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sexta-feira, 13 de março de 2020

CORONAVIRUS: UMA REPRESÁLIA DE GAIA, DA MÃE TERRA?




leonardo boff

Hoje é um dado da consciência coletiva dos que cultivam uma ecologia integral, como tantos cientistas como Brian Swimme e o Papa Francisco em sua encíclica “Sobre o cuidado da Casa Comum” que tudo está relacionado com tudo. Todos os seres do universo e da Terra, também nós, seres humanos, somos envolvidos por redes intrincadas de relações em todas as direções de sorte que nada existe fora da relação. Esta é também a tese básica da física quântica de Werner Heisenberg e de Niels Bohr.
Isso o sabiam os povos originários como vem expresso nas palavras sábias do cacique Seattle de 1856:”De uma coisa sabemos:a Terra não pertence ao homem. É o homem que pertence à Terra. Todas as coisas estão interligadas como o sangue que une uma família; tudo está relacionado entre si. O que fere a Terra fere também os filhos e filhas da Terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma.Tudo o que fizer à trama, a si mesmo fará”. Vale dizer, há uma íntima conexão entre a Terra e ser humano. Se agredimos a Terra, nos agredimos também a nós mesmos e vice-versa.
A mesma percepção tiveram os astronautas de suas naves espaciais e da Lua: Terra e humanidade constituem uma mesma e única entidade. Bem o testemunhou Isaac Asimov em 1982, a pedido do New York Times, fazendo um balanço dos 25 anos da era espacial:”O legado é a percepção de que, na perspectiva das naves espaciais, a Terra e a Humanidade formam uma única entidade (New York Times,9 de outubro de 1982). Nós somos Terra. Homem vem de húmus, terra fértil, ou o Adam bíblico significa o filho e a filha da Terra fecunda. Depois desta constatação, nunca mais sairá de nossa consciência de que o destino da Terra e da humanidade é indissociavelmente comum.
Infelizmente ocorre aquilo que o Papa em sua encíclica ecológica lamenta:”nunca maltratamos e ferimos nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”(n.53). A voracidade do modo de acumulação de riqueza é tão devastadora que inauguramos,dizem alguns cientistas, uma nova era geológica: a do antropoceno. Quer dizer, quem ameaça a vida e acelera a sexta extinção em massa, dentro da qual já estamos, é o próprio ser humano. A agressão é tão violenta que por ano mais de mil espécies de seres vivos desaparecem, inaugurando algo pior que o antropoceno, o necroceno: a era da produção em massa da morte. Como Terra e Humanidde estão interligadas, a produção de morte em massa se produz não só na natureza mas no interior da própria humanidade. Milhões morrem de fome, de sede, vítimas da violência bélica ou social em todas as partes do mundo. E insensíveis, nada fazemos.
Não sem razão James Lovelock, o formulador da teoria da Terra como um superorganismo vivo que se autoregula, Gaia, escreveu um livro “A vingança de Gaia”(Intrínseca 2006). Estimo que as atuais doenças como a dengue, a chikungunya, a zica virus, sars, ebola, sarampo, o atual coronavirus e a generalizada degradação nas relações humanas, marcadas pela profunda desigualdade/injustiça social e pela falta de solidariedade mínima sejam uma represália de Gaia pelas ofensas que ininterruptamente lhe infligimos. Não diria como J.Lovelock ser “a vingança de Gaia”, pois ela, como Grande Mãe não se vinga, mas nos dá severos sinais de que está doente (tufões, derretimento das calotas polares, secas e inundações etc) e, no limite, pelo fato de não aprendermos a lição, nos faz uma represália como as doenças referidas.
Evoco o livro-testamento de Théodore Monod, talvez o único grande naturalista contemporâneo, já falecido, em seu livro “E se aventura humana vier a falhar”(Paris, Grasset 2000):”Somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana; seria o justo preço de nossas loucuras e de nossas crueldades”(p.246).
Isso não significa que os governos do mundo inteiro, resignados, deixem de combater o coronavirus, proteger as populações e buscar urgentemente uma vacina para enfrentá-lo, não obstante suas constantes mutações. Além de um desastre econômico-financeiro pode significar uma tragédia humana, com um incalculável número de vítimas.
Mas a Terra não se contentará com estes pequenos presentes. Ela suplica uma atitude diferente face a ela: de respeito a seus ritmos e limites, de cuidado por sua sustentabilidade e de sentirmo-nos mais que filhos e filhas da Mãe Terra, mas a própria Terra que sente, pensa, ama, venera e cuida. Assim como nos cuidamos, devemos cuidar dela. Ela não precisa de nós. Nós precisamos dela. Ela pode não nos querer mais sobre sua face. E continuará a girar pela espaço sideral mas sem nós porque fomos ecocidas e geocidas.
Como somos seres de inteligência e amantes da vida, podemos mudar o rumo de nosso destino. Que o Espírito Criador nos fortaleça nesse propósito.
Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra- proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.


quinta-feira, 12 de março de 2020

ESPIRITUALIDADE NO MUNDO DESIGUAL




Frei Betto

         Ao tratar de espiritualidade, convém percorrer a via que vai do mais íntimo ao mais genérico – como a sociedade se organiza para assegurar vida à população. Tanto a subjetividade quanto a política são dois polos desta mesma equação chamada vida. Esta brota na sexualidade e se viabiliza, como possibilidade, nas estruturas sociais, produtivas, comerciais, ou seja, nos atos políticos.
         Certa tradição atrelou a espiritualidade à moralidade e, assim, confundiu e dificultou as coisas. Por exemplo, a ideia de que um Deus distante, que habita o cume da montanha. Devemos escalá-la, levando às costas as pedras das virtudes morais. No meio da subida, pecamos, a pedra rola, e nos obriga ao eterno recomeço, como no mito de Sísifo.
         Deus não está “lá em cima”. O príncipe de Florença perguntou a Galileu se ele havia visto Deus através de seu telescópio. Diante da resposta negativa, retrucou: “Como devo acreditar em seu invento se não vê Aquele que habita os céus?” Galileu respondeu: “Se Deus não se encontra em cada um de nós, ele não se encontra em lugar nenhum”.
         Na espiritualidade evangélica não há montanhas a escalar, nem atestado de boa moral para se aproximar de Deus. Há Deus, que é Pai/Mãe amoroso, e nos ama incondicionalmente, não importa o que façamos, desde que abramos o coração a seu amor, como comprova a parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32) e o encontro de Jesus com a samaritana (João 4, 1-42).
         Há lei para tudo, menos para o amor, li na traseira de um caminhão na Via Dutra. O árabe que obriga a filha a casar com o vizinho é capaz de impor a sua vontade, mas não que ela ame o marido. A liberdade é a condição do amor. Em nossa liberdade podemos acolher ou não o amor de Deus. Ele, porém, sempre nos ama, pois amar é da essência mesma de seu ser.
         Na parábola do filho pródigo, o moço comportado, que ficou em casa trabalhando com o pai, não teve festa. O outro, que saiu de casa e dilapidou a herança com farras, foi recebido com festa sem ter que se desculpar. Bastou o pai vê-lo retornar para preparar a festa de acolhida. “Deus amou primeiro”, diz João (1 João 4, 10). A iniciativa do amor é de Deus.
         O eixo da espiritualidade de Jesus era a experiência do amor de Deus e o compromisso com os oprimidos. Em um mundo como o nosso, regido pela globocolonização ou, como prefere o professor Milton Santos, globototalitarismo neoliberal, que promove o desemprego e a exclusão social de bilhões de pessoas, a espiritualidade cristã deve manter-se atenta ao episódio do encontro de Jesus com o homem rico (Marcos 10, 17-22). Este indaga o que fazer para ganhar a vida eterna. Jesus responde: “Você conhece os mandamentos” e recita-os. Curioso que Jesus só cita os mandamentos que dizem respeito ao próximo, e nenhum que diz respeito a Deus. O homem confirma que, desde pequeno, cumpre todos.
         Marcos então sublinha que “Jesus o amou” para, em seguida, recomendar ao homem: “Vai, vende os teus bens, distribui aos pobres e, depois, vem e me segue”. Diz o Evangelho que “o homem foi embora triste e aborrecido porque era muito rico”.
         O curioso é que, tendo-o amado, Jesus foi exigente com ele. Eis o conceito de amor de Jesus: quem ama é verdadeiro com o outro, ainda que a verdade doa. Quem não é verdadeiro consigo mesmo e com o outro, não ama. Amar é fazer bem ao outro, ainda que ele receba isso como um mal, como o opressor indignado por lhe privarem dos meios de oprimir. Jesus, ao amar, levava as pessoas a encontrarem a verdade, mesmo que isso criasse nelas antipatia por ele, como foi o caso dos fariseus.
         Ao homem rico, Jesus demonstrou que não se pode acercar-se de Deus sem assumir a luta por justiça. A exigência, que tanto frustrou a expectativa do abastado, era simples: dê o seu bem maior, a vida, à causa de libertação dos pobres. De fato, em uma sociedade desigual como a nossa, tudo que fazemos favorece um dos polos, o da opressão ou o dos oprimidos. Nossa balança pende para o lado escolhido por Jesus?

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus – fé e espiritualidade no mundo atual” (Companhia das Letras), entre outros livros.


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quarta-feira, 11 de março de 2020

POR UMA ESPIRITUALIDADE DA SEDE



por Kinno Cerqueira [1]


Da boca do salmista, ouvimos esta solene declaração: “A minha alma tem sede de Deus...” (Sl 42,1). Sem dúvida, são palavras de quem fez um longo caminho espiritual durante o qual não apenas se apercebeu sedento, como também descobriu que sua sede era de Deus. O salmista ajuda-nos a perceber que a nossa sede pode ser o ponto de partida para uma espiritualidade profunda, uma “espiritualidade da sede”, que instaure uma relação mística entre nós e Deus.

Uma espiritualidade da sede nos põe em constante movimento, abre-nos caminho para o novo, desincrusta nossas juntas adoecidas pela mesmice, solicita que abandonemos as gaiolas nas quais aceitamos viver e nos convida a que nos deixemos ser guiados pela sede que nos habita. Trata-se de um caminho espiritual que só pode ser trilhado se estivermos dispostos a desamarrar nossos barcos do cais das certezas e a atirarmo-nos mar adentro, velejando ao sopro do Espírito nas oceânicas e escuras águas do Mistério de Deus.

Parecem, pois, calhar aqui as últimas linhas de uma oração escrita por Thomas Merton (1915-1968):

Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo
nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.
Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta.



[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.


terça-feira, 10 de março de 2020

RESISTÊNCIA LATINO-AMERICANA



Por Marcelo Barros

No Brasil e em toda a América Latina, apesar de muitas dificuldades, resiste um movimento de organização social que vem dos grupos de base da sociedade e almejam libertação, justiça e paz para todos.

Há 15 dias, nas mais diferentes regiões do Brasil, o Carnaval de 2020 retratava a insatisfação de grande parte do povo simples com o governo e a realidade social e política do país. Notícias de países vizinhos como o Chile e a Colômbia mostram que multidões continuam indo às ruas para exigir mudanças estruturais na política. No Chile, os movimentos sociais querem eleger uma assembleia nacional constituinte para elaborar  nova Constituição. Nesses próximos dias, o presidente Lula que há pouco foi recebido pelo papa Francisco no Vaticano, se reunirá em Genebra com os pastores e pastoras, responsáveis pelo Conselho Mundial de Igrejas que, no mundo, congrega 349 Igrejas evangélicas e ortodoxas.

Além dos resultados práticos que tais gestos e iniciativas contém, eles sinalizam um movimento de consciência que resiste à barbárie que toma conta do país e do mundo. Infelizmente, pela ação nefasta do império dos Estados Unidos, o processo de integração continental que, na década passada, unia os países latino-americanos na direção de uma pátria grande foi destruído. No entanto, os poderosos podem matar as estruturas, mas não conseguem assassinar ideais, nem destruir os sonhos de pessoas que deram a vida pela libertação e pela vida de todos.

Nesses dias, em toda a América Latina e Caribe, comunidades e movimentos sociais celebram o sétimo aniversário da partida do presidente Hugo Chávez na Venezuela. Intelectuais e militantes sociais de todo o mundo reconhecem: no final do século XX, em um momento histórico, no qual o Socialismo estava desacreditado pela corrupção e ineficiência de governos ditos socialistas de alguns países da Europa, Hugo Chávez soube restituir a dignidade da Política como ato de amor solidário e mostrou ao mundo que é possível um socialismo de tipo novo, democrático e a partir das culturas oprimidas.

 Atualmente, o governo e o povo da Venezuela continuam a resistir heroicamente. A alto custo, sobrevivem a uma guerra violenta, por parte da elite do país que perdeu privilégios e do governo norte-americano. O que está em jogo nessa luta é a dignidade de um povo que quer ter o direito de se autodeterminar. No entanto, é mais do que isso. Trata-se do sonho do Bolivarianismo. Atualmente, este consiste na integração da América Latina em uma confederação de países irmãos, a libertação de todas as formas de imperialismo e o caminhar para um novo Socialismo na linha do bem-viver indígena e conquistado através de meios democráticos.

Atualmente, cada vez mais as pessoas que têm fé em Deus ou buscam viver uma espiritualidade humana sabem: a justiça social e a realização dos direitos humanos, não só individuais, mas dos grupos e comunidades constituem uma base fundamental para a realização do projeto divino no mundo. No Brasil, a Campanha da Fraternidade de 2020 tem como tema a Fraternidade como compromisso com a Vida para todos. O apóstolo Paulo dizia que a nossa fé deve levar à realização da justiça (Carta aos romanos) e que “foi para que sejamos verdadeiramente livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com