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terça-feira, 6 de junho de 2017

O AMANHÃ DA VIDA

por Marcelo Barros


No centro restaurado do Rio de Janeiro, a maior atração é o Museu do Amanhã. A construção lembra uma concha marítima a entrar pelo mar, qual embarcação do futuro. Nela, os visitantes são acolhidos por um imenso globo terrestre suspenso no ar. Ao girar, iluminado, ele mostra informações sobre clima, ventos na superfície do planeta e outros dados. Embaixo, em uma sala de projeção de teto arredondado, como primeira atração, abre-se o "Portal do Cosmos". Na abóbada de 360 graus, projeta-se a explosão da matéria que deu origem aos astros, o surgimento do nosso planeta, a formação da vida e a evolução dos mamíferos, até o surgimento do ser humano  e do pensamento. E o portal nos deixa com a pergunta: Qual será nosso futuro? Os polos seguintes do museu falam do atual estado da terra. Nas paredes interativas, são expostos dados sobre a destruição das florestas, a poluição das águas, a contaminação do ar, o desaparecimento de muitas espécies e a fragilidade imensa da comunidade que formamos com todos os seres vivos. É o antropoceno, a atual era geológica, na qual o ser humano interfere diretamente no equilíbrio ecológico e ameaça o futuro da vida no planeta.   

No Museu do Amanhã, tudo é didático e claro. Inclusive ao apontar a responsabilidade do ser humano. No entanto, em momento algum, se faz qualquer referência à sociedade organizada como partícipe dessa aventura. É como se existissem apenas o indivíduo e o conjunto da humanidade. Não se mostra a função dos Estados e dos organismos internacionais. Nenhuma alusão à ONU. O museu revela dados da Tecnociência e deixa claro: o estilo de vida que a sociedade dominante impõe à humanidade é o maior responsável pela destruição do planeta.

A relação entre a realidade ambiental e a organização social é mostrada em cenas de cidades grandes, da poluição causada pelas indústrias e pelo transporte urbano. Só não se esclarece que o grande responsável por isso tudo não é um ser humano abstrato e genérico. É um sistema social e econômico. As grandes potências, controladas por poucas empresas multinacionais, mantêm guerras, mais explosivas ou de baixa intensidade, para vender armas e impor à humanidade o seu domínio.

O mundo jamais poderá alcançar o equilíbrio ecológico, enquanto 1% da humanidade possuir uma riqueza equivalente aos 99% restantes dos seres humanos.

Ao se colocar como meros gerentes das grandes corporações econômicas, governantes e legisladores fazem com que a democracia e direitos humanos se tornem dispensáveis. Nos anos 70, um ministro do governo militar brasileiro, ainda hoje conselheiro de presidentes, afirmava: "Para a eficiência dessa Economia, a Ética é relativa. Empresas e governos não são a CNBB".

A política do atual governo brasileiro é apenas o começo. A humanidade já viu esse filme antes, em países como a Grécia e estados do sudeste asiático. Ali também, bancos pagaram políticos. Com golpes, ou sem necessidade deles, impuseram reformas econômicas. Destruíram direitos adquiridos dos trabalhadores, mudaram regras da previdência social e agravaram a desigualdade social. Essa realidade internacional só pode gerar uma instabilidade social e política dominada pela fome e pela violência. Por todo o mundo, se espalha uma onda de violência,  que o papa Francisco chama de "terceira guerra mundial em pedaços".  

Diante de tudo isso, as comunidades indígenas, afrodescendentes e movimentos sociais organizados se articulam para pensar o futuro e propor uma nova forma de relação do ser humano com a terra e a natureza. Na América Latina, as comunidades indígenas propõem o paradigma do Bem-viver coletivo e pessoal como objetivo do Estado e como caminho da sociedade. Nesta semana, especificamente no dia 05 de junho, a ONU celebra mais uma vez o  Dia internacional do Meio Ambiente. Quem está comprometido com algum caminho espiritual e crê em Deus como fonte da vida deve unir o cuidado do planeta com a Fé. Ao defender a vida e a dignidade humana, assim como a relação de todos os seres vivos, testemunhamos a presença do Espírito Divino, como amor que fecunda o universo.

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

VINDE ESPÍRITO SANTO

por Maria Clara Lucchetti Bingemer 



O movimento carismático e pentecostal, a percepção da presença do Espírito Santo e o surgimento de novas igrejas diferentes em forma, conteúdo e espiritualidade das igrejas cristãs históricas é um fato que merece a atenção do mundo inteiro.  Vivemos, sobretudo no Ocidente, que sempre apresentou uma pneumatologia acanhada, um verdadeiro Tempo do Espírito.  No entanto, esse eclodir do carismatismo pneumatológico deste lado do mundo não deixa de apresentar ambiguidades e questionamentos. 

Deste lado do mundo, ou seja, no Ocidente cristão (Europa Ocidental e América), a pessoa do Espírito Santo ficou durante longo tempo um tanto esquecida, e mesmo deixada de lado. O Cristianismo ocidental configurou-se após o século IV e até o século XX por uma primazia quase absoluta do Filho, segunda pessoa da Santíssima Trindade, chegando às raias de um cristomonismo. Por outro lado, a pneumatologia oriental cresceu e desabrochou ricamente, dando a toda a teologia do Oriente cristão (Europa do Leste, Península Balcânica e Oriente Médio) uma configuração trinitária, onde pneumatologia e cristologia harmoniosamente dialogam e se entrelaçam, sobretudo na comunidade eclesial.

Importa, então, refletir sobre este fenômeno, procurar resgatar suas raízes e analisar suas consequências. Sobretudo num tempo como o nosso, quando o movimento carismático cresce de maneira importante na Igreja do Ocidente, fazendo acontecer o pentecostalismo que quase chega por vezes a um pneumatomonismo. Vivemos, hoje, nas igrejas cristãs do Ocidente – católica ou protestantes - o risco de que a espiritualidade e a pastoral sejam marcadas por uma primazia quase absoluta do Espírito Santo, o que deixaria na sombra as outras duas pessoas divinas, e sobretudo a espessura histórica e encarnada da pessoa do Filho e o compromisso concreto que daí resulta. 

Este fato gera outras consequências teológicas e também pastorais.  Uma delas é um declinar, nas igrejas, da ligação entre experiência do Espírito e compromisso histórico. Em outras palavras, entre espiritualidade e prática.   Igualmente categorias como a centralidade da história, a opção pelos pobres e o binômio inseparável fé-justiça, que marcou a teologia pós-conciliar não só da América Latina mas do mundo inteiro, deixa de estar à frente da pastoral das igrejas cristãs. 

 Em seu lugar, surge a chamada “teologia da prosperidade”, que relaciona experiência de Deus e enriquecimento, sendo adotada por pastores que muitas vezes a impõem aos fiéis de maneira coercitiva e violenta. Esta teologia encontra seu canal de expressão em liturgias muitas vezes bastante exteriorizantes, com grande “ruído” e igual agitação, inclusive sem permitir às celebrações fornecerem aos fiéis espaço de oração e reflexão onde o coração possa sentir e a razão pensar.  Até mesmo autores que vêem a positividade presente no movimento carismático em geral são críticos sobre esses pontos da agitação espiritual, da tomada de posse da liturgia e da desconexão com a realidade e a transformação da mesma. 

Os tempos que vivemos são, sim, tempos do Espírito.  Porém, ao lado da riqueza que nos trouxeram os movimentos carismáticos que reivindicam para si e sua atuação a primazia da Terceira Pessoa da Trindade, encontramos muita ambiguidade.  Por isso, esses tempos do Espírito, há que vivê-los no contínuo discernimento. 

Por isso é importante voltar sempre e constantemente à 1a carta de João, capítulo 4, vv 1 ss:  "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo."  Discernir é preciso, ainda que as alegres e ruidosas celebrações carismáticas encham os ouvidos e os espaços; ainda que seja indispensável  maior atenção à pneumatologia; ainda que os tempos plurais que hoje vivemos sejam propícios a uma importância maior da reflexão sobre o Espírito. 

Perceber nos “sofrimentos do tempo presente” e em nossos próprios gemidos os “gemidos inefáveis” do Espírito (Rom 8,18.23.26) é a condição da verdadeira espiritualidade cristã. A espiritualidade cristã assim entendida é incontrolável pela teologia, que dela deve aprender a experiência de Deus que é Pai, Filho e Espírito.  Com a “retração” da morte e ressurreição de Jesus, é o Espírito que habita em nós o responsável pelo reconhecimento da presença do Messias em nós. E isso implicará aderir de todo coração a esta presença, não apenas na catarse obtida na afetividade  exacerbada, mas na obediência humilde e provada que se dá pelas dificuldades da caminhada e pelo sofrimento inexplicável nosso e alheio.

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio  é autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape

 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

domingo, 4 de junho de 2017

A CENTRALIDADE DOS HUMILDES DA TERRA: A PROPÓSITO DO DISCURSO DE LULA

por leonardo boff




Esta reflexão  foi motivada pelo discurso do ex-presidente Lula encerrando a abertura do 6º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores no dia 1º de junho de 2017 em Brasília. Faço-o como observador interessado no projeto social que o PT em parte realizou nos anos de seu governo. Não sou filiado ao partido, pois,  estimo que partido é sempre parte e tarefa do intelectual-pensador é tentar pensar o Todo e menos ocupar-se das partes que sempre são muitas, não raro, contraditórias. Como observador interessado que faço este comentário.
Três pontos me chamaram particularmente a atenção no discurso do ex-presidente Lula.
O primeiro deles é o caráter de classe do partido. Está no seu nome Partido do Trabalhadores. Quer dizer, propõe-se representar as grandes maiorias do país  compostas pela classe  dos trabalhadores do campo e da cidade, aqueles que dentro do sistema do capital vivem de salários (venda de sua força de trabalho manual ou intelectual). Isto não significa que se feche somente a estas grandes maiorias. É aberto a todos os que assumem a democracia e as principais demandas dos trabalhadores que é ter trabalho, ganhar um salário decente, trabalhar em condições adequadas, lutar pela justiça social para diminuir o perverso fosso das desigualdades sociais  e poder organizar-se em sindicatos para melhor defender seus direitos e ter mais força na negociação com os donos do capital.
Lula enfatizou o caráter nacional do PT. Em sua grande maioria, os partidos no Brasil têm sua base nos estados da federação e representam as forças hegemônicas locais. Pensam mais o regional e menos o nacional. O PT nasceu pensando o nacional, vale dizer, o Brasil como projeto de nação soberana, autônoma que  rompeu com o substrato escravocrata, colonial, neocolonial e dependente das grandes potências que hegemonizam o curso do mundo. O PT desenvolveu a consciência de que temos uma base ecológica, geopolítica, econômica, populacional e cultural que nos concede elaborar um projeto próprio de nação soberana que, junto com as demais nações, ajuda a definir os rumos incertos da humanidade, agora numa fase nova de sua história, a fase da planetização, fase de certa forma dramática por causa do aquecimento global e do grito da Terra super-explorada pelo nosso modo de produção  depredador e de consumo perdulário, de bens e seviços naturais. O futuro de nossa espécie e de nossa  civilização está em jogo.
Lula sustentou que o PT é o primeiro partido de caráter nacional e que se propõe a pensar o país como um todo e no interesse de todos, a partir dos interesses das grandes maiorias historicamente penalizadas. Cabe reconhecer, como o mostraram nossos historiadores, dando relevância a José Honório Rodrigues e a Raymundo Faoro: os partidos dominantes pensaram um Brasil menor, buscando  primariamente seus interesses e não o interesse comum do todo o povo brasileiro. Nunca houve um projeto que incluísse os milhões de excluídos, marginalizados e considerados, pela classe dominante, herdeira da mentalidade da Casa Grande, como jeca-tatus, que “lhes negou direitos, arrasou sua vida e logo que os viu crescer lhes negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-los de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhes pertence”(Rodrigues, Conciliação e Reforma no Brasil, 1965, p. 14-15). Não está se repetindo esta tragédia com as atuais medidas do atual “governo”, de uma forma ainda mais radical, desmontando, uma a uma, as conquistas de anos de trabalho politico e social?
O segundo ponto é de grande relevância ética e política. Trata-se do núcleo central do projeto politico do PT: dar centralidade aos humildes da Terra. Ao falar do projeto que deve ser novamente pensado, incrementado e consolidado no Congresso não começou com a ideia arrogante do Brasil grande, potência industrial e campeã na exportação de commodities. Começou com os humildes da Terra: com os indígenas a quem devemos preservar e devolver as terras invadidas pelo agronegócio; começou com os quilombolas a quem devemos reconhecimento por sua luta de subsistência, por suas terras e vilas; começou pelos negros que, aos milhões, foram feitos “peças”, carvão para queimar nas usinas de produção; voltar-se para a África não é apenas para pagar uma dívida histórica impagável, mas praticar a solidariedade para que ela possa melhorar as condições de vida de suas populações com aquilo que nossas instituições científicas ligadas à agricultura produziram com alta qualidade; começou pelas mulheres ainda discriminadas pelo patriarcalismo, apesar de toda a sua contribuição dada ao desenvolvimento do país; começou pelos Sem Terra e sem Teto que buscam terra para trabalhar, produzir e viver com uma democracia levada ao campo e às periferias; começou com os catadores de material reciclável que sempre apoiou (e se comeveu ao lembrá-los), liberando alguns milhoes de reais para que melhorassem suas condições de trabalho; começou com os LGBT que trabalham, votam, pagam impostos e muitos são assassinados; começou com os trabalhadores em geral, obrigados a aceitar baixos salários para permitir uma maior acumulação das oligarquias que controlam grande parte de nossa economia; por fim, começou por dizer que devemos incluir os empresários, pequenos, médios e grandes que criam empregos e produzem e que devem sentir sua responsabilidade na construção de uma nação mais justa e igualitária. Todos devemos convergir para esse sonho coletivo.
Qual o significado deste tipo de discurso? É dar primazia à pessoa humana. Essa opção revela a inegável dimensão ética da política, que já para Aristóteles ética e política eram sinônimos. Governar não é administrar a economia, controlada pelo mercado, mas cuidar do povo, da qualidade de sua vida e de sua alta dignidade. Gandhi dizia que política é um gesto amoroso para com o povo, o cuidado para com a coisa comum. Isso foi proposto como o núcleo essencial de um projeto politico a ser concretizado pelo PT e seus aliados.
Mas isso dificilmente se consegue, enfatizou o ex-presidente – esse é o terceiro ponto – se não houver educação generalizada. Proferiu os maiores elogios à importância decisiva da educação para gestar um país soberano e moderno. Daí as muitas iniciativas que os governos do PT inauguraram para permitir que os pobres, negros e marginalizados fizessem cursos de profissionalização e pudessem ingressar nas universidades.
Por fim, conclamou a todos para serem criativos. Não se trata de repetir o que já foi feito, mas de reinventar novas formas de fazer política social com participação popular, aproveitando as boas experiências realizadas e projetar novas que visem mais inclusão, mais  cidadania e e mais dignificação da vida humana.
Por ultimo, fez apelo da importância política da esperança. Quem alimenta esperança não aceita indignado as  iniquidades sociais, dispõe-se a lutar para a projeção de um novo horizonte; a esperança deslancha energias escondidas que podem criar nova paisagem e dar a vitória. A esperança é o motor da história e das mudanças.
Se o PT chegar novamente ao governo central, pelo voto popular e por vontade da maioria da população é para encontrar uma saída para a crise, já que as classes dominantes que se apoderaram do poder, estão  perdidas em sua voracidade de acumulação à revelia da grande maioria dos cidadãos e, atônitas, não sabem encontrar uma  superação promissora da crise em que todos estamos  metidos. As principais vítimas são os historicamente sofredores aos quais não nos é  permitido impor-lhes  cargas ainda mais pesadas do que aquelas que já carregam. Seria demasiada desumanidade. Mas  é isso que estamos verificando com as medidas desastradas da atual administração.
Um PT renovado e purificado de seus erros, defeitos e limitações, pode propor-se à sociedade como um partido  que pode nos desanuviar o horizonte e oferecer-se como um caminho político de um desenvolvimento sustentável porque mais participativo e justo onde, no dizer de Paulo Freire, não seja tão difícil o amor.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e articulista do JB online e escreveu “A casa comum, a espiritualidade e o amor” Paulinas 2017.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

COMER, AMAR, ORAR


por Frei Betto


       Há três coisas inerentes aos seres humanos: nutrição, sexualidade e espiritualidade. São as fontes de nossa existência. Pela nutrição, desenvolvemos e asseguramos a saúde; pela sexualidade, preservamos e multiplicamos a espécie; pela espiritualidade, transcendemos a nós mesmos, relacionando-nos com a natureza, o próximo e Deus.

       Sem ingerir alimentos ninguém vive. De nossos cinco sentidos, o paladar é o primeiro a ser ativado. Ainda na fase intrauterina sugamos os nutrientes maternos. Por isso, este é o mais arraigado dos sentidos. Ao mudar de país, modificamos hábitos, adotamos outro idioma etc., mas jamais trocamos de paladar. Como a linguagem, ele é fator primordial de identificação. Na Austrália ou no Alasca, um brasileiro experimenta indizível prazer ao comer arroz com feijão ou manga e abacaxi.

       A comensalidade é o mais humano de nossos atos. Nenhum outro animal cuida de preparar os alimentos e, em seguida, sentar em torno da mesa acompanhado de seus semelhantes. Só nós, humanos, fazemos do preparo dos alimentos uma arte – a culinária. E um ritual – estar à mesa e obedecer a um ritual: talheres, guardanapo, pratos, travessas... E nada pior do que comer sozinho. Comer é comungar, partilhar. É ação ressurrecional. A carne que nos alimenta é um animal que morreu para nos dar vida, assim como a salada, um vegetal, ou o arroz e feijão, cereais... A vida é sempre reciclável. Em torno da mesa dou ao outro algo de mim mesmo. Ele se “alimenta” do meu ser, assim como eu do dele.

       A sexualidade pode ser sublimada, reprimida, mas nunca ignorada. É o reflexo da idade que a vida tem em nosso planeta: cerca de 3,5 bilhões de anos. Ela assegura a cadeia geracional que veio se aperfeiçoando desde as trilobitas até o ser humano. É a mais significativa manifestação de que a vida é um fenômeno intrinsecamente comunitário.

       A libido, como ensinou Freud, pode ser canalizada, mas não descartada. Nem Jesus deixou de ter pulsão sexual. A questão é saber em que nível se manifesta a nossa sexualidade, como porno, eros, filia ou ágape. Como porno (donde pornografia) o meu prazer é a sua degradação; como eros (donde erotismo) o meu prazer é também o seu; como filia (donde filia + sofia = amizade à sabedoria, filosofia), o prazer reside na amizade, na cumplicidade; como ágape, nossos prazeres culminam na felicidade, na comunhão espiritual entre dois seres que se amam.

       Graças à ciência moderna, a sexualidade não está mais atrelada à procriação, o que permite que  exista como sacramento amoroso, de interação física da comunhão espiritual. O inverso é perverso: a sexualidade como mero prazer físico, imediato, sem mediação da subjetividade.

       Espiritualidade é a janela de nossa vocação à transcendência. Podemos canalizá-la para o consumismo, o mercado, o poder ou escolher o dinheiro no lugar de Deus (Mateus 6, 24), mas ela está sempre presente, pois imprime sentido à nossa subjetividade e, portanto, à existência. Portanto, precede a experiência religiosa, assim como o amor antecipa e fundamenta a instituição familiar. Convém lembrar: Deus não tem religião.

A vida espiritual nos induz à comunhão com Deus e reativa a nossa potencialidade amorosa. O caminho mais curto não é ser amoroso com o próximo para, em seguida, amar a Deus. Ao contrário, invadidos pelo amor de Deus transbordamos amor na direção do próximo.

       A comunhão com Deus tem duas vias. A mais em voga imagina que Deus é alcançável pela escalada de nossas virtudes morais. Quanto mais puros e santos, mais próximos estaremos de Deus. A via evangélica adota a direção contrária. Deus é amor e irremediavelmente apaixonado por cada um de nós. Nenhum pecado faz com que ele se afaste de nós e deixe de nos amar. Portanto, basta-nos abrir o coração ao amor divino.

       É como a relação de um casal: o homem se sente tão amado e ama tanto a sua mulher que não consegue deixar de ser fiel. Assim é a relação com Deus. Em respeito à nossa liberdade, ele espera apenas que decidamos nos abrir mais ou menos ao seu amor, que é terno. E o método mais fácil a essa abertura é a oração, em especial a meditação, que nos permite descobrir Deus no âmago de nosso ser, e no serviço aos mais pobres, sacramentos vivos da presença de Cristo.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.

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