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domingo, 10 de janeiro de 2021

PROSPERO ANO NOVO EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO

 


     "Deus acima de tudo". Com esta legenda suspendemos, ao meio,  nossa reflexão anterior, com a promessa de dar-lhe continuidade....

     Não obstante aparentar uma perfeita confissão de fé, "Deus acima de tudo" virou bandeira ideológica nas mãos de movimentos fascistas, de extrema direita, que voltaram a medrar mundo afora. Seu apelo de teor espiritual, transcendente, facilmente ilude um grande número de incautos e simplórios, que nunca levantam dúvidas quando são cortejados com o nome de Deus. Mas os que aliam fé e lucidez desconfiam de ocultas intenções.

     A que Deus estão se referindo? Se for ao Deus dos cristãos, terão que se confrontar com as palavras do apóstolo Paulo: "Embora sendo de natureza divina, Ele se humilhou, assumindo nossa natureza humana, fazendo-se igual a nós em tudo, menos no pecado" cf. Fil.2,5ss. O Deus da nossa fé, portanto, não é o que fica nas alturas e sim o que desce e se faz um a mais, no meio de nós.

     Confinado entre duas aspas e manipulado ideologicamente, seu nome se presta ao arbítrio de cada um para dar-lhe a identidade que lhe aprouver. Para uns, "Jesus", para outros "Luta  contra o comunismo", para estes, "Cruzada anti-aborto", para aqueles "Morte ao PT", garantindo-se, em todos os casos, sua ideologia latente, a saber, o conservadorismo, o "status quo", a supremacia das classes dominantes.

     A última coisa que seus fiéis devotos admitem é a de serem convencidos de que eles não tem razão. Daí seu intolerante maniqueísmo. "Nós estamos com a Verdade, os que divergem de nós estão com a Mentira. A Verdade não pode dialogar com a Mentira, tanto quanto Deus não dialoga com satanás. Imaginem, um belo dia o diabo aparece em nossa casa e nos convida para uma conversa amigável. Quem vai confiar em amizade com o capiroto! Temos de enxotá-lo imediatamente: xô, satanás! Assim também, se nossos adversários chegarem com seus argumentos racionais, não vamos discutir, vamos enxotá-los com nossos gritos de guerra ( Comunistas! Ateus! Bolivarianos! Petistas!).

    Estas idéias deixam aberto e limpo o campo onde brota e cresce a "teologia da prosperidade" Esta convoca os seus seguidores a participar ativamente da política, não em vista da transformação social, da conquista de um mundo mais igualitário, e sim para a luta da Bem contra o Mal, cujas fronteiras são delimitadas pelos ministros de suas igrejas. O mal é representado por todas as forças que divergem do seu modo de ver e julgar a realidade.

     O sucesso material será o aval de Deus. O enriquecimento não trará consigo nenhuma responsabilidade social, uma vez que ele procede de um privilégio para os escolhidos de Deus, e não é destinado para todos.

     O ensinamento de Jesus se coloca diametralmente na contra-mão desta ideologia. "Não ajunteis para vós tesouros nesta terra, onde as traças roem e os ladrões roubam.... pois onde está o vosso tesouro aí estará o vosso coração" MT.6,19. "As raposas tem suas covas e as aves, os seus ninhos, mas eu não tenho sequer onde repousar a cabeça" Mt.8,20. "Como é difícil um rico entrar no Reino de Deus" Mt.19,23.  Jesus não prega o estado de pobreza como desígnio de Deus para seus filhos e filhas, mas sim a partilha dos bens e riquezas na perspectiva da justiça e da fraternidade, em vista da felicidade geral.

     A "teologia da prosperidade" inverte a doutrina cristã. Ela é materialista e individualista no seu código genético.

      A pandemia do coronavirus expôs às claras a farsa do fundamentalismo. O tenebroso vírus não faz distinção de classe social, de fortuna, de religião, de igrejas. Pobres e ricos superlotam as UTIs. Como reagem seus líderes? Após os primeiros ensaios de rebeldia contra o isolamento e, a seguir, as delirantes promessas de curas milagrosas, tiveram que recolher-se ao silêncio compulsório e à contagem de seus prejuízos financeiros.  

     Enquanto isso, Deus continua falando através dos acontecimentos, e ecoa no tempo a advertência de Jesus: "Nada há de oculto que não venha um dia a ser revelado" Lc.12,2

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 

sábado, 9 de janeiro de 2021

PRÓSPERO ANO NOVO EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


 


FREI ALOÍSIO FRAGOSO

 

     PRÓSPERO ANO NOVO é uma fórmula tradicional, consagrada pelo uso, de se fazer bons votos na passagem de um ano para outro. Neste 2021, no entanto, ela soa meio em falsete. Para ser nova, teria de submeter-se a uma super hemodiálise, a fim de depurar todo sangue infectado em 2020, não só pelo coronavirus, mas por outros vírus não menos letais. Para ser próspero, teria que operar  uma mudança radical em seus conceitos de prosperidade.

     Logo nesta primeira semana do ano, assistimos a um novo "Dia do Fico". O primeiro foi proclamado pelo Imperador Pedro I, no ano de 1822: "se é para o bem de todos e para a felicidade geral da nação, diga ao povo que fico". O de ante-ontem parecia sair das trevas: "o Brasil está quebrado e eu não posso fazer nada. Vão ter que me aguentar até 2022."

     Trata-se de uma declaração diabólica, no sentido etimológico da palavra "diabo" (aquele que gera divisão). De fato, o diabo nunca ruge e muge pensando em provocar rejeição global e sim para dividir a platéia. Uma parte de cidadãos e cidadãs dessa "pátria mãe gentil" deve ter aplaudido o seu capitão: "é disso que precisamos, de um governo fraco, que deixe em nossas mãos as rédeas do poder. Este é o nosso Presidente".

     Já não se escuta o eco do clamor dos primeiros tempos da pandemia: "o mundo nunca mais será o mesmo". Prefere-se dar ouvidos a um outro grito maior em volume e percussão: "nada vai mudar. Tudo voltará a ser como era antes. Não admitimos nenhum perda, nenhuma perda de lucros, nenhuma perda de poderes, nenhuma perda de liberdade."

     Estes surtos de realismo rouba-nos o direito de augurar um próspero ano novo para os companheiros de jornada? Absolutamente. Sem utopias, desabam as forças vitais da História. Precisamos, antes, entender o que se esconde por trás deste embate entre anjos e demônios que parece conduzir a evolução da História humana.

 

     A irracionalidade não é  sempre prova de ignorância ou estupidez. Muitas vezes ela compõe uma estratégia subreptícia dos Sistemas de Poder de índole fascista. Para estes o exercício do pensamento lógico e crítico deve ser atributo exclusivo de uma pequena cúpula. Os milhões de cidadãos, privados do acesso ao Conhecimento, passam a formar um rebanho, um gado, ou outro nome equivalente para designar subserviência e passividade.

     Por outra parte, seus ideólogos sabem que os indivíduos não sobrevivem sem uma mística compensatória. Política e Economia satisfazem algumas necessidades básicas do ser humano, porém deixam em descoberto suas carências espirituais. Onde é então que vão buscar respaldo para preencher o vazio que o consumismo e o materialismo prático deixam nas pessoas? - Na chamada "espiritualidade da prosperidade", a doce teologia adotada pelo fundamentalismo religioso, nos últimos anos. Descrita de maneira nua e crua, a concepção neoliberal do progresso, fundada na concorrência, na competição, com o irrecusável triunfo dos mais fortes, dos mais espertos e o descarte dos fracos e deserdados, soaria como um tiro de misericórdia aos ouvidos de cristãos e não cristãos. É preciso infiltrar-lhe umas doses de espiritualidade.

     A teologia da prosperidade enquadra-se aí como uma luva. Na sua doutrina, a riqueza é manifestação da benção de Deus, como recompensa por méritos adquiridos, e a pobreza, ao contrário,  resulta de uma maldição divina,  de culpa e demérito. Os ricos acertaram bem suas contas com Deus, os pobres falharam redondamente. Foram preguiçosos, viciados, idólatras. Um evangelista da Argentino, americano naturalizado, pregava abertamente "O Terceiro Mundo é pobre porque é idólatra". Os ricos já estão abençoados, como prova a sua fortuna acumulada de bens materiais. E os pobres? A estes cabe descobrir a origem da sua maldição, faltou-lhe a fé? Estão contaminados por algum pecado oculto? Será culpa de um antepassado? Resta-lhe o conforto de recorrer a ritos religiosos, como por exemplo a aspersão de água benta sobre suas carteiras profissionais.

    Trata-se de uma espécie de transação financeira com Deus. Quanto maior a oferta, maior a benção. Um certo pastor, questionado enquanto desfilava em seu carrão de luxo, deu uma resposta esclarecedora: "eu ensino a prosperidade, eu vivo a prosperidade".

 

     Os beneficiados por este tipo de espiritualidade ficam muito bem representados com a seguinte legenda em sua bandeira de frente: "DEUS ACIMA DE TUDO".

(Continua na próxima Reflexão)

 Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

ENTRAR NO ANO NOVO



por Frei Betto

         Inicia-se mais um ano. Hora de relembrar, examinar, avaliar. E fazer propósitos para os próximos doze meses: comer menos, fazer exercícios, ser mais generoso, esbanjar elogios, votar nas eleições municipais em quem realmente se dedique a assegurar qualidade de vida à população... Dentro do coração latejam anseios de vida e mundo melhores. Como alcançá-los?
         Quem sou eu para dar conselhos! Conheço o tamanho de minhas falhas, a dimensão de meus erros. Nem por isso deixo de partilhar com os leitores meia dúzia de opiniões que, se carecem de fundamento, ao menos aquecem o debate.
         Saudade. Vocábulo português sem similar em muitos idiomas. De que temos saudades? Do amor perdido? Da infância feliz? Do parente falecido? Sim, mas sobretudo de nós mesmos.
         Talvez o fim e o início do ano sejam os momentos em que mais aflora a disposição de fazer exame de consciência. Saudade de estar exilado do que realmente sou. Tem saudade de si quem anda exilado do que realmente é. Corre-se o risco de ter como epitáfio o verso de Fernando Pessoa: “Fui o que não sou”. Não quero ser o que não sou. Mas admito a pertinência das palavras do apóstolo Paulo: “Faço o que não aprovo; pois o que aprovo não faço” (Carta aos Romanos 7,15)
         É hora de pagar o nosso resgate. Livrar-nos da condição de refém insatisfeito de nossos próprios vícios e incoerências. Resgatar-se é empreender árdua jornada rumo à própria interioridade. Não apenas como fez De Maistre dentro do próprio quarto. Mas ir aonde reside a verdadeira identidade – ao mais profundo de si.
         Como fazê-lo? O processo psicanalítico é, nesse caso, de grande valia. Entretanto, implica recursos nem sempre ao alcance de todos. Faço, pois, singela proposta: meditar. Eis um caminho viável a todos. Bastam disposição e tempo. Vontade e método.
         Lido há anos com grupos de oração. Com eles aprendo lições importantes concernentes à meditação. Não existe um único método. São tantos quantos os meditantes. Cada pessoa deve descobrir e desenvolver o método que lhe convém: sentado ou andando, de olhos fechados ou entreabertos, ao acordar ou no fim da tarde, em silêncio ou ao som de uma suave melodia, concentrado no mantra ou na respiração etc.
Um detalhe é importante: reservar tempo à meditação, assim como se faz à refeição, ao sono e ao banho. Sem criar na agenda espaço específico para isso, fica difícil.
         É preciso ter disposição. Saber “perder tempo”. Livrar-se da ideia utilitarista de que “tempo é dinheiro”. Mergulhar, por um momento, no saudável espaço da ociosidade espiritual. Disposição significa disciplina. Não se medita sem se dar tempo.
         Aos iniciantes recomenda-se marcar no relógio um tempo mínimo de meditação. Sugiro 20 minutos. Enquanto o despertador não soar, não mude a postura escolhida para meditar. Aos poucos, aumenta-se o tempo, na mesma proporção que se consegue esvaziar a mente e centrar a atenção no plexo solar, embebendo-o da presença inefável de Deus. Ou do Vazio.
         O que fazer para melhorar o mundo? Há pequenos gestos, como observar normas de lixo seletivo, economizar água e energia, plantar árvores e defender a preservação do meio ambiente. Há gestos mais amplos, como associar-se a um esforço comunitário, seja em igreja, sindicato, clube, ONG ou iniciativa voltada à responsabilidade social. Vínculos de solidariedade se estreitam através de trabalhos voluntários, lutas partidárias, pressões sobre o poder público ou denúncias de abusos de empresas, como anúncios lesivos às crianças ou produtos com altas doses de substâncias prejudiciais à saúde, como embutidos, transgênicos e placas de amianto.
O mundo é o que dele fazemos. E nele interferimos por participação ou omissão. Não existe neutralidade. Isso vale para a nossa saúde pessoal e coletiva. A indiferença não faz a diferença.


Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ANO NOVO, VIDA NOVA


 por Frei Betto

       Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

       Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

       Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

       Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

       Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

       No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

       Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

       Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

       Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

       Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

       Feliz homem novo. Feliz mulher nova.
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Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

PARA TORNAR FELIZ O ANO NOVO


por Marcelo Barros

Nesses dias, por todo o mundo, as pessoas dizem umas às outras os votos de feliz ano novo. Há quem acredite que, pelo fato de se falar, quase automaticamente, o desejo se torna realidade. Outros pensam que o próprio desenrolar do tempo faz as coisas ficarem melhores. De fato, em todo final de dezembro, deseja-se que o próximo ano seja melhor. No entanto, o que tem ocorrido é que, ao menos recentemente, o mundo tem se tornado menos justo com os trabalhadores e menos respirável. A riqueza se concentra nas mãos de uma ínfima minoria de privilegiados e as condições de vida de bilhões de pessoas são cada vez mais precárias.

Neste 2018, os desafios da paz se tornam mais urgentes, já que os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte prometem ao mundo explodir bombas nucleares que ameaçam não apenas a vida deles, mas de toda a humanidade. No Brasil, a cada dia os trabalhadores e os pobres veem mais direitos adquiridos serem roubados. Na América Latina, o sonho de uma pátria grande solidária exige mais esforços. A guerra dos meios de comunicação contra qualquer transformação do mundo a favor dos empobrecidos continua implacável.

No mundo inteiro, movimentos sociais organizam as bases para uma aliança de toda a humanidade pela Paz, Justiça e Comunhão com o Universo. Grupos da sociedade civil trabalham pelo Conselho de Segurança dos Bens Comuns, principalmente, a água, as sementes e o conhecimento. No Brasil, os grupos sociais reunidos em Frentes se preparam para organizarem referendos revocatórios de todas as medidas anticonstitucionais implementadas por um governo ilegítimo e por um congresso que, em sua maioria, se deixou comprar por empresas privadas.   

Alguns povos tradicionais ainda guardam costumes como, na noite do ano novo, queimar toda a roupa usada e iniciar esse tempo com uma roupa nova, símbolo de vida renovada. Na madrugada do primeiro dia do ano, fieis dos cultos afrodescendentes vão às praias e rios com flores e oferendas aos espíritos do céu e da terra. Em nome de todos os seres humanos, cantam sua disposição de amor e de comunhão universal.

Para 2018, muitas organizações sociais inseridas na caminhada do povo mais pobre planejam, para todos as regiões do Brasil, uma série de congressos de diálogo com a população. Esses congressos culminarão em um grande Congresso do Povo que discutirá o Brasil que a maioria dos brasileiros desejam e pelo qual as diversas categorias de trabalhadores lutam. Em março próximo, cidadãos e cidadãs do mundo inteiro se reunirão em Salvador, BA, para mais um Fórum Social Mundial. Dessa vez, o Fórum terá como tema a resistência do povo e dos grupos sociais como elemento fundamental na construção de um mundo novo necessário e possível.

No Fórum Social, ocorrido em Túnis, na África, em 2015, havia um grande folder no qual estava escrito: "A humanidade precisa de uma verdadeira revolução. Só a nossa ousadia pode torná-la possível". Essa ousadia comunitária parte da convicção de que o amanhã pode ser diferente. As organizações sociais brasileiras sustentam que, para isso, não podemos aceitar "nenhum direito a menos".  Elas tecem as condições para que possamos fazer nacionalmente um referendo revocatório que anule as medidas contra o povo tomadas pelo governo nos últimos dois anos. No plano mundial, entram na campanha internacional para 1 - declarar ilegal a pobreza e não os pobres que a sofrem. 2 - organizar a sociedade de modo que a economia e as finanças sirvam para a vida da humanidade e não para o lucro de 60 famílias mais ricas do mundo.  3 - desarmar o mundo e impedir a guerra como negação da vida e da convivência humanas.

Se ao ler essas propostas, você se sente comprometido a trabalhar por elas e a dedicar todo seu esforço para que isso se torne possível, certamente, mesmo antes de alcançarmos esses objetivos santos e espirituais, você já pode sim sentir-se mais realizado como pessoa humana e estará testemunhando que trabalha para que 2018 seja um ano novo mais feliz para toda a humanidade. Para os cristãos, nos alegra mais ainda a fé de que, nesse caminho, estamos sempre acompanhado por Jesus ressuscitado que disse a seus discípulos/as: "Eu estarei com vocês todos os dias, até que esse tempo se complete" (Mt 28, 20).
  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br 


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

ANO NOVO, VIDA NOVA

por Frei Betto


         Chegamos a 2017! Estamos a nos aproximar mais perto de nós mesmos?

         Há uma abissal distância entre o que somos e o que queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas. 

         Agora, nas atuais circunstâncias, a ameaça de desemprego; o salário exíguo em um país tão caro; o (des)governo sem rumo; a sombra de Trump.

         Em volta, a violência da paisagem urbana e a nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se moradores de rua fossem cogumelos espontâneos e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme sequestro e brada contra bandidos, abastece o crime ao consumir drogas e corromper o poder público.

         Ano novo, vida nova. No fundo da garganta, o travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: a oração em família, o amor sem pressa, a leitura dos místicos, o diálogo amigável com os filhos, a solidão entre matas, o gesto solidário capaz de amenizar a dor de um enfermo. 

         Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-se do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos.

         Ano novo de incertezas. Olhemos a cidade, o estado, o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional, o saneamento? Nosso bairro tem bom sistema sanitário, as ruas são limpas, há áreas de lazer? Participamos do debate sobre o orçamento municipal? Os políticos em quem votamos têm desempenho satisfatório? No combate à violência, eles remetem às áreas de conflito policiais ou professores?

         Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo através de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

         Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

         Feliz ano novo a quem se propõe a trocar o lamento pela ação, a queixa pela pressão, o protesto pela proposta. E está disposto a sair de si para organizar a esperança.


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Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros.
Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 
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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

FELIZ ANO NOVO PARA O POVO BRASILEIRO


Por Marcelo Barros


Os votos de feliz ano novo que, nesses dias, costumamos dar uns aos outros, dificilmente se tornarão reais, se o Brasil não conseguir superar a crise social, política, econômica, ecológica e cultural que  o ameaça. Esperamos que nesse ano que passou, nossa presidenta tenha aprendido que governo não é instrumento musical que se pega com a mão esquerda e se toca com a direita. Quem vem da esquerda e faz isso corre o risco de ser abandonada pela esquerda que a apoiou. Ao mesmo tempo, mesmo com todos os seus agrados, não consegue conquistar a direita que jamais aceita perder o poder. 

No caso da elite brasileira, por sua natureza, essencialmente, depredadora, sempre rejeitará qualquer pessoa que vier de uma tradição mais popular. Mesmo sem ter muitas perspectivas pela frente, os movimentos sociais e as pessoas mais conscientes sabem que solução nenhuma virá do impedimento da presidente, nem da substituição do governo por algum ato induzido de renúncia. Mesmo se a presidente continuar incapaz de dialogar, as alternativas legais não parecem melhores. Se quisermos mudanças reais para melhor, teremos de fazer um trabalho imenso nesse ano novo. Uma luta maior do que a do pequeno Davi contra o gigante Golias. No nosso caso, se trata de vencer os grandes meios de comunicação, dominados pela elite. O Congresso Nacional é formado por uma maioria de parlamentares que tiveram suas campanhas financiadas por grandes empresas. Eles só participarão em um projeto de Brasil justo e verdadeiramente democrático se forem pressionados pelos movimentos sociais e pelas manifestações de massa. É urgente retomarmos a luta por uma verdadeira reforma política. Ela deveria ser feita por uma Constituinte exclusiva e soberana, eleita para isso pelo povo. No entanto, na atual conjuntura, isso é impossível. 

Quando era possível, os governantes do momento, seja Lula, seja Dilma, não deram o apoio necessário a essa causa. Agora, só um milagre. Esse milagre é possível e depende de nós. Temos de recomeçar o trabalho de formiguinha e ajudar a sociedade a se dar conta de que o clamor do povo organizado será capaz de exigir as transformações das quais o Brasil precisa.

Para esse 1o de janeiro de 2016, o papa Francisco escolheu como tema para o 49o Dia Mundial da Paz o lema: “Vence a indiferença e conquista a paz”. Se aplicarmos isso à realidade brasileira, compreenderemos que temos de vencer a inércia e o acomodamento de quem pensa que não pode mudar a situação e confiar novamente na força do povo organizado que não tem poder de lei, mas pode fazer pressão e criar as condições para a mudança que a tradição bíblica chama de paz, justiça e verdade.

O nosso voto de feliz ano novo não será o do comércio que propõe prosperidade. Preferimos felicidade para todos . Ela nos vem da promessa de um mundo novo e uma terra renovada. Essa palavra nos vem de Deus. Como diz a Bíblia, é como uma espada de dois gumes que penetra até as entranhas (Hb 4). “É como a chuva que cai, molha a terra. E não volta ao céu sem ter cumprido sua missão de fecundar e produzir o grão” (Is 55). Desejar feliz ano novo não garante força para transformar organizações e sistemas do mundo. No entanto, podemos colaborar para que ocorram as condições necessárias para as mudanças. Então, expresse para os seus e para todos o desejo de um feliz ano novo que seja não apenas para os seus familiares e amigos e sim para toda a humanidade. No Brasil, desejar feliz ano novo pede de nós um verdadeiro compromisso social, solidário e renovador. Então se tornarão verdadeiras em sua vida, as palavras de uma antiga bênção celta: “O vento sopre suave em teus ombros. Que o sol brilhe suavemente sobre o teu rosto, as chuvas caiam serenas onde vives. E até que eu te encontre de novo, Deus te guarde na palma de sua mão”.


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

FELIZ ANO-NOVO



Frei Betto


       Feliz Ano Novo aos que acordam em 2015 sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha.

       Feliz ano a quem não sonega afetos, arranca de si fontes onde borbulham transparências e não mira os que lhe são próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

       Felizes os que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; e, generosos, ousam a humildade.

       Feliz Ano-Novo a todos que despertam ao som de preces e agradecem o tido e não havido, maravilhados pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos.

       Bom ano a quem gosta de feijão e se compraz nos grãos sobrados em prato alheio. A quem mira a vida como dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus.

       Novo seja o ano daqueles que não tropeçam na própria língua, sonegam palavras ácidas, desaprendem a maledicência e semeiam fragrâncias nas veredas dos sentimentos.

       Seja também feliz o ano de quem se guarda no olhar recatado e não mergulha no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores.

       Novo ano a quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, mundo e amor. Viver é graça para quem se dedica a acariciar rugas e trata suas limitações como cerca florida de choupana montanhesa.

       Tenham um feliz ano todos que sabem ser gordos e felizes, endividados e alegres, enfermos e otimistas, carentes de certezas mas repletos de vindouras fortunas em seus anseios.

       Feliz Ano-Novo aos órfãos de Deus e de alvíssaras, aos que se abrigam em armaduras de verdades irrefutáveis, aos cavaleiros do desassossego e às damas que recobrem, sob o pudor do corpo, a mais deslavada orgia espiritual.

       Felizes sejam, neste ano, os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vitórias inconsúteis que nada temem, exceto a expressão súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que os desprezam.

       Felizes sejam também as mulheres que devotam  amor e dor a quem merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

       Seja novo o ano para os bêbados que jamais tropeçam em impertinências, aos alpinistas que despencam do próprio ego, e para quem se agasalha de ética e não conspira contra a vida alheia.

       Feliz Ano-Novo aos que colecionam utopias, fazem das mãos arado e, com o próprio suor, regam as sementes solidárias que cultivam.

       Sejam muito felizes os velhos que não se disfarçam de jovens, e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a marca atemporal de quem se inebria de emoções férteis.

       Muitas felicidades aos que trazem em si o afago do silêncio, sentem-se muito bem acompanhados quando estão sós e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado com sorrisos de sabedoria.

       Um ano feliz aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a velhice com humor, a morte sem estranheza, e brincam com a criança que os habita.

       Feliz Ano-Novo aos sonâmbulos que trafegam nas veredas do futuro e sonham que a vida é um sonho tão real que dele não vale a pena despertar.  

       Um Ano-Novo muito feliz a todos que professam a incredulidade nos ídolos de pés de barro, veneram bens invisíveis, andam pelas madrugadas destronando o medo e acordam o galo que desperta o alvorecer.

       Muito Feliz Ano-Novo a todos que creem no que não merece fé e têm fé nos lampejos da dúvida, nos desvãos da incerteza e no mistério que instaura, como presente, o Deus vivo cuja morte é reiteradamente proclamada por quem nele deságua.

Frei Betto é escritor, autor de “Oito vias para ser feliz” (Planeta), entre outros livros. 
    
 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
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