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sexta-feira, 4 de março de 2022

A insanidade dos cavaleiros do Apocalipse: Rússia e USA

 Leonardo boff


O livro do Apocalipse que narra os embates  finais de nossa história,entre as forças da morte e as da vida, nos pinta um cavalo de fogo que simboliza a guerra:”ao cavaleiro foi-lhe dada desterrar a paz da terra para que os homens se degolassem uns aos outros”(6,4).A guerra entre a Rússia e a Crimeia e a ordem do presidente russo de manter as armas nucleares em alerta máximo, nos suscitam a ação do cavalo de fogo, a degola da humanidade, vale dizer, um Armaggedon humano.

As sanções severíssimas impostas pela NATO e pelos USA à Federação Russa podem levar ao colapso toda a sua economia. Face a esse desastre nacional não se pode excluir a possibilidade de que o líder russo, não aceite a derrota como se Napoleão (1812) ou Hitler(1942) tivessem tomado o país, coisa que não conseguiram. Então realizaria as ameaças e iniciaria um ataque nuclear. Só o arsenal da Rússia pode destruir, por várias vezes humana a vida do planeta. E um revide pode danificar toda a biosfera sem a qual a nossa vida não poderia persistir.

Por detrás deste confronto Rússia/Ucrânia se ocultam forças poderosas em disputa pela hegemonia mundial: a Rússia, aliada à China e os USA. A estratégia deste último é mais ou menos conhecida, orientada por duas ideias-força:”um mundo e um só império”(os USA), garantido pela full-spectrum dominance: a dominação em todos os campos com 800 bases militares distribuídas pelo mundo, mas também com a dominação econômica, ideológica e cultural. Tal dominação completa fundaria a pretensão dos USA de sua “excepcionalidade”, de ser “a nação indispensável e necessária”, a ”âncora da segurança global” ou o “único poder”(lonely power) realmente mundial.

Nessa vontade imperial, a NATO (OTAN), por detrás da qual estão USA, se expandiu até os limites da Rússia. Só faltava mesmo inserção da Ucrânia para fechar o cerco. Mísseis colocados na fronteira ucraniana alcançariam Moscou em minutos. Daí se entende a exigência da Rússia da manutenção de neutralidade da Ucrânia, caso contrário seria invadida. Foi o que ocorreu com as perversidades que toda guerra produz. Nenhuma guerra é justificável porque assassina vidas humanas e vai contra o sentido das coisas que é a tendência de permitirem na existência.

A China, por sua vez, disputa a hegemonia mundial não por  via militar, mesmo aliada à Rússia, mas pela via econômica com seus grandes projetos como a Rota da Seda. Neste campo está ultrapassando os USA e alcançaria a hegemonia mundial até com um certo ideal ético, o de criar “uma comunidade de destino comum participado por  toda a humanidade, com sociedades suficientemente abastecidas”.

Mas não quero prolongar esta perspectiva bélica, verdadeiramente insana a ponto de ser suicidaria. Mas esse confronto de potências revela a inconsciência dos atores em tela acerca dos reais riscos que pesam sobre o planeta que, mesmo sem as armas nucleares, poderão pôr em risco a vida humana. Seja dito que todos os arsenais de armas de destruição em massa se mostraram totalmente inúteis e ridículas face a um pequeniníssimo vírus como o Covid-19.

Essa guerra revela que os responsáveis pelo destino humano não aprenderam a lição básica do Covid-19. Ele não respeitou as soberanias e os limites nacionais. Atingiu o inteiro planeta. A epidemia pede a instauração de uma governança global face a um problema global. O desafio vai além das fronteiras nacionais, é construir a Casa Comum.

Não se deram conta de que o grande problema é o aquecimento global. Já estamos dentro dele, pois, os eventos fatais de inundações de regiões inteiras, tufões e escassez de água doce, são visíveis.Temos somente 9 anos para evitar uma situação de não retorno.Se até 2030 atingirmos 1,5 graus Celsus de calor, seremos incapazes de controlá-lo e vamos na direção de um colapso do sistema-Terra e dos sistema-vida.

Encostamos nos limites de sustentabilidade da Terra. Os dados da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot) apontam que no dia 22 de setembro de 2020 esgotaram-se os recursos não renováveis, necessários para a vida.O consumismo que persiste, cobra da Terra o que ela já nã pode dar.Em resposta,ela nos envia vírus letais,aumenta o aquecimento,desestabiliza os climas e dizima milhares de seres vivos.

A superpopulação associada a uma nefasta desigualdade social com a grande maioria da humanidade vivendo na pobreza e na miséria,quando 1% dela controla 90% da riqueza e dos bens e serviços essenciais, podem conduzir a conflitos com incontáveis vítimas e à devastação de  inteiros ecossistemas.

Estes são os problemas,entre outros, que deveriam preocupar os chefes de estado, os CEOs das grandes corporações e os cidadãos, pois eles diretamente colocam em risco o futuro de toda a humanidade. Face a esse risco global é ridícula uma guerra por zonas de influência e de soberanias já obsoletas.

O que nos causa esperança são aqueles “Noés” anônimos que vicejam em todas as partes, a partir de baixo, construindo suas arcas salvadoras mediante uma produção que respeita os limites da natureza, por uma agro ecologia, por comunidades solidárias, por democracias sócio-ecológicas participativas, trabalhando a partir dos próprios territórios. Eles possuem a força da semente do novo e com uma nova mente (a Terra como Gaia) e com um novo coração (laço de afetivo e de cuidado para com a natureza) garantem um novo futuro com a consciência de uma responsabilidade universal e uma interdependência global. A guerra deles é contra a fome e a produção da morte e sua luta é por justiça para todos, promoção da vida e defesa dos mais fracos e desvalidos. Isso é o que deve ser. E o que deve ser, tem intrinsecamente uma força invencível.

Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes 2021.

 

quinta-feira, 3 de março de 2022

CARTA DE QUARESMA 2022



 

Queridos amigos e amigas,

 

Este ano a campanha de Quaresma será dedicada aos povos originários que habitam a Terra Indígena Yanomami (TIY), com cujos líderes mantenho contato. Em maio deste ano, completará 30 anos da sua homologação. Localizada entre Roraima e Amazonas, a TIY é a maior área destinada a povos indígenas no Brasil, com 9,6 milhões de hectares de floresta. 

 

Nela vivem 700 pessoas da etnia Ye'kwana e, aproximadamente, 26 mil indígenas da etnia Yanomami, distribuídos em 321 aldeias.

 

Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas do planeta que ainda mantêm seu modo de vida tradicional. Constituem um conjunto cultural e linguístico composto por seis idiomas diferentes: Yanomam, Yanomami, Sanöma, Ninam, Yaroamë e Yanoma.

 

Este grupo de caçadores-agricultores é considerado povo de contato recente. O contato com a sociedade não indígena passou a ocorrer na segunda metade do século XX. E logo foram marcados por epidemias que dizimaram muitas comunidades. Entre 1974 e 1976, a abertura da Perimetral Norte impactou severamente os grupos que habitavam as margens dos rios Ajarani e Lobo D´Almada. Na década de 1980, o território Yanomami foi invadido por 40 mil garimpeiros, o que causou a morte de um grande número de indígenas e fortes impactos ambientais. 

 

Após a homologação da TIY, em 1992, e implementação de atendimento de saúde, houve crescimento populacional. Contudo, nos últimos anos há, novamente, invasão da TIY.

 

O Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami indica que, em 2020, o garimpo avançou 30% daquela área. Foi o ano em que se expandiu com maior intensidade. Entre janeiro e agosto de 2021, o crescimento das cicatrizes de garimpo na TIY foi de 694,61 ha, totalizando 2.933,95 ha destruídos. O acréscimo corresponde ao aumento de 31% em relação a dezembro de 2020, e supera o total observado durante todo o ano de 2020, que foi de aproximadamente 500 ha.

 

As lideranças indígenas relatam a degradação do meio ambiente, a poluição dos rios, a carência de alimentação, especialmente caça e peixes; o aumento do consumo de álcool e de drogas nas comunidades onde o garimpo é mais intenso; o aliciamento de lideranças; o crescimento de conflitos armados com os garimpeiros; o estupro e a prostituição de mulheres indígenas.

 

Estima-se que hajam mais de 20 mil garimpeiros atuando ilegalmente no TIY. Os Yanomami e Ye’kwana percebem mudanças entre os garimpeiros, que passaram a utilizar mais armamentos.

 

Em junho de 2020, dois Yanomami da comunidade Xaruna, região do Parima, foram assassinados por um grupo de garimpeiros armados.

 

Em fevereiro de 2021, um conflito na comunidade Helepe, no rio Uraricoera, resultou na morte de um garimpeiro a flechadas e ferimentos em um Yanomami.

 

Em maio de 2021, a comunidade Yakepraopë, região Palimiu, também situada no rio Uraricoera, foi atacada a tiros por garimpeiros fortemente armados, motivando a saída dos agentes de saúde. Um Yanomami foi ferido de raspão, e duas crianças morreram afogadas enquanto fugiam. Os ataques perduraram por mais de um mês, sem proteção do Estado.

Tais episódios trágicos evidenciam a fragilidade das comunidades em lidar com as frequentes invasões de garimpeiros. Soma-se a isso o total abandono da assistência a saúde dos povos indígenas. Em razão da presença de garimpeiros, em 2020 aumentou o número de casos de Covid-19 na TIY, apesar da Portaria nº 419, de 17 de março de 2020, da Funai, que estabelece medidas de prevenção à doença, e restringe a entrada no território apenas a atividades essenciais.

 

Em 2021, as infecções avançaram 250% entre os indígenas. Além disso, a malária explodiu em todo o território, ressurgiu inclusive em locais onde já tinha desaparecido, e foi a principal comorbidade associada aos óbitos por Covid-19.

As lideranças apontam e denunciam diversos casos de crianças desnutridas, especialmente em locais que sofrem com a exploração dos garimpos.

 

A Hutukara, fundada em 2004, é a associação da Terra Indígena Yanomami com maior reconhecimento, nacional e internacional, por sua atuação, principalmente devido à atuação de seu presidente, Davi Kopenawa Yanomami, na luta pela defesa dos direitos indígenas. Com os recursos desta Campanha de Quaresma, a associação apoiará as comunidades, e criará um fundo para enfrentar casos emergenciais, como os narrados acima.

 

Sua doação, ainda que de R$ 1, poderá favorecer a aquisição de cestas básicas, com alimentação adequada aos costumes alimentares dos povos que habitam a TIY; o envio de kits com ferramentas, materiais de pesca e outros utensílios industrializados, atualmente necessários para os Yanomami; além de apoiar ações de saúde, como o envio de testes rápidos para Covid e/ou malária, e atendimento a pacientes internados nos postos de saúde na TIY e/ou na Casa de Saúde do Índio, localizada em Boa Vista.

 

Os recursos eventualmente poderão ser aplicados também em viagens de lideranças tradicionais e/ou representantes das associações para denunciar casos de violência e desrespeito aos direitos humanos.

 

Conta bancária:

Hutukara Associação Yanomami 

Banco do Brasil

Agência: 2617-4

Conta corrente: 58.918-7

CNPJ: 07.615.695/0001-65

Chave aleatória PIX: 8b323044-0123-49e5-8938-03bdc8491277

EMAIL (caso queira recibo ou algum esclarecimento): hutukaraassociacaoyanomami@gmail.com


       Por favor, divulgue esta campanha nas redes sociais e entre seus familiares e amigos.

       Agradeço a sua solidariedade. Deus lhe pague.

       Meu abraço com amizade e paz

       Frei Betto

       (Livraria virtual: freibetto.org

quarta-feira, 2 de março de 2022

Educação para a Fraternidade

 Por Padre Francisco Aquino Júnior   




 

A quaresma é um tempo marcado pelo chamado à conversão: volta ao Senhor, adesão ao seu Evangelho, mudança de vida. E essa conversão é tanto pessoal (conversão do coração), quanto social (transformação da sociedade). Ela se concretiza no modo de pensar/sentir/agir de cada pessoa e no modo como cada pessoa se relaciona com os outros e reage ao que acontece na sociedade. Não há verdadeira conversão com indiferença aos outros e à sociedade. Menos ainda com cumplicidade com qualquer forma de injustiça, preconceito, violência. Ela exige compromisso com uma economia a serviço da vida, com uma política voltada para o bem comum e os direitos dos pobres e marginalizados, com uma cultura do encontro, do diálogo, da solidariedade e da promoção dos direitos humanos. Esse é o sentido e a razão de ser de uma Campanha da Fraternidade no período da quaresma: recordar que a conversão é tanto pessoal quanto social; convocar não apenas à conversão do coração, mas também à transformação da sociedade. Ela não nos desvia do espírito quaresmal, mas favorece sua vivência integral: pessoal e social. 

A Campanha da Fraternidade acontece desde 1964. A cada ano chama a atenção para um aspecto ou problema da sociedade que exige conversão/mudança. O tema desse ano é “Fraternidade e Educação”. É a terceira vez que aparece o tema da educação. Em 1982, no contexto de redemocratização da sociedade e fim da ditadura militar, destacava-se a importância da educação no processo de libertação: “A Verdade vos libertará”. Em 1998, no contexto das lutas sociais por direitos, destacava-se o problema do analfabetismo e a educação como direito fundamental do ser humano e dever da sociedade: “A serviço da vida e da esperança”. Em 2022, num contexto de polarizações, intransigências, violência e aversão a direitos humanos e justiça social, agravado pela pandemia da Covid-19, insiste na importância fundamental da educação para a convivência fraterna entre as pessoas, para o desenvolvimento de uma cultura do encontro e do diálogo e a construção de uma sociedade mais justa e solidária: “Fala com sabedoria, ensina com amor”.

Diferentemente dos outros animais, o ser humano é responsável pela própria vida. Não apenas reage instintivamente, mas vai fazendo escolhas, tomando decisões, construindo projetos de vida. Isso acontece tanto no âmbito pessoal, quanto no âmbito social. E é sempre influenciado e condicionado pela cultura, pela sociedade, pela religião etc. Assim como recebemos de nossos pais um DNA, recebemos da sociedade um conjunto de hábitos, costumes, regras, valores, modos de relação, visão do ser humano e do mundo, ideal de vida etc. Desde criança vamos sendo “educados” ou introduzidos num determinado modo de vida. A palavra educação significa exatamente isso: levar/conduzir/introduzir/inserir a pessoa na vida familiar, grupal, cultural, social.

Há formas diferentes de compreender e viver a vida. Há formas diferentes de compreender e organizar a sociedade. E a cada modo de compreender/viver a vida e organizar a sociedade corresponde um projeto educativo. Há projetos individualistas, dinamizados pela lógica do egoísmo, que fortalecem a competição, a indiferença e a desigualdade. E há projetos comunitários, dinamizados pela lógica da fraternidade, que promovem a cooperação, a solidariedade e a superação das desigualdades. Podemos ser educados para o egoísmo ou para a fraternidade.

A fé cristã, fundada em Jesus Cristo e no seu Evangelho, nos introduz num modo de vida dinamizado pela relação filial com Deus e pela relação fraterna com os irmãos: a filiação divina se vive na fraternidade com os irmãos; o amor a Deus se concretiza e se mede no amor ao irmão. E isso é um aprendizado de toda a vida. Não é um dado natural, mas uma opção que brota do encontro com Jesus Cristo e da adesão ao seu Evangelho. Em sua última encíclica social, o Papa Francisco fala da fraternidade: é “um modo de vida com saber evangélico”. E o Texto- Base da Campanha da Fraternidade recorda que isso se aprende/difunde/concretiza em vários espaços e envolve diversos atores (família, vizinhos, escola, comunidade, Igreja, organizações sociais, política, redes sociais etc.), insistindo na importância e urgência de “educar para um novo humanismo”, fundado na dignidade do ser humano, na solidariedade entre as pessoas, na justiça social e no cuidado da casa comum. Nisso reside a especificidade de uma educação cristã, para além da confissão religiosa: educação para a fraternidade!

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

 

terça-feira, 1 de março de 2022

A Ética das relações na comunidade do Evangelho

 Marcelo Barros 


 

Neste VIII domingo do tempo comum, (ano C) o texto do evangelho lido nas comunidades conclui as palavras de Jesus no discurso da planície. Esta palavra conclui com uma orientação para as pessoas que têm função de “guias” das comunidades. Esse texto do evangelho é construído sobre sentenças que Jesus teria dito aqui e acolá, certamente, em contextos diferentes e que o evangelho uniu em um só discurso. Juntou uma sentença de Jesus a outra através de “palavras-chaves” como medida (v 38), olho (v 39), árvore (v 43- 44), boca, casa e assim por diante. O importante é a prática. A Ética se verifica em seus frutos (Cf. Tg 3, 12; Lc 13, 6- 9). Esse é um ensinamento judaico, presente nos livros sapienciais, nos quais a pessoa justa é comparada a uma árvore que dá muito fruto e é irrigada pelas águas divinas (Cf. Salmo 1; 92, 13- 14; Ct 2, 1- 3; Ecli 24, 12- 27). 

Talvez, em uma redação primitiva, este texto do evangelho de hoje fazia parte de uma espécie de “diretório” ou de “carta de orientações” que as comunidades cristãs elaboraram para pessoas que vinham de outras religiões e costumes querendo ser da comunidade. São orientações éticas e não doutrinais. Nessas normas de Jesus, a preocupação é a ética da relação entre as pessoas que integram a comunidade, principalmente a Ética de quem tem função de coordenação ou animação do grupo.

Conforme o evangelho de Mateus, Jesus chama de cegos os fariseus e escribas do templo de Jerusalém. Chama-os de “guias cegos”. Lucas aplica essa palavra aos próprios discípulos e principalmente aos ministros das comunidades. Até hoje, corremos o risco de achar que cegos são sempre os outros e não nós mesmos.

Quase todas as tradições espirituais consideram que uma base importante para a espiritualidade é o conhecimento de si mesmo. Segundo o evangelho de Tomé, (texto cristão do século II), Jesus disse: “Quem conhece todas as coisas, mas não conhece a si mesmo, de fato, não conhece nada” (n. 67). Essa é uma afirmação radical e corajosa. Santa Tereza de Ávila afirmava que “um dia de humilde conhecimento de si mesmo é melhor do que mil dias de oração”. Na Idade Média, o Mestre Eckhart declarava: “Não se pode conhecer a Deus se antes não se conhece a si mesmo”[1].

Quem trabalha por justiça social e quem se empenha em transformar o mundo não pode ignorar este aspecto mais pessoal da transformação. O Mahatma Gandhi, em meio a toda a sua luta não violenta contra o colonialismo e pela independência da Índia, afirmava: “Comece por você mesmo/a a transformação que quer para o mundo”.

De outro modo, Jesus diz a mesma coisa: “Primeiramente tire a trave que está no seu olho para poder tirar a palha que está no olho do seu irmão”. É uma questão de honestidade pessoal. Todo mundo tem problemas e limitações. Jesus pede que procuremos ser coerentes e não exijamos dos outros o que nós mesmos não cumprimos. Isso seria hipocrisia, falsidade. Hipócrita é quem pretende ser o que não é.

Nessas palavras do evangelho, Jesus vai direto ao ponto fundamental: todos nós temos alguns pontos cegos. Carregamos intimamente aspectos, sentimentos e tendências que nem sempre conseguimos ver com clareza e, por isso, não somos honestos e lúcidos com relação a aquilo. Exigimos dos outros o que nós mesmos não cumprimos. É importante procurar clarear esses pontos.

Se alguém pensa que tem clareza total sobre si mesmo, é duplamente cego porque é cego até em relação à própria cegueira. É o pior cego: que não vê e pensa que está vendo. No evangelho de João, no episódio do cego de nascença, ao falar dos fariseus, Jesus diz que se eles assumissem sua própria cegueira, não teriam culpa, mas como se vangloriam de ver bem, então sua cegueira se torna culpada (Cf. Jo 9, 39- 41).

Comecemos por nós mesmos, cada um procurando mudar o próprio coração e depois poderemos pedir mudanças aos outros. O modelo é o mestre Jesus: “Por que me chamais “Senhor, Senhor” e não fazeis o que eu digo?”. E aí fica claro que cumprir sua palavra é construir sua casa (tanto a casa interior: o mais profundo da gente mesmo, como social, a comunidade nova) sobre a rocha que é a Palavra de Deus.

 Na maioria das tradições espirituais, a espiritualidade é a busca da veracidade interior e a luta permanente para evoluir a partir da nossa realidade pessoal, seja ela qual for. Atualmente, esse é o desafio da educação, é o desafio na atividade política, é o desafio nas Igrejas e religiões. O evangelho de hoje contém a boa notícia de que é sempre possível retomarmos o caminho da unificação interior e da busca de maior coerência. No mundo inteiro, a Igreja Católica se depara com escândalos nos meios clericais: escândalos morais como a pedofilia praticada por ministros, na maioria das vezes, extremamente arrogantes, homofóbicos e severos com os pecados dos outros. Também com escândalos econômicos que atingem o próprio Vaticano. E se levantássemos o escândalo da desumanidade que ainda vigora em certas formas de tratar os outros nos conventos e nos ambientes do clero? Para Jesus, um dos maiores escândalos era o fato dos seus discípulos competirem entre si por poder e prestígio. Se a boa notícia do evangelho de hoje é que podemos sempre retomar o caminho da conversão evangélica, o chamado é para que aproveitemos a Quaresma e a preparação para a Páscoa que começaremos nesta próxima quarta-feira, como tempo de reeducação de nós mesmos para vivermos o que Jesus nos propõe.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 



[1] - M. ECKHART, Meister Eckhart: Sermons and Treatises, 3 vol. coordenados por MAURICE WALSHE, Element Books, Shaftesbury, 1979,  sermão 46, pp. 20.