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segunda-feira, 9 de março de 2020

FEMINISMO E CONVERSÃO DA LINGUAGEM




  Maria Clara Bingemer

Quando tive meus primeiros contatos com o feminismo, a primeira conversão que percebi como necessária e urgente foi a da linguagem. Depois vieram outras e mais outras.  E críticas que converteram a conversão.  Mas essa primeira ficou.  E quando nos preparamos para celebrar o Dia Internacional da Mulher, importa relembrá-la.
Em que consiste essa conversão? Trata-se de fazer um esforço no sentido de corrigir o que se fala e diz, oralmente ou por escrito. É não dar nada por suposto e evitar toda generalização.  É romper com o esquema patriarcal e machista que sempre dominou o falar humano e que identifica a humanidade com a metade masculina da mesma. 
Interagindo com colegas acadêmicas de outros países, percebi que em suas conferências e mesmo nos diálogos mais casuais e descontraídos, jamais era por elas usada a expressão “o homem” para se referir à humanidade. Buscavam-se equivalências mais inclusivas, como “o homem e a mulher”, “o ser humano”, “a pessoa humana”.  O objetivo era ajudar a tomada de consciência de que a mulher é plenamente partícipe da humanidade criada por Deus e, portanto, não pode ser excluída nem da linguagem.  Ou mesmo sobretudo da linguagem. 
Por que toda essa importância dada à linguagem? Simplesmente porque nós, humanos, somos seres de linguagem. Nela nos expressamos, nela nos dizemos, nela nos comunicamos.  Através dela propomos, criamos. Em suma, pela linguagem e nela existimos enquanto seres livres e relacionais. 
O ser humano é fundamentalmente um ouvinte da Palavra.  Dessa escuta nascem a resposta da fé e o pensar da teologia.  Mas além de ser um ouvinte da Palavra, esse mesmo ser humano é também e não menos um ser criador e emissor de palavra, um ser de linguagem.  A linguagem descobre a realidade humana enquanto sinal e expressão, meio dessa condição.  Faz vir à tona sua capacidade criativa.
Portanto, a linguagem não apenas assimila e repete o que lhe foi revelado e ouviu acriticamente.  Mas cria realidade, a faz existir.  É, portanto, não meramente informativa, mas performativa.  Descobre e manifesta a realidade humana na medida em que a liberta.  Emancipa o ser humano da violência muda dos instintos, da rotina, do imediato; provoca a liberdade abrindo-lhe espaço criador.  
            E este que se auto compreende como ouvinte da palavra, aprende e recebe esta palavra que lhe é dada ao mesmo tempo que, enquanto ser de linguagem, a constrói e a profere.  A linguagem descobre-o e revela-o como ser que se deve a si mesmo; descobre e revela suas múltiplas conexões: origem, tradição, pertença, sociedade; descobre e revela sua realidade na medida em que lhe possibilita fazer presentes o invisível, o ausente, o passado e o futuro, a história e a transcendência; permite-lhe escapar do presente redutor e coercitivo; descobre sua realidade como ser dialógico e para os outros.  Revela, em suma, que a forma fundamental da palavra é o diálogo.
      A linguagem implica liberdade.  Implica que o ser humano é um ser feito para a comunicação, criado enquanto livre interlocutor de um Tu que o interpela e a quem ele é chamado a responder. E igualmente interlocutor dos vários “tu” humanos com os quais se encontra pelo caminho da vida. O ser humano é um ser de comunicação.  A comunicação é intersubjetividade, relacionalidade, componente essencial da vida humana.  Onde não há comunicação, não há entendimento ou comunhão.
            A palavra tem, portanto, na vida humana, função curativa, terapêutica, redentora, uma vez que devolve o ser humano a si mesmo na sua condição fundamental de ser feito para a relação com o outro. Esse é o papel da psicanálise, da direção espiritual, da confissão. Se a palavra redentora é pronunciada a tempo oportuno, humaniza e ajuda o ser humano a crescer e a tornar-se plenamente ele mesmo.
Cada ser humano é e existe graças à linguagem.  Na medida em que somos seres relacionais, existimos em nosso falar recíproco.   Mas ao mesmo tempo a linguagem participa da finitude e da limitação de tudo que é  humano.  De sua ambiguidade, velamento, mutismo.
            Celebrando o Dia Internacional da Mulher – que coincide com o tempo litúrgico da Quaresma, onde os cristãos entram em um caminho de conversão – podemos converter nossa linguagem.  Tomar consciência de que somos parte de uma humanidade criada à imagem de Deus como macho e fêmea. Não corresponde àquilo que somos mencionar somente um lado dessa imagem: o lado do macho.  Incluir o feminino na linguagem pode parecer pouca coisa.  Mas é um passo importantíssimo para construir uma sociedade menos machista e mais justa. 

Maria Clara Bingemer  é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.


Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



quinta-feira, 5 de março de 2020

ERNESTO CARDENAL (1925-2020) POETA, MÍSTICO, REVOLUCIONÁRIO



 
Por Frei Betto


        Em 1987, Afonso Borges promoveu, como primeira atividade do Projeto Sempre Um Papo, de Belo Horizonte, o lançamento do meu romance O dia de Ângelo, no restaurante La Taberna, em Belo Horizonte. Contei a Afonso que, ano seguinte, Ernesto Cardenal iria a Minas. Afonso o convidou para proferir conferência no Cabaré Mineiro, restaurante que, de cabaré, só tinha o nome, e passara a receber o Sempre Um Papo. Cardenal, ex-monge trapista, reagiu: “Mas num cabaré?...”

        Encontrei Cardenal, pela primeira vez, em 1978, em sua trincheira de guerrilheiro Sandinista: os fundos de uma das seis livrarias que circundavam a Universidade Nacional da           Costa Rica. Já o admirava por sua obra. Seu En Cuba, relato de viagem à ilha em 1970, havia passado de cela em cela em meus tempos de cárcere em São Paulo, entre 1969 e 1973.

        Filho de uma das famílias mais ricas da Nicarágua, Cardenal preferiu não seguir o caminho de seu irmão Fernando, que ingressou na Ordem dos jesuítas. Em 1957, o jovem poeta tornou-se monge trapista nos EUA. Durante dois anos, teve como mestre de noviço o místico e escritor Thomas Merton. Ao deixar a vida monástica, estudou teologia em Medellín e, em 1965, foi ordenado sacerdote em Manágua. Identificado com a Teologia da Libertação, passou a viver na paradisíaca Ilha de Solentiname, no lago ao sul da Nicarágua, onde partilhava a vida comunitária de pescadores e camponeses.

       Ernesto nada tinha da figura estereotipada de um revolucionário. Baixa estatura, ombros largos e um jeito tímido de se aproximar das pessoas, olhos vivos por trás das lentes brancas acima do sorriso suave, dir-se-ia tratar-se de um monge ingênuo e despreocupado não fosse a boina azul, semelhante à do Che, derramando cachos prateados sobre as orelhas e a nuca. Sua jaqueta verde, sobre a bata branca, assemelhava-se à dos oficiais cubanos.

        Sua função na Frente Sandinista era viajar pelo mundo a fim de denunciar os crimes de Somoza e obter apoio político. Perguntei-lhe como conciliava a contemplação com a atividade revolucionária. “Não se opõem. Pode-se trabalhar pela revolução sendo contemplativo. No sentido tradicional, há uma dicotomia entre ação e contemplação. Porém, vivo a contemplação na ação.” E frisou: “A única mensagem do Evangelho é a revolução, que ele chama de Reino de Deus, exigência de superação de todas as marcas de pecado, injustiça e opressão, até que só o amor seja possível.”

        Indaguei-lhe sobre o caráter de sua obra poética. “Em um poema que dediquei a Dom Pedro Casaldáliga, digo que escrevo pela mesma razão dos profetas bíblicos, que faziam da poesia uma forma de denúncia de injustiças e anúncio de um novo tempo.”
        Em fevereiro de 1979, voltamos a nos encontrar em Puebla, no México, durante a Conferência Episcopal Latino-Americana. Ele convenceu bispos de todo o continente a assinarem uma carta contra a ditadura somozista.

        A 19 de julho de 1980, participei como convidado oficial das comemorações do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Ali reencontrei Cardenal, nomeado ministro da Cultura. Cinco anos depois ele participaria, em Havana, da solenidade na qual lancei Fidel e a Religião, ao lado de Fidel, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

        Durante a década de 1980, assessorei o movimento sandinista, que reunia cristãos e comunistas ateus nas questões de educação popular e na relação marxismo e cristianismo. Foi, então, que Cardenal me propôs organizarmos um movimento de jovens denominado MIRE (Mística e Revolução). A ideia nunca prosperou, exceto no Brasil, onde o movimento teve sua fase expressiva no início da década de 2000 e ainda hoje mantém núcleos em algumas regiões do país, principalmente no Nordeste. A proposta é vincular a espiritualidade mística, cultivada pela meditação, ao compromisso de transformação da sociedade.

        Em sua visita à Nicarágua, em 1983, o papa João Paulo II se recusou a estender à mão a Cardenal, ministro da Cultura, que integrava o cortejo oficial para recepcioná-lo. E, em público, o repreendeu, humilhou e, 1985, suspendeu-o de suas funções sacerdotais. O papa Francisco o reabilitou em 2019.

        Em 1994, Cardenal rompeu com a Frente Sandinista, por considerar que o governo de Daniel Ortega já não mantinha coerência com os princípios revolucionários nem atendia os anseios populares

        A última vez que nos vimos foi em La Paz, em 2008, quando intelectuais e artistas latino-americanos se reuniram para manifestar apoio ao governo de Evo Morales.

        Cardenal era um poeta consagrado internacionalmente, merecedor de vários prêmios literários importantes. Um de seus versos mais famosos é este epigrama dedicado a Cláudia, que reproduzo em tradução livre: “Ao perder eu a ti, tu e eu perdemos: / eu, porque tu eras a quem eu mais amava / e tu, porque eu era quem te amava mais. / Porém, de nós dois, tu perdeste mais que eu: / porque poderei amar a outras como amei a ti, / mas a ti não te amarão como eu te amava.”

        Seu poema, Cântico Cósmico, publicado em 1990, se estende por 600 páginas! É um primor de descrição da evolução do Universo e de toda a magnitude estética da Criação, o que levou o escritor Sérgio Ramirez a qualificar a obra de Cardenal de “poesia científica”.
        A obra se inicia c
om estes versos: “No princípio não havia nada / nem espaço, nem tempo. / O Universo inteiro concentrado no espaço do núcleo de um átomo / e, antes, ainda           menor, muito menor que um próton, / e, todavia, menor ainda / um infinitamente denso ponto matemático. / E ocorreu o Big Bang. / A Grande Explosão.

        E assim termina seu mais extenso poema: “E o que vemos quando olhamos o céu noturno? / De noite vemos apenas a expansão do Universo. / Galáxias e galáxias, e além mais galáxias e quasares. / E por detrás do espaço não veríamos nem galáxias nem quasares, mas um Universo no qual nada ainda se havia condensado, / um muro escuro, / antes do instante em que o Universo se tornou transparente. / E antes ainda, o que afinal veríamos? / Quando não havia nada. / No princípio...”

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

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quarta-feira, 4 de março de 2020

A POESIA DE DEUS



por Kinno Cerqueira [1]


O Evangelho segundo João inicia-se com um belíssimo poema ao Deus-Palavra (1,1-18). Ao caminharmos por entre suas estrofes, salta aos nossos olhos este lindo verso:

E a Palavra se fez carne...
(Jo 1,14a)

A Palavra, que neste poema é identificada com Jesus, faz-se “carne” (greg. sarx), quer dizer, torna-se como nós e habita conosco, deixando-se ser ouvida, tocada, como também se pondo a ouvir-nos, tocar-nos e sentir-nos.

Dizer que “a Palavra se fez carne” é afirmar que “a Palavra se fez poesia”. No interior da sequidão de nossas vidas, apareceu-nos a poesia de Deus: Jesus, do qual se pode dizer: seus gestos foram versos de ternura; seu olhar, soneto de paixão; sua vida, extravagante poema de amor.

Jesus é a Poesia de Deus que espera por ser lida, sentida e experimentada por nós. Mais que isso, deseja inspirar-nos a que nós, igualmente, tornemo-nos versos de esperança, sonetos de compaixão, poemas de amor. E a razão para isso é clara: somente a poesia salvará o mundo.





[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.













terça-feira, 3 de março de 2020

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE E O DIA DA MULHER



Por Marcelo Barros

Anualmente, em março, a Igreja Católica no Brasil promove a Campanha da Fraternidade, sempre sobre um tema de relevância para que a sociedade possa ser mais justa e mais igualitária. Também em março, sempre no dia 08, a ONU celebra o Dia internacional da Mulher. O objetivo desta comemoração é educar toda a humanidade sobre a necessária igualdade de direitos e condições entre homem e mulher, no respeito às diferenças de gêneros e na construção comum de um mundo novo possível.

Entre os diversos assuntos aos quais a Campanha da Fraternidade se dedicou, no decorrer desses mais de 50 anos, ainda não apareceu o desafio da promoção da igualdade de gêneros. Mesmo na Igreja Católica, muitos eclesiásticos pensam existir uma ideologia de gêneros e se colocam contra esse mito. Infelizmente, embora o evangelho de Jesus tenha como princípio a igualdade absoluta entre homens e mulheres, até hoje, a Igreja Católica e as Igrejas ortodoxas não se abriram à participação igualitária da mulher e do homem nos ministérios e nos cargos de maior responsabilidade na Igreja. Como Igreja é fundamentalmente Igreja local, essa mudança só poderá ocorrer a partir das bases. E aí sim, as comunidades cristãs poderão dar um verdadeiro e profundo testemunho do reinado divino que vem a esse mundo.

É urgente  criar no mundo e nas Igrejas uma nova cultura de inclusão e superar o patriarcalismo e o machismo que fazem mal a todos, mulheres e homens. Nas sociedades tradicionais da América Latina, o machismo se infiltrou nas culturas de nossos povos. No entanto, muitas vezes, determinadas culturas, patriarcais e machistas nas relações afetivas e românticas, em outras instâncias, são matriarcais. Também o feminismo tem muitas correntes e variações. Cada uma delas nos chama a atenção para um aspecto da realidade.

Na América Latina, em movimentos indígenas e camponeses, as mulheres têm sido profetizas do cuidado com a terra, na relação de amor com a natureza e em propor novas relações no seio da família e da sociedade. A meta do bem viver tem algo que somente uma justa e profunda relação de gêneros pode alcançar.

Em todos os países da América Latina, as taxas de feminicídios, isso é, crimes nos quais mulheres são assassinadas por serem mulheres, são das mais altas do mundo. Além disso, a violência cotidiana de mulheres que são agredidas por companheiros ainda é assustadora. Nos nossos dias, ao vermos filmes e novelas sobre o tempo da escravidão, nos perguntamos como nossos antepassados puderam conviver com tanta atrocidade. Sem dúvida, no futuro, quando nossos netos e bisnetos estudarem como era o mundo em nossa época, vão saber de que lado estávamos nós e o que fizemos contra esses crimes que ocorrem sob nossos olhos e diante de nossa consciência. Não vamos poder dizer, como no mito do paraíso perdido, "a serpente nos enganou".

Nessa semana na qual o mundo inteiro será mais sensibilizado para a causa da mulher e da igualdade de gêneros, as comunidades cristãs são, especialmente, chamadas a aplicar a Campanha da Fraternidade de 2020 ao tema da solidariedade à causa da mulher. É preciso olhar toda a sociedade (não só as mulheres) como ferida pelo patriarcalismo e compreender a palavra de Jesus: vai e faze o mesmo como o apelo para que olhemos a realidade das mulheres nos meios em que convivemos, sejamos tomados pela solidariedade compassiva e juntos, mulheres e homens nos unamos no cuidado com a vida de todos e da natureza.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com