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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

POLITIZAÇÃO DAS OLIMPÍADAS

por Frei Betto


      As Olimpíadas são consideradas o único evento internacional que congrega quase todas as nações do mundo e no qual o espírito esportivo supera qualquer intromissão política.

      Parafraseando Caetano Veloso, de perto nenhum evento é politicamente neutro. Hitler fez de tudo para manipular os Jogos Olimpícos disputados em Berlim, em 1936, e teve que engolir a superioridade de atletas negros frente a seus “arianos”.

      Os EUA boicotaram as Olimpíadas de Moscou, em 1980, em protesto contra a invasão do Afeganistão pelos soviéticos. E agora, por razões políticas (Ucrânia e Síria), a Rússia é impedida de participar de certas modalidades esportivas na Rio-2016 sob o pretexto de doping.

      Será que entre os 206 países representados no Rio apenas um, a Rússia, teve atletas anabolizados por substâncias proibidas?

      Acreditar que o COI (Comitê Olímpico Internacional) paira acima de qualquer ideologia é crível para menores de 10 anos... A Fifa também pairava acima de qualquer suspeita de corrupção, até que passou a ser intensamente investigada depois de aprovar Moscou como sede da Copa do Mundo de 2018.

      As acusações de doping em atletas russos foram feitas por Grigori Rodchenkov, ex-diretor do laboratório de Moscou, que hoje vive exilado nos EUA. Apontou como responsáveis o Ministério dos Esportes russo e a FSB (Serviço Federal de Segurança), antiga KGB.

      O COI criou uma comissão supostamente independente para analisar as acusações. A conclusão foi culpar a entidade olímpica russa e, de quebra, o governo de Putin. Daí o apoio do COI à IAAF (Federação Internacional de Atletismo) ao decidir suspender atletas russos das Olimpíadas do Rio, justamente em modalidade na qual tradicionalmente se destacam. A IAAF sugeriu ainda que aqueles que comprovarem não terem sido dopados participem dos jogos como “neutros”, e não sob a bandeira da Rússia...

      Por sua vez, a Federação Internacional de Halterofilia (IWF) reduziu o número de levantadores russos na Rio-2016, devido “ao problema de doping no esporte russo.”

      Por que não se dá ouvidos à sugestão da atleta russa Yelena Isinbáyena de rever os laudos antidopagem de diversos atletas olímpicos, e não só dos russos?

      Em um evento que congrega 206 países, mais do que a própria ONU, que possui hoje 193 filiados, como fazer do esporte algo parecido à música, que está acima de qualquer disputa política?

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.


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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

RENÚNCIA FORÇADA DO ARCEBISPO DA PARAÍBA, QUE ACOBERTAVA PEDÓFILOS, É UM ALÍVIO PARA A IGREJA DE CRISTO QUE SE RENOVA

 por Juracy Andrade


Finalmente, o extravagante arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto, foi convencido pelo Vaticano a renunciar ao cargo que exercia, tolerado por papas que acreditavam proteger a Igreja ao acobertar clérigos que abusavam de menores. Na verdade, expunham a Igreja ao descrédito, escandalizavam os fiéis e escarneciam de crianças inocentes e adolescentes que não resistiam ao assédio de adultos doentes. Dom Aldo, desde a sua passagem pelo Ceará como bispo, era acusado de ao menos induzir menores a atenuar queixas contra seus algozes.

Além disso, fazia abertamente política partidária no púlpito, pregando contra as oposições ao governo provisório golpista. Vaidoso, se enfeitava todo para, acolitado por seus sequazes e todo embandeirado, participar das manifestações e marchas contra Dilma e a favor do golpista TEMERário.

Durante a ditadura de 1964 a 1985, padres e religiosos foram presos, torturados, mortos. Uns por militarem politicamente na luta armada. Mas havia a explicação de que o golpe fora dado pelas forças armadas, açuladas pela casa-grande, e foram elas que deram o primeiro passo para o que chamavam de terrorismo e subversão. É bom lembrar que teólogos da Idade Média defenderam a luta armada contra um tirano.

Outros daqueles religiosos vítimas da ditadura simplesmente pregavam e viviam o Evangelho, que não se coaduna com um golpe dado, sob a inspiração e com a ajuda dos EUA, para impedir uma maior conscientização e participação dos cidadãos na construção de uma sociedade justa, democrática, mais igualitária (era só isso que Jango queria e o pessoal mais à esquerda).

Nada parecido com as ações de dom Aldo Pagotto. Além do que já foi aqui lembrado, ele dificultava ao máximo o trabalho de padres que não se enquadravam em sua visão jurídica da Igreja, semelhante àquela visão que havia assolado a Igreja de Olinda e Recife nos tristes tempos de dom José Cardoso (oremos por este, que está aí vegetando sem saber o que faz). Padres que recebiam aluda financeira de países ricos tinham de entregar o dinheiro para dom Aldo fazer ninguém sabe o que. Talvez repassar a seus sequazes para comprarem bandeiras e enfeites para os atos anti-Dilma.

Felizmente o tempo foi passando e, por um descuido dos cardeais, elegeu-se um papa cristão como Francisco. Se não o tirarem do caminho, como fizeram com o brevíssimo papa João Paulo 1º, ele, como o Francisco de Assis, conseguirá fazer com a Igreja de Cristo como um todo o que o Poverello de Assis fez ao reconstruir a igrejinha da Porciuncula, que estava em ruínas na cidade dele. Amém! Aleluia! Além do mais, Francisco não acoberta pedófilos. Ao contrário, manda punir.

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Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 2 de agosto de 2016

AS OLIMPÍADAS, O OUTRO LADO

Por Marcelo Barros


A partir dessa 6a feira, 05 de agosto, começarão no Rio de Janeiro os XXXI Jogos Olímpicos. Com o tema geral "Viva sua paixão", 10.500 atletas, vindos de 206 países vão concorrer a 28 modalidades olímpicas, com a inclusão de rugbi de sete e do golfe. A audiência estimada é de 4, 5 bilhões de pessoas, mais da metade da população do planeta Terra. É a primeira vez que o Brasil, mais precisamente a cidade do Rio de Janeiro, sedia um evento como esse. Por tudo isso, o Brasil está em festa e o nosso povo mais uma vez dará ao mundo o testemunho de ser um povo hospitaleiro e carinhoso com todos os irmãos e irmãs que nos visitam.

Como a imensa maioria dos /as atletas que concorrem às provas é de jovens, durante esses dias, em um mundo social e politicamente dominados por uma elite de pessoas mais velhas, nós veremos um grande protagonismo da juventude. Assim, as Olimpíadas chegam a ser como um sinal profético de um mundo no qual a juventude tem um protagonismo maior e decisivo.

É claro que, para chegar a competir em uma prova de Olimpíadas, todos os atletas que vêm ao Rio de Janeiro querem ganhar e os desafios são muito altos. No entanto, os desafios maiores dessas Olimpíadas não estão exatamente dentro dos campos e arenas dos esportes. Para se apresentar nas Olimpíadas, os jovens fizeram esforços imensos, tanto econômicos, como humanos. Do mesmo modo, por trás desse belo espetáculo de paz e de confraternização que o mundo inteiro assistirá, é bom que saibamos: houve muitos sofrimentos e uma imensa quantidade de problemas não resolvidos.

Mesmo se as Olimpíadas têm como vocação mostrar um mundo de fraternidade e de paz, elas ainda são organizadas dentro de um modelo social e político que expressa o mundo atual, organizado de forma injusta e excludente. Em um país no qual o atual governo provisório anunciou o corte de quase 100 bilhões de dólares de reais em gastos e tocando fortemente nos programas sociais, na educação e na saúde, não dá para compreender o gasto de bilhões de dólares com um evento que dura duas semanas e que se sustenta sob uma forte exclusão social. Basta lembrar que com ingressos para os jogos que chegam a custar R$1.200 reais, quantos pobres poderão participar desses jogos, mesmo como simples espectadores? O que dizer  às milhares de famílias pobres, expulsas do seu lar e do único terreno que possuíam, para que se construísse a Vila Olímpica que funcionará por menos de um mês?

A uma sociedade internacional que fala em confraternização e unidade, onde estarão os pobres nessas Olimpíadas? Vendendo algum salgadinho e limpando as cadeiras dos estádios, se os organizadores permitirem. Além disso, todos os grandes jornais publicam que os gastos e contas dessas Olimpíadas não são transparentes e isso sempre se presta às piores perspectivas de mau uso do dinheiro público.

Por tudo isso, os maiores e mais profundos desafios dessas Olimpíadas não estão nas modalidades esportivas às quais os atletas de tantos países concorrerão. O maior desafio é a corrida contra o tempo e que essas Olimpíadas deixem uma mensagem de que a humanidade precisa mudar o seu caminho social e político.

Quando, em 2013, durante o Encontro Mundial da Juventude, o papa Francisco visitou a comunidade de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro, um dos jovens que discursou para o papa declarou claramente: "Estão escondendo do senhor o que nós vivemos aqui". Por isso, o papa pediu aos governantes que não maquiassem a realidade para torná-la bonita para os que vêm de fora, enquanto a população local sofre horrores para sobreviver. Essa maquiagem continua sendo a operação normal para apresentar o país aos turistas que vêm de fora. É mais um desafio superar esse modo de agir e, de fato, ter uma vontade política de transformar a realidade sofrida dos pobres e não apenas disfarçá-la.

O maior desafio dos jogos é revelar ao mundo que os jogos olímpicos só serão verdadeiramente instrumentos de comunhão fraterna entre toda a humanidade se partirem da justiça. A humanidade só será uma só se os mais fracos e carentes forem vistos como pessoas, sujeitos de dignidade humana e, em primeiro lugar, merecedoras dos investimentos sociais antes de qualquer jogo passageiro.
  


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: COEXISTÊNCIA IMPOSSÍVEL?


por Maria Clara Lucchetti Bingemer



            O mundo assiste perplexo a mais uma performance destruidora do Estado Islâmico.  E mais uma vez na França.  Agora, a vítima mais evidente é um ancião de 86 anos, padre católico, responsável pela igreja de Saint Etienne du Rouvray, ao norte do país.  Obrigado a ajoelhar-se diante de outros paroquianos, entre eles uma freira que conseguiu escapar e vários outros, padre Jacques Hamel foi decapitado diante de todos.

            Pela seriedade do fato e por ser o mais recente de uma série, importa refletir atentamente sobre o ocorrido. Trata-se de uma guerra, sim, do EI contra o Ocidente, mas um tipo diferente de guerra.  Como diz Xavier Pikaza, teólogo espanhol, não uma guerra de religiões, mas a Guerra da Religião. 

             O EI e sua prática terrorista tem se empenhado em atacar pontos, lugares, situações simbólicas fortes do Ocidente e sua civilização.  Assim é que a mortal sequência que se arrasta desde janeiro de 2015 inclui: o ataque a um periódico satírico que simboliza a liberdade de expressão e não poupa a religião, seja ela qual for (Charlie Hebdo); o ataque a uma sala profana de espetáculos (Bataclan, Paris); contra a celebração da festa nacional francesas (Nice).  Chegou a hora da Igreja Católica.  Embora tenha acontecido em uma pequena igreja, foi um ataque ao cristianismo francês – nunca é demais recordar que a França é a filha mais velha da Igreja – e a vítima é um padre que celebra o rito por excelência do catolicismo: a Eucaristia.  Seu assassinato também é feito dentro do ritual islâmico djihadista radical.

             O delegado para as relações inter-religiosas da diocese de Lyon, Christian Delorme, alerta para o risco de o EI obter o que busca: o esgarçamento e a ruptura definitiva entre muçulmanos e cristãos.  Para isso, apela à solidariedade entre essas duas grandes religiões monoteístas: ”É preciso que cada um esteja consciente de que aqueles que dizem pertencer ao Estado Islâmico desejam o caos, a guerra.  E de nenhuma maneira devemos dar-lhes este presente. Pois não ultrapassaremos esta situação senão juntos e solidários. Nossa salvação virá de nossa solidariedade com a comunidade muçulmana, ela também vítima dessa barbárie. ”

             Alguns poderão tachar de ingênua a afirmação de Delorme.  Ao que me parece falta-lhes razão.  Igualmente falta-nos a todos maior acuidade de olhar e discernimento dos objetivos mais profundos do grupo radical auto proclamado EI.  O que desejam destruir é aquela interface, aquela zona de relacionalidade onde se misturam muçulmanos e não muçulmanos, que desafiam os mais obscuros prognósticos vivendo pacificamente juntos. 

                 A igreja atacada na Normandia situa-se não longe de uma mesquita.  Havia entre as duas trabalhos pastorais conjuntos, entre eles um comitê interconfessional, onde discutiam e rezavam juntos.  Ali foi celebrado, pouco tempo atrás, o funeral do paraquedista muçulmano que era religioso, mas contra o radicalismo do EI. A pretensão do califado é dividir o mundo em branco e preto, e não aceitar nenhuma síntese, nenhuma flexibilidade de relacionamentos. Por isso, os atentados sempre atingem situações desta “zona cinza”, zone grise segundo jornalistas franceses, onde as diferenças convivem e se enriquecem mutuamente.

            Se o EI faz esses ataques e nós o condenamos, da mesma forma não podemos cair na armadilha de derramar sobre a mídia mensagens cheias de ódio, racismo e islamofobia. Isso significa entrar no jogo dos terroristas e, mais ainda, fazer uma cruzada anti-islâmica, como parece ser o objetivo deles: fazer uma cruzada antiocidental e anticristã.

             Não se trata de ingenuidade, mas de estratégia inteligente e de fé e prática do Evangelho, que proclama incansavelmente que todos os seres humanos podem e devem conviver pacífica e fraternalmente, apesar de todas as dificuldades.  Que a morte do padre Jacques Hamel, assim como de todas as outras vítimas do terrorismo – entre elas vários muçulmanos – possa inspirar-nos a tentar construir um mundo melhor, onde a convivência pacífica e fecunda seja o pão de cada dia e o empenho maior.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do departamento de teologia da PUC-Rio.  A teóloga é autora de Teologia e literatura - Afinidades e segredos compartilhados (Ed. Vozes)    

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