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quinta-feira, 21 de abril de 2022

DEUS FEITO PÃO

 Frei Betto


 

       Quem brincou quando criança no domingo de Páscoa e escondeu ovos de chocolate no jardim? Resta em nós uma perene idade da inocência. A ternura denuncia a veracidade do amor, sublinha Milan Kundera. Recôndito no qual evocamos, nostálgicos, as missas de domingo, as procissões sob andores cercados de velas, o toque salvífico da água benta, o silêncio acolhedor de igrejas que o gótico não teve vergonha de desenhar como vulvas estilizadas.

       Jesus ressuscitou! - celebra esta festa de aleluias. Ainda que a razão não alcance a dimensão do fato pascal, a intuição capta a crise da modernidade a nos induzir a um mundo sem mistérios e enigmas. Mundo sombrio, onde os mortos se sobrepõem aos vivos.

 Até o advento do Iluminismo, a inteligência recendia a incenso.  Copérnico e Galileu decifraram a harmonia da natureza como reflexo do Criador, e Newton acertou seus cálculos pelos ponteiros dos relógios das catedrais. Depois, o dilúvio inundou os claustros. A razão irrompeu soberana e relegou à superstição tudo que não fosse mensurável. Então, o mistério aflorou.

       De que valem perguntas quando se julga possuir todas as respostas? Voltaire e os enciclopedistas ousaram secularizar a inteligência e, mais tarde, Baudelaire e Rimbaud tatearam ávidos em busca de um Deus capaz de aplacar-lhes a sede de Absoluto. Dostoiévski revestiu-se da figura emblemática de Jesus, despiu seus monges das vestes eclesiásticas, escancarou-lhes a alma atormentada pelos demônios da dúvida.

       Nietzsche roubou o fogo dos deuses e incendiou de liberdade o espírito humano. Sartre proclamou que o inferno são os outros e erigiu o absurdo da morte em ato final que destitui a vida de qualquer sentido.

       Entre angústias e utopias, o último século foi também marcado pelo enigma Jesus. Corações e mentes o acolheram como paradigma: Claudel, Simone Weil, François Mauriac, Chesterton, Péguy, Graham Greene, Alberto Schweitzer etc. No Brasil, Murilo Mendes, Sobral Pinto, Gustavo Corção, Tristão de Athayde, Guimarães Rosa, Hélio Pellegrino etc.

       Hoje, pavores transcendentais já não atribulariam a alma poética de um William Blake. Entre tanta miséria, esvai-se o encanto. Jesus é Deus que se fez homem e, de homem, virou pão. Pai Nosso/pão nosso. Esta concretude assusta. A fé cristã não proclama a ressurreição da alma, mas "da carne". Jesus não é a figura do Olimpo grego enaltecida pela força irrepresável da literatura. É o judeu crucificado, por razões político-religiosas, na Palestina do século I, e cujas aparições, como ressuscitado, contradizem as regras da ficção literária. Que autor criaria um personagem imortal com chagas nas mãos e ansioso por comida? As narrativas evangélicas são, tecnicamente, descrições de um fato objetivo. À luz da fé, proclamação de que Jesus é o Cristo.

       Antes de cair em mãos da repressão que o assassinou, Jesus fez-se comida e bebida. Poeta e profeta, dominava a linguagem realista dos símbolos. Eis aqui o desafio atual à inquietude da inteligência. O pão repartido passa a ser corpo divino; o vinho partilhado, aliança feita com sangue e prenúncio da festa sem fim. O Deus de Jesus não é um velho Narciso à cata de adoradores nem um algoz irado com os pecadores. É Abba, o pai amoroso ("mais mãe do que pai", disse João Paulo I), cujo dom maior é a vida.

       Já não temos as longas guerras que inquietaram espíritos como Tolstói e Camus; o que vemos, de Kiev a Guantánamo, é escabroso comparado à engenharia marcial dos exércitos em conflito: a estrada rumo ao futuro palmilhada de corpos degradados e famintos. Hoje, tropeça-se na rua em seres esquartejados em sua dignidade. Todos os discursos oficiais e ajustes fiscais ofendem a condição humana por exaltarem a concentração do lucro e ignorarem a partilha da vida. Em sua hipocrisia, o sistema salva sua aura cristã e exclui o pão. A metafísica monetarista estabiliza moedas e desestabiliza famílias; reduz a inflação e aumenta a miséria; socorre bancos e multiplica o desemprego; abraça o mercado e despreza o direito à vida - e vida em abundância, para todos.

       Agora, a globocolonização despolitiza, o esoterismo desculpabiliza e o consumismo individualiza. Estamos à deriva neste mundo hegemonizado pelo capitalismo, cujas pitonisas proclamam que "a história acabou".

       Páscoa é travessia - também para uma ética política que torne o pão acessível a cada boca e o vinho, alegria em cada alma. Somos nós que, em vida, precisamos ressuscitar as potencialidades do espírito, premissas e promessas de uma verdadeira dignidade humana. Num misto de Marcel Proust e Caçador da Arca Perdida, necessitamos urgentemente empreender a busca da consciência perdida, onde a solidária indignação contra as injustiças tenha cheiro de madeleines apetitosas. Caso contrário, seremos engolidos por esses simulacros de pirâmides - os shopping centers - que sequer têm estrutura para contar à posteridade quão grande foi a pobreza de espírito de uma geração que tinha, como suprema ambição, meia dúzia de engenhocas eletrônicas.



Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

quarta-feira, 20 de abril de 2022

PALAVRAS DE PEDRO - DIA DA RESISTÊNCIA INDÍGENA

 Dom Pedro Casaldáliga 




      Mas, claro, para assumir assim a causa indígena, é preciso despojar-se de todo etnocentrismo pastoral, de todo colonialismo. Mas “despojar-se”. Despojamento que deve ser sumamente lúcido, inclusive cientificamente, e talvez heroico. Como não, se isso implica deixar muitas coisas, pensar de outra maneira, renunciar, em parte, até à própria religião?

     Já não é renunciar simplesmente a costumes, a modos de comer e de vestir, ou de ver e de sentir. Sequer se trata de renunciar somente às filosofias. É renunciar inclusive à própria “religião”. Não digo à fé, claro. . .

     Para falar do momento atual da luta pela causa indígena seria bom partir de uma visão mais global, continental. Depois de superar uma primeira fase colonialista (que não descrevo; aí estão os livros de História), na qual um Las Casas disse grandes coisas muito bem ditas, não é?. . . Este é um santo de minha devoção, ao qual eu levantaria um monumento — embora não faça falta — em todas as aldeias indígenas do Continente, e diante de todos os conventos de frades missionários e de todos os bispados, para que nos entrasse pelos olhos, feito pedra e feito grito, o Las Casas que nos avisou a tempo e parece que só depois de quatro séculos começamos a despertar. . .

     Com uma visão assim, um pouco continental, haveria que destacar algumas figuras em vários lugares. No México está dom Ruiz; Samuel Ruiz, que foi secretário do Departamento de Missões do CELAM, figura extraordinária que merece muito dos povos indígenas e da Igreja da América Latina. Poder-se-ia destacar também o padre Meliá, catalão no Paraguai, antropólogo e missionário, que trabalha com os índios Guarani. E outros antropólogos missionários, outros núcleos de missão que, em vários lugares da América Latina, já há alguns anos partiram para uma autocrítica, despojaram-se do preconceito religioso latino, romano, ocidental etc. e souberam distinguir bem entre religião e fé, assumiram as descobertas da Antropologia, da Etnografía e superaram inclusive o neocolonialismo que houve no próprio Concilio e que se deu no pós-Concílio. Medellín mesmo, praticamente, sequer pensou nos índios; apesar da lucidez com que Medellín soube enfrentar o Continente e seus problemas maiores, não é? E são 50 milhões de índios na América Latina. . . E são povos que estão para morrer, com essas raízes e potencialidades evangélicas. . .

 

Pedro Casaldáliga, Na Procura do Reino

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

terça-feira, 19 de abril de 2022

Páscoa para nós e para o mundo

 Marcelo Barros


 

Parece estranho falar em Páscoa para o mundo, cada vez mais sufocado pela crueldade de uma elite sem coração que organiza a sociedade de modo a sacrificar milhões de pessoas. A imprensa ocidental denuncia os crimes do governo russo na Ucrânia e cala o genocídio provocado pelo império dos Estados Unidos, responsável pela maioria das 28 guerras que destroem o mundo atual. O governo chinês acusa o serviço de inteligência norte-americano de fabricar armas biológicas e usar até aves migratórias para espalhar epidemias mortais em países que o império considera indesejáveis.

Nestes dias, desde a sexta-feira, 15 de abril, as comunidades judaicas celebram a  Pessach de 2022, que chamam “A Festa da nossa libertação”. As Igrejas cristãs se incorporam a esse mesmo espírito e também celebram a Páscoa. Em todas as tradições religiosas, é o único caso de duas religiões diferentes celebrarem a mesma festa e ao mesmo Deus, embora com formas e até significados diversos. De fato, as Igrejas retomam a memória do Êxodo bíblico, mas celebram dão a essa festa o sentido do memorial da morte e da ressurreição de Jesus, como fonte de libertação total e de vida nova para toda a humanidade.

Falar em Páscoa para o mundo não significa pensar que este vá ser transformado por algum milagre ou deva ser incorporado a alguma tradição religiosa. A Páscoa teve o seu início na celebração da primavera no antigo Oriente Médio. Tribos festejavam a lua cheia e dançavam ao ar livre, saboreando as primícias da colheita ou do rebanho de ovelhas. Em hebraico, o termo Páscoa significa passos. Conforme a Bíblia, essa celebração anual da vida, tornou-se a comemoração da vitória do povo hebreu que, pela força do Espírito, se libertou da escravidão. Jesus celebrou a Páscoa, doando a sua vida e abrindo a toda a humanidade a possibilidade de viver a liberdade dos filhos e filhas do Amor Divino.

Não se pode reduzir a Páscoa apenas à celebração religiosa. Não foi essa a tradição bíblica e nem deve ser essa a visão cristã. Os evangelhos chamam de “reino de Deus” o mundo transformado, de acordo com o projeto divino de amor, justiça e paz.  Diariamente, os cristãos oram, não para que Deus os conduza a um mundo à parte e sim: “Venha a nós o teu reino”.

No Brasil atual, mais de 20 milhões vivem a insegurança alimentar. A cada dia, aumenta a população jogada nas ruas das cidades como refugiados em campos de concentração. Cada ano, o 19 de abril é consagrado pela ONU como o dia pan-americano dos povos indígenas. Em Brasília, representantes dos povos originários acampam para denunciar o permanente desrespeito da sociedade dominante aos direitos dos índios, assegurados pela Constituição de 1988. À medida que nos unimos à causa dos povos originários e todas as pessoas marginalizadas por este sistema cruel que domina o mundo, testemunhamos que um novo mundo é possível e nos dispomos a caminhar juntos, para que a justiça e a paz possam brilhar nas relações humanas e na nossa comunhão com a mãe Terra. Já idoso, Dom Pedro Casaldáliga ensinava: “Nossa missão é espalhar pelo mundo ressurreição”.  

 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

FRANCISCO: ESTRATÉGIA DA IGREJA E DO REINO DE DEUS

                                                           Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            O Papa Francisco tem demonstrado muitas qualidades e virtudes ao longo de seus nove anos de pontificado. Diferentes pessoas e instâncias têm apreciado e elogiado publicamente sua sensibilidade humana e pastoral, sua inteligência que responde prontamente às perguntas difíceis ou mesmo insidiosas de jornalistas e curiosos, sua capacidade de pensar de forma ampla e grande os problemas do mundo e as crises pelas quais passa a humanidade neste século XXI. 

            Sob sua liderança, a Igreja Católica – que ele sempre desejou “em saída” – ultrapassou realmente o nível eclesiástico como único fórum de diálogo e ganhou as praças, as ruas, os espaços acadêmicos, as instituições seculares.  Enfim, por todo o planeta, entre católicos e não católicos, crentes e não crentes, a figura de Francisco é respeitada e ouvida como única liderança positiva existente na atualidade. 

            Por outro lado, não são poucos igualmente os inimigos do Papa que, aberta ou em segredo, militam incansavelmente contra suas iniciativas.  Minam Francisco como pessoa, suas propostas, fazem movimentos que são obstáculos aos movimentos por ele iniciados, acusam-no infundadamente. E, sobretudo, adotam uma atitude de silêncio mal-intencionado, interpretado como macabra aposta que o Papa, agora com 84 anos, envelhece e seu pontificado não deve durar muito.  Nos bastidores correm nomes sobre seu possível sucessor. 

            No entanto, os detratores de Francisco fazem mal em não levar em conta uma das virtudes mais importantes do Papa: seu gênio estratégico.  Bergoglio é alguém que pensa e vê longe.  E age em consequência. Por isso, vem realizando desde o início de seu tempo à frente da igreja de Roma e como chefe da Igreja Católica uma reforma já iniciada com decisões pontuais e significativas. 

            É assim que a nomeação dos bispos com “cheiro de ovelha”, de perfil mais pastoral e mais próximos ao povo começa a ser visível e apresentar volume e espessura nas fileiras episcopais. Do mesmo modo, as nomeações de cargos importantes de coordenação e decisão dentro da cúria romana: de mulheres, leigos e outros segmentos representativos do povo de Deus, que até então permaneciam fora deste corpo que faz funcionar o cotidiano da Igreja Católica. 

            Criou também novos dicastérios, extinguindo outros ou reagrupando-os por afinidade.  Assim, foi promovendo um certo “enxugamento” de uma cúria que se encontrava pesada devido à existência de uma multiplicidade de organismos e setores para além de suas necessidades reais e, sobretudo, pastorais. Por trás da estratégia do pontífice pode-se vislumbrar o desejo de que uma cúria mais ágil e enxuta sirva melhor ao único propósito da existência da Igreja, qual seja, o de anunciar o Evangelho. 

            Como confirmação do que se diz acima, no último dia 19 de março, festa de São José, foi anunciada uma nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana e seu serviço à Igreja e ao mundo. A nova Constituição entrará em vigor a partir do domingo, 5 de junho, festa de Pentecostes. Seu título diz muito sobre o conteúdo e principalmente a respeito da intenção e objetivo com os quais é promulgada:  Praedicate evangelium.  

            O Papa não reforma a cúria apenas pelo desejo de reformá-la ou mesmo para afastá-la do que fizeram seus predecessores.  Reforma-a para que  possa realizar melhor seu serviço por excelência, que é a pregação do Evangelho, o anúncio da Boa Notícia de Jesus Cristo ao mundo de hoje. E a festa de Pentecostes é escolhida propositalmente para a entrada em vigor dessa reforma tão esperada e por fim realizada: é a festa da liberdade e da abertura universal.  A festa na qual o Espírito, como artífice da linguagem total, quebra as barreiras linguísticas e semânticas, rompe as barreiras das diferenças e abre ouvidos e línguas ao diálogo e ao entendimento.

            Uma cúria pesada e carregada de excessivas estruturas não ajuda a esse diálogo que Francisco vem tentando incansavelmente realizar.  Uma cúria reformada, mais enxuta e mais leve, seguramente será um instrumento poderoso para abrir caminhos e corações na direção de mais vida para todos, construindo uma fraternidade universal onde todos os seres vivos possam chegar à vida em plenitude.

            É hora de aplaudir e louvar o pontífice por sua estratégia que não recua diante de nada que possa ajudar a Igreja a realizar o sonho de Jesus: o Reino de paz, justiça e amor. 

Somos agradecidíssimos, Santo Padre.  Siga em frente e conte com nossa oração e nossa colaboração.  Amém. 

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas Editora), entre outras obras.



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