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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

COMPLETO 81 ANOS HOJE. ESTOU DESCENDO A MONTANHA DA VIDA.



Primeiramente agradeço a Deus por ter chegado até aqui e por ter sobrevivido. De pequeno, com alguns meses, estava destinado a morrer. Naqueles interiores profundos de Santa Catarina, Concórdia, não havia ainda médicos. Todos, desolados, diziam:”coitadinho, vai morrer”. Minha mãe, desesperada, depois de fazer o pão familiar num forno de pedra, deixou que ficasse morno e sobre uma pá de madeira me colocou por bons minutos lá dentro. A partir deste experimento derradeiro, melhorei e estou aqui como sobrevivente.

Achei que nunca passaria da idade de meu pai que morreu de um enfarte fulminante aos 54 anos. Sobrevivi. Escrevi um balance aos 50. Depois achava não passaria da idade de minha mãe que também morreu  de enfarte com 64 anos. Sobrevivi. Fiz mais um balanço aos 60. Então, estava seguro de que não chegaria aos 70. Sobrevivi. Tive que escrever outro balanço aos 70. Por fim, pensei, convicto, de todas as maneiras, não chegarei aos 80. Sobrevivi. E tenho que escrever outro balanço.  Como sai desmoralizado nas minhas previsões, não penso mais em nada. Quando chegar a hora que só Ele sabe, irei alegremente ao encontro do Senhor.

Relendo os vários balanços, surpreendemente e sem intenção prévia, vejo que há constantes que perpassam todas as memórias. Tentarei fazer uma leitura de cego que apenas capta o que é relevante. Sempre fui movido por alguma paixão mais forte que me levava a falar e a escrever.

A primeira paixão foi pela Igreja renovada pelo Concílio Vaticano II. Escrevi minha tese doutoral em Munique: A Igreja como sacramento; Igreja: carisma e poder (que me levou ao silêncio obsequioso) e Eclesiogênese: as CEBs reinventam a Igreja.

A segunda paixão foi pelo Jesus histórico, sua gesta que o levou à cruz. Escrevi Jesus Cristo Libertador; Nossa ressurreição na morte; O evangelho do Cristo cósmico; Via Sacra da justiça.

A terceira paixão foi por São Francisco de Assis, o primeiro depois do Último (Jesus).Escrevi Francisco de Assis: ternura e vigor; São Francisco: saudades do Paraiso; Comentário à sua oração pela paz.

A quarta  paixão foi pelos pobres e oprimidos. Nasceu a teologia da libertação e escrevi  Teologia do cativeiro e da libertação; O caminhar da Igreja com os oprimidos; junto com meu irmão Frei Clodovis escrevemos Como fazer teologia da libertação.

A quinta paixão foi pela Mãe Terra super-explorada. Ecrevi A opção Terra: a solução para a Terra não cái do céu; O Tao da libertação: uma ecologia da transformação junto com Mark Hathaway; Como cuidar da Casa Comum.

A sexta paixão foi pela condição humana sapiente e demente. Escrevi O destino do homem e do mundo; A  Águia e a galinha: metáfora da condição humana; Despertar da águia : o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade; Saber cuidar; O cuidado necessário; Feminino –Masculino junto co Rose-Marie Muraro; O Ser humano como projeto infinito.

A sétima paixão foi pela vida do Espírito: Traduzi o principal da obra do místico Mestre Eckhart; retraduzi de forma atualizadora a Imitação de Cristo de 1441 acrescentando-lhe uma parte nova; O seguimento de Cristo; Experimentar Deus hoje; A SS.Trindade é a melhor comunidade; O Espírito Santo: fogo interior, doador de vida e pai dos pobres; Espiritualidade: um caminho de transformação.

Publiquei cerca de cem livros. É trabalhoso, com apenas 25 sílabas, compor as palavras e depois com as palavras formular as frases e por fim com frases conceber o conteúdo pensado de um livro. Quando me perguntam: “o que faz na vida”? Respondo: “sou trabalhador como qualquer outro como um marcineiro ou um eletricista. Apenas que meus instrumentos são muito sutis: apenas 25 sílabas”.

“E o que vc pretende com tantas letras”? Respondo: “apenas pensar, em sintonia, as preocupações maiores dos seres humanos à luz de Deus; suscitar neles a confiança nas potencialidades escondidas em si para encontrarem soluções; procurar chegar ao coração das pessoas para que tenham compaixão pelo injusto sofrimento do mundo e da natureza, para que nunca desistam de sempre melhorar a realidade, começando por melhorar a si próprios. Independente de sua condição moral, devam sentir-se sempre na palma da mão de Deus-PaI-e-Mãe de infinita bondade e misericórida”.

“Valeu a pena tantos sacrifícios para escrever”? Respondo com o poeta Fernando Pessoa:”Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Esforecei-me para que não fosse pequena. Deixo a  Deus a última palavra. Agora no tramontar da vida, revejo os dias passados e tenho a mente voltada para a eternidade.

Leonardo Boff - 14.12.2019

*Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: sol da esperança, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2007.

O NATAL DOS HERODES DE HOJE



por leonardo boff

O Natal sempre possui o seu idílio. Não pode haver tristeza quando nasce a vida, especialmente quando vem ao mundo o puer aeternus, o Divino Infante, Jesus. Há anjos que cantam, a estrela de Belém que brilha, os pastores que velam à noite o seu rebanho. Mas lá estão principalmente Maria, o bom José e o Menino deitado numa manjedoura, “porque não havia lugar para eles na hospedaria”. E eis que apareceram também vindo do Oriente, uns sábios, chamados magos, que abriram seus cofres e ofereceram ouro, incenso e mirra, símbolos misteriosos.
Mas havia também um rei mau, Herodes, crudelíssimo a ponto de dizimar toda sua família. Ouviu que nascera na cidade de Davi, Belém, um menino que seria o Salvador. Temendo perder o trono, mandou matar em Belém e arredores, todos os meninos de dois anos para baixo.
Os textos sagrados conservam um lamento dos mais pungentes de todo o Novo Testamento:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e muito gemido. É Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu”(Evangelista Mateus 2,18).
O Natal deste ano nos traz à mente os atuais Herodes que estão dizimando nossas crianças e jovens. Entre 2007-2019, 57 crianças e jovens até 14 anos foram mortos no Brasil por balas perdidas, em ações policiais. Só neste ano de 2019 no Rio de Janeiro, 6 crianças e 19 adolescentes perderam a vida em ações policiais, informa a Plataforma Fogo Cruzado. Houve na região metropolitana do Rio 6.058 tiroteios com arma de fogo, com 2.301 pessoas baleadas das quais 1.213 foram mortas e 1.088 gravemente feridas.. O caso mais clamoroso foi da criança de 8 anos Aghata Félix morta por disparo de fuzil pelas costas dentro de uma kombi quando ia para casa com sua mãe.
Seus nomes merecem ser referidos. Embora com poucos anos a mais, tiveram o mesmo destino dos mortos por Herodes: Jenifer Gomes,11 anos; Kauan Peixoto 12 anos; Kauã Rozário 11 anos; Kauê dos Santos 12 anos; Agatha Félix 8 anos; Ketellen Gomes 5 anos.
O governador do Rio de Janeiro com sua polícia feroz vem sendo acusado de crime contra a humanidade pois manda atacar as comunidades com helicópteros e drones, aterrorizando a população. O prefeito Marcelo Crivella confessou que nas 436 escolas instaladas nas comunidades, devido às ações policiais, as crianças perderam 7000 horas de aula.
Junto com a mãe de Aghtata Félix, Vanessa Francisco Sales que carregava no enterro a boneca da Mônica que sua filhinha tanto gostava, fazem-se ouvir as mesmas vozes que a Raquel bíblica: As mães do Morro do Alemão, do Jacarezinho, da Chatuba de Mesquita, da Vila Moretti de Bangu, do Complexo do Chapadão, de Duque de Caxias, da Vila Cruzeiro no Complexo da Penha, de Maricá. Escutemos seus lamentos:
Ouvem-se muitas vozes, muito choro e muitos gemidos. As mães choram seus queridos, mortos por balas perdidas; não querem consolar-se porque perderam suas crianças para sempre. Pedem uma resposta que não lhes vem de nenhuma instância. Entre lágrimas e muitas lamentações suplicam: parem de matar nossas crianças. Parem, pelo amor de Deus. Queremos elas vivas. Queremos justiça”.
Este é o contexto do Natal de 2019, agravado por uma política oficial que usa os meios perversos da mentira, do fake news, de muita raiva e de ódio visceral. Jesus nasceu pobre e pobre viveu a vida inteira. E surge um presidente que tem frequentemente Jesus em seus lábios e não em seu coração porque difunde ofensas a homoafetivos, a negros, a indígenas e a quilombolas e a mulheres.
Diz abertamente que não gosta de pobres, quer dizer, não gosta daqueles que Jesus disse: “bem-aventurados os pobres” e e que os chamou “meus irmãos e irmãs menores” e que no ocaso da vida serão nossos juízes (Mt 25,40). Não gostar dos pobres significa que não quer governar para as maiorias dos brasileiros que são pobres e até miseráveis, para os quais deveria primeiramente governar e cuidá-los.
Apesar disso tudo, há que se celebrar o Natal. Faz escuro mas festejamos a humanidade e a jovialidade de nosso Deus. Ele se fez criança indefesa. Que felicidade em saber que seremos julgados por uma criança que apenas quer brincar, receber e dar carinho e amor.
Que o Natal nos conceda um pouco daquela luz que vem da Estrela que encheu de alegria os pastores dos campos de Belém e que orientou o sábios-magos para a gruta. “Sua luz ilumina cada pessoa que vem a este mundo” (Jo 1,9), você e eu, todos, não só os batizados.
Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: sol da esperança, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2007.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

ORAR, ARAR




 Frei Betto

        Há muitos modos de orar. Sedutora incompletude, orar é sempre insatisfação, algo além do mais íntimo de mim mesmo. Um gosto de sal arde por baixo da língua. Um gosto de Sol aquece o peito e deixa saudade, profunda saudade daquele ser que não sou. E, no entanto, somente sou sendo Aquele que não sou e se fez humano, e se torna em meu espírito o ser que sou e devo ser.
        Orar é arar, sulcar o mais profundo de meus sentimentos e pensamentos, deixar que as sombras se esvaneçam para dar lugar à luz.
        A oração é prenúncio e caminho de plenitude. Todos os orantes são ciganos em busca do Inacessível. Deus se encontra onde menos se espera. Vaga mundo. Está lá no mais ínfimo e no mais pleno. Aqui e agora.
        Orar é tornar-se presente. Saudade é sempre ausência. Futuro, busca do que não se possui. Espera do que se sonha. Presente é ser o que se é sendo o que não se é, e sim o que se é naquele que É. 
        Jamais deve o orante projetar que transpira ou aspira santidade. Nem almejar galgar os píncaros das virtudes. Basta acolher o Transcendente como a terra se deixa fecundar pelas sementes.
        Deus dorme à soleira da porta, como cão que vigia e aguarda. Fiel, jamais abandona a casa que o abriga.
        A oração não pode ser medida pela extensão das palavras. Nem pela beleza litúrgica. Tampouco pela harmonia dos cânticos ou ausência de conflitos. Porém, quando comunitária, deve ser alegre e festiva.
        Já no século IV recomendava-se que os coros infantis fossem acompanhados por instrumentos musicais, danças e guizos. Aos olhos da comunidade, coros dançantes evocavam bailados angélicos. No século III, Clemente de Alexandria descrevia, em sua Carta aos Gentios, uma cerimônia de iniciação cristã na qual havia tochas, cantos e danças de roda, "juntamente com os anjos". Eusébio de Cesareia (+ 339) narra como os cristãos comemoraram a vitória de Constantino dançando diante de Deus: "Com danças e hinos nas cidades e no campo, eles davam a honra primeiro ao Deus do Universo... e depois ao piedoso imperador".
        Hoje, temos vergonha do corpo e dos movimentos do corpo. A racionalidade moderna transformou-nos em anjos barrocos: enormes cabeças sobre corpos disformes. Louvamos a Deus com discursos articulados. No entanto, na relação de amor entre um homem e uma mulher as palavras contam menos do que os gestos. Por que já não sabemos ser alegres na relação amorosa com Deus? Como os sisudos monges de Umberto Eco, em O Nome da Rosa, consideramos o riso um atributo demoníaco? Segundo Dante, no inferno não há esperança nem riso; no purgatório não há riso, mas resta a esperança; e no céu, a esperança já não é necessária, tudo é riso. 
        Felizmente, há quem ouse quebrar os limites cartesianos que nos prendem à confinada área de uma liturgia ortofônica, repetitiva, recitativa (por isso os protestantes não usam o verbo rezar, derivado de recitar, e sim orar) para alçar voo ao amplo espaço da gratuidade amorosa. 
        Ao deixar a prisão política, em fins de 1973, as monjas beneditinas de Belo Horizonte acolheram-me com um espetáculo de dança animado por uma noviça que viera do balé da Bahia. Elas entendiam de liturgia.
        Oração é ação, inalação, respiração, conspiração, sublimação, encarnação, conversão, revolução e, sobretudo, paixão.
        Oro não somente quando medito, peço, falo ou usufruo do silêncio que acarinha meu espírito. Oro não apenas no silêncio que me absorve, como vigília permanente, sono desperto, morte gestando vida. Oro, sobretudo, quando o Espírito vem em socorro de minha fraqueza, como escreveu São Paulo. “Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Romanos 8, 26).

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela/Companhia das Letras), entre outros livros. 


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

QUANDO HELDER CAMARA CAPTA A DOR DA IGREJA




Por Eduardo Hoornaert

Num dos mais pungentes poemas que o Padre José (veja meu texto anterior, intitulado: ‘quando Helder Camara capta da dor do mundo’) dita ao Bispo Helder - um poema traspassado de compaixão e tristeza - a igreja católica aparece como um ‘velho portão enferrujado’:

Velho portão enferrujado
Que já perdeste a memória
De abrir e fechar
E te espantas com a chave
Gostaria de abrir-te
Pela paixão que sinto
De ver portas e portões escancarados.
Mas devo respeitar o teu repouso,
A tua ferrugem, a tua segunda natureza
Que quase te transforma
Em muro (Carta Circular 2-3/03/1965, II,II, p. 238).

Escrito no início de março de 1965, um ano depois da posse de Helder Camara como Arcebispo de Recife, esse poema sintetiza dolorosamente a impressão que ele guarda de seu primeiro ano no ofício. Por mais que Helder o puxe ou empurre, o velho portão não deixa passar os pobres. Helder se lembra que, no Vaticano, os guardas suíças deixam passar cardeais, arcebispos e bispos, mas estendem a lança para impedir a entrada de pessoas não credenciadas. Ele se lembra das alucinações de 1962, quando viu o Imperador Constantino atravessar a galope a Basílica de São Pedro. Imagens confusas de procissões, mitras e estolas, grandiosas cerimônias na Basílica de São Pedro.
Helder, que sente paixão de ver portas e portões escancarados, mesmo assim deve respeitar o repouso do portão enferrujado, sua ferrugem, sua segunda natureza. Um portão que quase se transforma em muro, de tão desacostumado a dar passagem, que fica espantado pela chave, como se se tratasse de arma que pudesse ferir.
O Padre José bem sabe que chaves, para Helder, servem para abrir, não para fechar. Isso ele já sabe desde 1947, quando dita a Helder ainda simples sacerdote um poema atravessado pela paixão de abrir e acolher:

Senti-me triste comigo
Surpreendendo-me
com um molho de chaves na mão.
Se todos somos filhos do mesmo Pai
Para que fechar
O que deve ser comum?
Senhor,
Que ao menos meu coração
Não tenha portas,
Nem ferrolhos,
Nem chaves.
Que ao menos minha alma
 (Vigília 16-17/01/1947. Acervo do Instituto Dom Helder Câmara [IDHeC], Recife).

A dor da igreja, sentido por Helder, não se deve ao fato que ela perde fiéis para as igrejas evangélicas, nem ao fato que muitos a abandonam e se declaram ‘sem religião’. Ele sente dor por experimentar que o velho portão enferrujado já não está escancarado a todos os meus irmãos. Para que fechar o que deve ser comum?

Helder Camara não é sociólogo nem historiador, mas suas imagens e intuições merecem a atenção de sociólogos e historiadores. A imagem da ferrugem (velho portão enferrujado), por exemplo. Os químicos dizer que o ferro é um material ‘de transição’. Exposto ao ar e à umidade, se corrói e tende a voltar ao seu estado mineral original. A ferrugem é sinal de uma volta ‘às origens’. Do mesmo modo, quando uma igreja ‘enferruja’, ela sinaliza uma tendência de voltar à sua origem, ou seja, a um projeto eclesiástico formulado ao longo de um período que vai mais ou menos do século IV ao século XIII, assentado sobre o princípio do consenso clerical (veja um texto meu publicado neste blog em 07/08/2018, intitulado ‘A cortina eclesiástica’).

A imagem do velho portão enferrujado pode chocar, mas retrata uma realidade vivida no dia-a-dia. Queiram ou não seus responsáveis atuais, a igreja tende a retornar à sua origem, aos tempos medievais. É doloroso perceber isso, como é doloroso sentir o pouco que se faz para reverter a situação.

Preparando-se a participar da quarta e última sessão do Concílio Vaticano II, o Arcebispo de Recife recebe mais uma visita do Padre José, que lhe dita o seguinte poema:

Sonhei que o Papa enlouquecia
Ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano
e à Basílica de São Pedro.
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros, em vão,
tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a Ele,
jogando a tiara no Tibre,
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos de imaginá-lo
em plena loucura! (Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, p. 192).

Um poema realmente louco. Fala da loucura sagrada de um papa que joga a tiara (papal) no Rio Tibre, ateia fogo no Vaticano, diz adeus a todo o aparelhamento diplomático que o cerca e espalha pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano. Loucura total. Não se sabe quem é realmente louco, se é o papa ou o Vaticano. O poema é claro: o Vaticano é um desvio, um caminho equivocado, uma loucura. É a prisão do papa. Louco não é o papa que joga a tiara no Rio Tibre, louco é o papa que a ostenta. Louco não é o papa que espalha pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano, louco é quem acredita que um papa necessita de um banco para governar a igreja. E assim por diante. 
Aqui vai exposta, de modo pungente, a dor da igreja: que vergonha para os cristãos: para que um Papa viva o Evangelho, temos de imaginá-lo em plena loucura! Os católicos não sabem por onde se virar, se admiram tal ou tal papa que lhes parece bom, se rejeitam o papado de vez ou se atribuem sua dor a ver o papado tão vinculado à burocracia eclesiástica clerical. Não enxergam claramente onde está o nó da questão, o que Vaticano realmente representa nisso todo, pois as informações que recebem costumam andar envoltas pela hipocrisia que costuma envolver as informações que vêm de Roma.

Por que o papa não se desvincula do Vaticano? Por que ele não vai morar numa paróquia em Roma? Helder fala sério, pois ele mesmo, três anos depois de compor o poema que aqui comento, em 1968, se muda do Palácio Episcopal de Recife para uma sacristia. Mesmo assim, ele tem de se apresentar como um Dom Quixote para dizer algo que tenha impacto. Em vigílias angustiadas, o Padre José segura as rédeas do cavalo Rocinante no momento em que Dom Quixote penetra na Basílica de São Pedro. Ele está triste. Não irrompe a galope no recinto sagrado (como o Imperador Constantino numa alucinação de Helder Camara que data de 1962), mas mantém a lança em riste, pronto a investir contra qualquer um que se atreva a dizer que a Basílica de Roma é a casa de Deus.

O Padre José fala sem rodeios: o papa tem de sair do Vaticano, renunciar ao poderio sobre o Estado Vaticano, deixar de ser reconhecido como soberano pelos poderes políticos do mundo, renunciar ao ‘primado de poder’, assumir o ‘primado do amor’ (como recomenda o evangelho), renunciar a modos capitalistas de administração financeira, não se apresentar como ‘infalível’, não impor sua opinião, não se elevar acima dos demais. Assim será de novo o ‘bispo de Roma’, o primeiro entre iguais, bispo entre bispos, sendo o primeiro por viver na cidade onde – segundo a tradição – o primeiro dos apóstolos estaria enterrado.

Em novembro de 1964, ao participar em Roma da terceira sessão do Concílio Vaticano II, o Arcebispo recorda dolorosamente que, em Recife, ele vive com Deus na casa da Mãe Igrejagovernada pela sogra:

Senhor, assim como o esposo leva a jovem esposa
Para uma casa que ela não conhece, governada pela sogra,
Tu me trouxeste para viver contigo
em casa da Mãe Igreja (Carta Circular 29-30/11/1964, II,II, p. 44).

Três meses depois, já de volta em Recife, as mesmas imagens doloridas. Deus lhe parece um padrasto. Pior: um sádico, um torturador:

Que estranho gosto possuis
de parecer Padrasto
quando Te sei
tão profundamente Pai?
Tu me deixas
sem saída e sem resposta.
Jamais Te senti um sádico
às gargalhadas
enquanto nos contorcemos
nas torturas que nos preparas.
O incrível,
em certas circunstâncias,
é o teu silêncio,
o teu mutismo,
quando uma palavra tua
um simples som,
mudaria tanto travo
em alegria interior. (Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, 192).

O Arcebispo sofre a pior tortura: o silêncio de Deus. Ele ainda terá de passar por muitos anos pela prova da dor, da incompreensão e do silêncio de Deus para, finalmente, em 1978, na idade de 69 anos, encontrar a ‘igreja em saída’ (como se expressa o atual Papa). Mas isso já é tema de um próximo texto.

Por enquanto junto aqui algumas palavras baseadas num texto do teólogo espanhol Xavier Pikasa (acessível pela Internet), que consideram o que o abandono do Vaticano pelo papa pode significar para a igreja católica. Deixar o Vaticano não significa desprezar o papado nem o Vaticano, mas criar novos horizontes. Nada contra um Vaticano que atue como cúria diocesana do bispo de Roma. Mas há de se soltar o papa, ele excede de longe o Vaticano. Por sua autoridade moral, está em condições de lançar pontes de diálogo entre as culturas do mundo, de ser um sinal concreto da universalidade e da comunicação entre os habitantes da terra, em nome do evangelho. Alguém cujo trabalho consiste em tecer solidariedade, acolhida, fraternidade, sempre segundo a mensagem de Jesus.
Pois passaram os tempos dos grandes chefes religiosos, desde os Sumos Sacerdotes de Jerusalém até os Sacerdotes Sagrados do Egito, do México e de muitos outros lugares. O fato do papa se apresentar, no mundo de hoje, como o único a se manter nessa posição de ‘grande chefe religioso’, não é um bom sinal. Isso pode alisar a vaidade dos católicos, mas é contraproducente. Pois a experiência do passado demonstra que a concentração de um poder religioso nas mãos de uma só pessoa não é precisamente a melhor forma de divulgar na humanidade uma mensagem, por valiosa que seja. Pelo contrário, a história mostra que a melhor divulgação de uma mensagem de valor, como a do evangelho, está na superação do poder. Que o diga Jesus em sua conversa com o Grão-Inquisidor no subsolo da Catedral de Sevilha, no famoso episódio do romance ‘Os Irmãos Karamazov’ de Dostoievski.

O Padre José dita e Helder escreve:

Deus atiça o fogo que devora o Vaticano.
Os bombeiros tentam em vão extinguir um fogo sagrado.

Um fogo que consume projetos de poder. O ‘poder do papa’ não é o poder de um homem situado acima dos demais, mas o poder da ‘graça de Deus’. A revolução cristã se opera fora dos círculos do poder, em trabalhos de base. No momento em que conferências episcopais, dioceses e paróquias passam a se organizar ‘sinodalmente’ (outra expressão do atual Papa), sem recorrência a um poder que viria de cima, as coisas começam a funcionar a contento. Assembleias e encontros criam uma igreja oriunda de um diálogo continuado.
Está claro: se os católicos quiserem agir como cristãos, eles têm de sair de instituições ‘imperialistas’ de poder, dominadas pelo capitalismo, para voltar a caminhar nas intempéries da vida, com todos e todas que esperam dias melhores.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


NOTA DE O PORTA VOZ: As cartas conciliares, reunidas nas OBRAS COMPLETAS, encontram-se à venda no IDHeC – Instituto Dom Helder Camara