da família. De fato, pouco antes de morrer, em 2012, o Cardeal Carlo Martini, ex-arcebispo de Milão, afirmou que, sobre esse ponto, a Igreja Católica está, ao menos, 200 anos atrasada em relação à humanidade. O papa tomou consciência disso e afirmou claramente aos bispos: “Deus não tem medo de mudanças. Ele gosta de novidades”. Pouco depois de encerrar essa sessão do Sínodo de bispos, o papa convidou ao Vaticano líderes sociais de todo o mundo para escutá-los e se colocou ao lado deles na luta pacífica por um mundo mais justo e igualitário. Tomara que padres e bispos que imitavam papas,  quando esses tomavam atitudes dogmáticas e rígidas, agora sigam o exemplo do atual bispo de Roma que se coloca à escuta das organizações sociais cristãs e não cristãs e se ponham realmente a serviço da humanidade. Como pastor da unidade das Igrejas, o papa age assim como uma proposta para que bispos locais e padres em suas paróquias possam continuar esse diálogo com os movimentos sociais e as organizações de serviço à humanidade.

Neste novembro, mês em que no Brasil se celebra a união e consciência negra, em Brasília, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) publicou um livrinho com o título “Na casa do meu Pai há muitas moradas” (Conversas com um pastor pentecostal sobre a Bíblia e as outras religiões). Esse livro escrito em forma de conversa simples e leve procura mostrar como ler a Bíblia de modo que se valorizem e respeitem as tradições religiosas negras e indígenas. É profundamente vergonhoso que, até hoje, em várias cidades brasileiras, templos do culto afro-brasileiro, assim como seus sacerdotes e sacerdotisas sejam discriminados e, às vezes, até perseguidos por pessoas e grupos que se dizem cristãos e em nome da Bíblia e de Deus.

Todas as tradições espirituais têm como meta construir a morada divina no mais profundo do ser humano e que isso seja a semente para transformar as estruturas do mundo. Enquanto a religião for exterior, mas não mudar profundamente o coração de cada pessoa, não atingirá a sua meta. O projeto divino é um mundo renovado na base da justiça, paz e respeito e comunhão com a natureza. As pessoas que creem devem dar testemunho desse projeto, começando por si mesmas o caminho da justiça e da paz. Simone Weill, mística e pensadora francesa, afirmava: “Conheço quem é de Deus não quando me fala de Deus, mas pelo seu modo de ser solidário e amoroso com as outras pessoas”. 
    

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

POLÍTICA E DIÁLOGO NO CONTEXTO DA REELEIÇÃO DE DILMA ROUSSEFF



Por Leonardo Boff


A reeleição de Dilma Rousseff propicia reflexões sobre as várias formas de se fazer política partidiária. Fazer política é buscar ou exercer concretamente o poder. Que fique claro o que Max Weber escreveu em seu famoso texto A Política como Vocação: “Quem faz política busca o poder. Poder, ou como meio a serviço de outros fins ou poder por causa dele mesmo, para desfrutar do prestígio que ele confere”.

Esse último modo de poder político foi exercido, por quase todo o tempo de nossa história, pelas classes dominantes a fim de se beneficiarem dele, esquecendo que o sujeito de todo o poder é o povo. Trata-se do famoso patrimonialismo tão bem denunciado por Raimundo Faoro em seu clássico Os donos do poder
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Vejo cinco formas de exercício de poder.

Primeiro, a política do punho fechado. Trata-se do poder exercido de cima para baixo e de forma autoritária. Há um só projeto político, aquele do detentor do poder que pode ser um ditador ou uma classe dominante. Eles simplesmente impõem o projeto e esmagam os alternativos. Foi o que mais vigorou na história brasileira, especialmente sob a ditadura militar.

Segundo, a política do tapinha nas costas. É uma forma disfarçada de poder autoritário. Mas diferencia-se do anterior porque este se abre aos que estão fora do poder mas para atrelá-los ao projeto dominante. Recebem algumas vantagens, desde que não constituam outro projeto alternativo. É a conhecida política paternalista e assistencialista que desfibrou a resistência da classe operária e corrompeu tantos artistas e intelectuais. Funcionou entre nós especialmente a partir de Vargas em diante.

Terceiro, a política das mãos estendidas. O poder é distribuído entre vários portadores que fazem alianças entre si sob a hegemonia do mais forte. Há alianças entre o partido vencedor com os demais partidos aliados para garantir a governabilidade. É o presidencialismo de coalizão parlamentar. Esse tipo pode criar favorecimentos, disputas de postos importantes no Estado e mesmo a corrupção. Foi o que ocorreu nos últimos anos.

Quarto, a política das mãos entrelaçadas. Parte-se do fato básico de que o poder está difuso nos movimentos e instituições da sociedade civil e não apenas na sociedade política, nos partidos e no Estado. Esse poder social e político pode convergir para algo benéfico para todos.   Trata-se da grande discussão atual que prevê a participação dos movimentos sociais e dos conselhos para junto com o Parlamento e o Executivo definirem políticas públicas. Busca-se uma democracia participativa que enriquece a representativa. Negar esta forma é não querer democratizar a democracia e permanecer na atual que é de baixa intensidade.

Especificando: a política das mãos entrelaçadas acontece quando o chefe de Estado se propõe a uma ampla dialogação com todos os segmentos afim de repactuar os atores sociais ao redor de um projeto comum mínimo. O pressuposto é: aquém e além das diferenciações e dos interesses conflitantes, existe na sociedade, a ideia de que país queremos, a solidariedade mínima, a busca do bem comum, a observância de regras consentidas e o respeito a valores de sociabilidade sem os quais viraríamos uma matilha de lobos. As mãos estendidas podem se entrelaçar coletivamente. Mas para isso, precisa-se do exercício do diálogo que implica ouvir a todos e buscar convergências na linha do ganha-ganha e não do ganha-perde. É a ética na política e da boa política verdadeiramente democrática.

Por fim temos a ver com política enquanto sedução no melhor sentido da palavra, subjacente à proposta da Presidenta Dilma. Ela propõe um diálogo aberto com todos os atores políticos, também da área popular. Urge seduzir aqueles 48% que voltaram no candidato da oposição em vista de um projeto de Brasil que beneficie a todos a partir da inclusão dos mais penalizados, da criação de desenvolvimento ecológica e socialmente sustentado que gere empregos, melhores salários, redistribuição de renda, crie um transporte decente e mais segurança para os cidadãos, além do cuidado para com a natureza e a potenciação de um horizonte de esperança para o povo poder se reencantar com a política.

Alguém precisa ser inimigo de si mesmo para estar contra tais propósitos. A arte dessa dialogação é reencantar a política das coisas e seduzir as pessoas para esse sonho de grandeza ética.

Para isso é obrigatório olhar para frente. Quem ganhou a eleição deve mostrar magnanimidade e quem a perdeu, humildade e disposição de colaborar visando ao bem comum.

É idealismo? Sim, mas no seu sentido profundo. Uma sociedade não pode viver só de estruturas, burocracia e disputas ideológicas em torno do poder. Tem que alimentar sonhos de melhoria permanente que inclua e beneficie, o mais possível, a todos para superar a nossa espantosa desigualdade social.

Razão têm as comunidades eclesiais de base quando cantam: “Sonho que se sonha só, é pura ilusão. Sonha que se sonha juntos é sinal de solução. Então, vamos sonhar juntos, sonhar em mutirão”.
Esta é a convocação suprapartidária que a Presidenta Dilma está fazendo ao Parlamento, aos movimentos populares e a toda a nação. Só assim se esvazia o discurso das divisões, dos preconceitos contra certas regiões e se sanam as chagas produzidas no ardor da campanha eleitoral com todos os seus excessos de parte a parte.

Leonardo Boff é autor de Que Brasil queremos, Vozes, Petrópolis 2000.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

SOR CRISTINA: FENÔMENO VOCAL E RELIGIOSO





Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio




 

            Fui educada em colégio de freiras, o saudoso Nossa Senhora de Sion, que existe até hoje, embora com menos religiosas andando por suas galerias e salas de aula do que no meu tempo.  E desde pequena impressionava-me muito a vida de minhas educadoras, mulheres consagradas, que haviam renunciado a formar uma família e às alegrias legítimas da vida, para dedicar-se inteiramente a Deus e seu Reino.

            Ao longo de minha formação conheci muitas irmãs, dos mais variados temperamentos e perfis.  Havia as que nos davam medo, bravas e sérias.  Outras, nos faziam rir, partilhando conosco uma alegria meio infantil, pura e correndo conosco pelos corredores, cúmplices de nossas travessuras.  Outras transpiravam bondade pelos poros e nos comoviam com sua personalidade inteiramente voltada para o amor e o serviço.

            Tempos depois, estudando teologia, eu as tive como colegas, companheiras e pares.  Mas também as conheci ao dar assessorias por lugares longínquos e desconhecidos do Brasil, ou mesmo em periferias do Rio de Janeiro.  Ali eu as via missionárias, fazendo tripla jornada, com profissão, trabalho pastoral e noites sem dormir, atendendo os necessitados do bairro ou do campo.  Ali onde ninguém queria estar, estavam as irmãs, dando a totalidade de sua fecundidade não tornada maternidade biológica, mas transformada em maternidade real e teologal, ajudando fracos e oprimidos, fazendo brotar vida onde a vida seria humanamente impossível.

            Lembro-me ainda, nos dias de minha juventude, de uma religiosa dominicana belga, Soeur Sourire (Irmã Sorriso), que gravou um disco de imenso sucesso, cujo carro chefe era uma canção que falava da vida de São Domingos e cujo estribilho soava assim: Dominique, nique, nique... A Irmã Sorriso cantou e gravou discos até o dia em que saiu da congregação e fundou com uma amiga uma escola para crianças autistas.  As dificuldades financeiras e os obstáculos para relançar-se como cantora conduziram-na à depressão e posteriormente ao suicídio.  Irmã Sorriso levou até o final de sua tumultuada história a cruz dos dominicanos pendurada em seu pescoço.

            Por que todas estas histórias?  Porque estou muito impressionada com o mais recente sucesso do programa The Voice, a freira ursulina italiana Cristina Scuccia.  Dona de uma voz belíssima e potente, e de um domínio de palco e de corpo incomparáveis, Sor Cristina ganhou o primeiro lugar na edição italiana do The Voice e bateu todos os recordes no YouTube com mais de 100 milhões de visitas em seus vídeos.  Seu primeiro disco, “Sister Cristina” está prestes a sair.

       Ultimamente, Sor Cristina tem se tornado fonte de perplexidade nos meios católicos por haver incluído neste último a canção Like a Virgin, grande sucesso da polêmica cantora pop Madonna. Ela o faz com novo ritmo, de balada romântica, mas a escolha não deixa de escandalizar os católicos mais conservadores, que creem que as freiras deveriam estar trancadas nos conventos e clausuras, dedicando-se a rezar e fazer penitência.  Uma freira cantora dificilmente entra nesses parâmetros.

            Sor Cristina não tem medo das críticas.  Ao contrário, as enfrenta com coragem e ao mesmo tempo com doçura e serenidade.  Afirma e reafirma que a escolha da canção de Madonna não tem como objetivo escandalizar a audiência.  Incluiu-a em seu repertorio depois de escutá-la atentamente e descobrir que versa sobre a capacidade de amar e de renovar as pessoas. 

            Ao reparar na letra da canção, não podemos não achar que Sor Cristina faz uma interpretação possível, pois as palavras falam de uma mulher que estava “vencida, incompleta, havia sido enganada, triste e deprimida” ...até que encontra alguém, que a faz sentir-se radiante e nova.”  É então que canta o mote da canção: “Como uma virgem tocada por primeiríssima vez.  Como uma virgem quando teu coração bate junto ao meu.”  Sor Cristina, na flor de  seus 26 anos, declara que sente uma grande responsabilidade diante do dom e do talento que Deus lhe deu e que seu único objetivo é prestar seu testemunho entusiasta por haver encontrado  Cristo.  Tudo que deseja é transmitir sua vivência.

            Apesar de todos os riscos, não podemos deixar de admirar a audácia desta religiosa jovem e talentosa, que acaba de renovar seus votos de pobreza, castidade e obediência, e que pretende doar o que ganhar com a venda de seu disco a obras de caridade. Se a Igreja tem que estar na rua, sacudindo os corações, como deseja o Papa Francisco, por que não poderia chegar a Boa Nova aos jovens de hoje pela bela voz dessa inusitada intérprete?

            Quando se trata do Evangelho de Jesus é preciso ousar.  Sem medo.  Sor Cristina ousa. Bendita seja!  Ela tem quem por ela olhe.  A superiora já lhe disse que o mais importante é não descuidar de sua vida espiritual. Concordamos e aplaudimos, Sor Cristina.  Conte com nossas orações e nossa vibração pela beleza que você faz o mundo ouvir.



A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.  

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