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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

CADÊ A CULTURA POLÍTICA?




Frei Betto

      Cadê o novo? Cadê a moralidade? Dá vontade de fazer eco a Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”

      De nada adianta o desalento. É entregar o ouro ao bandido. Desopilar o fígado nas redes digitais é acender fósforo para conferir se há gasolina no tanque...

      A questão é mais profunda: não conseguimos criar no Brasil uma cultura política. A tradição patrimonialista, o mandonismo, o nepotismo, tudo isso esgarça o tecido de nossas instituições democráticas. A maioria se elege ou ocupa cargos públicos de olho nos proveitos pessoais e corporativos. Poucos têm princípios éticos e objetivos claros de serviço ao bem comum. Bastou aparecer a primeira boquinha de uma viagem à China e lá se foi, alvoroçado, um bando de deputados felizes com a mordomia.

      A estrutura do Estado é vista como uma grande vaca, na qual cada um busca a teta mais gorda para a sua boca. O discurso da urgente contenção de gastos é como o sermão do padre que, ao celebrar missa para os alcoólicos anônimos, enchia seu cálice de vinho. 

      “Façam o que digo e não o que faço”. São sempre os outros que devem apertar o cinto em nome da salvação nacional. Nunca os políticos, os magistrados e os militares. “Nada é o bastante para quem considera pouco o suficiente”, já alertava Epicuro, no século IV a.C. Na apertada balsa que pretende conduzir a nação a um futuro melhor, atirem-se ao mar os sem mandato, os sem toga e os sem farda. Alguém deve pagar a conta. E ela sobra, invariavelmente, para os mais pobres.

      Por que, no Brasil, soa como ofensa falar em imposto progressivo? Nessa descultura da boca pra fora, sobejam elogios à Noruega, Dinamarca e Suécia, onde vigora uma cultura política de fortes raízes. Mas aqui ninguém está disposto a ceder um grão de mordomia. O trio (mandato, toga e farda) do privilégio (termo que deriva de ‘lei privada’, que vale para uns e não para todos) não abre mão do auxílio-moradia, do plano de saúde especial, de carros e viagens aéreas pagas pelo contribuinte, férias prolongadas, seguranças etc. Essa gente nunca leu Platão e Aristóteles, Montesquieu e Rousseau, Habermas e Bobbio, e aprecia Gandhi e Mandela apenas como retratos na parede.

      E cadê a oposição? Dizem que a esquerda (se é que ainda existe) só se une na cadeia... De fato, o caciquismo impede as forças da oposição de terem uma estratégia e um programa comuns. As críticas à situação são pontuais. E quase sempre emocionais, de pretender desconstruir o adversário, não por argumentos convincentes, e sim pela ridicularização e a galhofa. 

      Qual a proposta alternativa da oposição à reforma da Previdência? E à retomada do crescimento, combate ao desemprego e melhoria da saúde e da educação? Cadê o trabalho de base, os vínculos orgânicos com as classes populares, a alfabetização política?

      Apesar de tudo, não nos resta outra via fora da política. Pode-se odiá-la, repudiá-la ou ficar indiferente a ela. Mas é ela que determina a nossa qualidade de vida, como trabalho, moradia, alimentação e saúde. Quem não gosta de política é governado por quem gosta. E tudo que os maus políticos desejam é que fiquemos alheios à política. Assim, damos carta de alforria aos corruptos, nepotistas e similares.

      Mas como criar uma cultura política se a Escola sem Partido pretende proibir o tema nas salas de aula? Nossa incultura política é tão rasteira que, em vez de o Estado cumprir a sua função constitucional de dar segurança à nação, ele libera a posse de armas. E há quem esteja de acordo com o “cada um que se defenda!” E seja o que Deus não quer...

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.


Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019




por Eduardo Hoornaert



Estamos acostumados a ver Helder Câmara isoladamente ‘no topo da montanha’, seguro de si, pronunciando palavras contundentes, sem ninguém ao seu lado. Ao mesmo tempo em que pouco se fala na sua escalada da montanha, nas dificuldades da subida, nos caminhos equivocados, na penosa, longa, extenuante e perigosa caminhada, particularmente entre 1931 e 1943, tampouco se comenta pouco que, após a morte do Cardeal Leme (uma libertação), ele se engaja uma ‘equipe de vida’ com mulheres da sociedade carioca e que isso constitui uma novidade absoluta em termos de comportamento episcopal.
Conto a história em pormenores.

Um círculo de leitores e leitoras?

A partir de 1943, Helder se torna um leitor assíduo. É por meio de leituras que ele toma conhecimento dos pensamentos que agitam a época. Isso já vem de antes, mas em 1936, chegando à Capital da República, o padre cearense mergulha num ambiente em que as palpitações políticas e culturais são bem mais acentuadas que em Fortaleza.
Em seu livro pioneiro ‘O Dom da Leitura. Helder Câmara e suas bibliotecas’ (São Paulo, Paulinas, 2018), a historiadora pernambucana Lucy Pina Neta revela um Helder leitor apaixonado e intelectual autêntico. Num estudo pioneiro, Pina Neta revela aspectos da personalidade de Helder que não aparecem na maioria das biografias, quase exclusivamente concentradas em torno do tema da ‘profecia’. Ora, durante largos períodos de sua vida, principalmente a partir do início dos anos 1940, Helder é um leitor ‘contagiante’, um intelectual.
Nesses anos, Helder, sempre interessado em fazer circular ideias novas, pensa num ‘círculo de leitores’, mas o sucesso é muito limitado. Se comunica com Alceu Amoroso Lima, do ‘Círculo Dom Vital’. Mas, pelo que nos revela Lucy Pina Neta, o Padre Helder só encontra uma ressonância intelectual mais estável na pessoa de Virgínia Côrtes de Lacerda (Lucy, pp. 33-37 e 113), que ele encontra diariamente por ocasião da missa no Hospital Ana Nery e com a qual troca livros para leitura. Virgínia observa com curiosidade as numerosas anotações que aparecem nas margens de livros que Helder lhe entrega. Por conta própria, ele datilografa e manda encadernar essas anotações. Depois, quando Helder já é Bispo auxiliar no Rio de Janeiro, ela passa os textos reunidos para Cecília Monteiro, a secretária particular do bispo e, desse modo, o acervo fica preservado até hoje. Virgínia é a primeira que descobre o valor desses textos, muitos deles redigidos em forma de poemas de valor literário. Hoje se contam aproximadamente sete mil poemas da autoria de Helder Câmara, muitos nunca editados.

Finalmente um círculo feminino.

Já escrevi que, nos primeiros anos no Rio de Janeiro, Helder se vê metido num emaranhado de influências, opiniões, pros e contras, avanços e retrocessos, democracia ou autoridade, desenvolvimento ou atraso. Ele não sabe por onde se virar. Mas inesperadamente, sem planejamento anterior, simplesmente na sucessão dos dias, ele mesmo passa por uma real experiência democrática. Com isso firma pé no chão.
Como é costume na pastoral católico, um grupo de jovens mulheres da sociedade carioca passa a auxiliá-lo, já a partir de 1943, quando ele ainda é ‘padre raso’, e continua com ele depois de sua nomeação como Bispo Auxiliar em 1952. Sacerdotes ou bispos assessorados por mulheres é algo comum na igreja católica. Pouco se fala dos aspectos negativos desse tipo de colaboração. Muitas dessas mulheres costumam anular suas personalidades para conseguir alguma coisa num universo dominado por homens ciosos de seu poder. Muitas vezes inteligentes e competentes, elas abdicam frequentemente de seu modo de ver as coisas e de reagir, por ‘amor a Deus e à igreja’. Historicamente, são elas que mantêm a igreja em pé e constroem pacientemente as bases do poder clerical junto ao povo. Mas têm de suportar que, frequentemente, o clero as trate de forma infantil ou paternal (duas modalidades do mesmo comportamento). Enquanto entregam o melhor de si para a igreja, não costumam falar de humilhações ocultas e quase invisíveis. De seu lado, o clero cultiva o hábito perverso de humilhar mulheres que não se dobram ao seu poder e não se deixam clericalizar.
Aqui se mostra o real valor de pessoas como Helder Câmara. Imbuído de ideias democráticas recentemente adquiridas por leituras e contatos, ele passa a trocar opiniões com suas colaboradoras, discute com elas como agir, reserva momentos de espiritualidade (uma manhã de domingo a cada mês) e até assiste com uma ou outra entre elas a uma peça de teatro ou um filme que está em cartaz. Eventualmente comenta com a ‘Família’ o referido filme ou peça teatral. Enfim, ele forma uma ‘equipe de vida’ com mulheres, algo realmente novo na igreja católica, sobretudo em se tratar de um bispo. Como ele não se comporta como quem manda, suas colaboradoras não se sentem meras ‘executivas’.
Como escrevi acima, tudo nasce da intenção de se formar um ‘círculo de leitores’, mas, como realça Lucy Pina Neta, só uma das moças, Virgínia Côrtes de Lacerda, se mostra disposta a engajar-se num intercâmbio de tipo intelectual. Finalmente, é em torno de temas pastorais que se forma um grupo democrático que resiste ao tempo e recebe, ao correr do tempo, diversos nomes: Grupo Confiança, Família São Joaquim, Apostolado Oculto, Família Messejanense. A ‘Família’ o acompanha, com simpatia e num espírito comunitário, ao longo dos anos, mesmo depois de sua transferência para o Recife. Alguns nomes, como Cecília Monteiro, Marina Bandeira e Aglaia Peixoto, fazem definitivamente parte da biografia do Bispo.
A ‘Família Messejanense’, da qual os primeiros traços começam a aparecer no ano 1943, significa para Helder a superação do universo teórico de leituras e discussões em torno dos grandes problemas da humanidade, e a entrada na vida real. Pois ele se encontra com mulheres que dizem o que pensam e, inteligentes, sabem aproveitar do espaço que o ‘padrezinho’ lhes oferece para mexer profundamente, por vezes decisivamente, em assuntos de igreja. Isso é totalmente novo e constitui uma das iniciativas talvez mais importantes e menos conhecidas, tomadas por Helder Câmara durante sua vida.

Mulheres instaladas no Palácio Arquiepiscopal.

O círculo feminino demonstra sua potencialidade plena em 1947, quando Helder é solicitado para reorganizar, em nível nacional, o movimento da Ação Católica. Diante de seus colegas bispos, ele põe como condição que sua ‘Família’ possa colaborar na elaboração do projeto. Assim, uma equipe feminina se instala no sacrossanto Palácio São Joaquim, uma das fortalezas do domínio masculino sobre a igreja e Centro Pastoral da Arquidiocese de Rio de Janeiro. Unida e competente, ao tomar conta do Palácio, ela imprime seriedade e eficiência aos trabalhos.
Por causa do empenho inteligente e competente dessas mulheres, as providências no sentido de reorganizar a pastoral católica começam a correr bem e se sucedem num ritmo rápido: primeiramente a reorganização nacional da Ação Católica, depois as articulações preparativas à criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, alguns anos depois, a criação do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM). Tudo num lapso de quinze anos.
Os trabalhos com a centralização da Ação Católica vão de 1947 a 1962. Neles, se Helder aparece como hábil articulador, são as mulheres que lhe dão uma assessoria indispensável. Se ele consegue integrar, num nível nacional, as atividades muitas vezes desarticuladas de militantes espalhadas pelo país e, ao criar um Secretariado Nacional, libertar esses militantes da tutela exclusiva de bispos locais, é porque tem atrás de si o trabalho de sua equipe que apresenta sugestões concretas. Não é pouca coisa, pois, superando isolamento e particularização num país imenso como o Brasil, a centralização da Ação Católica se torna um modelo em termos de organização do corpo católico como um todo, inclusive internacionalmente. Nomeado Bispo em 1952, Helder repete a experiência da Ação Católica e consegue com os bispos uma igual centralização de projetos pastorais, por meio da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no mesmo ano. No ano anterior, ainda ‘simples padre’, ele viajara a Roma para articular juridicamente esse novo modelo de ‘pastoral de conjunto’ com o então Secretário de Estado do Papa Pio XII, Monsenhor Montini, o futuro papa Paulo VI. Em 1952, então, e por unanimidade, ele é aclamado primeiro Secretário Geral da CNBB. Três anos depois, em 1955, é a vez do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), criado dentro do clima de euforia criado pelo sucesso do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, uma façanha que revelou o Brasil católico aos olhos do mundo, reconhecidamente por causa do talento organizatório do Bispo Helder Câmara. Por causa de realizações de tamanha importância em tão pouco tempo, ele Câmara se projeta como líder de estatura nacional e mesmo internacional, além de alcançar uma liderança fora do comum dentro da própria Arquidiocese do Rio de Janeiro. Quem aparece sempre é Helder Câmara, mas quem confere solidez ao que ele faz, são as mulheres da ‘Família’.
Não se pense, contudo, que novas estruturas episcopais como a CNBB e o CELAM venham com propósitos revolucionários. Como reza o primeiro artigo dos Estatutos da CNBB: ‘o objetivo da entidade consiste em estudar e discutir problemas da competência do episcopado e de interesse comum’ (veja a biografia de Piletti, p. 197). Uma proposta vaga, até ‘insossa’. Aqui se revela um Helder diplomata. Primeiro organizar, unificar. Só depois, eventualmente, direcionar. Enfim, a recém-criada organização episcopal unificadora está diante de um catolicismo que por mais de 90 % consiste na repetição de ritos (batizados, casamentos, páscoas, devoções, procissões, romarias, promessas, terços, meses de Maria, missões). Um catolicismo de massas, de pouca articulação em grupos, que apregoa as virtudes de subserviência, obediência, conformidade, paciência, fé em Deus e respeito pelas autoridades. Mais tarde, ao se referir a esse tipo de catolicismo, Helder falará em paz dos cemitérios.
Enfim, nos primeiros anos, A CNBB e o CELAM nada mais fazem que seguir o ditame: a união faz a força. Não se explicita um direcionamento. Uma indefinição que revela, afinal, o ‘modus operandi’ típico do articulador Helder Câmara, que, como todo bom político, costuma se mostrar prudente na formulação de objetivos e não explicita de vez a virtual carga política de um projeto, principalmente em se tratar de um projeto que mexe com o episcopado católico. Em suas falas, Helder exalta o princípio do consenso e da unificação. Não costuma explicitar para que finalidade esse consenso eventualmente sirva. Só por volta do ano 1975, nos tempos sofridos da perseguição política, ele mostra a insuficiência do princípio do consenso e aponta ações minoritárias. Mas isso é conversa para outro texto.

As Cartas Circulares.

Para terminar este comentário acerca da importância do círculo feminino no percurso de vida de Helder Câmara, não posso deixar de lembrar aqui que é basicamente em função desse círculo que ele passa a produzir uma volumosa literatura epistolar. Uma literatura que ainda será lida ‘daqui a mil anos’, como falou José Comblin. Efetivamente, marcada por um caráter a-temporal (e isso a aproxima da grande literatura imortal), e girando em torno de temas que afetam a humanidade como um todo, para além dos locais concretos e das circunstâncias passageiras, essa literatura veio para ficar.
A ideia das Cartas Circulares lhe veio em 1962, quando ele, na qualidade de Bispo Auxiliar no Rio de Janeiro, viaja a Roma para participar do Concílio Vaticano Segundo e se sente desligado de sua Família. Desde o início daquele Concílio, ele envia diariamente uma ‘Carta Circular’ a essa Família no Brasil. Hoje, do total de 2.122 Cartas Circulares, 13 Tomos (1964-1969) já foram impressos e editados pela Editora Oficial do Estado de Pernambuco, enquanto outros (1970-1975), digitados, aguardam impressão em papel. As cartas, em forma manuscrita, passam de mão em mão, não só no Rio, mas depois de 1964 igualmente em Recife. Com o tempo, o grupo de leitoras (e, inclusive, leitores) se alarga. Pois, com o desenrolar do Concílio em Roma, o interesse cresce. Muitos mostram-se interessados em acompanhar as peripécias e as reflexões, sempre profundas e originais, de Helder Câmara. A partir do que leu numa Carta Conciliar da terceira Sessão do Concílio, Luiz Carlos Marques, o editor dos primeiros três Tomos das referidas Cartas, lembra que a razão principal das Circulares consiste ‘no cuidado com a família’. Numa ocasião, questionado se o fato de escrever e enviar essas Cartas com tanta assiduidade não lhe estaria roubando um tempo que poderia dedicar a tarefas ‘mais importantes’, Helder reponde resolutamente: Confesso que não tenho nem sombra de remorso. Creio na comunhão dos santos. Se a família caminhar na caridade, unir-se sempre mais a Cristo, louvando o Pai e ajudando os homens, então, cuidar da família é cuidar da FAMÍLIA, isto é, é cuidar de todos os homens de todos os lugares e de todos os tempos(Circular de 17/18 de outubro de 1964).
Na véspera de uma audiência privada com Papa Paulo VI, ele escreve, na mesma linha:Peço a José (seu anjo de guarda) que me acompanhe. Peço a nosso Irmão Jesus Cristo, um pouco como recompensa da fidelidade absoluta destes dias tensos, que mais do que nunca sejamos um. Que Ele não me deixe dizer ao Papa nenhuma palavra meramente minha, nenhuma palavra que não seja nossa, ou, mais precisamente, d’Ele através dos meus lábios humanos... E me sentirei acompanhado daí por vocês.
A certeza de, estando em Roma, ser acompanhado por José e por gente no Brasil, traz ânimo e conforto ao Bispo. A Família está presente, lhe dá segurança, reza por ele. Uma companhia em todos os momentos, principalmente nos momentos tensos. As mulheres da Família Messejanense são os anjos de guarda de Helder Câmara.

Um testemunho.

Termino com o testemunho de Marina Bandeira, feito em 1955, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional. Participante da Família Messejanense e colaboradora na Comissão Nacional de Justiça e Paz, órgão da CNBB, Marina conhece Helder Câmara de perto. Daí a importância de suas palavras.
‘Por intermédio de Dom José Vicente Távora conheci Dom Helder em 1954, ambos Bispos Auxiliares do Rio de Janeiro. Dom Helder era responsável pela organização do Congresso Eucarístico Internacional, a realizar-se no Rio de Janeiro, em julho de 1955. Aceitei secretariar Dom Távora nos contatos com os meios de comunicação, numa sala ao lado da de Dom Helder, sempre de portas abertas. Só a profunda fé, a radical confiança na Divina Providência, explicam a energia, a capacidade de trabalho daquela figura franzina, quase doentia, que permitiu o êxito da monumental empreitada.
Eu soube que em 1952, o então Padre Helder, assistente da Ação Católica Brasileira, com a ajuda desse laicato, idealizara a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, oficializada naquela data pela Santa Sé e aprovada. Soube também que a iniciativa se multiplicou em todos os continentes.
A força espiritual, moral e até física de Dom Helder era alimentada pela Missa diária, às seis da manhã, e com meditações de madrugada. Mensalmente, aos domingos pela manhã, pregava um pequeno retiro para sua equipe, da qual eu já fazia parte.
Dom Helder era não-violento por natureza, incapaz de rancor. Na década de 1960, anos da paranoia anticomunista: ‘ou se é comunista ou anticomunista’, independente, continuou a falar pelos ‘sem voz e sem vez’. Foi presença forte no Concílio Vaticano II ao encaminhar e ver aprovadas na Basílica de São Pedro, propostas arejadas que debatera em grupos de trabalho formais e informais. A voz de Dom Helder repercutiu em todos os continentes, sua presença era exigida por muitos, tanto no Brasil, quanto no exterior’.

Eis uma das surpresas que a leitura da biografia de Helder Câmara nos reserva: a surpresa feminina.



Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

RESISTÊNCIA INDÍGENA E NOSSA DEFESA




Por Marcelo Barros

Cientistas sociais brasileiros como José Luiz Fiori e analistas internacionais como Boaventura de Sousa Santos afirmam que no dia 08 de junho de 2018 foi selado um acordo entre o chanceler dos Estados Unidos, representantes militares do Brasil e alguns das elites nacionais. Esse acordo possibilitou financiamento e assessoria de guerra para provocar a vitória eleitoral do atual presidente e gerar a nova realidade política brasileira que vivemos. Sem dúvida, as primeiras vítimas disso têm sido os povos indígenas. Minutos depois da posse do presidente, no 1º de janeiro, esse correu a assinar a Medida Provisória 870/ 2019. Entre outras medidas, esse decreto esvaziou de suas funções legais a FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Transferiu o poder sobre as terras indígenas para os ruralistas do Ministério da Agricultura. A partir de agora, a raposa fica encarregada de cuidar do galinheiro. De lá para cá, várias áreas indígenas foram invadidas e muitas outras estão ameaçadas. Para citar alguns exemplos mais notórios: no Maranhão, os Guajajara criaram uma associação civil “Os guardiães da floresta”. Em pouco mais de um ano já tiveram três desses cuidadores da floresta assassinados. Agora, a cada dia, lidam com invasões de madeireiros na área indígena. Em Rondônia, nesses dias, dezenas de invasores armados estão invadindo e semeando medo nas aldeias  Uru-Eu-Wau-Wau e nas terras dos índios Karipuna. No Mato Grosso, a terra indígena Marãiwatsédé dos Xavantes, demarcada nos anos da presidente Dilma, está sendo ameaçada de nova invasão. No Mato Grosso do Sul, os Guarani Kaiowá viram intensificar-se a perseguição que já sofrem há quase um século. Continuam a chorar o suicídio de jovens e adolescentes que preferem morrer a viver sem terra e sem direito à comunidade e sua cultura própria. Em plena cidade de Porto Alegre, a comunidade Guarani de Ponta do Arado, bairro de Belém Novo, nas margens do Guaíba, está vendo sua área cercada por milícias armadas. Na cerca que limita a reserva, homens parados impedem os índios de circular, além de vigiá-los dentro de sua própria terra.

Nesses dias, as comunidades do Rio Grande do Sul celebram o aniversário do martírio do índio Sepé Tiaraju. Sepé, cujo nome indígena não parece ter sido esse, foi o líder guerreiro que uniu o povo guarani na luta contra os exércitos espanhol e português. Em 1750, no Tratado de Madri, as duas nações europeias tinham decidido destruir as comunidades das missões, cuidadas pelos jesuítas. Sepé unificou os índios das sete povoações missioneras com o grito: “Esta terra tem dono”. Até hoje, esse grito ressoa nas lutas indígenas e é reconhecido como legítimo por todos os que têm senso de justiça. Sepé morreu vítima de uma emboscada no arroio Caiboaté. Milhares de índios foram mortos ou se espalharam pelas florestas, escondidos para sobreviver. Até hoje, o grito de Sepé Tiaraju, o cacique guarani, ressoa nas lutas indígenas.

Há séculos, o povo o considera São Sepé. Só agora, com o papa Francisco, o Vaticano acolheu o pedido para reconhecê-lo como santo católico. Isso significa que a causa dos povos indígenas não é só uma luta social e política justa. É isso, mas se torna também apelo espiritual através do qual o Espírito Divino se manifesta presente no mundo e nos ilumina.

Depois de mais de cinco séculos de resistência a tantas violências e perseguições, a fidelidade dos povos indígenas à unidade da comunidade, à preservação de suas culturas de origem e a profunda comunhão com a mãe Terra e a natureza se tornam para os cristãos um verdadeiro testemunho (martírio). É o que aparece no testemunho de Marcelo Grondin e Moema Viezzer que conseguiram resumir brilhantemente essa história no livro: O maior genocídio da história da humanidade: mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas. (Toledo, PR, GFM Gráfica e Editora, 2018). Quem lê esse livro impressionante, não pode deixar de concluir: Os povos indígenas podem ser nossos mestres em como resistir nesses dias maus que vivemos. Temos de nos unir a esses irmãos e irmãs que são companheiros nossos nas tribulações provocadas pelo Capitalismo e no testemunho do projeto divino no mundo.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

BRUMADINHO, POESIA E PROFECIA



                                      
                   Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Há cinco dias, os helicópteros cruzam os céus de Brumadinho.  Voam sobre a lama da barragem que rompeu e arrastou vidas humanas, animais, vegetais, tudo enfim que era vivo e respirava.  Derrubou construções erguidas em nome do progresso e da arte. Arrastou planos, projetos, futuro, memória. Soterrou sonhos, alegrias, confiança, esperança. A barragem que rompeu ainda não chegou ao seu destino.  Busca caminho até o mar e enquanto isso polui o rio e destrói a vida e o futuro das comunidades que dele vivem. 

            Os helicópteros têm outro destino que não o mar.  Voam para resgate de vivos e mortos.  Chegam onde estão bombeiros e cães farejadores.  E estes lhes entregam mais um corpo para transportar. Os helicópteros levantam aquele corpo do solo que o sepultou na lama assassina. E cada vez que alçam voo levando pendurada em sua fuselagem a macabra e sagrada carga que devem fazer chegar ao necrotério, ao caixão, ao sepultamento, escrevem também nos céus a indignação de todo um povo.  Juntamente com o respeito pelas vidas que se foram e  agora se dirigem à sua última morada, o Brasil experimenta dor e raiva.  Treme e se revolta pela tragédia anunciada e nunca justificada. 

A Samarco ainda não purgou seu desastre de três anos atrás e este acontece outra vez e em maior escala. Os presidentes, diretores, técnicos, supervisores dão as mesmas explicações.  Ou talvez nem sequer as deem.  Murmuram um discurso tão sem sentido quanto vazio.  Simplesmente porque não há explicação possível.  Não há justificativa para que a exploração das minas vá pouco a pouco dando mordidas e dentadas crescentemente vorazes nas montanhas. As montanhas que formam a paisagem das Minas e inspiraram poetas e escritores geniais agora são túmulo de centenas de vítimas que a lama soterrou e sufocou. 

A consciência do que se passou é muito clara.  Não se trata de desastre ambiental quando a natureza se desordena e se enfurece e despeja um tsunami, uma erupção vulcânica sobre cidades e paisagens. Ou quando a terra treme e se abre, tragando vidas inesperadamente.  Não, não se trata de algo incontrolável e para além das possibilidades de previsão e cuidado humanos.  Trata-se de um crime.  Fruto da ganância, da cobiça, da irresponsabilidade. Tal como as minas de Potosí no Alto Peru, hoje Bolívia, foram comparadas à garganta de Moloch, que engolia as vidas dos mineiros que nela trabalhavam, as mineradoras do estado das Minas Gerais fazem barragens inseguras e frágeis, que se rompem e vomitam a morte sobre todo o ambiente e os seres vivos que encontram pelo caminho. 

Diante do tamanho do desastre e da tragédia, as palavras faltam. Mas a poesia ajuda. E nela há não apenas lira e canto, mas também denúncia e profecia.  O poeta maior Carlos Drummond de Andrade, itabirano de nascimento, contemplou muito as montanhas de Minas. Pressentiu o que ali aconteceria e profetizou com versos as tragédias que o Brasil vive nos últimos anos com Mariana e agora Brumadinho. 

Poeta e profeta, Drummond recorda que se o Rio é doce, a Vale é amarga.  Essa que se chamou Vale do Rio doce e hoje é conhecida apenas como Vale é identificada pelo poeta com estatais, multinacionais e muitos ais.  Ais que se fizeram ouvir em Mariana, em 2015, e agora enchem o espaço de Brumadinho.  Ais do peito das mães e esposas que choram as perdas irreparáveis que a lama levou.  Ais das moças grávidas cujos maridos jazem insepultos e desaparecidos sob a lama de rejeitos. 

A “Lira itabirana” de Drummond fala também de dívida, interna, externa e eterna.  A dívida obriga a correr atrás do lucro, a antecipar prazos e tomar decisões errôneas que têm as consequências mortais que se conhece. E se graças à mineradora, toneladas de ferro exportamos, mais volumosas são as lágrimas que disfarçamos.  Sem berro, acrescentará o poeta, conhecedor da resiliência infinita do mineiro, do brasileiro. Infinita e eterna é a dívida das mineradoras para com as vidas que a lama assassina e carregada de rejeitos interrompeu brutalmente.

Drummond pressentiu a destruição de sua cidade, de suas montanhas natais pela ação voraz e irresponsável das mineradoras. Por isso, sua Itabira lhe doía tanto.  Por isso lá não voltava.  Porque talvez não conseguisse disfarçar as lágrimas sem berro. Pois com o enlouquecimento da mineração, suas Minas o feriam ao perceber no coração da riqueza do minério a cobiça despertada e a escritura “de hipoteca e usura” maculando o amor pela terra natal. 

Os helicópteros continuam seu triste trabalho. O risco alado de seu voo repete o refrão que constrange o coração do Brasil: o rio é doce, a Vale amarga. 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros
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