O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

É TARDE, MAS É NOSSA HORA

 


Marcelo Barros

 

Atualmente, a Agenda Latino-americana Mundial se tornou um dos livros mais espalhados e divulgados em várias línguas e em muitos países do mundo. Desde 1992, cada ano, o livro da Agenda nos oferece muitas riquezas próprias e originais. A cada ano, a agenda traz um calendário que nos põe em sintonia com tudo o que de mais importante acontece na caminhada dos povos do continente. Oferece textos de autores internacionais, comprometidos com esta agenda de transformação do mundo. Na metodologia do “ver, julgar e agir”, a Agenda desenvolve um assunto unificador que se constitui como tema do ano.

Para o ano 2021, o tema escolhido é Retorno ou não retorno. É tarde, mas é nossa hora. Desde os primeiros anos, a Agenda Latino-americana tem sempre provocado uma reflexão nova e profunda sobre a sustentabilidade do planeta. Em 2010, portanto há dez anos, o título escolhido para a Agenda Latino-americana foi “Salvemo-nos com o Planeta”. Na mensagem de introdução da Agenda,  o nosso profeta Pedro Casaldáliga advertia: “Nós todos e todas somos também o Planeta. Somos Gaia. Estamos despertando para uma visão mais holística, mais integral...”

Desde então, a crise ecológica só foi agravada e agora chegamos ao que os cientistas chamam de “ponto do não retorno”, a situação trágica em que os recursos de reequilíbrio da vida é perdido e a terra não consegue mais se recuperar dos danos sofridos.  

No Brasil, já em dezembro de 2019, portanto há um ano, a imprensa internacional publicava: “Os cientistas Carlos Nobre e Thomas Lovejoy relatam evidências tanto na atmosfera, quanto no solo de que a Amazônia chegou ao seu ponto de não retorno. O aumento do desmatamento, combinado com as mudanças climáticas, podem resultar na rápida conversão da floresta em savana – liberando, com ela, grandes quantidades de carbono. A base desta descoberta foi uma análise de satélite da Nasa que revela uma Amazônia cada vez mais seca nos últimos anos – que os cientistas da agência espacial americana dizem ser uma das “primeiras indicações de mecanismos positivos de feedback climático. Um estudo de 2018 descobriu que as espécies de árvores amazônicas adaptadas a climas úmidos estavam morrendo em taxas recorde, ao passo que as árvores adaptadas ao clima seco prosperavam” (Shana Hanbury in www.brasil/mongabay.com/2019/12/o-ponto-de-inflexao-chegou-e-agora-alertam-especialistas/)

A Agenda Latino-americana Mundial 2021 nos convida a fazer de cada dia deste novo ano um tempo de graça e salvação (kayrós), no qual viveremos a alegria de sermos salvos juntos com o planeta e com todos os seres vivos.

Por conta deste momento especial que vivemos, excepcionalmente, neste ano, no Brasil, não teremos edições impressas da Agenda. Nesta sexta-feira 18, pelo you tube, às 19 horas, teremos uma videoconferência que será o lançamento nacional da Agenda Latino-americana Mundial 2021.

Ela nos confirmará que é “nossa hora”. Precisamos agir juntos e quanto antes para formar, como propõe o papa Francisco na encíclica sobre o cuidado com a casa comum, uma aliança da humanidade a serviço da vida.

Quem vive o caminho da fé reconhece que, conosco, está sempre Alguém que se manifesta no amor que faz todas as criaturas existirem. Neste Natal, esse Amor se encarna nos movimentos sociais e organizações que defendem a vida e a sustentabilidade do planeta. A Agenda Latino-americana 2021 nos inspira a fazer do cuidado com a Terra, com a Água e todos os seres vivos, uma forma de oração e comunhão com o mistério divino, presente e atuante no universo.

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

TOMAR A BÍBLIA AO PÉ DA LETRA

 



 

Frei Betto

 

       Nenhum livro sofre mais abuso de ser tomado em vão do que a Bíblia. (...) Jesus criticou duramente os fariseus por tomarem a Bíblia ao pé de letra, como pagar o dízimo, e deixarem de lado o que importa – a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mateus 23,23).

       Todo texto deve ser lido dentro de seu contexto. Pinçar a frase de um autor para embasar uma afirmativa é correr o risco de adulterar o sentido da narrativa. Antes de fazer da frase bandeira de minhas convicções, um mínimo de honestidade intelectual exige que eu pergunte qual o sentido na narrativa, o que o autor quer dizer, qual o significado das palavras.

       Nenhum livro sofre mais abuso de ser tomado em vão do que a Bíblia. Palavra de Deus para nós cristãos, judeus e muçulmanos, descontextualizá-la é violá-la. Há pessoas tão apegadas à letra do texto bíblico (e não ao Espírito, como sugere o apóstolo Paulo) que, por ignorância, acreditam mesmo que toda a humanidade decorre de um casal, Adão e Eva. Não se dão conta de que a Bíblia jamais teve a pretensão de fazer ciência. É um livro religioso, escrito em diferentes épocas e à luz de distintas culturas. Adão, em hebraico, significa homem feito de barro; Eva, vida. O Gênesis quer apenas nos ensinar que, graças ao Criador, a vida humana brotou da natureza.

       Ler a Bíblia fora do contexto pode induzir o fiel desavisado a odiar seu pai e sua mãe para aderir a Jesus (Lucas 14, 26). Um cristão tinha por hábito sortear, toda manhã, um versículo dos evangelhos como motivação espiritual. Ao abrir o texto em “Amai o próximo como a si mesmo”, adotou, naquele dia, postura mais atenciosa com a faxineira, o ascensorista e a copeira do escritório. 

       Dia seguinte caiu-lhe o versículo 5 do capítulo 27 de Mateus, sobre a culpa de Judas: “E ele foi e se enforcou”. Ciente de que a vida é o dom maior de Deus, permitiu-se outra chance. Deparou-se com o último versículo da parábola do Bom Samaritano: “Vá e faça o mesmo”. 

       Ora, como Deus não quer o mal, ele se deu uma última oportunidade. Veio-lhe este versículo da paixão de Jesus em João: “O que tem a fazer, faça depressa” (13, 27)...

       O teólogo e biblista Marcelo Barros conta a história de um pastor que, em Los Angeles, mantém um programa de TV muito apreciado nas manhãs de sábado. Um dia, o pastor leu no auditório a carta que recebera:

       “Caro pastor Jeffrey, me chamo Jonathan Pierce. Tenho 40 anos e frequento a Igreja Batista da North Street. Há alguns dias, ao chegar em casa, encontrei minha esposa deitada com outro homem. Rompi o casamento e abandonei o lar. Minha filha adolescente deu razão à mãe, com o pretexto de que sou muito ausente e minha esposa tem direito de ser feliz”.

       “Nesse momento de grande sofrimento, recebi ajuda de um amigo de infância que é gay e sempre me quis como companheiro. Penso em fazer uma experiência nova neste caminho. No entanto, o pastor de minha Igreja avisou que eu teria de deixar a comunidade. Por isso, lhe escrevo para perguntar se o senhor receberia a mim e ao meu companheiro em sua Igreja”.

       Após ler a carta, o pastor respondeu: 

       “Caro Jonathan. Podemos aceitá-lo em nossa Igreja se você rejeitar o pecado e renunciar ao vício. Seguimos a Bíblia Sagrada e, de acordo com Levítico 20, versículo 13, se um homem deita com outro homem ambos cometem abominação e devem ser eliminados da comunidade. Portanto, se você desistir deste mau caminho e se converter, será bem-vindo em nossa Igreja. Deus o abençoe”. 

       No sábado seguinte, o pastor abriu o programa com fisionomia tensa, e explicou aos telespectadores: “Meus irmãos, a Justiça do Estado da Califórnia me obriga a ler aqui esta carta:”

       “Caro pastor Jeffrey, quero agradecer sinceramente ao senhor por ter me orientado e me guiado para o texto sagrado da Bíblia neste momento difícil que estou vivendo. O senhor citou o capítulo 20, versículo 13 do Levítico, para mostrar que não posso participar da Igreja se deito com outro homem, e isso me foi muito útil. Agradeço muito. Principalmente porque abri a Bíblia e li o capítulo. E descobri que o senhor tem toda razão. O versículo 13 diz que se eu dormir com outro homem devo ser morto. Mas, achei maravilhoso descobrir, no mesmo livro, capítulo 20, versículo 10, que a minha mulher e o homem que se deitou com ela devem ser apedrejados, e minha filha, que me rejeitou como pai e tomou posição contra mim, também (versículo 9). Portanto, venho com esta carta afirmar que renuncio a viver relações homoafetivas, mas faço questão de apedrejar minha mulher adúltera, o homem com o qual ela se deitou e a minha filha rebelde. Como sei que o senhor cumpre a Bíblia Sagrada ao pé da letra, então, peço que junte as pedras, porque no próximo sábado, às nove da manhã, na hora do culto, chegarei aí com minha mulher e minha filha amarradas e nuas, como manda a lei de Deus, e também com o homem pecador. E nós, crentes de Deus, vamos apedrejar os três até morrerem. E aí, sim, cumpriremos o capítulo do Levítico que o senhor me ensinou a ler. Muito obrigado. Atenciosamente, Jonathan Pierce”.  

       Jesus criticou duramente os fariseus por tomarem a Bíblia ao pé de letra, como pagar o dízimo, e deixarem de lado o que importa – a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mateus 23,23).

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

®Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

 


  Frei Aloísio Fragoso


 

    Começou, esta semana, na liturgia da Igreja Católica, o tempo do ADVENTO, palavra que exprime uma das mais doces sensações humanas, que brota da esperança: Alguém está chegando e  traz uma surpresa maravilhosa.

      À luz deste anúncio,  gostaria de abordar um outro assunto, à margem deste, porém conectado com ele. Sinto esta  necessidade a fim de desarmar os espíritos e facilitar o caminho até Belém. Nossa Fé é vivida dentro da realidade histórica e o tempo de Deus se mistura com o nosso, convergindo para um fim comum.

     Os sentimentos nascidos da Fé, às vésperas do Natal, colidem com outros sentimentos de euforia ou indignação, logo após o término das eleições municipais.

     Os eleitores, de um lado e de outro, são denominados de "vencedores" e "derrotados". Aí está um equívoco. Não merece o título de vencedor quem quer que seja que recebe a maioria dos votos das urnas, hoje, e  amanhã inicia sua tarefa de governar a cidade. Só se saberá se este título lhe compete no último dia da sua gestão, na hora de conferir  promessas e realizações. E aí só haverá um juiz: o povo; só haverá um critério de avaliação: o bem comum.  Um governante pode administrar uma cidade, mas não as expectativas de seus habitantes.

     Da mesma forma, os "derrotados" não perdem as chances de continuar exercendo sua cidadania e fazendo política de modo eficaz e fascinante. Logo, não foram derrotados e sim removidos em suas funções para outros espaços. Seria empobrecer gravemente a democracia imaginar que a política partidária é o único ou o melhor segmento para se influir  nos destinos do país.

     Confesso que estranhei a reação de algumas vozes críticas da esquerda, ao avaliar  os resultados da votação e "descobrir" o grande culpado: o povo, "o povo que não sabe votar", "o povo analfabeto", "o povo que se vende por 30 moedas", "o povo que merece a fome que passa", etc.

      Pra começar, povo não existe, é uma abstração, mero conceito, só adquire identidade quando recebe nome próprio, Pedro, Joana, Anderson, etc. Nada mais fácil do que transferir culpas para o coletivo conceitual (povo, militância, facção) e assim fugir do confronto com a responsabilidade pessoal (eu, você, nós).

     Somente quem vive o cotidiano da população marginalizada e penetra fundo em sua alma, tem o direito de ensaiar uma interpretação de suas intenções, conscientes ou subconscientes. Há séculos este povo é iludido por promessas que se reprisam em intervalos de 4 ou 8 anos. Quando surge um líder com quem se identifica, suas expectativas são abortados pelos que não admitem um "Projeto Político Popular". Povo existe para ser governado, jamais para governar, dizem estes. Muitas vezes só lhe resta apostar no rodizio dos poderes constituídos: "vamos ver quem dá mais"! E neste verbo "dar"se esconde a terrível ilusão, que favorece a Direita, mestra  em oferecer favores e esmolas, e desafia a Esquerda, comprometida em proporcionar oportunidades e caminhos participativos.

     De qualquer forma, seria correr o risco de perder de vez as massas populares desconhecer que por trás das suas reações  se oculta uma mensagem criptografada. E isso é também intuição e sabedoria.

      O mais consultado  pensador político da História, Maquiavel, escreve: "o vulgo (povo) se deixa impressionar pelas aparências e pelos efeitos, mas é o vulgo que faz o mundo".

     Enfim, o que é que tudo isso tem a ver com o Advento e o Natal? Tem a ver sim! A vinda do Messias foi vaticinada, 4 séculos antes, com estas palavras do profeta Isaías: "o povo que andava nas trevas viu uma grande luz" Is. 9,2. Chegado o Messias, foi o povo quem primeiro o reconheceu publicamente: "este sim fala com autoridade e não como os Doutores da Lei" Mt. 7,29. Mas um dia ele teve que ouvir a dura advertência de Jesus: "este povo me louva com os lábios, mas seu coração está bem distante de mim, pois se eu não realizar milagres, não acreditam" Mt. 15,8. Ao final, a multidão  deixou Jesus entregue à própria sorte, na hora de escolher entre Ele e Barrabás. Do que se conclui que povo é também "sinal de contradição", às vezes age como gente sábia e consciente, outras vezes, como massa volúvel e influenciável.  Nossa tarefa é encetar o trabalho, que exige infinita paciência, de educá-lo, e a nós mesmos, para uma nova visão de Fé e de História.

     O Natal é um momento em que tomamos conhecimento da  estratégia de Deus. Ele nos manda uma Criança, frágil, indefesa, desconhecida. E, através desta Criança, nos envia seu recado: Eu sou Amor. Antes de ser Poder, eu sou Amor. Ele se despoja da sua onipotência a fim de nos livrar do medo e da acomodação.

      Tenhamos em mente o seguinte: este acontecimento tem mais de 20 séculos esperando a nossa conversão.  O prazo em que almejamos ver resultados concretos é o curto tempo de nossa existência individual, enquanto o tempo de Deus e, consequentemente, da História, são milhões de anos. É nesta medida do tempo que se insere a nossa Esperança.

     Não será nada fácil falar de esperança neste tempo em que nova onda de Coronavírus nos amedronta. Tentaremos nas próximas reflexões.

 Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O ADVENTO DA ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA


 


Marcelo Barros

 

Neste domingo, as Igrejas antigas iniciaram um novo ano litúrgico com o tempo do Advento. Tradicionalmente, o objetivo destas quatro semanas que nos preparam à festa de Natal é fortalecer a esperança na realização do projeto divino e celebrar o Natal de cada ano como sinal de renovação em nossas vidas e na forma de organizar o mundo.

Há uma semana, aconteceu em Assis, na Itália, o encontro do papa Francisco com mais de 2000 jovens economistas do mundo inteiro. O objetivo era pensar juntos novo modelo econômico que una sustentabilidade ecoplanetária, justiça social e viabilidade para as ciências e novas técnicas que se abrem para o futuro. O papa propôs uma economia que parta das necessidades dos empobrecidos do mundo e garanta a todos e todas as necessidades básicas como terra, trabalho e teto.

A primeira vitória deste encontro foi ter provado a falsidade do dogma neoliberal. Sempre se repetia que não há alternativas e o mundo tem de ser assim mesmo. O encontro da juventude em Assis sobre economia mostrou o contrário: há diversas alternativas. Outra grande vitória é que provavelmente é a primeira vez no mundo em que um encontro internacional deste porte não se concentra em ouvir os cientistas mais renomados. Os protagonistas do encontro foram rapazes e moças com menos de 35 anos de idade. O encontro foi exemplo de diálogo intergeracional.

No Brasil, por mais de um ano, este encontro da juventude com o papa sobre Economia foi preparado e discutido. Concretamente, deste processo de preparação, surgiram algumas propostas. Eis algumas:

1) retomar o esforço de um grande mutirão de educação popular, baseado na participação de todos, no diálogo e na consciência dos desafios a serem enfrentados por toda a sociedade.

2) compreender que a economia de tal forma é essencial a todos os seres humanos que não pode ser deixada apenas à responsabilidade dos técnicos e especialistas.

3) desenvolver e aprofundar os projetos de economia solidária.

4) assegurar uma renda básica universal,  como direito de todos os cidadãos e cidadãs de cada país.

5) ajudar todas as pessoas a perceberem que esta nova forma de organizar a economia é expressão de uma espiritualidade  ecumênica e humana. Isso vai além das religiões e possibilita a integração maior do ser humano com todos os seres vivos do planeta.

Para compreendermos melhor: A renda básica é totalmente viável desde que se crie um fundo específico que pode ser alimentado com recursos oriundos de impostos progressivos e da taxação de grandes lucros e fortunas.

Não se trata de uma solução mágica e total, mas pode eliminar a pobreza extrema. Liberta as pessoas de trabalhos aviltantes e ajuda a que os salários não sejam sempre puxados para baixo.

Sobre a economia solidária: Trata-se  de um conjunto de iniciativas que abrange cooperativas, empresas recuperadas,  ou em reabilitação de processos falimentares. Nela cabem pequenos empreendimentos associativos, bancos comunitários e associações locais de troca de mercadorias e serviços. Muitas destas iniciativas desenvolvem moeda própria. Este tipo de economia, baseada na autogestão, é fundamental no processo de verdadeira democratização da sociedade.

 O orçamento participativo foi experiência nas primeiras gestões do PT no Brasil. Reúne as populações de bairro em plenárias para discutir e deliberar sobre a destinação de recursos orçamentários. Trata-se de um exercício de democracia participativa. Exige vontade política dos gestores e certa organização popular para se exercer o diálogo social e político.

Considerar a economia como dimensão importante da espiritualidade é levar em conta que não se pode dividir a vida em departamentos separados. A economia não se restringe aos bens duráveis e de consumo, além de serviços. Há fatores espirituais, próprios da condição humana que devem ser levados em conta e aprofundados. A economia deve ajudar as pessoas a serem solidárias e a construir um mundo baseado no cuidado mútuo e na comunhão com a natureza.

Assim, a economia de Francisco e Clara se torna elemento fundamental de uma abertura da sociedade internacional e de cada povo à realização mesmo sempre em processo e parcial de um programa que as diversas tradições espirituais creem ser divino: possibilitar o natal de uma humanidade nova.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br