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terça-feira, 27 de outubro de 2020

A MISSÃO DAS IGREJAS, MISSÃO DE TODA A HUMANIDADE

 

Marcelo Barros

A missão de todo ser humano consiste em cuidar uns dos outros e do planeta Terra, que Deus ou a Vida nos confiou. Em meio a esta pandemia, a humanidade pode perceber claramente de que lado estão as pessoas, se a favor da vida ou se a favor do lucro da elite que domina o mundo. Neste sábado 17, pelo you tube, um sarau reuniu mais de 50 apresentações artísticas, entre músicas, encenações teatrais, espetáculos de dança e recitação de poesias. Era o lançamento festivo da campanha pelas vacinas gratuitas para todos os vírus do mundo. Ali se pedia a ONU que declarasse as vacinas contra a Covid 19 bens comuns da humanidade. E a mensagem das músicas e de outras artes nos vacinava contra outros vírus, como os da indiferença social e do individualismo. Afinal, o Brasil voltou ao mapa da fome, com mais de 17 milhões de pessoas em situação de desemprego e mais de 50 milhões em insegurança alimentar.

No domingo 04 de outubro, o papa Francisco surpreendeu a humanidade com uma encíclica que conclama todos/as a retomar a cultura da amizade social e da fraternidade universal. Dois setores da sociedade reagiram forte e negativamente à encíclica do papa. O primeiro setor foi a elite econômica, que se sentiu atacada quando o papa responsabiliza o Capitalismo pelos maiores sofrimentos da humanidade. O outro setor foi uma parte não pequena da hierarquia e do clero da própria Igreja Católica que não compreende um papa que rompeu definitivamente a aliança da Igreja com os poderosos do mundo que sempre a beneficiaram.   

Cada ano, em outubro, a Igreja Católica celebra o mês das missões. O tema deste ano de 2020 foi escolhido muito antes da pandemia que nos surpreendeu. No entanto, parece ter sido escolhido em função do momento que vivemos: “A vida é missão” e o lema que o desenvolve é a palavra do profeta: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8).

Ainda hoje, há cristãos que confundem missão com proselitismo e entendem de forma fundamentalista o mandado de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as nações” (Mt 28, 19). O próprio Novo Testamento revela que os apóstolos e discípulos não compreenderam estas palavras ao pé da letra. Eles não saíram pelo mundo afora para anunciar a boa notícia do reino. De fato, Paulo e seus companheiros fizeram viagens pelas cidades do Império Romano até à Europa. Entretanto, eles iam às sinagogas e fortaleciam grupos de discípulos de Jesus dentro do Judaísmo. Nem Paulo nem outros discípulos pediram aos judeus que deixassem sua religião. Nem exigiram dos gregos abandonarem sua cultura. Por isso, ele pode dizer: “eu me fiz judeu com os judeus e grego com os gregos” (1 Cor 9, 20). A mensagem de Paulo é que todas as pessoas, independentemente de sua cultura e religião, podem aceitar a proposta divina. O “reinado divino” vem ao mundo para todos. Somente mais tarde, nos anos 80, a sinagoga não aceitou mais os cristãos como membros da comunidade judaica. Então, o Cristianismo se separou do Judaísmo e se tornou religião autônoma.

Agora, na sua carta sobre a fraternidade universal, o papa Francisco pede a todas as religiões que, independentemente, de suas diferenças, se ponham a serviço da unidade de toda a família humana. Conforme os evangelhos, uma vez, discípulos contaram a Jesus que tinham encontrado alguém que expulsava o mal das pessoas. Eles tinham proibido porque aquela pessoa não pertencia ao grupo deles. Jesus os repreendeu dizendo: “Não façam isso. Quem não está contra nós é porque está do nosso lado” (Cf. Lc 9, 49- 50).

Neste mundo pluralista, é fundamental que as Igrejas recuperem esta abertura de coração. Devem ser comunidades de diálogo e acolhida do outro e nunca de intransigência e rejeição. Não há separação entre a missão das Igrejas e a missão de todas as organizações sociais que trabalham pela paz, justiça e união da humanidade. Homens como o papa João XXIII, Dom Helder Câmara e o pastor Martin-Luther King compreenderam profundamente isso. Foram profetas que transformaram o mundo e fizeram isso como poetas sensíveis e encantados com a humanidade.

No dia 11 de outubro de 1962, depois de um dia inteiro de trabalho no qual tinha inaugurado o Concílio Vaticano II com todos os bispos católicos em Roma, o papa João XXIII soube pelo seu secretário que a praça de São Pedro estava cheia de povo. Todos, com velas nas mãos, pediam para ver o papa. Este apareceu na janela, saudou a multidão e disse: “Olhem a lua cheia. Ela veio embelezar a nossa festa. Voltem para casa e dêem um abraço ou façam um gesto de carinho em nome do papa na primeira pessoa que vocês reencontrarem em casa. Digam que o papa lhes manda este gesto de amor”. Isso continua a ser o núcleo central da missão de todas as pessoas espirituais.

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

domingo, 25 de outubro de 2020

PAULO FREIRE À FRENTE DO SEU E DO NOSSO TEMPO

 



Prof. Martinho Condini

 

“A pedagogia que me toca é a pedagogia que escuta, provoca e vive a difícil experiência da liberdade, reconhecendo que há uma distorção, o autoritarismo. Minha opção é por uma pedagogia livre para a liberdade, brigando contra a concepção autoritária de Estado, de sociedade.”

 (Paulo Freire in Conversação Libertária com Paulo Freire, Edson Passetti, 1998.)

 

        Paulo Freire nos mostrou a importância da liberdade, da educação libertadora, da postura libertária, da utopia, da conscientização e do diálogo na formação dos sujeitos que fazem a história.         Nada é mais anarquista, na melhor concepção da palavra do que a práxis freireana. Ser um defensor da liberdade não significa apoiar a libertinagem ou a não organização, como alguns opositores há Freire costumam se expressar em livros ou nas redes sociais, tão em moda atualmente. Na verdade eles não entenderam uma só linha dos escritos do educador e pensador pernambucano, se é que as leram.

        Quando Freire fala em liberdade, está se referindo a solidariedade libertária ao companheirismo coletivo, há busca de um processo de aprendizagem onde os sujeitos se libertem da tirania do Estado e do capitalismo ou da amarras impostas pelos valores e controles das classes dominantes sejam no meio rural ou urbano, nas indústrias, nas fazendas, nas instituições religiosas ou educacionais e nos partidos políticos.

        Quanta dificuldade e resistência ainda há em relação a se compreender a teoria e a prática freireana, até mesmo no meio educacional.

        Ouso afirmar que a práxis freireana transcendeu as carteiras escolares, os muros das instituições de ensino, as ideologias partidárias, os anais acadêmicos e as fronteiras geográficas.

        Na práxis freireana encontramos a essência do seu propósito com a educação: “ensinar aprendendo e aprendendo ensinando”. Nesse processo é possibilitado ao sujeito exercer o que temos de mais precioso na vida, a liberdade. Liberdade para pensar, falar, ouvir, perguntar, agir e construir um conhecimento sentido, vivido, experimentado, na troca com o outro, no compartilhamento, na cooperação, na divergência e no diálogo.

        Em uma de suas obras Freire se preocupou com a reflexão dos educadores sobre o que o  “ensinar” exige do educador, porque, o importante é o ensinar e não o seu resultado. O resultado é conseqüência de uma somatória de fatores político, econômico, social, emocional que o explicará.

        Infelizmente em uma boa parte dos espaços de ensino, em todos os níveis, esse processo freireano não acontece na intensidade que deveria. Enquanto a prepotência dos valores neoliberais capitalistas, da doutrinação das escolas religiosas e dos interesses de poder do Estado imperarem na sociedade, será difícil o espaço escolar ser um espaço libertador com o intuito de ensinar e formar seres humanos, humanos de verdade, como acreditava Freire. As ilhas de excelência freireana que não estão nessa enorme bolha, são insignificantes diante do gigantismo dessa engrenagem retrograda, reacionária e controladora que vigoram na educação bancária do Estado burguês.

        Quando nos aprofundamos nos escritos de Freire, percebemos o quanto sua práxis foi genuinamente um processo significativo de formação humanista e libertária, apesar dele não ter sido um anarquista.   

        Obrigado mestre Paulo Freire, pela magna aula que você ministrou a todas e a todos que acreditam na liberdade como condição sine qua non para a existência de uma sociedade sem patrões, sem escravos, sem exploradores, sem explorados; sem opressores e sem oprimidos.

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

sábado, 24 de outubro de 2020

TREVAS LUMINOSAS

 


O caminho da inefabilidade para falar de Deus

 


por Pe Fabio dos Santos Potiguar

Entrei na escuridão da noite e encontrei Deus vestido num manto de trevas luminosas. Encontro do seu Mistério com o meu mistério... Trevas de Deus em minhas trevas. Trevas de Deus que “habitam uma luz inacessível” ( 1 Tm 6,16). Um encontro assim torna o mistério mais misterioso, porém resplandecente, expulsando uma falsa claridade por trevas luminosa.

 Ele vem ao meu encontro, “os céus Ele baixou e então desceu pousando em nuvens pretas os seus pés. Um querubim o conduzia no seu vôo, sobre as asas do vento Ele pairava. Das trevas fez um véu para envolver-se, escondeu-se em densas nuvens e água escura. No clarão que procedia de seu rosto, carvões encandecestes se ascendiam” ( Sl 17,10-13 ).

 

Na noite vejo Deus, “trevas e nuvem o rodeiam no seu trono... vai um fogo à sua frente... seus relâmpagos clareiam toda a terra” ( Sl 96,2 ). Agora entendo o salmista. “Se eu pensasse: ‘a escuridão venha esconder-me e que a luz ao meu redor se faça noite!’ Mesmo as trevas para vós não são escuras, a própria noite resplandece como dia, e a escuridão é tão brilhante como a luz” ( Sl 138,11-12 ). Essa frase me mexe todo por dentro em fim, ela é a minha vida espiritual, a minha vida toda: “A escuridão é tão brilhante como a luz”.  Na escuridão com Davi eu canto: “Bendize, ó minh’alma, ao Senhor! Ó meu Deus e meu Senhor, como sois grande! De majestade e esplendor vos revestis e de luz vos envolveis como num manto” ( Sl 103,1-2 ).

 Enquanto escrevo, Deus do céu dá gargalhadas de min se divertindo à minhas custas, pois se rir das coisas que dançam no papel aqui na terra. Ele se rir e diz: “Não é nada disso, meu Fabinho, não é nada disso!” É verdade, não é nada disso. Bem, é tudo isso que estou escrevendo, mas a experiência está no papel não estando, e não estando está. Paradoxos e contradições! Alternância harmoniosa entre mistério e revelação, conhecimento e incompreensibilidade, afirmação e negação, linguagem e inefabilidade, transcendência e imanência, noite e dia, trevas e luz.

 Buscamos no estudo da teologia uma síntese entre a via apofática de uma teologia do mistério e a via catatáfica, de uma teologia afirmativa sobre Deus. Mas quando se trata de experiência de Deus, é mais certo o que a gente não consegue dizer. Se pude dizer alguma coisa, de resto se sente uma sensação do “não dito”. É certo tudo aquilo que escrevo agora mas é bem mais certo o que não disse, o que está escondido, o que não sei dizer, inexaurível, inefável, secreto, escuridão luminosa... é bem mais certo aquilo que em min é silêncio e solidão habitada pelo Mistério.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

 

 

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

DESPOJAR-SE DE TUDO PARA GANHAR TUDO: O BONECO DE SAL

 


                                 


  Por  Leonardo Boff

Nos últimos tempos temos dedicado nossas reflexões quase que exclusivamente à questão do Covid-19, de seu contexto que é a superexploração da Terra viva e da natureza pelo capitalismo globalizado, incluiundo a China.  Elas se defenderam enviando-nos uma gama de vírus (zika, ebola, febre aviária e suína e outros) e agora este que atacou a humanidade inteira, poupando outros seres vivos. A corrida desenfreada da acumulação desigual e todos tivemos que parar, entrar no isolamento social, evitar conglomerações e usar as incômodas máscaras. Acolhemos estas limitações em solidariedade uns com os outros e com os sofredores do mundo inteiro.

Essa situação severa enseja a ocasião de não apenas pensarmos no que virá após a pandemia mas de voltarmo-nos sobre nós mesmos, sobre as questões cotidianas como a construção continuada de nossa identidade e a moldagem de nosso sentido de ser. É uma tarefa nunca terminada mesmo sob o confinamento social. Entre muitas, duas provocações estão sempre presentes e temos que dar conta delas: a aceitação dos próprios limites e a capacidade de desapegar-se.

         Todos vivemos dentro de um arranjo existencial que, por sua própria natureza, é limitado em possibilidades e nos impõe inúmeras barreiras: de profissão, de inteligência, de saúde, de economia, de tempo e outras. Há sempre um descompasso entre o desejo e sua realização. E às vezes nos sentimos impotentes face a dados que  não podemos mudar como a presença de uma pessoa com seus altos e baixos ou de um doente terminal. Temos que nos resignar face a esta limitação intransferível.

Nem por isso precisamos viver tristes ou impedidos de crescer. Há que ser criativamente resignados. A invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam  e descobrimos como de tudo podemos aprender. Bem dizia a sabedoria oriental:”se alguém sente profundamente o outro, este o perceberá mesmo que esteja  a milhares de quilômetros de distância”. Se te modificares em teu centro, nascerá em ti uma fonte de luz que irradiará para os outros.

         A outra tarefa consite na busca da auto-realização. Esta, essencialmente, é a capacidade de desapegar-se. O zen-budismo coloca como teste de maturidade pessoal e de liberdade interior a capacidade de desapegar-se e de despedir-se. Se observamos bem, o desapego pertence à lógica da vida: despedimo-nos do ventre materno, em seguida, da meninice, da juventude, da escola, da casa paterna, dos parentes e das pessoas amigas. Na idade adulta despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que irreversivelmente vão diminuindo até cessarem e aí nos despedirmos da própria vida. Nestas despedidas temos crescido em nossa identidade mas à custa de deixarmos um pouco de nós mesmos para trás.

      Qual é o sentido deste lento despedir-se do mundo? Mera fatalidade irreformável da lei universal da entropia? Essa dimensão é irrecusável. Mas será que ela não guarda um sentido existencial, a ser buscado pelo espírito? Se, na verdade, comparecemos como  um projeto infinito e um vazio abissal que clama por plenitude, será que esse desapegar-se não significa criar as condições para que um Maior nos venha preencher? Não seria o Supremo Ser, feito de amor e de misericórdia, que nos vai tirando tudo para que possamos ganhar tudo, no além vida, quando nossa busca finalmente descansará, como o cor inquietum de Santo Agostinho?

         Ao perder, ganhamos e ao esvaziarmo-nos ficamos plenos. Dizem por aí que esta foi a trajetória de Jesus,  de Buda, de Francisco de Assis, de Gandhi, de Madre Teresa, de Irmã Dulce e, creio eu, também do Papa Francisco, o maior dos humanos de hoje.

         Talvez uma estória dos mestres espirituais antigos nos esclareça o sentido da perda que produz um ganho.

 “Era uma vez um boneco de sal. Após peregrinar por terras áridas chegou a descobrir o mar que nunca vira antes e por isso não conseguia compreendê-lo. Perguntou o boneco de sal:” Quem és tu? E o mar respondeu:”eu sou o mar”. Tornou o boneco de sal: “Mas que é o mar?” E o mar respondeu:” Sou eu”. “Não entendo”, disse o boneco de sal. “Mas gostaria muito de compreender-te; como faço”? O mar simplesmente respondeu: “toca-me”.

Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com a ponta dos dedos do pé. Percebeu que o mar começou a ser compreensível. Mas logo se deu conta de que haviam desaparecido as pontas dos pés. “Ó mar, veja o que fizeste comigo”? E o mar respondeu:”Tu deste alguma coisa de ti e eu te dei compreensão; tens que te dares todo para me compreender todo”.

E o boneco de sal começou a entrar lentamente mar adentro, devagar e solene, como quem vai fazer a coisa mais importante de sua vida. E na medida que ia entrando, ia também se diluindo e compreendendo cada vez mais o mar. E o  boneco continuava perguntando: “que é o mar”. Até que uma onda o cobriu totalmente. Pode ainda dizer, no último momento, antes de diluir-se no  mar: “Sou eu”.

         Desapegou-se de tudo e ganhou tudo: o verdadeiro eu.

Leonardo Boff é autor de Tempo de Transcendência, 2009 e Saudade de Deus(2019) ambos pela Editora Vozes.