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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O ATIVO ESPERAR DA VIGILÂNCIA



Por Marcelo Barros


A cada ano, as Igrejas cristãs mais antigas dedicam as semanas antes do Natal a cultivar a expectativa da realização do projeto divino no mundo. Lembrar o nascimento de Jesus na festa do Natal é um modo de afirmar que a promessa feita por Deus de um mundo renovado pela justiça e pela paz é atual e possível. Ele se realiza por iniciativa divina, mas através de nós. Por nosso modo de viver, devemos testemunhar que ele vem e podemos apontar sinais concretos de sua vinda. É claro que isso pede de nós sermos capazes de ver sinais da madrugada que vem mesmo na mais escura das noites.

No tempo da ditadura brasileira, Geraldo Vandré cantava: “Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer”. Ele tinha razão em rejeitar uma esperança passiva e acomodada de quem, passivamente, espera que, por si mesmas, as coisas aconteçam. Não é essa a perspectiva da fé cristã. Menos ainda a nossa forma de viver esse tempo de espera, ao qual, cada ano, a celebração do Natal nos convida. Desde antigamente, as Igrejas denominam as semanas anteriores ao Natal de tempo do Advento. Em latim, advento significa “vinda”. Conota um modo de esperar muito particular. Propõe aguardarmos a realização do projeto divino no mundo, do mesmo modo como, a cada noite, o guarda noturno espera ansiosamente que o dia desponte. Essa espera vigilante é ativa e colabora para que o dia nasça em paz. Como a tradição cristã acentua que é a manifestação da presença de Jesus que marcará a chegada definitiva do reinado divino, os evangelhos nos convidam a esperá-lo como servos que aguardam, preparados e atentos, a vinda do Senhor.

Até hoje, há cristãos que reduzem o Natal a uma memória sentimental do nascimento do menino Jesus. Nunca foi essa a perspectiva pela qual as Igrejas celebraram o Natal. Os antigos pastores ensinavam que não adianta lembrar o nascimento de Jesus em Belém se, hoje, não fizermos do nosso ser interior um presépio para acolher não apenas o menino Jesus, mas o projeto pelo qual, um dia, ele nasceu nesse mundo. Para isso, é preciso que leiamos a nossa fé e interpretemos toda a Bíblia como revelação desse projeto. Há cristãos que se mantêm na fé por costume ou por conveniência religiosa. Apesar de serem pessoas religiosas, não veem claro esse projeto divino em suas vidas. Por causa disso, muitas vezes, não têm clara a sua missão no mundo. Falta-lhes um motivo maior pelo qual viver. Ao mesmo tempo, há pessoas não religiosas que não creem em Deus e, de algum modo, descobrem em suas vidas, esse projeto de paz, justiça e cuidado amoroso da natureza.

As Igrejas cristãs celebram o Natal no mesmo mês em que as sinagogas judaicas recordam a festa de Hanuká, aniversário da dedicação do templo de Jerusalém e da retomada da independência do povo de Deus no tempo dos Macabeus. Provavelmente, foi durante essa festa que, um dia, Jesus foi ao templo e chocou os sacerdotes e pessoas religiosas. Expulsou dali os vendedores de animais para os sacrifícios. Fez isso para mostrar que Deus não precisa de templos, nem de sacrifícios religiosos.

Tanto a tradição cristã quanto outros caminhos religiosos ensinam que o templo da presença divina no mundo é todo ser vivo e todo o universo como sinal de uma inteligência amorosa que conduz cada ser à vida e a tudo governa. A memória do nascimento de Jesus de Nazaré na festa do Natal não é apenas para enganarmos nossa solidão com um aumento do consumo, mas para armarmos um presépio vivo em nosso coração e vermos todo o universo como templo vivo da presença divina no mundo.

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

TEREMOS ENFIM A TÃO ALMEJADA UNIDADE CRISTÃ?



Por Juracy Andrade


A proposta do papa Francisco em prol da união das igrejas Católica Romana e Ortodoxa Grega é mais uma das propostas renovadoras e recristianizadoras daquele que se apresenta aos cristãos e ao mundo, não como o Sumo Pontífice (título pagão emprestado do imperador romano), mas como o bispo de Roma (um título cristão bem singelo). Não se trata de uma novidade. O Papa Montini (Paulo 6º) e outros já haviam feito gestos ecumênicos em relação às igrejas ortodoxas Grega e Russa. A novidade é que o papa não partiu de imposições e rendições, mas deseja uma autêntica união, ou reunião, com base nos princípios comuns estabelecidos desde os primeiros séculos da Era Cristã, incluindo os que se contêm no Símbolo de Niceia: unidade, santidade, universalidade e apostolicidade (tradição apostólica). 

Isso obrigará as diversas igrejas que desejem a união, sejam ortodoxas, reformadas ou a de Roma, a muitas renúncias. Sabemos que, mesmo depois do chamado cisma do século 10º, os papas continuaram realizando concílios e proclamando unilateralmente dogmas de fé, o que foi tornando cada vez mais difícil o reencontro daquela unidade tão recomendada por Jesus Cristo. Embora o chamassem de ecumênicos, querendo significar serem de toda a Igreja de Cristo. Também o outro lado teve seus concílios. Houve de fato um concílio convocado por Roma que muito se aproximou do ecumenismo cristão, sendo inclusive convidados para ele bispos não católicos como ouvintes (o que houve também no Vaticano 1º; só que ninguém compareceu). Foi o Vaticano 2º, de 1962 a 1964, praticamente ignorado pelos papas que vieram depois, com exceção agora de Francisco que nele se apoia para muitas de suas iniciativas.

Houve também, contudo, concílios da desunião, como o de Trento (a chamada Contrarreforma, no século 16) e o Vaticano 1º, no século 19. Convocado por Pio 9º em 1868, seu conteúdo permaneceu envolto em mistério até que a revista dos jesuítas Civiltà Cattolica anunciou o grande objetivo: a proclamação como dogma de fé da infalibilidade do papa No ano seguinte, iniciava-se o concílio, que teve de ser interrompido em julho do ano seguinte devido à eclosão de mais uma guerra entre a França e a Alemanha, além da invasão de Roma pelos que lutavam pela unificação da Itália, incluindo a tomada dos Estados pontifícios. Roma foi tomada pelos seguidores de Mazzini e Garibaldi em julho de 1970. A proclamação da infalibilidade papal por Pio 9º veio a despeito da não unanimidade de opiniões entre os padres conciliares. Até hoje é mal digerida por católicos e, mais ainda, pelos protestantes e ortodoxos.

Vamos torcer cristãmente para que agora todas as igrejas realmente herdeiras da mensagem de Cristo decidam atender ao apelo do nosso único Mestre, na véspera de sua morte, voltando à unidade perdida.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

PAPO COM DILMA




 
por Frei Betto


         A presidente recebeu, a 26 de novembro, representantes do Grupo Emaús que, há 40 anos, articula, no Brasil, a teologia da libertação e as ferramentas pastorais que a tornam realidade na esfera eclesial.

         Acolheu-nos no Planalto por mais de uma hora, em companhia de Aloísio Mercadante, chefe da Casa Civil. Dilma demonstrava muito bom humor e abertura às nossas críticas e sugestões.

         Entregamos a ela carta assinada por 34 participantes do Emaús, entre os quais teólogos(as), sociólogos(as), educadores e militantes de movimentos pastorais.

         Manifestamos nossa proposta para seu segundo mandato, em texto intitulado “O Brasil que queremos”: reforma política (para a qual nos pediu sugestões); modelo econômico mais social e popular; auditoria da dívida pública; reavaliação dos megaprojetos à luz de critérios ambientais e sociais; defesa dos direitos de povos indígenas e quilombolas; restrição do uso de transgênicos e agrotóxicos.

         Insistimos nas reformas de que o país tanto necessita, sobretudo agrária, urbana e tributária. Sugerimos nova política de segurança pública e reforma prisional; a democratização dos meios de comunicação; e a universalização dos direitos humanos com respeito à diversidade.

         Consideramos importante a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais; a reapresentação do projeto de Participação Social; e o rigoroso combate à corrupção. (A íntegra da carta se encontra em meu site: www.freibetto.org).
         Enfatizamos a importância do diálogo permanente com os movimentos sociais e, em especial, com os jovens. Ela, imediatamente, cuidou de agendar tal sugestão. Criticamos também o sistema de comunicação do governo e insistimos na valorização dos centros de referência em direitos humanos e na política de proteção ambiental.

         Dilma não apenas agradeceu as nossas críticas e sugestões, como abriu canais para que se tornem frequentes.

         Fiquei com a impressão de que a presidente não dispõe de muitos interlocutores críticos. O poder costuma inibir aqueles que buscam tirar proveito pessoal, como manter a função e a suposta boa impressão, e preferem não correr o risco de serem mal acolhidos. Cria-se assim um círculo vicioso: a presidente escuta de muitos que a cercam apenas elogios, e fica desinformada quanto a avaliações críticas pertinentes.

         Ao final da audiência, ela externou o fascínio pelo homem que, hoje, ocupa o seu coração: o papa Francisco. Relatou os encontros que tiveram e as conversas descontraídas, concordando que ele é, atualmente, o mais importante líder mundial, capaz de estender pontes (daí o termo pontífice) entre regiões, países e Estados em conflitos.

         À saída da sala presidencial, encontrei Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria e amigo de longa data. Em seguida, ele seria recebido por Dilma. Brinquei: “Robson, já tratamos com a presidente dos direitos dos trabalhadores. Agora é a sua vez de falar dos interesses dos patrões...”

Frei Betto é escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros.


http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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A PRESIDENTA DILMA INICIOU O DIÁLOGO ABERTO



Por Leonardo Boff


Uma das principais propostas da recém reeleita Presidenta do país, Dilma Rousseff, começou a se realizar: dialogar aberta e construtivamente com a sociedade e com os diferentes segmentos sociais. Foi assim que no dia 26 de novembro, por quase duas horas, dialogou com representantes do Grupo Emaus, nomeadamente, Frei Betto, Luiz Carlos Susin, Rosileny Schwantes, Maria Helena Arrochellas, Marcia Miranda e Leonardo Boff. Este grupo, composto por cerca de 40 pessoas que já existe há 40 anos nasceu como resistência à ditadura militar, reunindo intelectuais e religiosos de várias partes do pais para analisarem a conjuntura política e eclesial e traçarem ações concretas junto às bases para acelerar o resgate da democracia, manietada pelo regime ditatorial. O sonho nosso era e é grande: o de gestar um país que inclua no seu orçamento aqueles que há quinhentos anos estavam à margem. Entre os presentes havia presos políticos e torturados e praticamente todos vigiados. Mas enfentamos os riscos e as ameças por uma causa maior que implica um país justo e solidário.

O encontro seu deu nesta comunhão de espírito: o coração valente da Presidenta que suportou pesadas torturas sem nunca entregar ninguém e nós, de nosso jeito, expusemo-nos pela mesma causa, naquele tempo e agora. Ela logo entendeu o significado de nossa presença, solicitada por nós. Não íamos pedir nada, apenas reforçar sua determinação de seguir na construção do projeto originário do PT, o de criar uma sociedade com menos perversidade e que desse centralidade aos mais pobres e invisíveis, não obstante os contrangimentos da macroeonomia dominante.

Entregamos-lhe um documento – O Brasil que queremos – com 16 pontos que podem ser lidos no meu blog (leonardoboff.wordpress.com) onde ressaltam: a reforma do sistema político, tornar o modelo econômico mais social e popular, a promoção da reforma agrária e urbana, a defesa dos direitos dos povos indígenas e quilombolas entre outros.

A conversa transcorreu de forma extremamente franca e jovial, reconhecendo acertos e equívocos. Ressaltamos especialmente a necessidade de a Presidenta retomar o diálogo com a sociedade, principalmente com os movimentos sociais organizados. Imediatamente foi marcada na próxima semana um encontro com a Coordenação dos Movimentos Sociais e outra com a Coordenação Nacional do Movimento dos Sem Terra.(MST). Todos insistimos em retomar a educação política das bases, dentro da pedagogia de Paulo Freire, em especial dos jovens.

Não adianta mostrar apenas obras. Há que se mostrar que elas obedecem a um projeto político do Governo em benefício dos mais necessitados como Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e outras iniciativas. Este vínculo de causalidade torna consciente a população e reforça o projeto popular, que precisa ser fortalecido para superar a nossa abissal desigualdade social.

Salientamos a importância de reforçar e ampliar iniciativas de cunho social e ambiental como o projeto “Cultivando Agua Boa” implementado pela hidrelétrica de Itaipu, envolvendo um milhão de pessoas que incorporou, mediante uma sistemática educação ecológica (formaram-se mais de 1600 educadores ambientais), recuperando rios, introduzindo a agricultura orgânica, integrando povos indígens e quilombolas e outros tantos benefícios, melhorando a vida das populações e da comunidade de vida. A Presidenta se mostrou entusiasmada pelo projeto que já tem mais de 11 anos e pelas pessoas que o levam avante, com custos mínimos e em parceria com os 29 municípios lindeiros e de sua eventual implantação em outras hidrelétricas.

Ponto importante foi a educação política dos jovens para que não sejam meros consumidores mas cidadãos críticos e participantes. É um desafio para os grupos das Igrejas que se inserem nos meios populares e ao próprio PT que deve retomar uma ligação orgânica e dialogar e aprender com eles.
A Presidente se mostrou especialmente sensível à questão dos direitos humanos e aos Centros de Referência dos Direitos Humanos, na perspectiva de fortalecer iniciativas comprovadamente sérias que estão acontecendo em todo o nosso país.

A questão ecológica foi considerada tão importante e complexa que merecerá um outro encontro específico.

Nada pedimos. Não nos moveram interesses corporativos ou pessoais. Apens oferecemos nossos préstimos, caso sejam solicitados pela Presidenta. Ela se mostrou comovida e aberta a outros encontros mais sistemáticos, pois se deu conta de nossa vontade de colaboração na construção de uma sociedade mais humana, mais justa e cooperativa, onde seja menos difícil a vontade de transformação social e o amor humano entre todos.


Leonardo Boff escreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.

 É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra