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quinta-feira, 24 de junho de 2021

ÓDIO E AMOR NAS REDES DIGITAIS

 Frei Betto


 

 

        “Diga-me em que nicho da internet se encontra e direi se vou odiá-lo.” Se alguém frequenta uma tribo de Whatsapp ou Twitter de defesa dos direitos humanos e conecta outro de bolsonaristas, será inevitavelmente agredido, ofendido, ou sumariamente excluído dos contatos. E vice-versa.

        Como afirma o doutor em Ciências da Comunicação, Moisés Sbardelotto, “não basta gostar ou desgostar de algo: é preciso também desgostar daqueles que gostam daquilo de que não gosto. A raiva e o rancor se digitalizam e permeiam sites e redes sociais digitais mediante expressões de intolerância, indiferença, desinformação, negacionismo, difamação, discriminação, preconceito, xenofobia. O ódio, assim, ganha forma de bits e pixels, principalmente pela ação dos chamados haters, os odiadores, aqueles que amam odiar.”

        Tal situação faz parte de um fenômeno mais amplo e recente caracterizado pela difusão de desinformação e má informação, como as chamadas fake news. De acordo com Claire Wardle e Hossein  Derakhshan, essa “poluição de informações em escala global” gera verdadeira “desordem informacional.”

        As redes digitais me fazem lembrar o Coliseu, a arena dos gladiadores romanos. Como meros espectadores confortavelmente instalados em nossas casas, assistimos aos confrontos pela telinha do celular e, com frequência, repassamos a terceiros. Isso reforça os atos de violência simbólica, intolerância e fake news, o que acirra os ânimos e se contradiz ao adjetivar as redes de ‘sociais’, já que, nesse caso, não favorecem a sociabilidade, e sim a hostilidade. É o que o papa Francisco qualifica de “excomunicação”, a comunicação que exclui o outro.

        Então não devemos denunciar o político que desrespeita as regras do jogo democrático, profere mentiras e viola os direitos humanos?  Devemos sim! Mas respaldados por argumentos consistentes e provas inquestionáveis.

        A etiologia do ódio demonstra que ele decorre de frustrações reprimidas que descontamos em outra pessoa. Para Freud, “o eu odeia, abomina e persegue, com intenção de destruir todos os objetos que constituem uma fonte de sensação desagradável para ele, sem levar em conta que significam uma frustração […] da satisfação das necessidades de autopreservação” (Pulsão e seus destinos, 1980[1915], p.160).

        O hater (= aquele que odeia) sente prazer mórbido de descontruir o outro. Fora das redes digitais, uma pessoa que odeia a outra guarda essa amargura no coração e na mente, sem ter como atingir o alvo de seu ódio. É o veneno que ela ingere esperando que a outra morra...

        No caso do ódio digital, a amargura encontra vazão imediata e condições de rapidamente atingir o alvo e compartilhar a ofensa com amplo leque de pessoas. O ódio digital fica armazenado nas redes e pode ser reativado a qualquer momento. Assim, o ódio pessoal se transforma em ódio social e global. E estabelece uma “confraria universal do ódio”, sem que haja a contrapartida capaz de fazer refluir essa onda deplorável – a educação para o amor.

        Como afirma Sbardelotto, “a internet, assim, torna-se campo fértil para o crescimento de uma ‘cultura do descarte’ digital.” Ou como assinala o papa Francisco, tais atitudes visam a “destroçar a figura do outro, num desregramento tal que, se ocorresse no contato pessoal, acabaríamos todos por nos destruir uns aos outros” (Fratelli Tutti, 44).

        O ódio digital é covarde. O emissor alardeia ofensas que seria incapaz de proferir cara a cara. E muitas vezes nem sequer se identifica. Assemelha-se àquelas pessoas que, na Idade Média, se deliciavam ao assistir a Inquisição queimar, em praça pública, supostos hereges.

        A vida ensina que pessoas impregnadas de ódio são infelizes e trazem infelicidade a quem as cercam. Tentam encobrir sua fragilidade e insegurança sob a atitude de prepotência, arrogância, dono ou dona da verdade, ainda que não haja nenhuma consistência no que afirmam.

        O desafio, portanto, é fazer das redes digitais uma escola de amorosidade. Muitos nichos reúnem tribos que se identificam por comungarem a mesma fé, a mesma proposta política, os mesmos objetivos.

        Zigmunt Bauman aponta como uma das causas da “modernidade líquida” a falta de modelos a serem seguidos. Fui educado no altruísmo graças à educação religiosa que me levou a admirar santos e santas dedicados a promover o bem do próximo. Valores como solidariedade, fome de justiça, utopia de um mundo melhor, me vieram da educação politica, que me ensinou a admirar Ajuricaba, Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Prestes, Che Guevara, Fidel, Rosa Luxemburgo, Marighella, Nelson Mandela, Martin Luther King, Gandhi e Ho Chi Minh, entre outros.

        A quem nossas crianças e jovens aprendem a admirar? Quais os modelos que abraçam? Muitos se espelham em ídolos de TV, futebol, música, show business. São boas pessoas em geral, mas não majoritariamente exemplos de altruísmo e idealismo. A maioria espelha os “valores” de uma sociedade hedonista e consumista: fama, poder, riqueza e beleza. O que tende a exacerbar o ego, despertar ambições desmedidas e, em consequência, frustrações que suscitam baixa autoestima e inveja impregnada de ódio. Como bem definiu Tomás de Aquino, “a inveja é a tristeza de não possuir o bem alheio”.

        Esse mundo de perda de referências éticas e dissolução de valores, no qual tudo é fluido e mutável, é o que Bauman qualifica de “modernidade líquida”. Era em que as relações humanas são voláteis, intangíveis, inconsistentes. Época da globocolonização, que nos impõe o consumo frenético, a competitividade desenfreada, a repugnância (em forma de racismo e preconceito) ao diferente.

        A psicologia ensina que pessoas muito inseguras tendem a ser agressivas, a manter relações tóxicas. Ficam ansiosas em transitar nas redes digitais em busca da certeza de que outras pessoas são mais infelizes do que elas ou merecem ser depreciadas. Essa insegurança decorre do medo. Medo de serem rejeitadas, de empobrecer, de não serem devidamente reconhecidas, amadas, admiradas.

        A conexão universal com um número infinito de pessoas leva muitos a buscarem se espelhar no próximo, comparar-se aos demais, perseguir a certeza de que suas vidas valem a pena ser vividas. Mas esse espelhamento precisa ter referências positivas em pessoas e atitudes solidárias, idealistas, capazes de fazer de suas vidas um bem e um dom para que outros tenham vida. E isso só se obtém em três escolas: a da arte, a da espiritualidade e a da política, quando abraçadas com espírito crítico.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

 

 

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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quarta-feira, 23 de junho de 2021

FIM DA CEGUEIRA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


  FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(21/06/2021)

 

     Em atenção ao vivo interesse que estas Reflexões despertaram pela obra e o autor de "Ensaio Sobre a Cegueira", atrevo-me a fazer uma breve consideração. Este não é um livro de leitura fácil e prazeirosa, bem ao contrário. Ele mesmo, Saramago, adverte, em uma de suas entrevistas: "este é um livro com o qual eu quero que o leitor sofra tanto quanto eu sofri ao escrevê-lo.(....) Nele se descreve uma longa tortura. Através da escrita tentei dizer que não somos bons e que é preciso coragem para reconhecer isto".

 

     Como leitor ávido de suas idéias, reconheço, no entanto, que não contaria com o seu acordo em algumas interpretações. No mínimo ele me diria que extrapolei suas intenções e, em alguns casos, misturei alhos com bugalhos. Nossos pontos de partida se conflitam, eu com minha visão cristã de todas as coisas e ele, ateu e anti-religioso. (Vejam uma prova disso: após escaparem do manicômio, os ex-cegos entram numa igreja e encontram as imagens todas de olhos vendados; não está aí uma sutil acusação de descaso divino e omissão da Igreja?)

 

     Malgrado seu ateismo, vejo uma profunda convergência entre palavras postas na boca de um de seus personagens: "porque cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem",

e outras tantas palavras ditas por Jesus no Evangelho de João, 9,39: "vim ao mundo para que os que não veem vejam e os que veem, tornem-se cegos".

     A imagem que ele usa da "cegueira branca", na qual os cegos enxergam "um mar de leite" me parece uma transfiguração de outra passagem bíblica. Durante séculos os hebreus viveram como escravos do Faraó do Egito, na cegueira da resignação, até aparecer  Moisés, abrindo-lhes os olhos com a visão da "Terra Prometida", a terra "onde corre leite e mel". Fica-me a sensação de que, em ambos os casos, os cegos não perderam de todo a miragem da utopia, esse mar de leite   e mel.

     Se ele me desse a chance de fazer-lhe perguntas, perguntaria sobre os motivos que o levaram a escolher a figura da mulher como  protagonista, único personagem lúcido, preparado para cumprir uma função libertadora. E lhe perguntaria ainda por que o primeiro a cegar perde a visão no momento em que se encontra em meio ao trânsito, diante do semáforo? Será uma metáfora da eterna rotina da grande cidade? O cidadão-robô a transitar sempre pelos mesmos caminhos, para chegar aos mesmos lugares?  De quebra e por mera curiosidade, indagaria: por que ao chefe dos "cegos malvados" foi dado o apelido de "homem da pistola"? Foi alguma premonição?

     Finalmente chegamos ao fim desta novela. É claro que uma obra desta envergadura, que nos convoca a desvendar elementos transcendentais da nossa condição humana, não poderia ter um final feliz, nem um final-ponto-final. Todos ficamos um tanto decepcionados quando o autor de uma novela transpõe para nós a responsabilidade de encontrar seu final, construindo-o. Assim o faz Saramago.

     No exato momento em que a "mulher do médico", frente à degradação humana, sente-se impotente para combater os "cegos malvados", entra em cena "a mulher do isqueiro". Esta arrisca sua vida ateando fogo na barricada dos mesmos "cegos malvados". Com isso facilita a fuga dos outros cegos. Estes voltam para a grande cidade e vão recuperando a visão aos poucos, ao tempo em que descobrem que a população inteira do país também cegou. Eles passam a procurar suas próprias formas de sobreviver. "A mulher do médico reassume a liderança e aponta o caminho: "Se nos separarmos, seremos destroçados. Continuemos a viver juntos. Organizar-se já é começar a ter olhos".

     Ao longe vislumbro a figura de Jesus aproximando-se para dizer-lhes: "se tiverdes fé fareis as coisas que fiz e farão outras ainda maiores" Jo. 14,12.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

terça-feira, 22 de junho de 2021

TEMPO NOVO PARA OS POVOS ORIGINÁRIOS

 

Marcelo Barros


 

Nesta semana, a partir de 21 de junho, dia do solstício do inverno no hemisfério sul, vários povos originários celebram festas que correspondem ao que tradicionalmente, no hemisfério norte, se costumou denominar o ano novo. Em muitos recantos da cordilheira, povos andinos celebram o Inti- Raimi, festa do renascimento do Sol, rei da vida. Esses festejos nos recordam a antiga festa romana de 25 de dezembro que deu origem à atual celebração cristã do Natal.

No sul do Brasil, os Guarani Mbyá denominam essa época de junho como Ara Pyaú (Tempo Novo). Os fortes ventos (yvytu) anunciam o tempo novo, marcado pela cerimônia da erva-mate, o ka’a nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano-novo são interpretadas pelo pajé. Em outras regiões do Brasil, é a festa do milho. 

Essas celebrações indígenas, seja nos Andes, seja no Brasil, tiveram de se vestir de festas cristãs em honra de São João para serem aceitas. Desde as últimas décadas, a sociedade dominante investe nessas festas populares para explorar o turismo. Seja como for, os povos originários sempre têm sabido usar sua capacidade de organização para, nas brincadeiras e festas juninas, ensaiar novo estilo  de sociedade.  

Nestes dias, os mesmos quétchuas que desfilam de roupas longas e coloridas na Plaza Mayor de Cuzco  acabam de eleger Pedro Castillo, simples professor da roça, como presidente da República do Peru. Apesar da pandemia, em um imenso cortejo formado por pessoas de diversas etnias, os índios  descem as montanhas e vão a pé até Lima para manifestar aos peruanos da cidade grande que eles também são cidadãos. Representam a parte maior do país e querem ver respeitado o seu voto.

Na Colômbia e no Chile, comunidades tradicionais se manifestam exigindo mudanças e pedindo justiça. No Brasil, há poucos dias, associações indígenas criaram o Parlaíndio, um Parlamento dos Povos Indígenas. Esse organismo representará as vozes e interesses de quase um milhão de pessoas no Brasil. São povos que resistem e precisam de ver reconhecidos seus direitos coletivos. Querem viver suas culturas originárias, em seus territórios sagrados e junto com os Espíritos e Encantados, cuidar da natureza.

É urgente essa mobilização dos povos originários e a ela devemos nos juntar, todas as pessoas que amam a justiça e a paz. Como já há três anos, em Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, afirmou o papa Francisco: “Os povos originários nunca foram tão ameaçados como estão sendo agora, em sua existência física e em suas culturas”.

As notícias revelam que na Amazônia e no Pantanal do Mato Grosso do Sul, a destruição da natureza tem se dado de modo gigantesco. Em todo o Brasil, companhias mineradoras como a Vale têm assassinado a vida de rios inteiros, transformados em leitos de contaminação e morte. As primeiras vítimas desse ecocídio são os povos originários.

De maio a junho somente no Oeste do Paraná, ocorreram quatro suicídios de adolescentes e jovens Avá Guarani, todos menores de  23 anos e todos ligados a falta de perspectivas de vida em sua cultura.

Neste ano, a pandemia ainda não permitirá que no Brasil e nos Andes as festas de um novo tempo possam ser vividas do modo como desejaríamos. No entanto, elas podem ser ensaiadas na educação da juventude e na prioridade que devemos dar a superar a propaganda anti-ética dos dominadores. É preciso que as manifestações populares ganhem sempre mais força nova. 

Assim, mesmo no cuidado sanitário do distanciamento físico e do uso de máscaras, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, traduzem para toda a humanidade uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).


  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

O CORAÇÃO, A RAZÃO E A PESSOA

        Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            O coração na história da humanidade não é concebido apenas como o músculo que bombeia o sangue através do corpo em movimentos sistólicos e diastólicos incessantes.  Não é apenas a sede das emoções e sentimentos tão utilizados pela literatura romântica para expressar aquilo que faz o coração dos apaixonados bater em diversos e variados ritmos e tons.  

            A simbologia do coração nas diversas religiões é muito rica. Demonstra que aquilo que é nosso centro vital, situado em plena corporeidade nossa e quando sofre qualquer fragilização põe em risco nossa vida, pode carregar um significado de profunda riqueza espiritual, que vai além do biológico ou mesmo das diversas paixões. 

            Na mitologia greco-romana, base da cultura ocidental, o coração é símbolo do nascimento, do princípio da vida. Isso se deve a Zeus, o deus mais poderoso do Olimpo, que engole o coração ainda palpitante de Zagreu, gerando daí seu filho Dionísio. Também no Antigo Egito, o Salão do Juízo correspondia ao local onde eram pesados os corações dos mortos. E o órgão que bombeia a vida para toda pessoa era visto e considerado como sede da sabedoria e da inteligência, sendo associado à verdade e à justiça. 

Também nas religiões orientais a simbologia do coração se faz presente. Na Índia, se concebe que por assegurar a circulação do sangue e ser o centro vital do ser humano, o coração é o símbolo da morada de Brama, a divindade suprema do hinduísmo. 

 No Islã, o coração é considerado o trono de Deus, a sede e morada da divindade. E quando aparece um coração alado, aí se reconhece o símbolo do movimento islâmico Sufi, que acredita que o coração se situa no movimento e no espaço entre o espírito e a matéria, entre o corpo e a alma. Simboliza o amor de Deus, o centro espiritual e emocional dos seres.

No Cristianismo, o coração é entendido como centro ou núcleo do ser e dele se originam a oração, ou seja, o impulso da fé que leva ao diálogo amoroso com Deus e também as ações e condutas morais. O coração é a morada de Deus, onde habita seu Espírito que é o Único que pode sondá-lo e conhecê-lo. É o lugar da decisão, no mais profundo das tendências humanas psíquicas.  É a sede da verdade, onde o ser humano é chamado a escolher a vida ou a morte. 

Como sede da personalidade moral, o coração é o lugar de onde surgem os bons e os maus impulsos, que deverão ser discernidos para tomar as decisões adequadas a uma vida plena e feliz. Porém, o ser humano, criado por Deus, não é constituído apenas de coração.  Também a razão pela qual reflete, pondera, avalia, é elemento fundamental e constitutivo de seu ser e de sua identidade. 

O grande pensador francês Blaise Pascal refletiu muito sobre o coração.  Ainda que dotado de uma inteligência brilhante, atraída pelo pensar e pela atividade intelectual, valorizando portanto muito a razão,  Pascal desconfia da razão, apalpando e denunciando frequente e fortemente seus limites. Ainda que defina o ser humano e sua dignidade em conexão com a razão e o pensar, Pascal entende que o conhecimento da verdade não pode ser atingido apenas pela razão que, para ele, anda junto com a fé e reconhece o momento em que deve submeter-se. Apesar de afirmar que a substância do ser humano é feita de uma aspiração e há no fundo de cada pessoa uma espécie de presença divina que ultrapassa a natureza humana - precisamente o contato com o infinito -  afirma igualmente que se Deus existe é incompreensível pela razão humana. É neste ponto que ele afirma o conhecimento pelo coração. O coração, portanto, segundo o filósofo francês, não é apenas sentimentalidade, mas sim o que constitui o ser humano mais substancialmente, é sua natureza mais profunda.  Ali é onde pode haver uma comunicação por contato com Deus.

A frase mais conhecida de Pascal é: “ O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Assim, opondo-se ao racionalismo e ao fideísmo, Pascal vai situar ao mesmo tempo a importância do coração na concepção de ser humano e seus limites.  Pois, se reconhece a primordialidade do coração para um equilíbrio entre o corpo e o espírito, Pascal também admite que excluir a razão é um excesso não admissível, e tão reprovável quanto magnificar-lhe excessivamente a importância. 

Dois eventos nos chamam a atenção neste mês de junho.  O primeiro é o Dia dos Namorados, quando os corações apaixonados se declararão por enésima vez um ao outro e trocarão presentes e afagos.  Outra é a ênfase que a espiritualidade cristã traz neste mês em torno do coração de Jesus. Aos apaixonados de ontem, de hoje e de sempre o coração de Jesus, que pulsou e bateu no peito do galileu que fez a história girar sobre seus gonzos mostra que só se conhece bem - e portanto só se ama verdadeiramente -  com o coração.  Porém, é inadmissível que um verdadeiro amor seja feito apenas de sentimentos que podem ser superficiais se não passam pela reflexão e a ponderação da razão. 

 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Ascese: da tradição platônica à contemporaneidade” (Editora Vozes), entre outros livros.

  

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