Leonardo Boff
Nestes tempos de campanha política e
presidencial não é raro um candidato satanizar seu adversário. Faz-se
inclusive uma divisão esdrúxula entre quem é da parte de Deus e quem é da
parte do Diabo ou de Satã.
Esse termo Satã (em hebraico) ou
Diabo (em latim) ganhou muitos significados, positivos e negativos, ao longo da
história. Isso ocorre em muitas religiões especialmente nas abraâmicas
(judaísmo, cristianismo e islamismo.
No entanto, devemos dizer que ninguém
sofreu tantas injustiças e foi tão “satanizado” como o próprio Satã. No inicio
não foi assim. Por esta razão é importante fazer brevemente a história de Satã
ou do Diabo.
Ele é contado entre os “filhos de
Deus” como os demais anjos, como se diz no livro de Jó (1,6). Está na corte
celeste. Portanto, é um ser de bondade. Não é a figura má que ganhará mais
tarde. Mas recebeu de Deus uma tarefa inusitada e ingrata: deve pôr à prova as
pessoas boas como Jó que é “um homem íntegro, reto, temente a Deus e afastado
mal”(Jó 1,8). Deve submetê-lo a todo o tipo de provas para ver se, de fato, é
aquilo que todos dizem dele:”não há outro igual na terra”(Jo 1,8). Como prova
promovida por Satã, ele perde tudo, a família, os bens e os amigos.Mas não
perde a fé.
Houve uma grande mutação a partir do
século VI aC, quando os judeus viveram no cativeiro babilônico (587aC) na
Pérsia. Lá se confrontaram com a doutrina de Zoroastro que estabelecia o
confronto entre o “príncipe da luz”com o “príncipe das trevas”. Eles
incorporaram esta visão dualista e maniqueísta. Deu-se origem ao Satã como da
parte reino das trevas, o “grande acusador” ou “adversário” que induz os seres
humanos a atos de maldade. Em seguida, produz-se o confronto entre Deus e Satã.
Nos textos judaicos tardios, do século II as, especialmente no livro de
Honoch, elabora-se a saga da revolta de anjos chefiados por Satã, agora chamado
de Lúcifer, contra Deus. Narra-se a queda de Lucifer e cerca de um terço dos
anjos que aderiram e acabaram expulsos do céu.
Surge então a questão: onde
colocá-los se foram expulsos? Ai valeu-se da categoria do inferno: do fogo
ardente e de todos os horrores,bem descritos por Dante Alighieri na segunda
parte de sua Divina Comédia dedicada ao inferno.
No Primeiro Testamento (o Antigo)
quase não se fala do diabo (cf.Cron 21,1;Samuel 24,1). No Segundo Testamento
(Novo) aparece em alguns relatos”…serão lançados no fornalha de fogo; ali
haverá choro e ranger de dentes”(Mt 8,12;13,42-50;Lc 13,27) ou na parábola do
rico epulão e o pobre Lázaro (Lc 16,23-24) ou no Apocalipse (16,10-11).
Essa compreensão foi assumida pelos
teólogos antigos, de modo especial por Santo Agostinho. Ele influenciou toda a
tradição das Igrejas, a doutrina dos Papas e chegou até hoje.
A categoria do inferno e da
condenação eterna foi determinante na conversão dos povos originários na
América Latina e de outros lugares de missão, produzindo medo e pânico. Seus
antepassados, dizia-se, pelo fato de não terem sido cristãos, estão no inferno.
E argumentava-se que se eles não se convertessem e não se deixassem batizar
conheceriam o mesmo destino.Isso está em todos os catecismos que foram logo
após a conquista elaborados com os quais se pretendia converter astecas, incas,
mais e outros. Foi o medo, outrora levou e ainda hoje,leva à conversão de multidões
como o mostrou o grande historiador francês Jean Delumeau. É apelando ao Diabo,
a Satã que hoje em tempos de ira e ódio social, se procura desqualificar o
adversário, não raro, feito inimigo a ser desmoralizado
e,eventualmente,liquidado.
Aqui devemos superar todo o
fundamentalismo do texto bíblico. Não basta citar textos sobre o inferno, mesmo
na boca de Jesus. Devemos saber interpretá-los para não cairmos em contradição
com o conceito de Deus e mesmo destruir a boa-nova de Jesus,do Pai cheio de misericórdia,
como o pai do filho pródigo que acolhe o filho perdido(Lc 15,11-23).
Em primeiro lugar o ser humano busca
uma razão pelo mal no mundo. Tem grande dificuldade de assumir a sua própria
responsabilidade. Então transfere-a ao Demônio ou aos demônios.
Em segunfo lugar, o significado dos
demônios e do inferno dos horrores representam uma pedagogia do medo para, pelo
medo, fazer as pessoas buscarem o caminho do bem. Demônio e inferno, portanto,
são criações humanas, um espécie de pedagogia sinistra, como ainda mães fazem
às crianças:”Se não se comportar direito, de noite,vem o lobo mau morder seu
pé”. O ser humano pode ser o Satã da terra e da sociedade. Ele pode criar
o “inferno”aos outros pelo ódio, pela opressão e pelos mecanismos de
morte, como infelizmente está ocorrendo em nossa sociedade.
Em terceiro lugar, Satã ou o Diabo é
uma criatura de Deus. Dizer que é uma criatura de Deus, significa que, em cada
momento, Deus está criando e recriando esta criatura, mesmo no fogo do
inferno.Pode Deus que é amor e bondade infinita se propor a isso? Bem diz o
livro da Sabedoria:”Sim, tu amas todos os seres e nada detestas do que fizeste;
se odiasses alguma coisa não a terias criado; e como poderia subsistir alguma
coisa se não a quisesses…a todos poupas porque te pertencem, oh soberano amante
da vida”(Sab 11,24-26). O Papa Francisco o disse claramente:”não existe
condenação eterna; ela é só para este mundo”.
Em quarto lugar, a grande mensagem de
Jesus é a infinita misericórdia de Deus-Abba (paizinho querido) que ama a
todos, também os “ingratos e maus” (Lc 6,35). A afirmação do castigo eterno no
inferno destrói diretamente a boa-nova de Jesus.Um Deus castigador é
incompatível com o Jesus histórico que anunciou a infinita amorosidade de Deus
para com todos,também para com os pecadores. O salmo 103 já havia intuído
isso:”O Senhor é compassivo e clemente, lento para a cólera e rico em
misericórdia. Não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre.Não nos
trata segundo nossos pecados…como pai sente compaixão pelos seus filhos e
filhas, assim o Senhor se compadecerá com os que o amam,porque ele conhece
nossa natureza e se lembra de que somos pó…A misericórdia do Senhor é desde
sempre para sempre”(103,8-17). Deus não pode nunca perder nenhuma criatura, por
mais perversa que seja. Se ele a perdesse, mesmo que seja uma só, ele
teria fracassado em seu amor. Ora, isso não pode acontecer.
Bem disse o Papa Francisco que
incansavelmente prega a misericórdia:”A misericórdia sempre será
maior que qualquer pecado e ninguém poderá pôr limites ao amor do Deus que
perdoa”(Misericordiae vultus, 2)
Isso não significa que se entrará no
céu de qualquer maneira. Todos passarão pelo juízo e pela clínica de Deus,
para lá purificar-se, reconhecer seus pecados, aprender a amar e finalmente
entrar no Reino da Trindade. É o purgatório que não é a ante-sala do inferno,
mas a ante-sala do céu. Quem está lá se purificando já participa do mundo dos
redimidos.
O inferno e os demônios e o principal
deles, Satã, são projeções nossas da maldade que existe na história ou que nós
mesmos produzimos e das quais não queremos nos resonsabilizar e as projetamos
nestas figuras sinistras.
Temos que libertar-nos, finalmente,
de tais projeções, para vivermos a alegria da mensagem de salvação universal de
Jesus Cristo. Isso deslegitima toda satanização em qualquer
situação,especialmente, em política e nas igrejas pentecostais que usam
de forma totalmente exorbitante a figura do demônio e do inferno. Antes assusta
os fiéis do que os conforta com o amor e a infinita misericórdia de Deus.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e
escreveu: Vida para além da morte,
Vozes,muitas edições 2021.
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