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quinta-feira, 18 de abril de 2019

OLIGOPÓLIO DIGITAL




Frei Betto

       Somos todos dependentes de Google, Apple, Amazon, Microsoft, Facebook e, agora, Netflix. E não há livre escolha; nossos smartphones só podem operar com os sistemas Android e IOS.

       Todo o Ocidente é, hoje, colonizado pelas corporações digitais. Elas sabem o que pensamos e de que gostamos. Não por acaso o valor de mercado da Apple e da Amazon já chega a 1 trilhão de dólares cada uma! Quase metade do PIB brasileiro de 2017.

       Tal concentração de poder não ocorre em nenhuma outra esfera da atividade humana. E pouco nos importamos com isso, já que os recursos que nos oferecem são úteis e confortáveis.

       Segundo o Fórum Econômico Mundial, entre os 20 gigantes da economia digital não aparece nenhuma empresa europeia. As cinco maiores são “made in USA”: Apple, Amazon, Alphabet (Google), Microsoft e Facebook. Os sexto e sétimo lugares são ocupados por duas gigantes chinesas, a Alibaba e a Tencent.

       Todas essas empresas investem pesadamente em inovação tecnológica e, em especial, em inteligência artificial. Putin declarou, em 2017, que o país que obtiver liderança em inteligência artificial “será o dono do mundo”.

       É ali, no Vale do Silício, na Califórnia, que se urde a estratégia capitalista de manipular emoções e eleições, como fez a empresa britânica Cambridge Analytica com dados do Facebook, e os bots russos (contas falsas que atuam automaticamente) nas eleições de Trump e Bolsonaro, e no referendo sobre o Brexit.

       Todas essas poderosas empresas nos oferecem cada vez mais entretenimento e menos cultura, mais informação e menos conhecimento. Cultura é o que enriquece a nossa consciência e o nosso espírito. O entretenimento “fala” aos cinco sentidos e, em geral, carece de valores. Nele os “valores” são a exacerbação do individualismo, a competitividade, o consumismo e o hedonismo regados com boa dose de violência. 

       Quanto mais a hegemonia ideológica é controlada por esse oligopólio digital, e as finanças pelas grandes corporações bancárias e instituições como o FMI, menos democracia há no mundo. Tudo conspira para que aceitemos a proposta do sistema, trocar liberdade por segurança. Na ótica do sistema, basta olhar em volta para constatar que tudo respira violência: o noticiário da TV, novelas e filmes; memes na internet e mensagens no Facebook; a criminalidade nas ruas e a permanente insegurança do cidadão. Então, sugere a mensagem subliminar, entregue-se a quem chuta o pau da barraca da tolerância e das convenções de direitos humanos e você viverá em um mundo seguro, onde nada nem ninguém haverá de ameaçá-lo. 

       Como a base do sistema é o consumismo compulsivo, os oligopólios põem a funcionar seus algoritmos para saber como você se identifica com milhões de pessoas na busca de determinado produto. Se você está gripado e comunica isso a amigos em sua rede digital, e outros respondem que também têm gripe, e as palavras ‘gripe’, ‘resfriado’, ‘tosse’ se multiplicam por milhões na Web, os oligopólios captam essa informação e a repassam a laboratórios e farmácias que, por sua vez, aumentam a propaganda e os preços de medicamentos na região em que foi detectada a epidemia de gripe. O mercado, sim, é capaz de lhe assegurar bem-estar e felicidade. 

       Quando você abre o Google para fazer uma pesquisa, inúmeros anúncios aparecem, pois são eles que sustentam o poderoso oligopólio. Na busca de, por exemplo, “Como viajar para a Amazônia”, aparecem inúmeras informações e, no fim da página, a sequência numeral indicando que há outras contendo mais dicas. Qual o critério para uma informação figurar na primeira página? Pagar por isso! Em geral a resposta à sua busca virá, na primeira página, na forma de pacotes turísticos e empresas de transportes.
       Os gigantes digitais moldam o mundo à imagem e semelhança do que há de mais sagrado para o sistema: o mercado e seus astronômicos lucros apropriados pela seleta seita dos bruxos que transformam informação virtual em dinheiro real.

Frei Betto é escritor, autor de “Ofício de escrever” (Rocco/Anfiteatro), entre outros livros.
       


quarta-feira, 17 de abril de 2019

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2019 E A SEMANA SANTA



Reginaldo Veloso

O tema da CF de cada ano nos ajuda a vivenciar nossa fé e celebrá-la de maneira consistente. A Páscoa, o Mistério Pascal, ou acontece no cotidiano e no concreto de nossa existência, hoje, aqui e agora, ou é mera imaginação; seu anúncio, um discurso vazio; e sua celebração, “cantiga de ninar”, perniciosa alienação. É o tema da CF, então, que nos ajuda a perceber o MISTÉRIO PASCAL em nossa vida, na vida povo. A gente, a comunidade cristã, é alertada, convocada pela voz dos Pastores, primeiro, para abrir os olhos e enxergar o que acontece a seu redor, de modo a perceber as coisas boas, as realizações do Bem Comum, do Bem Viver, que, efetivamente, acontecem na vida do povo, ou então, as mazelas todas que infelicitam nossas vidas, desafios à nossa consciência cidadã (VER)...  À luz o Mistério Pascal, nossa referência maior, CRISTO MORTO-E-RESSUSCITADO, fazemos nossa leitura mística dos “sinais dos tempos”, e descobrimos nessa complexa realidade, realizações da Terra Prometida, sinais do Reino, passagens do Deus Libertador... ou então, as chagas vivas do Crucificado, a Paixão de Cristo que continua nos padecimentos todos do povo empobrecido, da Classe Trabalhadora, frutos do pecado do mundo, do egoísmo, das injustiças e desigualdades todas, que geram miséria e violências sem conta. E a partir  desse confronto, os desafios ecoam aos nossos ouvidos como apelos de Deus   (JULGAR)... Se há motivos, então, de ação de graças, há, sobretudo, urgência em atender a esses “apelos de Deus”, a demandarem compromisso e engajamento da Comunidade Eclesial, coletivamente,  e de cada pessoa batizada, individualmente, nas ações e lutas envidadas pelos Movimento Populares, Sindicais e Políticos, para que os governos cumpram com suas obrigações constitucionais e atendam aos direitos e às necessidades básicas da população, sobretudo, do povo mais carente... Pressionaremos juntos os poderes públicos para que sejam utilizados, com honestidade e eficiência, os recursos do povo que se encontram sob sua responsabilidade, na realização de políticas públicas (AGIR)...

Foi com esse espírito, que entramos na dinâmica pascal, desde a Quarta-Feira de Cinzas, equipando-nos com os três principais instrumentos de conversão, a Oração, isto é, a abertura do coração para a Palavra e o Espírito; o Jejum, isto é, a ascese, as renúncias que nos liberam para o serviço aos irmãos e irmãs, em obediência à vontade do Pai; e a Esmola, isto é, a busca, com fome e sede da Justiça, de tudo aquilo que possa realizar o Direito e a Justiça, o bem estar comum, a igualdade, a Irmandade, a Paz...

Foi assim, que, na primeira semana da Quaresma, caímos em campo, no deserto do mundo, para enfrentar com Cristo, na força da Palavra de Deus, as tentações, as forças todas do Mal que continuam infelicitando a vida de tanta gente, um sistema econômico cruelmente excludente, que deixa tanta gente entregue à própria sorte... Foi assim que, iniciamos a segunda semana subindo com Jesus e seus três amigos mais íntimos ao monte da Transfiguração, e ouvimos a voz do Pai nos conclamando a escutar confiantes seu Filho a nos convidar a tomar a cruz do Amor com Ele, descendo o monte e caindo em campo, na luta por Políticas Públicas que deem condições de dignidade, bem estar e sossego à nossa gente, vitimada pelo desemprego galopante, desassistida por um SUS precarizado, por uma Educação Pública deficitária, por programas de Habitação sempre aquém das necessidades de tantas famílias, por um sistema de Transporte precário e desumano, sem Segurança Pública, e ainda mais às voltas com um custo de vida que vai consumindo seus parcos recursos, bem antes de o mês acabar... Foi assim que se passaram mais três semanas, ora nos alertando para a conversão, para a mudança de atitude e para a militância transformadora... Ora nos conclamando ao exercício da Misericórdia uns para com os outros, umas para com as outras: precisamos ser mais compadecidos, compreensivos, pacientes, tomando cada qual para si as dores das demais pessoas e de todo o povo, e nos incentivando mutuamente ao compromisso com o bem de todos e todas, especialmente, na luta contra os preconceitos e discriminações de toda sorte, engajando-nos na luta pela permanência e incremento das políticas compensatórias, ou por Políticas Públicas de uma urgência maior, como por exemplo, o Saneamento Básico Integrado, que tanto faz falta em nossos bairros e nos deixam a todos e todas, de criança a idoso, à mercê de ratos, baratas e mosquitos, em meio ao lixo e à fedentina, sujeitos a todo tipo de virose e epidemia... É possível que na altura do Quarto Domingo, já possamos celebrar, antecipadamente, algum sinal de Páscoa em nossa vida pessoal ou comunitária, na vida do nosso povo, alguma coisa boa, alguma conquista política, algum benefício para todo o povo, alguma esperança de mudança na vida do bairro... Por pequeno que seja o benefício ou a mudança que se anuncia para a vida do bairro, da  favela ou do sítio, dos abandonados e discriminados, já vale a pena cantar “Fiquei foi contente, quando me disseram: a gente vai pra casa do Amor”...

Finalmente, chegamos à SEMANA SANTA, ao DOMINGO DE RAMOS: saindo em procissão com cantos nos lábios e ramos nas mãos, com alegria iniciamos esta Semana Maior, ovacionando, feito o povo de Jerusalém, especialmente as crianças, Alguém que nos deu forças para conseguir alguma coisa nova e boa para a vida do nosso povo: nas ações que empreendemos, na força do Espírito da Páscoa, sentimos a presença do Rei dos Pequeninos, dos excluídos e excluídas, que são os mais importantes no coração do Pai. Este será o motivo maior da nossa vibração ao agitar nossos ramos, cantarmos e aplaudirmos o nosso Rei. Sabemos que “alegria de pobre dura pouco”. Logo, logo, vamos dar de cara com a conspiração das “autoridades”, a traição de Judas, a negação de Pedro, a Paixão de Cristo, e por aí vai... Mas não importa, de Quaresma em Quaresma, de Páscoa em Páscoa, chegaremos à realização plena da Terra Prometida!

Entre a SEGUNDA e a QUARTA-FEIRA SANTAS, é bem provável que viveremos um belo momento individual e/ou comunitário de celebração da RECONCILIAÇÃO, concluindo todo nosso esforço penitencial, ao longo dos quarenta dias desse “Tempo de Graça” que foi a Quaresma. É hora, agora, de concluir este grande “Sacramento”, e nos abraçarmos na alegria da “volta” à Casa do Pai, na beleza da PAZ, conscientes de que valeu a pena superar nossa acomodação, sairmos do nosso conforto, para ir a o encontro das necessidades de todo o povo, exercendo de modo mais coerente nossa cidadania, em nome do Cristo que deu a vida pela causa da Vida.

QUINTA-FEIRA SANTA, véspera da Sexta-Feira da Paixão, iniciamos o TRÍDUO PASCAL: a Comemoração da ÚLTIMA CEIA DO SENHOR, ao realizarmos o LAVA-PÉS, fará muito sentido precedê-la de uma rica partilha das melhores experiências vivenciadas ao longo da Quaresma, uma “recordação da vida”, por exemplo, antes da proclamação das leituras bíblicas, para se compartilhar os esforços feitos e, possivelmente, os resultados satisfatórios, mesmo que incipientes, em busca de Políticas públicas, em benefício de todo o povo, especialmente, quanto às necessidades básicas da população mais precisada. Na hora do Lava-Pés, ficará evidente a presença de JESUS nas pessoas e grupos que se debruçaram sobre as necessidades do povo e se colocaram a serviço do bem de todos e todas. O mesmo se perceberá ao se relembrar o Mandamento do Amor, e, sobretudo, ao repetir-se, em sua memória, a partilha do Pão e do Vinho, Sacramento do Corpo e do Sangue que serão entregues pela Vida da Humanidade. As realizações, mesmo modestas, de ações que vão na direção de Políticas Públicas em benefício do povo com quem se convive e do qual se faz parte, não terão sido uma significativa realização do AMOR e da ENTREGA que o Senhor nos manda viver e celebrar? ...

Mas o primeiro dia do Tríduo Pascal tem sua culminância na tarde da SEXTA-FEIRA SANTA: toda a história da humanidade, que precede e que segue a história do SERVO SOLIDÁRIO, e nesta encontra o seu ápice, sua culminância, é uma história de DOR que rima, a todo momento, com AMOR, ou vice-versa. Nesta tarde maior, saberemos encontrar os momentos mais oportunos de fazer brilhar, juntamente com a Cruz gloriosa do Senhor, as memórias dos “Mártires da Caminhada”, figuras emblemáticas dos Povos Nativos, dos Afrodescendentes, da Classe Trabalhadora, homens solidários e mulheres solidárias que tomaram para si as dores do seu povo, e como Cristo e com Cristo, deram suas vidas, derramaram seu sangue para que todo o povo oprimido e excluído tivesse vida em plenitude. O testemunho deles e delas, sintetizado e culminado na PAIXÃO DO SENHOR, dão o pleno sentido e motivação a nossos esforços e tentativas, aos riscos corridos e por correr, e, talvez, aos dissabores experimentados e contradições sofridas e por enfrentar, hoje em dia, em busca do Bem Comum, do Bem Viver de nosso povo. Das profundezas dessa consciência pascal é que brota o grito esperançoso e exultante: “VITÓRIA, TU REINARÁS, Ó CRUZ, TU NOS SALVARÁS!

O segundo dia do Tríduo, o SÁBADO SANTO, é um dia de repouso, de silenciosa curtição de tanta coisa significativa que encheu nosso olhos e ouvidos, ao fazermos memória do Ontem e do Hoje dessa longa história de AMOR e de DOR, de DOR e de AMOR, que se confunde com a história de toda a Humanidade, resplende da Cruz de Cristo, e ilumina e motiva nossa entrega hoje, através de todos os nossos esforços e lutas pelo bem do nosso povo, como  foi nossa Campanha da Fraternidade por Políticas Públicas, este ano na Quaresma...

Finalmente, no Sábado Santo à noite, véspera do “terceiro dia”, o Domingo da Ressurreição, fecharemos com chave de ouro o nosso Tríduo Pascal, com a celebração da VIGÍLIA PASCAL: começando com Liturgia da Luz, no brilho do Ressuscitado, já é hora de começar a perceber e proclamar a “LUZ de CRISTO” nos sinais de vida nova que conseguimos fazer brilhar no muito ou pouco que se conseguiu em termos de melhoria das condições de vida do nosso povo, com a nossa Campanha da Fraternidade... A LITURGIA DA PALAVRA, da proclamação da Criação ao exultante anúncio da Ressurreição, passando pelos Profetas e pelo Apóstolo, que anunciam a Vida Nova, serão outras tantas oportunidades de se experimentar a importância do que foram nossos esforços e conquistas, por ocasião da Campanha da Fraternidade, expressões concretas de uma Fé, que não é ilusão piedosa ou demagógica, sinais da Passagem Libertadora do Deus da Vida em nossas vidas, em Cristo Morto-e-Ressuscitado...  A LITURGIA DA ÁGUA será outra bela oportunidade, para quem se batiza nesta Noite Santa, e para quem foi batizado, batizada, há mais tempo, de se dar conta do compromisso cristão: estamos sendo lavados e confirmados, lavadas e confirmadas, em nome do Deus-Comunidade, para, em meio ao mundo, sermos SAL que fertiliza, conserva e dá sabor, através da militância, LUZ que brilha através das ações transformadoras que dão glória ao Pai, FERMENTO que tudo transforma e enche de vida, em Cristo, na força do Espírito... E nosso Ver-Julgar-e-Agir, o longo das 6 semanas da Quaresma, pelo nosso empenho na realização da Campanha da Fraternidade, foi expressão concreta e significativa de todo esse Mistério Pascal... Sentados, então, à Mesa, para comermos, nesta Noite Santa, a Ceia do Senhor, ao ouvir suas palavras “Fazei isto em minha memória!”, mais do que nunca, experimentaremos a Bem-Aventurança anunciada por Jesus quando do Lava-Pés da Última Ceia: “Sereis felizes se o puserdes em prática” (Jo 13,17). Na intimidade alegre do momento da Comunhão, ao comermos do Pão e bebermos do Cálice, relembrando tudo quanto tentamos fazer quando da nossa Campanha da Fraternidade, poderemos até confidenciar-lhe: Na verdade, Senhor estamos felizes em comunhão contigo que deste a vida para que os espoliados da terra “tenham vida, e a tenham vida em abundância”, ALELUIA! (Jo 10,10).

Reginaldo Veloso, presbítero leigo das CEBs

Assistente adjunto do MTC-NE 2
Assessor pedagógico do MAC e do PROAC
Da Equipe do Setor de Música Litúrgica da CNBB

terça-feira, 16 de abril de 2019

SEMANA SANTA E POLÍTICAS PÚBLICAS



 Por Marcelo Barros

Em todo o Brasil, nesse final de semana, aeroportos e rodoviárias se enchem de gente. Muitas pessoas aproveitam o feriado para passear, visitar parentes ou simplesmente para descansar. Em alguns lugares, grupos encenam a paixão de Jesus.  Em muitas Igrejas, as comunidades celebram o fato mais importante da fé: a festa da Páscoa, memória da paixão e morte de Jesus, celebradas como vitória e vida nova que o Pai lhe deu.
A Páscoa é uma festa judaica que os cristãos assumiram. Até hoje, nas sinagogas de todo o mundo, cada ano, as comunidades judaicas comemoram a Páscoa para recordar a libertação do Êxodo. Os símbolos da festa expressam: toda pessoa humana tem a vocação da liberdade. Precisa caminhar para um mundo novo e mais feliz. Para os/as cristãos/ãs, durante uma Páscoa, em Jerusalém, Jesus foi morto e Deus lhe deu uma vida nova. Essa vida nova, ele reparte com todas as pessoas que aceitem segui-lo, na missão de testemunhar ao mundo o projeto divino de paz e justiça.
Em alguns lugares da América Latina, na sexta-feira santa, as procissões do Senhor morto reúnem multidões.  Mesmo pessoas que, comumente, não frequentam Igreja, acorrem à adoração do Senhor morto. Talvez porque, mesmo inconscientemente, se sintam representadas na imagem do Crucificado.
No mundo antigo, a crucifixão era o castigo imposto a escravos rebeldes e a pessoas que se levantavam contra a dominação do império. Jesus foi acusado de percorrer a Galileia levantando o povo contra o domínio de César (Cf. Lucas 23, 1). Por isso, foi condenado à morte na cruz pelo governador romano Pôncio Pilatos,
Atualmente, a cruz continua existindo. No tempo da ditadura militar brasileira, tornou-se famosa como instrumento de tortura de presos políticos. Até hoje, o “pau de arara” resiste em não poucas delegacias que atendem pobres. No entanto, mais do que uma madeira na qual os indefesos são pendurados, a cruz se tornou realidade de imensa maioria da humanidade, roubada dos seus direitos de viver dignamente. No mundo atual, mais de um bilhão de pessoas não tem segurança alimentar. Milhões não têm acesso à agua potável e passam fome. Multidões são obrigados a deixar sua terra para não morrer em meio à fome, à guerra, enquanto os que ficam sobrevivem em condições de uma pobreza injusta, apenas para garantir o lucro e o conforto de uma minoria ínfima de privilegiados. Em todos os continentes, as Igrejas celebram a paixão de Jesus, mas são os empobrecidos, povos inteiros, crucificados pelo deus dinheiro, que vivem na carne e prolongam, dia após dia, a paixão de Cristo.
Esse fato é uma contradição com o que a Igreja sempre ensinou: Jesus morreu na cruz para que ninguém mais precise morrer assim. Por isso, celebrar a paixão de Jesus e proclamar que o Pai lhe deu uma vida nova devem renovar a nossa força de resistir ao mal e aos sofrimentos. Na Campanha da Fraternidade desse ano, a CNBB nos ensina que celebrar a Páscoa de Jesus deve se expressar na luta comunitária e constante por Políticas Públicas que sirvam a todos.
Atualmente, no plano cultural e religioso, o mundo é diversificado e pluralista. Uma cultura não deve se impor sobre outra. Menos ainda tem sentido uma religião civil, como se fosse a ideologia religiosa da sociedade dominante.  Alguns países da Europa, sob pretexto de laicidade do Estado, ocultam forte racismo contra os muçulmanos e proíbem as mulheres de usar véu. No Brasil, sob o falso pretexto de defesa dos animais, existem projetos para proibir as religiões afrodescendentes de fazer seus sacrifícios. E quando não conseguem mais mascarar a perseguição, tentam até vetar o uso de tambores em terreiros afro. Nesses casos, os grupos visados pela lei são sempre os mais pobres e minoritários. Uma política pública inspirada na Páscoa trata de dar a todos os segmentos a mesma liberdade e de ajudar cada grupo a se abrir aos outros.
Para que a Páscoa tenha um sentido para toda a sociedade, é importante que, sem perder o sentido próprio que ela tem para as Igrejas, juntos com toda a humanidade, os cristãos possam recuperar a sua dimensão ecológica e transformadora da sociedade Assim, juntos poderemos festejar um novo cuidado com  a Vida e uma forma mais amorosa de organizar a sociedade como sinal do amor divino.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 


terça-feira, 9 de abril de 2019

SONHO QUE SE SONHA JUNTOS



Marcelo Barros

O sistema atual que domina o mundo insiste em afirmar que não adianta sonhar. A realidade é cada vez mais dura e cruel. Se milhões de pessoas passam fome, insistem que isso é inevitável. Empresas mineradoras destroem o planeta apenas para garantir lucros fantásticos à pequena elite que as dirige. Chamam isso de progresso. Com razão, o papa Francisco denuncia: a maioria dos seres humanos é considerada descartável. No entanto, mesmo nessa realidade, povos tradicionais e comunidades resistem e lutam para alcançar o sonho de uma vida digna.

Povos como os Xavantes no Centro-oeste, os Yanomami no norte da Amazônia e os Tabajara no litoral da Paraíba levam muito a sério os sonhos. Uma das importantes funções dos mais velhos é sonhar. Esses sonhos são instrumentos de escuta do Espírito que conduz pessoas e comunidades para um projeto de vida e de justiça para todos.

No começo desse século, em Alagoas, um rapaz de menos de 30 anos que se preparava para jogar futebol em um time de Portugal recebeu de um ancião da família o aviso. Um sonhador mandava dizer: aquele jovem pertencia à antiga nação dos Tabajara. E sua função não seria apenas jogar futebol e sim reunir os parentes dispersos e ajudá-los a recuperar suas terras ancestrais e o modo de viver próprio do seu povo. O rapaz acolheu o chamado. Atualmente, embora continuem lutando pela titulação da terra e reconhecimento da sociedade, os Tabajara estão organizados em dezenas de aldeias no litoral sul da Paraíba.

 Há mais de dez anos, Riccardo Petrella, pensador e sociólogo italiano, escreveu: “O direito de sonhar” (2004). Nesse livro, ele propunha “as opções econômicas e políticas possíveis para uma sociedade justa”. Denunciava a forma iníqua como, com a conivência dos meios de comunicação de massa e de muitos governos, a maior parte da humanidade se tornou prisioneira e refém dos bancos e dos banqueiros,. Para mais de um bilhão de pessoas humanas, os grandes conglomerados financeiros internacionais agem como verdadeiros “ladrões de sonhos”. Organizam o mundo de forma que impede a maioria das pessoas de viver dignamente. Mesmo em países ainda considerados ricos como Alemanha e França, jovens com mais de 30 anos não podem casar, porque não têm emprego fixo e não conseguem sustentar uma casa. A maioria da população deve aceitar passivamente manter-se nos limites arriscados da mera sobrevivência, para que uma pequena elite se torne cada vez mais rica. Uma pesquisa recente mostrou: Na Itália, de cada três jovens, um está desempregado e sem esperança de conseguir emprego. Enquanto isso, apenas dez pessoas possuem atualmente uma renda equivalente a três milhões de italianos. Essa é a mesma lógica que faz com que, conforme dados da ONU, o Brasil seja o terceiro país no mundo em desigualdade social. Apenas cinco brasileiros detêm uma renda equivalente à metade da população brasileira.

O direito de sonhar implica na decisão de organizar uma sociedade mais justa e igualitária. Para isso, são necessárias opções econômicas e políticas diferentes e novas. Isso tem como base uma confiança que vem do coração humano e está ligada à fé. Para muitos, se trata de fé na vida, confiança na bondade fundamental do ser humano e alegria de ver que existem sinais de uma nova consciência de paz e comunhão de toda a humanidade e entre os seres humanos e a natureza.

A Bíblia diz que isso é o projeto divino para o mundo. É o Espírito quem move a humanidade nessa direção. Transforma o futuro em caminho real de um mundo novo de justiça e paz. Assim, o direito de sonhar não é apenas projeção dos desejos inconscientes. É missão de todas as pessoas famintas e sedentas de justiça. Ao lutar pacificamente para realizar esse sonho coletivo de paz e justiça, não estamos sozinhos. Conosco está Alguém que se manifesta em todo ato de amor e nos dá a força de tornar real a utopia de uma vida verdadeiramente realizada e feliz. Para sonhar e lutar por seu sonho, ninguém precisa ser Dom Quixote ou entoar a clássica canção da peça “O homem de la Mancha”, imortalizada no Brasil pela voz de Maria Bethânia: “Sonhar mais um sonho impossível; lutar, quando é fácil ceder; vencer o inimigo invencível, negar, quando a regra é vender...” Em Chiapas no México, há mais de 20 anos, as comunidades indígenas se rebelaram contra o Estado e proclamaram sua autonomia social e política. Os seus comandantes afirmavam: “Somos um exército de sonhadores. Por isso, somos invencíveis”.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br