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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

ORAÇÃO À TERRA FERIDA, NOSSA GRANDE E GENEROSA MÃE

 



Por Leonardo Boff

Vivemos sob o Covid-19 tempos dramáticos que como um manto de sofrimento e de tristeza se estende sobre toda a humanidade. A doença e a morte quase foram naturalizadas em nosso país, dada a contaminação de milhões de pessoas e mais de 133 mil foram  já vitimadas, deixando famílias, parentes e amigos em profunda prostração por não poderem se despedir, fazer o ritual do velório e o viver o imprescindível luto.

 

Neste contexto temos que rezar à nossa boa e generosa Mãe Terra para  que tenha piedade de nós, seus filhos e filhas, apesar de todas as ofensas e agressões que por séculos lhe temos inflingido. Ela não é vingativa. Mas nos dá severas lições, como agora com o coronavírus, para aprendermos um outro modo de habitar a Casa Comum, para nos relacionarmos com cuidado,respeito e veneração para com ela, nossa Magna Mater, Grande Mãe, Pacha Mama e Gaia.

Nesse espírito de súplica humilde e com os olhos marejados de lágrimas que fiz esta oração:

 “Terra minha querida, Grande Mãe e Casa Comum!. Vieste nascendo lentamente, há milhões e milhões de anos, grávida de energias criadoras.

Teu corpo, feito de pó cósmico, era uma semente no ventre das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram, te lançando pelo espaço ilimitado.

Vieste aninhar-te, como embrião, no seio de uma estrela ancestral, no interior da Via-Láctea, transformada depois em Super Nova. Ela também sucumbiu de tanto  esplendor. Era o primeiro Sol.

E vieste então parar no  seio acolhedor de uma  Nebulosa, onde já, menina crescida, perambulavas em busca de um lar. E a Nebulosa se adensou virando o nosso  Sol, esplêndido de luz e de calor.

Ele se enamorou de ti, te atraiu e te quis em sua casa, junto com Marte, Mercúrio, Venus e outros filhos e filhas, os planetas. E celebrou o esponsal contigo. De teu  matrimônio com o Sol, nasceram filhos e filhas, frutos de  tua ilimitada fecundidade, desde os mais pequenininhos, bactérias, vírus e fungos até os maiores e mais complexos seres vivos. E como expressão nobre da história da vida, nos geraste a nós, homens e mulheres com inteligência,  amorosidade, solidariedade,  veneração e cuidado.

Através de nós, tu, Terra querida, sentes, pensas, amas, falas e veneras. E através de nossos olhos contemplas o céu estrelado onde estão tuas irmãs e teus irmãos. E  continuas crescendo, embora adulta, para dentro do universo rumo ao Grande Atrator que outro não é senão o Seio do Deus-Pai-e-Mãe de infinita ternura. Dele viemos e para ele retornamos com uma implenitude que só Ele pode preencher. Queremos, ó Deus, Pai e Mãe de bondade, mergulhar em Ti e estar em eterna comunhão de amor contigo para sempre junto com a Mãe Terra.

E agora, Terra querida, pensando em todos os sofredores do mundo afetados pelo Covid-19, realizo o gesto de Jesus na força de seu Espírito. Como ele, cheio de unção, te tomo em minhas mãos impuras, para pronunciar sobre ti a Palavra sagrada que o universo escondia e tu ansiavas por ouvir:

Hoc est corpus meum: Isto é o meu corpo. Hoc  est sanguis meus: Isto é o meu sangue”  E então senti: o que era Terra se transformou em Paraíso e o que era  vida humana se transfigurou em vida divina. O que era pão se fez corpo de Deus e o que era vinho se fez sangue sagrado.

Finalmente, Terra, com teus filhos e filhas chegaste em Deus. Te fizeste divina por participação. Enfim em casa.

“Fazei isso em minha memória“. Por isso, de tempos em tempos,especialmente neste momento em que todos teus filhos e filhas sofrem sob a ação perigosa do Covid-19, cumpro o mandato do Senhor. Pronuncio a palavra essencial sobre ti, Mãe querida, e sobre todo  o universo. E junto com ele e contigo nos sentimos o Corpo de Deus, no pleno esplendor de sua glória. Amém,amém,Alleluia”.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo e escritor e escreveu: “O parto doloroso da Mãe Terra: a nova etapa da Terra e da Humanidade” a sair no final do ano pela Vozes e a sair em breve:O Covid-19:um contra-ataque da Terra à Humanidade” também pela Vozes.

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

BRASIL EM CHAMAS

 





 por Frei Betto 

Muito antes de a revista “The Economist” qualificar o presidente do Brasil de BolsoNero, eu já havia cunhado a antonomásia. O que não esperava é que os fatos comprovariam a semelhança de atitudes entre o imperador romano, conhecido por tocar lira enquanto Roma pegava fogo, e o principal ocupante do Palácio do Planalto. 

       O Brasil é incendiado pelo descaso do governo, enquanto o presidente ignora o desastre ambiental e econômico, assim como faz com o genocídio sanitário que já ceifou a vida de quase 140 mil vítimas da Covid-19.

       Na primeira quinzena de setembro, houve mais queimadas na Amazônia do que em todo o mês de setembro de 2019. Até o dia 15 foram registrados 20.485 focos de calor no bioma amazônico pelo programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). No mesmo período do ano passado foram 19.925 focos.

       A média é de 1.400 novas queimadas por dia. Nessa época do ano, em que a seca predomina na Amazônia, os desmatadores (latifundiários, mineradoras, garimpeiros, grileiros e empresários do agronegócio) aproveitam para queimar os recursos biológicos derrubados para abrir espaços ao gado, à soja, à exploração de minerais preciosos. 

       Segundo a Global Forest Watch, que mantém plataforma online de monitoramento de florestas, o Brasil foi responsável pela destruição de um terço de todas as florestas tropicais virgens desmatadas no planeta em 2019: 1,3 milhão de hectares perdidos.

       O governo brasileiro ignora suas próprias leis. Em 16 de julho deste ano, proibiu o uso de fogo na Amazônia e no Pantanal por 120 dias. No entanto, os incendiários agem impunemente e os órgãos de fiscalização são sucateados. O vice-presidente, general Mourão, reclama que algum funcionário impatriota do Inpe deve estar vazando informações... “Há alguém lá dentro (do Inpe) que faz oposição ao governo”, declarou. Falta apenas mandar prender o satélite do órgão que detecta as queimadas. 

       Este ano houve aumento de 34% no desmatamento da Amazônia brasileira. E o presidente insiste: “Essa história de que a Amazônia arde em fogo é uma mentira”, declarou em reunião virtual com chefes de Estado da América do Sul (“Folha de S. Paulo”, 16/9, p. B7). 

       O fogo se alastra também, sem controle, no Pantanal, uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. Já foram destruídos 16% da maior planície alagada do mundo. Ali as queimadas reduziram a cinzas 23mil km2 de riquezas vegetais e animais (área pouco maior que a de El Salvador ou o triplo da área da região metropolitana de São Paulo, onde vivem quase 22 milhões de pessoas em 39 cidades). Foi também devastado o maior refúgio do mundo de araras-azuis, e estão sob ameaça projetos de preservação de onças. São comoventes as imagens exibindo a quantidade de animais mortos por queimadura ou asfixia, ou em busca de água em estradas e cidades.

       De acordo com estimativa do Ibama/Prevfogo, em três biomas que cruzam o território sul-mato-grossense - Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica - a área atingida pelo fogo já ultrapassa 1.450.000 hectares.

       O governo age na contramão da preservação ambiental. Para 2021, cortou os orçamentos dos dois principais órgãos federais de defesa da natureza e fiscalização de crimes ambientais, o Ibama (-4%) e o ICMBio (-12,8%). 

        A destruição do Pantanal, da Amazônia e do que resta do Cerrado faz parte do programa da coalizão governista, que reúne grileiros, mineradores, madeireiros ilegais e vândalos do agronegócio. 

       O secretário da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Mato Grosso, Flávio José Ferreira, afirmou em entrevista ao “Fórum Café”, dia 15/9, que o Ministério da Defesa tem proibido o Exército de atuar no combate aos incêndios no Pantanal. Bombeiros e voluntários são os principais responsáveis por conter as chamas no bioma. Ferreira também criticou o avanço do agronegócio no Pantanal e disse que o meio ambiente tem sido “desrespeitado” na região há anos.

       BolsoNero é mestre em se eximir de culpas. Faz de conta que nada tem a ver com o genocídio da pandemia no Brasil, a invasão de terras indígenas, a interferência na Polícia Federal do Rio para defender os filhos, os milicianos condecorados por seus familiares, os cheques do Queiroz, a alta do preço do arroz, o crescimento do desemprego (13 milhões de trabalhadores) e tantas outras medidas de seu governo que arruínam o nosso país.  

       Ao cantar o hino nacional, em vez de proclamar “Se em teu formoso céu risonho e límpido, a imagem do Cruzeiro resplandece”, é mais condizente com a realidade entoar “Sob teu cinzento céu tristonho e enfumaçado, as labaredas das queimadas resplandecem”. 

 

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de “Conversa sobre fé e ciência” (Agir/Nova Fronteira), entre outros livros. Site e livraria virtual: www.freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 68 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

“ABRE TUA MÃO PARA TEU IRMÃO” (Dt 15,11):

 



uma reflexão sobre o tema do Mês da Bíblia 2020 [1]

 

por Kinno Alves Cerqueira [2]

 

Nunca deixará de haver pobre na terra;

é por isso que eu te ordeno:

abre a mão em favor do teu irmão,

do teu humilde e do teu pobre

em tua terra (Dt 15,11) [3]

 

 

1 Para começar

Desde 1971, a Igreja Católica Apostólica Romana no Brasil consagrou o mês de setembro para o estudo da Bíblia. A cada ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, elege um livro a ser lido e um lema-chave que sirva como ponto de partida para a leitura a ser empreendida. Neste ano de 2020, quando já entrevemos o jubileu de ouro do Mês da Bíblia, o livro a ser lido é o Deuteronômio e o lema-chave escolhido, “Abre tua mão para teu irmão” (Dt 15,11).  

O Mês da Bíblia não é um espaço para simplesmente venerarmos um conjunto de livros antigos que não raras vezes nos causa estranheza. Na verdade, o Mês da Bíblia é o nosso mês, pois nas páginas da Bíblia redescobrimos nossa própria história com suas belezas e limitações, mas sobretudo como horizonte de possibilidades, de sonhos, de conversão da vida...

 

2 Habitar os jardins

Não raras vezes, aproximamo-nos da Bíblia como um taxonomista a identificar espécimes de flores que lhe são trazidas de jardins nos quais ele nunca esteve. Não haveria um caminho mais belo a ser feito? Há que se caminhar, despretensiosa e amorosamente, ao interior dos jardins bíblicos, ali onde, a um só tempo, os perfumes embriagam-nos e os espinhos despertam-nos a consciência.

Na alameda florida, nossos olhos se fecham e nossas mãos não se podem esquivar do toque sensitivo que engendra o despertar da pele, a redescoberta do corpo como lugar de acolher, desdizer e redizer o que descobrimos de nós na Palavra e da Palavra em nós [4].

 

3 Viagens sem mapas

O ato de acolher, desdizer e redizer faz nascer a coragem de permitirmo-nos viajar por dentro de nós mesmos sem bússolas nem mapas. De caminhos traçados por outrem, descobrimo-nos a nós mesmos como caminho inaudito, realidade pouco sabida e sempre pressentida a interrogar-nos sobre o que somos.           

 

4 Somos mãos

A frase “Abre tua mão” (Dt 15,11) é um tanto escorregadia, pois facilmente ouvimo-la como sendo uma referência à mão em seu sentido estritamente laborioso ou, quando muito, como alusão à dimensão operativo-pragmática de nosso existir. Na Bíblia, porém, o vocábulo “mão” (hebr. יָד) forma uma constelação de sentidos: “mãos, antebraço, pênis; lado, próximo, margem, lugar, força; monumento, eixos de roda, suportes, encaixes, parte” [5].

Daí por que não seja estranho que leiamos na Bíblia que é a “mão” de YHWH que cria a liberdade dos hebreus escravizados (Dt 5,15; 6,21; 7,8; 9,26), a beleza do luar grinaldado de estrelas (Sl 19,1-2), a ousadia profética (Is 26,11), a palavra desnudante das tramas dos homens (2 Rs 3,15). As mãos humanas ameaçam o status dos deuses (Gn 3,22) e divinizam selfs (Dt 4,28), derramam sangue inocente (Gn 14,11) e arrepiam os corpos dos amantes (Ct 2,6; 5,4), amesquinham a vida (Gn 37,22) e dão-lhe o sabor de leite e mel (Dt 6,3).    

Como vemos, a semântica bíblica dilata, potencia e complexifica o sentido da palavra “mão” a ponto de salvar-nos da estreiteza de sentido que nos impede de vislumbrar a potente complexidade que somos nós: somos mãos, nossas mãos somos nós com tudo o que sentimos, desejamos e miramos.

 

5 A aventura de abrir-se   

“Abre tua mão” (Dt 15,11) aparece-nos, pois, como uma voz a chamar-nos para aceder à bela aventura de abrir-se desde dentro para acolher os apelos que nos vem das vidas que estão diante de nós. Trata-se de suspender as respostas para dar lugar ao inusitado da vida, de perder as palavras para reencontrá-las renascidas noutros corpos, refazer a vida diante de outras vidas, enfim, de acolher o outro a partir do outro, para que no outro descubramos mais de nós e em nós, mais do outro.

 

6 A radicalidade da descoberta

A aventura na qual nos lançamos culmina na radical descoberta de que somos irmãos: (...) “abre tua mão em favor do teu irmão” (Dt 15,11). A corresponsabilidade que emerge dessa descoberta comporta tanta força que “os outros” tornam-se “meus outros” e os humildes, os pobres e a terra, “meus humildes”, “meus pobres” e “minha terra”. Descortina-se diante de nós a possibilidade de tornarmo-nos pessoas, ou seja, seres humanos em inter-relação cosmocizante [6].    

 

7 Abonitar a vida

O assombro de tal descoberta e nossa subsequente adesão ao chamado para tornarmo-nos pessoas inscrevem-nos no interior de um sonho repetidamente consignado na encantada imagem de “uma terra que mana leite e mel” (Ex 3,8; Dt 6,3). Tal imagem não descreve a qualidade solo-climática de uma terra, mas sublinha a fartura, símbolo da paz, como possibilidade sempre presente para um povo formado por pessoas que exercem a corresponsabilidade traduzida na partilha. Trata-se, pois, de um sonho a um só tempo poético e político de “abonitamento da vida”.

 

7 Esperança nos passos, sonhos nas mãos

A esperança de um sonho não reside na quietude desinteressada nem em análises sofisticadas da realidade. A poetisa Cora Coralina escreveu [7]:

Desistir?

Eu já pensei seriamente nisso,

mas nunca me levei realmente a sério.

É que tem mais chão nos meus olhos

do que o cansaço nas minhas pernas,

mais esperança nos meus passos,

do que tristeza nos meus ombros,

mais estrada no meu coração

do que medo na minha cabeça.

 

Entre a realidade e o sonho estamos nós, gente que, de mãos dadas, leva a esperança nos passos, a boniteza nos olhos, os sonhos nas mãos...

 

 

Notas:

[1] Contribuição apresentada por ocasião da live Como organizar o Mês da Bíblia nas comunidades, promovida pelo Grupo de Pesquisa Cristianismo e Interpretações da Pós-graduação em Teologia (PPGTEO) da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), em 29 de AGO de 2020. 

[2] Mestrando em Teologia do Programa de Pós-graduação em Teologia (PPGTEO) da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Bolsista da CAPES. Integrante do Grupo de Pesquisa Cristianismo e Interpretações do PPGTEO da UNICAP.  Assessor do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) em Pernambuco. E-mail: kinno_cerkeira@hotmail.com

 

[3] BÍBLIA. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulinas, 2002.

 

[4] Poder-se-ia dizer: acolher, desfigurar e transfigurar.

[5] KIRST, N. et al. Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2014, p. 85.   

[6] O termo “cosmocizante” designa a qualidade do que cosmociza, isto é, que transforma uma determinada realidade (caótica) em cosmos. 

[7] Poema disponível em: <https://sonho_realidade.blogs.sapo.pt/tag/cora+coralina> Acesso em 28 AGO 2020.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

O PAPA E A ONU

 



 

Por Marcelo Barros

 

Nesta terça-feira, 15 de setembro, em Nova York, se abrirá mais uma assembleia geral das Nações Unidas. Desde a última assembleia que reuniu representantes dos 193 países-membros, o mundo sofreu uma mudança inesperada. Em menos de um ano, ninguém imaginava que um organismo minúsculo, invisível a olho nu, incapaz de viver por si mesmo, pudesse provocar um transtorno tão grande em todos os continentes. É claro que isso aconteceu não apenas pela capacidade mortífera do vírus e sim pelo despreparo da sociedade em relação a este tipo de situação.

A elite dominante do mundo e seus representantes nos diversos governos continuam a promover uma forma de organizar o mundo baseada no individualismo e na competição. Nenhuma religião ou ensinamento social conseguiu transmitir à humanidade valores profundos de solidariedade e comunhão. De repente, o coronavírus veio revelar que tudo está interligado. Querendo ou não, todos estamos no mesmo planeta. Se um é contaminado, todos correm riscos. Ou cuidamos uns dos outros, ou morremos todos/todas.

Esta 75ª assembleia geral da ONU terá como tema principal a reorganização da vida no mundo depois da pandemia. A articulação internacional de cidadãos e cidadãs de vários países e continentes escreve a Antonio Guterrez, Secretário Geral da ONU e à assembleia das Nações Unidas pedindo que declarem todas as vacinas contra vírus como bens comuns da humanidade.

Há cinco anos, nesta mesma época, o papa Francisco visitou a ONU e falou à assembleia geral.  Naquela ocasião, o papa assinou o documento no qual a ONU se comprometia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para os quinze anos até 2030. Agora, nesta realidade de um mundo em crise, o papa enviará uma videomensagem à assembleia da ONU. O papa proporá ao mundo caminhos de saída para a crise social e sanitária provocada pela pandemia, assim como a crise da economia mundial e a crise ecológica que ameaça o planeta. O Vaticano já aceitou publicar o eixo central da palavra do papa: "De uma crise se sai ou melhor ou pior. Depende de nós. Não podemos, na ordem mundial e local, repetir os mesmos modelos socioeconômicos de um ano atrás, nem ajustá-los ou envernizá-los um pouco. Isso seria pior." 

Já no dia 20 de dezembro, no Palácio Apostólico do Vaticano, o papa e o secretário-geral das Nações Unidas gravaram juntos um vídeo no qual pediam o fim da corrida armamentista e do rearmamento nuclear. Nesta sua mensagem, agora, o papa certamente retomará esta proposta. Somente em armamentos, em 2019, os governos do mundo gastaram mais de 1,9 trilhão de dólares. Conforme o relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) divulgado na segunda-feira 27 de abril deste ano, é o valor mais alto de gastos com armas desde 1988. De acordo com os cálculos da OXFAM, um quinto deste dinheiro gasto com armas resolveria o problema da fome do mundo. Esse é o escândalo que os governos não querem abordar. O papa apontará esta ferida. Insistirá no cancelamento drástico e total da dívida externa dos países periféricos. Tal decisão não representa apenas um ato de bondade ou esmola dos países credores já que, em geral, os juros da dívida já representam um peso imenso. Na realidade, os países que devem já pagaram mais do que o triplo daquilo que receberam como empréstimo. Portanto, o cancelamento da dívida é uma questão de justiça. É preciso um novo começo para a sociedade internacional. Isso só poderá ocorrer a partir de uma nova concepção de justiça social e de paz.

Nestes dias, o organismo do Vaticano encarregado da relação com outras religiões e a comissão encarregada do mesmo assunto no Conselho Mundial de Igrejas em Genebra publicaram juntos um documento sobre a necessária e urgente colaboração das religiões para formarem uma cultura de solidariedade no mundo. Juntas, as diversas correntes espirituais poderão testemunhar a vocação de todo ser humano para a comunhão do bem viver.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

Postado por Blog O Porta Voz às 18:38