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terça-feira, 5 de maio de 2020

A COMUNICAÇÃO SOCIAL, ARMA DE GUERRA


 

Por Marcelo Barros

 

É importante aprofundar a função dos meios de comunicação social na construção de uma sociedade justa e mais igualitária.

 

Cada vez mais, a função dos meios de comunicação social tem sido assunto de discussões e debates. A ONU consagra o 03 de maio como “dia internacional da liberdade dos meios de comunicação”. No mundo atual, é difícil falar em liberdade se, no mundo inteiro, mais 80% dos meios de comunicação pertencem a pouquíssimas empresas, as mesmas que dominam o mercado de armas e de petróleo. No Ocidente, quase todas as agências internacionais de notícias tem sede nos Estados Unidos. Já há algumas décadas, o governo dos Estados Unidos descobriu que vencer um governo inimigo com a difusão permanente de notícias falsas (fakes news) é mais eficiente e muito mais barato do que as batalhas com armas contemporâneas. E para isso os soldados dessa guerra são os meios de comunicação, agências de notícias, a imprensa, canais de rádio e televisão. Quem quiser se informar mais como isso tem funcionado no mundo inteiro leia o livro editado no Brasil: Guerras Híbridas, das revoluções coloridas aos golpes, da autoria de Andrew Korybko, editado no Brasil pela Expressão Popular. Depois do livro publicado, aqui na América Latina, temos a experiência triste do que o império norte-americano tem feito na Venezuela. Paga à elite da sociedade venezuelana e assim os próprios venezuelanos se batem entre si para destruírem o seu governo. E o império cuida de ajudá-los a cada dia com a implantação na imprensa internacional de notícias falsas que destroem a credibilidade e semeiam a confusão no país a ser dominado. Além disso, garantem que o petróleo, principal fonte de reservas da Venezuela perca preço e assim o país é como terra sitiada. Ou se rende ou morre. É a teoria da guerra híbrida, já experimentada em vários países e neste momento em utilização total na Venezuela. 

No Brasil, o 5 de maio foi instituído como Dia Nacional das Comunicações. Poucas pessoas sabem que nesta data, em 1865, nascia em Mimoso, perto de Cuiabá (MT), uma grande figura das telecomunicações brasileiras: o Marechal Rondon. O nome deste grande brasileiro, descendente de índios Terena, Bororo e Guaná, é lembrado quando se trata de defesa dos povos indígenas e da integração do território nacional, mas poucas pessoas o ligam às telecomunicações. Em 1955, quando Cândido Mariano da Silva Rondon completava 90 anos, passou a ser homenageado como Patrono das Comunicações do Brasil. Talvez sua origem o impelisse a uma comunicação mais humana com os indígenas. "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - era o seu lema. Com ele, Rondon ganhou projeção e reconhecimento internacionais. Este princípio deveria servir para nortear a pauta dos meios de comunicação em uma sociedade que convive mais com a guerra do que com a paz e acha mais natural a competição do que a colaboração entre pessoas e povos. Nunca foi tão necessário lembrar a figura de Rondon e o seu lema do que agora quando, no Brasil, o constante massacre de líderes indígenas e invasão de suas terras deixam a impressão de que o governo brasileiro e empresários do agronegócio abriram a temporada de caça aos povos indígenas.

Em muitos noticiários de televisão e das principais agências de notícias, há um ataque permanente aos direitos dos mais pobres e a criminalização dos movimentos sociais. De fato, ficam ignorados e desconhecidos tantos exemplos de ética no trato da coisa pública e na vida pessoal, assim como muitas pessoas admiráveis na dedicação aos outros. As conquistas sociais e morais da sociedade civil são negadas.

No mundo religioso, as Igrejas e grupos espirituais independentes têm se servido dos meios de comunicação. Em meio a essa quarentena que impede reuniões coletivas, Igrejas realizam cultos e missas por internet. E grupos que na prática apoiam a violência e as discriminações sociais, usam a religião para difundir seus preconceitos e justificar a cultura do desamor.

Como evangelho é a boa noticia de que, apesar de tudo, o projeto divino de paz e justiça começam a se realizar neste mundo, muitas vezes, tem sido fora do universo religioso que jornalistas cumprem a função de verdadeiros evangelizadores e fazem com que os meios de comunicação cumpram sua função de fazer deste mundo espaço de comunhão para toda a humanidade e no cuidado com a Mãe Terra.

 

  MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 

 

 

 


COVID 19 - VIGÉSIMA QUARTA REFLEXÃO - AS LIÇÕES DA HISTÓRIA (2) EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


 

 

(continuação)

    Os traumas causados pela Peste Negra fizeram rachar algumas colunas mestras que sustentavam o edifício da Cristandade.

    O golpe mais profundo feriu de morte as "certezas" sobre a ação de Deus no meio do mundo, sobre a Divina Providência. Pode-se imaginar a crise de Fé gerada pela lembrança daquelas cenas dantescas, uma multidão de fiéis se auto-flagelando, guiados por líderes religiosos fanatizados, que garantiam, em troca, a cura milagrosa. Que cura? Onde esteve Deus, nestes 4 anos, que não escutou os gritos de socorro de 20 milhões de filhos seus?

    A sequência dos fatos revelou que o descrédito não atingiu a fé em Deus. Vivia-se uma época em que crer em Deus era a única defesa contra os absurdos da existência.

    Contudo, os seus representantes não escaparam. A Peste, com seu cortejo fúnebre, não fez diferença entre plebe, nobreza e alto clero. Estes viram desabar seu domínio absoluto sobre as classes "inferiores", domínio este garantido e sacramentado pela doutrina de que, por conta do seu papel de comando na sociedade, eles gozavam de uma proteção divina especial. As massas perceberam o engodo e reagiram com desprezo e revolta a séculos de submissão.

    Outra das mais graves sequelas afetou a conduta moral das pessoas. Não entrava mais na consciência da maioria a visão ascética de que esta vida  temporal só tem uma finalidade: preparar-se para a eternidade, por meio de boas obras e  paciência.

Não! Os bens prometidos para o céu deviam ser desfrutados já agora, na entrega aos amores e prazeres terrenos.

    No entanto, o abalo maior deu-se na segurança do Poder Econômico. Reduzida a mão de obra a menos de 50%, os trabalhadores se deram conta de um novo poder em suas mãos. Graças a esta escassez, o preço do seu trabalho alugado cresceu na mesma proporção. E, por este caminho, encontraram força de enfrentar a opressão dos senhores feudais e conquistar direitos  que nunca seriam alcançados por outros meios.Abriam-se Grandes brechas na muralha do Sistema Feudal. O mundo nunca mais seria o mesmo.

    E os teólogos, como reagiram a estes desafios que ameaçavam  a segurança do Império e da Fé?

    Eles repensaram sua teologia e espalharam novas interpretações. Tentaram, entre outras teorias, reduzir o mal a uma mera aparência. Quando enxergamos o mal em algum fenômeno ou acontecimento, estamos fazendo uma leitura equivocada da realidade. Se algo que hoje vemos como mal, pode redundar em um bem no futuro, então o mal que vemos é só aparente. Isso acontece porque a nossa visão se prende ao individual e ao provisório. Quando pensamos além destes limites, chegamos a outras conclusões.

    Por este prisma se chega a um novo mistério: às vezes se fazem necessários sacrifícios individuais para o bem da Criação como um todo. Jamais houve mudanças transformadoras da História Humana sem derramamento de sangue (desde Jesus no Calvário, passando pelos primeiros mártires, seguidos de numerosos outros ao longo dos séculos, até chegar a Dom Oscar Romero, Margarida Alves, etc.)

    Talvez mais de 90% dos que leram a nossa 24º Reflexão terão pensado: eu não sabia (ou não me lembrava) desse terremoto que destruiu Lisboa. Q. d. aqueles terríveis sofrimentos dissolveram-se na memória do passado.  Mas ficou Lisboa. Antes, mal-afamada pelas suas ruelas estreitas, sinuosas e sujas. Hoje os turistas admiram como elas são largas e lineares. Esta transformação teve início logo após o terremoto, graças ao enérgico Ministro Marquês de Pombal.

    Uns dirão: "há males que vem por bem". Outros retrucarão: "a preço de 50.000 cadáveres?".

    Se me fizerem esta pergunta ou quiserem associá-la ao COVID 19, confesso meu arrependimento de ter levantado estas questões. Pois só tenho uma resposta imediata: não sei! De uma coisa estou convicto: a nossa vida está enraizada muito mais em mistérios do que em ciências. A mente humana não possui a capacidade de apreender a totalidade destes mistérios. Por isso, muitas coisas há que não compreendemos  e jamais compreenderemos. Por outra parte, nossa Fé existe não para dar respostas e sim para dar forças. Respostas vem sempre acompanhadas de novas e mais complexas perguntas, enquanto forças espirituais nos levam a combater e superar os males. E, no final das contas, permanece uma última verdade da qual somos todos testemunhas: qualquer vida humana só se constrói com 3 matérias-prima insubstituíveis: trabalho, sofrimento e amor. E isso nenhuma pandemia pode destruir.

    Resta-nos orar: ESPÍRITO CRIADOR, VINDE A NÓS. VOSSA LUZ ACENDEI NA NOSSA MENTE. VOSSO AMOR NOS CONDUZA AO GRANDE FIM.

Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 


sábado, 2 de maio de 2020

COVID 19 - VIGÉSIMA TERCEIRA REFLEXÃO


por Frei Aloísio Fragoso

AS LIÇÕES DA HISTÓRIA EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

   A História é mestra da vida, dizem os entendidos, e nós os apoiamos. Quantas lições os acontecimentos de épocas passadas nos proporcionam para entender e avaliar os fatos presentes!  Isso vale também no caso do COVID 19.

    Relembremos  algumas catástrofes semelhantes a esta, em seus efeitos letais, e observemos como certas reações que hoje pensamos serem novas e exclusivas, já se repetiam há séculos.

    Relembremos, por ex., O terremoto que arrasou a cidade de Lisboa no ano de 1755. Era a manhã do dia 1.de novembro, festa de Todos os Santos, as igrejas estavam repletas. De repente a terra começa a se abrir, com gigantescos tremores, que, em poucos minutos, destroem aquela que era a quarta maior cidade da Europa. Para agravar o terror da população, ao terremoto sucede-se um tsunami, quando as águas do Tejo chocam-se com as do mar e inundam a cidade baixa, e, ao tsunami, um grande incêndio, devastando o que o terremoto poupara.

    Tombaram 55 palácios, 35 igrejas e 50.000 vidas foram ceifadas.

    Os mortos tiveram de ser divididos, uns enterrados em valas comuns e outros jogados ao mar com pedras presas ao corpo, a fim de não voltarem à superfície.

    Logo a catástrofe repercutiu para além das fronteiras de Portugal e começaram as inevitáveis tentativas de explicação. Para a massa aterrorizada, a conjugação de terremoto, tsunami e fogo era a imagem do Juízo  Final, castigo de Deus pelos seus grandes pecados. Vivia-se então o domínio do Iluminismo. O confronto das interpretações fica bem explicitado pelos dois mais famosos pensadores da época, os franceses Voltaire e Rousseau. O primeiro viu nessa tragédia o colapso de todas as concepções do mundo vigente, onde jamais se podia admitir um tal acontecimento, pois a terra era acreditada como uma criação divina garantida por princípios de ordem e harmonia.

    "Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes", ironizou o filósofo ateu, e acrescentou "Que crime? Que falta cometeram estas crianças esmagadas e sangrando sob o seio materno? Lisboa, que já não existe, tinha mais vícios do que Paris, mergulhada em delícias? Do autor do bem terá decorrido o mal?"

    Voltaire também estava se revelando contra a filosofia do otimismo de Leibnitz, para quem "vivemos no melhor dos mundos" e "tudo vai bem".

    Rebatendo Voltaire, Rousseau escreveu "Carta Sobre a Providência", uma tentativa de "inocentar" a Deus e a gentil mãe terra: "Acaso foi Deus que reuniu numa área exígua 20.000 casas de 6 e 7 andares? "Quantos morreram porque voltaram para salvar suas roupas, seus documentos e seu dinheiro?"

    Foi ficando claro, desde então, que as avaliações das grandes tragédias não podem ser separadas do tipo de sociedade onde elas ocorrem.

    O terremoto de Lisboa nem de longe se compara à catástrofe da "peste negra", assim chamada porque marcava de manchas pretas o corpo de suas vítimas. Ela espalhou-se a partir do ano de 1347, causada por pulgas infiltradas em ratos e trazidas por navios vindos do Mar Negro para a cidade de Gênova, na Itália.

    As mortes amontoavam cadáveres numa aceleração de minutos, aldeias inteiras foram  riscadas do mapa porque nenhum de seus habitantes escapou.

    Na inexistência de recursos naturais, as pessoas apelavam irracionalmente para a Fé, auto-flagelando-se em longas procissões de penitência, e com isso acumulando novas vítimas, cujos cadáveres eram abandonados pelo caminho.

    A peste negra durou 4 anos e matou 1/3 da população da Europa, mais de 20 milhões de habitantes.

    O que hoje se afirma como vaticínio, naquela ocasião, ficou comprovado pelos fatos: nunca mais o mundo voltou a ser o mesmo. Jorraram os sinais de uma mudança radical de mentalidade e costumes, sobretudo no despertar de uma nova consciência sobre a Liberdade.

    (Pausa para uma observação: me lembrei de certas pessoas que possuem o "carisma" de narrar tragédias, doenças, mortes, enterros, sofrimentos. Elas encontram gosto em prolongar suas narrativas por horas a fio, até que todos os ouvintes cedem ao sono, vencidos pelo cansaço. Não quero imitá-las. Prefiro recordar os seriados da minha adolescência. Quando o filme chegava ao máximo de suspense, acendiam-se as luzes e aparecia um grande letreiro: CONTINUA NA PRÓXIMA SESSÃO. Esperávamos uma semana.

    Em nossa próxima reflexão voltaremos a este assunto, esclarecedor para os conflitos de valores que estamos enfrentando.

    Enquanto isso, o Espírito Santo nos conduza até o coração de Pentecostes, que iremos celebrar nas próximas semanas. Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O QUE PODERÁ VIR DEPOIS DO CORONAVÍRUS?



por leonardo boff

Muitos já sentenciaram: depois do coronavírus não é mais possível levar avante o projeto do capitalismo como modo de produção nem do neoliberalismo como sua expressão política.O capitalismo é somente bom para os ricos; para os demais é um purgatório ou um inferno e para a natureza, uma guerra sem tréguas.
O que nos está salvando não é a concorrência – seu motor principal – mas a cooperação, nem o individualismo – sua expressão cultural – mas a interdependência de todos com todos.
Mas vamos ao ponto central: descobrimos que a vida é o valor supremo, não a acumulação de bens materiais. O aparato bélico montado, capaz de destruir por várias vezes, a vida na Terra se mostrou ridículo face a um inimigo microscópico invisível, que ameaça a humanidade inteira. Seria o Next Big One (NBO) do qual temem os biólogos, “o próximo Grande Vírus”, destruidor do futuro da vida? Não cremos. Esperamos que a Terra tenha ainda compaixão de nós e nos dê apenas uma espécie de ultimato.
Já que o vírus ameaçador provém da natureza, o isolamento social nos oferece a oportunidade de nos questionarmos: qual foi e como deve ser nossa relação face à natureza e, em termos mais gerais, face à Terra como Casa Comum? Não são suficientes a medicina e a técnica, por mais necessárias. Sua função é atacar o vírus até exterminá-lo. Mas se continuarmos a agredir a Terra viva,”nosso lar com uma comunidade de vida única”como diz a Carta da Terra (Preâmbulo) ela contra-atacará de novo com pandemias mais letais, até uma que nos exterminará.
Ocorre que a maioria da humanidade e dos chefes de Estado não têm consciência de que estamos dentro da sexta extinção em massa. Até hoje não nos sentíamos parte da natureza e nós humanos a sua porção consciente; nossa relação não é para com um ser vivo, Gaia, que possui valor em si mesmo e deve ser respeitado mas de mero uso em função de nossa comodidade e enriquecimento. Exploramos a Terra violentamente a ponto de 60% dos solos terem sido erodidos, na mesma proporção as floresta úmidas e causamos uma espantosa devastação de espécies, entre 70-100 mil por ano. É a vigência do antropoceno e do necroceno. A continuar nesta rota vamos ao encontro de nosso próprio desaparecimento.
Não temos outra alternativa senão, fazermos nas palavras da encíclica papal “sobre o cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Nesse sentido o coronavírus é mais que uma crise como outras, mas a exigência de uma relação amigável e cuidadosa para com natureza. Como implementá-la num mundo montado sobre a exploração de todos os ecossistemas? Não há projetos prontos. Todos estão em busca. O pior que nos pode acontecer, seria, passada a pandemia, voltarmos ao que era antes: as fábricas produzindo a todo vapor mesmo com certo cuidado ecológico. Sabemos que grandes corporações estão se articulando para recuperar o tempo e os ganhos perdidos.
Mas há que conceder que esta conversão não poderá ser repentina, mas processual. Quando o Presidente francês Maccron disse que “a lição da pandemia era de que existem bens e serviço que devem ser colocados fora do mercado” provocou a corrida de dezenas de grandes organizações ecológicas, tipo Oxfam, Attac e outras pedindo que os 750 bilhões de Euros do Banco Central Europeu destinados a sanar as perdas das empresas fossem direcionados à reconversão social e ecológica do aparato produtivo em vista de mais cuidado para com a natureza, mais justiça e igualdade sociais. Logicamente isso só se fará ampliando o debate, envolvendo todo tipo de grupos, desde a participação popular ao saber científico, até surgir uma convicção e uma responsabilidade coletivas.
De uma coisa devemos ter plena consciência: ao crescer o aquecimento global e ao aumentar a população mundial devastando habitats naturais e assim aproximando os seres humanos aos animais, estes transmitirão mais vírus que encontrarão em nós novos hospedeiros para os quais não estamos imunes. Daí surgirão as pandemias devastadoras.
O ponto essencial e irrenunciável é a nova concepção da Terra, não mais como um mercado de negócios colocando-nos como senhores (dominus), fora e acima dela mas como um super Ente vivo, um sistema autoregulador e autocriativo, do qual somos a parte consciente e responsável, junto com os demais seres como irmãos (frater). A passagem do dominus (dono) a frater (irmão) exigirá uma nova mente e um novo coração, isto é, ver de modo diferente a Terra e sentir com o coração a nossa pertença a ela e ao Grande Todo. Junto a isso o sentido de inter-retro-relacionamento de todos com todos e uma responsabilidade coletiva face ao futuro comum. Só assim chegaremos, como prognostica a Carta da Terra, a “um modo sustentável de vida”e a uma garantia de futuro da vida e da Mãe Terra.
A atual fase de recolhimento social pode significar uma espécie de retiro reflexivo e humanístico para pensarmos sobre tais coisas e a nossa responsabilidade face a elas. O tempo é curto e urgente e não podemos chegar tarde demais.
Leonardo Boff escreveu Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2018 e A opção Terra: a solução da Terra não cai do céu, Record 2009.