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terça-feira, 28 de julho de 2015

O PAPA, A IGREJA E OS MOVIMENTOS SOCIAIS


Por  Marcelo Barros


Na América do Sul, esse julho foi marcado pela visita do papa Francisco a três países: Equador, Bolívia e Paraguai. Antes de partir de Roma, ele declarou ter escolhido visitar três dos países mais pobres do continente. A novidade dessa visita é que os meios de comunicação social que transmitiam as visitas dos papas anteriores quase durante 24 horas e em tempo real, já não se movem tanto com o papa Francisco. E ele tem certa responsabilidade nisso. De fato, imprimiu outro estilo às viagens papais.Não reproduz rituais de corte medieval e faz questão de privilegiar um modo de ser simples e pastoral. Como ainda não deixou de ser chefe de Estado, é acolhido pelos governantes, mas dedica a esses menos atenção e dá mais tempo ao encontro com comunidades pobres e carentes. No lugar de temas da Moral sexual ou de assuntos internos da Igreja,aborda quase sempre a necessidade de uma nova organização do mundo que faça justiça aos pobres. Nessa sua visita ao nosso continente, por onde passava, afirmou: “Em um mundo onde há tantos agricultores sem terra, tantas famílias sem casa, tantos trabalhadores sem direitos”, onde explodem “guerras insensatas” e a terra é devastada, isso significa que é preciso uma mudança”. Na Bolívia, falou da “conquista europeia”  de modo claramente crítica e não como descobrimento. Pediu perdão aos índios pela cumplicidade da hierarquia e do clero católico na violência da conquista europeia.

Ele dá o exemplo para padres e bispos sobre como priorizar o diálogo com os movimentos sociais. Em Santa Cruz de laSierra, se encontrou com mais de 1.500 representantes de movimentos populares aos quais ele chamou de “semeadores de mudanças e poetas sociais”. Era o segundo encontro mundial de movimentos sociais, ambos promovidos pelo papa. Na sua fala, ele se inseriu na cultura e preocupações de todos ali presentes. Em nenhum momento, distinguiu crentes e não crentes. No estilo dos profetas bíblicos, propôs justiça social e transformação do mundo. Dessa vez, afirmou aos representantes e líderes desses  movimentos: “O futuro da humanidade está, em grande parte, nas mãos de vocês e na sua capacidade de se organizar e promover alternativas criativas.” Na periferia de Assunção, no Paraguai, visitou as 23 mil famílias que ocupam a área de Bañado Norte. Há 30 anos, essas famílias pobreslutam pelo título de propriedade. Ao afirmar claramente que estava contente por estar com eles e “na terra deles”, o papa disse claramente ao mundo inteiro que reconhece o direito deles à terra e ao título de propriedade.

Quando falou a grupos de Igreja, disse claramente: “não importa a quantas missas de domingo você foi, se você não tem um coração solidário. Se você não sabe o que está acontecendo em sua cidade, sua fé é muito fraca, está doente ou morta.” E convidou bispos, padres e agentes de pastoral a mudar a compreensão que muitos ainda têm da missão eclesial. Não é cristã uma Igreja voltada para si mesma e cujo trabalho seja meramente religioso. O papa afirmou fortemente que toda a Igreja deve estar disposta a “acompanhar as pessoas que buscam superar as graves situações de injustiça que sofrem os excluídos em todo o mundo”.

Quando acompanhamos os movimentos e palavras do papa Francisco, o mais estranho não é que os meios de comunicação censurem as palavras do papa se esse condena o Capitalismo e diz que a atual estrutura social e econômica do mundo tem de mudar. O mais estranho é que esse silêncio e censura ocorra também nos ambientes do clero e da hierarquia eclesiástica. Apesar de que, normalmente, ninguém abre a boca para criticar o papa, muitos padres e bispos, formados nas décadas de condenação clara da teologia do Concílio Vaticano II, parecem esperar tudo isso passe e possamos voltar aos bons tempos de antes. Poucos bispos em suas dioceses e padres em suas paróquias se sentem interpelados a dialogar com os movimentos sociais e neles se inserirem como o papa Francisco faz e propõe a partir do evangelho. No domingo passado, nas comunidades católicas, o evangelho proclamado nas missas afirmava que Jesus tinha querido fazer um retiro com os seus apóstolos do outro lado do lago de Genesaré. No entanto, muitospobres souberam que eles iriam para lá. Tomaram barcas e chegaram antes de Jesus e dos apóstolos. E o evangelho termina afirmando que, “quando Jesus os viu, sentiu suas entranhas se moverem de uma compaixão materna e sentiu piedade deles, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6, 30 – 34).


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países









segunda-feira, 27 de julho de 2015

AFINIDADES ENTRE A ENCÍCLICA DO PAPA SOBRE “O CUIDADO DA CASA COMUM” E A “CARTA DA TERRA, NOSSO LAR”


Por Leonardo Boff



A encíclica “Cuidado da Casa Comum” e a “Carta da Terra” talvez sejam os dois únicos documentos de relevância mundial que apresentam tantas afinidades comuns. Tratam do estado degradado da Terra e da vida em suas várias dimensões, fora da visão convencional que se restringe ao ambientalismo. Inscrevem-se dentro do novo paradigma relacional e holístico, o único, assim nos parece, capaz de ainda nos dar esperança.

A encíclica conhece a Carta da Terra que a cita num dos pontos mais fundamentais:”atrevo-me a propor de novo o considerável desafio da Carta da Terra: como nunca antes da história, o destino comum nos obriga a procurar um novo começo”(n. 207). Esse novo começo é assumido pelo Papa.

Elenquemos algumas dessas afinidades, entre outras.

Em primeiro lugar comparece o mesmo espírito que pervade os textos: de forma analítica, recolhendo os dados científicos mais seguros, de forma crítica, denunciando o atual sistema que produziu o desequilíbrio da Terra e de forma esperançadora, apontando saídas salvadoras. Não se rende à resignação mas confia na capacidade humana de forjar um novo estilo de vida e na ação inovadora do Criador, “soberano amante da vida”(Sab 11,26).

Há o mesmo ponto de partida. Diz a Carta:”os padrões dominantes de produção e consumo estão causando a devastação ambiental, a redução dos recursos e uma maciça extinção de espécies (Preâmbulo, 2). Repete a encíclica:”basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum…o atual sistema atual é insustentável, a partir de vários pontos de vista”(n.61).

Há igual proposta. Assevera a Carta:”São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida”(Preâmbulo,3). A encíclica enfatiza:”Toda aspiração a cuidar e a melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades”(n.5).

Grande novidade, própria do novo paradigma cosmológico e ecológico é a afirmação da Carta:”nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados e juntos podemos forjar soluções includentes”(Prâmbulo, 3). Há um eco desta afirmação na encíclica:”Ha alguns eixos que travejam toda a encíclica: a íntima relação entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia, o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia e a proposta de um novo estilo de vida”(n. 16). Aqui vale a solidariedade entre todos, a sobriedade compartida e “passar da avidez à generosidade e à partilha”(n.9).

A Carta afirma que “há um espírito de parentesco com toda a vida”(Preâmbulo 4). O mesmo afirma a encíclica:”Tudo está relacionado e nós, seres humanos caminhamos juntos como irmãos e irmãs…e nos unimos também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n.92). É a franciscana fraternidade universal.

A Carta da Terra enfatiza que é nosso dever “respeitar e cuidar da comunidade de vida… respeitar a Terra em toda a sua diversidade”(I,1) Toda encíclica, a começar pelo título “cuidar da Casa Comum” faz desse imperativo uma espécie de ritornello. Propõe “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”(n. 216) e “uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade “ (n.231). Aqui surge o cuidado não como mera benevolência pontual mas como um novo paradigma, amoroso e amigo da vida e de tudo o que existe e vive.

Outra afinidade importante é o valor dado à justiça social. A Carta sustenta forte relação entre ecologia com “a justiça social e econômica” que “protege os vulneráveis e serve “aqueles que sofrem”(n.III,9 c). A encíclica atinge um de seus pontos altos ao afirmar “que uma verdadeira abordagem ecológica deve integrar a justiça para ouvir o grito da Terra e o grito dos pobres”(n.49; 53).
Tanto a Carta da Terra quanto a encíclica sublinam contra o senso comum vigente que “cada forma de vida tem valor, independentemente de seu uso para os humanos”(I, 1, a). O Papa reafirma “que todas as criaturas são interligadas e deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros”(n.42). Em nome desta compreensão faz uma vigorosa crítica ao antropocentrismo (nn.115-120), pois ele apenas vê a relação do ser humano para com a natureza usando-a e devastando-a e não vice-versa, esquecendo que ele faz parte dela e que sua missão é de ser o seu guardião e cuidador.

A Carta da Terra formulou uma definição de paz que é das mais felizes já realizadas pela reflexão humana:”a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo do qual somos parte”(16, f). Se a paz, segundo o Papa Paulo VI, é “o equilíbrio do movimento”então o “equilíbrio ecológico deve ser “interior consigo mesmo, solidário com os outros, natural com todos os seres vivos e espiritual com Deus”(n.210). O resultado desse processo é a paz perene.

Estes dois documentos são faróis que nos guiam nestes tempos sombrios, capazes de nos devolver a necessária esperança da qua ainda podemos salvar a Casa Comum e a nós.

Leonardo Boff é colunista do JB online e membro da Iniciativa da Carta da Terra.



sexta-feira, 24 de julho de 2015

A AMIZADE: FORMA MAIOR DO AMOR

Por Maria Clara Bingemer



            Amigo é coisa pra se guardar...debaixo de sete chaves... já cantava Milton Nascimento com sua monumental voz.  Amigo é feito casa, que se faz aos poucos e com paciência para durar pra sempre... afirma Zélia Duncan...Amigo é pra essas coisas... cantava o MPB4 nos meus tempos de menina.

            No Brasil não se comemora tanto o Dia do Amigo.  Não é assim em outros países, como a Argentina e o resto da América hispânica.  A data é bem celebrada e amigos se paparicam uns aos outros, jantam fora, se dão presentes etc.  Já o grande escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que a única virtude de seus conterrâneos é o vício da amizade.  E é verdade – eu concordo porque tenho marido portenho. Os argentinos são convencidos, selvagens no futebol e muitas coisas mais.  Mas quando são amigos, demonstram lealdade a toda prova e morrem por você.

            Na realidade, a amizade tem tudo a ver com o amor e é deste uma das formas mais excelentes e profundas.  A palavra tal como a pronunciamos deriva do latim “amicus” (amigo), que possivelmente se derivou de amor, amar. É uma relação afetiva profunda entre pessoas sem características romântico-sexuais. Envolve conhecimento mútuo e afeição, e supõe lealdade até a morte, até o ponto do altruísmo e do sacrifício. Pode e efetivamente acompanha igualmente relações de outro tipo: entre pais e filhos, entre irmãos e mesmo entre namorados e cônjuges.

            Envolve um tanto de gratuidade e dedicação, e de aceitação do outro tal como ele é.  Amigos podem ser diferentes, mas se aceitam e se acolhem com todas as suas diferenças, amando-as e não rejeitando-as. Por isso, os amigos são pessoas que se conhecem muito entre si, mais que os próprios familiares e cônjuge.  São depositários de toda a confiança recíproca e muitas vezes são confidentes privilegiados.

            Esta é a razão pela qual a amizade é cantada pela música, celebrada pela poesia e santificada pelas religiões.  Seu valor é ser uma experiência humana de vital importância.  A Bíblia narra e comenta casos de amizade prototípicos que inspiraram a humanidade ao longo dos séculos.  No primeiro livro de Samuel, a amizade entre Davi, que depois seria rei, e Jonatas, filho do rei Saul, é uma dessas. E o glorioso rei Salomão  escreveu a sabedoria da Amizade em seus Provérbios: "Em todo o tempo ama o amigo, e na angustia se faz o irmão"

No Novo Testamento, Jesus de Nazaré exalta a amizade – philia – e a cita como exemplo de sua relação com os discípulos.  “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.” Pronuncia essas palavras ao comparar-se a uma videira da qual os discípulos são os ramos e Deus Pai o agricultor.  E acrescenta:  “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos...Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.”

Já na Antiga Grécia, o termo “philia” – o mesmo que emprega o Novo Testamento – é traduzido geralmente como “amizade” e, às vezes, também como “amor”. Aristóteles dá vários exemplos de “philia”, desde amantes até membros da mesma comunidade religiosa, mas destaca os amigos para toda a vida. E o Estagirita não deixa de sublinhar que se trata de uma experiência eminentemente humana, e não pode ser vivida com animais, sendo possível apenas usar o termo “philia” com animais de estimação.

O conteúdo central da “philia” é, portanto, o de fazer bem a alguém e também recebê-lo de alguém.  Aristóteles ainda ousa acrescentar que a “philia” é necessária como um meio para atingir a felicidade, afirmando literalmente: “Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo se tiver todos os outros bens”.

Assim tenta explicar Jesus de Nazaré aos discípulos quanto os ama e quanto os considera seus amigos.  E isso certamente não é pelas virtudes desses: o covarde Pedro, o traidor Judas, os violentos filhos de Zebedeu, o corrupto Mateus e os outros que nada entendiam por mais que ele explicasse.

Ser amigo é assim.  É amar pelo que o outro é, com virtudes e defeitos.  E por isso é tão bela a amizade, ungida inclusive pela vivência e ensinamento do Filho de Deus Encarnado.  Amigos devem ser os cônjuges senão nada sobrará da ardente paixão dos primeiros tempos.  E os namorados, para que o namoro dure e se transforme em união durável.  E os pais, porque senão os filhos crescem e vão querer partir e não dar mais notícias. E os irmãos, senão no momento da herança se engalfinharão de maneira lamentável.

E os simplesmente amigos... bênção maior da vida, que são como casa que se faz aos poucos, tesouro a se guardar debaixo de sete chaves, alguém com quem contar em qualquer momento, mão estendida quando todos se foram. 

Bendito seja Deus pela amizade.  E benditos os amigos que ao longo da vida me amam como sou e não como desejariam que eu fosse.  Obrigada de coração a todos vocês.  E vocês sabem que podem contar comigo.  Sempre... Para o que der e vier.

 A teóloga é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 

 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quinta-feira, 23 de julho de 2015

SAUDADES REMOTAS


Por Frei Betto



     Velhos têm saudades remotas. Talvez não se lembrem onde deixaram os óculos ou em que gaveta guardaram a última conta de luz. São capazes, no entanto, de recordar a infância e o dia em que ganharam de presente um cavalinho de pau.

     Quem sabe o próprio cérebro se retorce na direção do passado, como o último olhar do navegante desterrado de sua pátria. Sim, guardo na memória a foto de meus sapatos de solas de pneu, o uniforme escolar recendendo a sabão de coco, os cadernos e os livros disciplinadamente encapados com papel encerado.

     Guardo saudades do milk-shake da lanchonete De Lucca, do picolé de chocolate da padaria Savassi, dos bondes a escorregarem pelos trilhos que teciam colares prateados pelas ruas arborizadas de Belo Horizonte.

      Tiro da memória retalhos imateriais: o respeito às mulheres e aos idosos, a quem os mais jovens cediam assento nos transportes coletivos; a veneração aos professores, mestres em ampliar conhecimentos e impor disciplina; a reverência aos valores espirituais; os domingos de missa obrigatória.

     Saudades de remar no lago do Parque Municipal, dos piqueniques à beira da lagoa da Pampulha, dos quintais a ensombrearem as casas desprotegidas do medo.

     Sinto o sabor do refrigerante Guarapan; do doce de leite servido nas feiras em copinhos de sorvete; dos pastéis de nata; das balas de coco recortadas a tesoura; e até do que o paladar rejeitava, como a Emulsão Scott à base de óleo de fígado de bacalhau.

      Saudades da infância despreocupada pelas ruas mal iluminadas, do matagal dos terrenos baldios, dos gibis e das figurinhas de coleção. Do trânsito desestressado, dos políticos que morriam pobres, dos trens revestidos de pujança e poesia.

     Recordo os carnavais de rua ao ritmo de uma graciosidade que ainda não se transformara em espetáculo; as procissões com suas Verônicas sensuais a enxugar o rosto macerado de Jesus; os desfiles de 7 de setembro em que os militares eram aplaudidos, desarmados do estigma da ditadura.

     De tanto sonhar com um futuro melhor, hoje me surpreendo acreditando que melhor foi o passado. Não havia crianças de rua, a escola pública era disputada pelas famílias abastadas, as drogas não ameaçavam, de terrorismo nem se falava.

     Vivia-se em um mundo encantado, respirava-se ar saudável, havia decoro.

     Ilusão ou era mesmo um mundo melhor? Não, naqueles tempos era inimaginável falar em proteção do meio ambiente, supor um presidente negro na Casa Branca ou um ex-metalúrgico no Alvorada. Não se concebia a Ásia e a África sem colônias europeias, nem a opinião pública indignada com trabalho escravo, desrespeito aos direitos humanos e políticos corruptos.

     Em muitos aspectos a humanidade piorou: hoje está mais desigual, injusta e beligerante. Trabalha-se por dinheiro, não por ideal. A competitividade supera a solidariedade, assim como a estética corporal predomina sobre a ética espiritual. Há mais religiosidade e menos espiritualidade.

     Contudo, prefiro guardar o pessimismo para dias melhores.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
    
Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso Perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.