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quarta-feira, 4 de maio de 2022

PALAVRAS DE PEDRO - 04.05.2-22

 Dom Pedro Casaldáliga


 

 

        Nossa Agenda nasceu e vem caminhando sempre à luz e sob o estímulo da Utopia. Uma Utopia indefinida nos seus contornos e em sua hora, mas irrenunciável a partir do nosso compromisso com o humanismo integral.

        Cada ano a Agenda tem um tema central, tratado por especialistas que abordam esse tema de ângulos diferentes. Os temas têm sido maiores, ambiciosos, como o diálogo intercultural, a comunicação, a democracia, a política, o mundo indígena, as migrações, a dívida externa, a Pátria Grande... Temas maiores, digo, porque abrangem pessoas e povos, nosso Continente e o Terceiro Mundo, a solidariedade do Primeiro Mundo e a transformação das instituições internacionais.

        Tema maior, urgente e conflituoso, tem sido o tema da última edição, 2008: a política que morreu ou que tem que morrer e uma política outra, de justiça, de igualdade, de dignidade, plural em realizações concretas e autenticamente mundial frente à perversa mundialização do capitalismo neoliberal.

        Faz séculos que a Humanidade vem forjando mediações para realizar a política, conflituosamente, tateando, em experiências históricas, contraditórias, às vezes, e até inumanas.

        Falar em política era, logicamente, falar de cidadania, de participação co-responsável, de sistemas, de governos, de partidos. Nesta Agenda queremos avançar, com tremor de aventura, perguntando-nos sobre a mediação sistêmica para uma política verdadeiramente humana e mundial.

 

Pedro Casaldáliga, Agenda Latino-americana 2009

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

terça-feira, 3 de maio de 2022

Direitos dos povos indígenas e futuro da humanidade

 Marcelo Barros


 

Na segunda-feira, 25 de abril até o 6 de maio, na sede das Nações Unidas, em Nova York, acontece mais uma sessão do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas. Este encontro acontece em formato híbrido, com centenas de representantes dos povos originários e também com participação de comunidades que acessam o Fórum através da internet. Apesar de que a maioria é de etnia indígena, também participam pessoas de outras raças que sabem da importância dos povos indígenas para toda a humanidade e para o futuro da vida na Terra. O tema é sugestivo: “Povos indígenas, negócios, autonomia e os direitos humanos”. Durará duas semanas e tem como objetivo aumentar a integração e promover a coordenação de atividades que ligam as questões indígenas com a ONU.

Na abertura, Abdulla Shahid, atual presidente da Assembleia Geral da ONU, destacou que este encontro celebra a diversidade linguística e cultural que as comunidades indígenas representam. Afirmou que as comunidades indígenas têm muito a ensinar a toda a humanidade, especialmente na relação com a Mãe Terra e toda a natureza. Falou dos muitos desafios que eles enfrentam e reafirmou que governos e sociedades têm obrigação moral de proteger os direitos e bem-estar das comunidades indígenas. E concluiu: “Só se apoiarmos as culturas indígenas, poderemos preservar a biodiversidade da Terra e avançar no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU”.

Ao fazer essas afirmações, o presidente da Assembleia Geral da ONU não estava se dirigindo ao presidente do Brasil, nem ao seu governo. Certamente, a ONU não tinha recebido ainda o relatório anual das pastorais da Terra e da pastoral indigenista que denunciam os 1.768 conflitos no campo brasileiro, ocorridos somente durante o ano de 2021, com 35 assassinatos, que envolveram povos indígenas, quilombolas, sem terra e todas as comunidades tradicionais. Não tinham ainda notícia do caso recente da criança Yanomami, de 12 anos, estuprada e assassinada por garimpeiros, nas comunidades Aracaça, em Amajarí, no norte de Roraima.

Um dos falsos pretextos que o governo atual e os ruralistas brasileiros alegam contra a demarcação das terras indígenas é de seria “muita terra para pouco índio”. Contra isso, neste fórum, o doutor Shahid confirmou: de fato, os povos indígenas representam menos de 5% da população global. No entanto,  a ONU tem provas de que esses grupos tão minoritários são guardiães fieis de 80% da biodiversidade do mundo inteiro.

Nesta assembleia, Dario José Mejía Montalvo, indígena colombiano, líder da Organização dos Povos Indígenas da Colômbia, foi eleito presidente do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas. Em suas primeiras palavras no fórum, ele denunciou que, em todos os países do continente, os povos originários sofrem ataques e são vítimas de perseguições, na maioria das vezes, exatamente por serem defensores da natureza e dos direitos da Terra, das águas e das florestas. 

Dados da ONU confirmam que 1,6 bilhão de pessoas dependem diretamente das florestas para obter alimentos, abrigo, energia, medicamentos e renda. Muitas comunidades e povos indígenas são beneficiados com sustento e refúgio oferecido pelas matas.  Ao mesmo tempo, protegem as matas. Atualmente, as comunidades indígenas são perseguidas por empresas de mineração, garimpeiros e grandes fazendeiros, justamente porque a presença de comunidades indígenas é a última defesa que resta para que as florestas fiquem de pé, os rios possam ainda se manter limpos e os biomas minimamente protegidos. A ONU denuncia que somente no ano de 2021, foram destruídos no mundo dez milhões de hectares de florestas, a maioria deles na África e na América Latina.

Neste tempo em que as Igrejas cristãs celebram a Páscoa, é importante recordar que os evangelhos falam da ressurreição de Jesus como início de uma renovação da vida para a humanidade, mas também para toda a criação, ou seja, a Terra e toda a natureza. Dom Pedro Casaldáliga dizia que a missão cristã é espalhar ressurreição. Isso pede de todas as comunidades cristãs, solidarizar-se aos povos indígenas e ser, cada vez mais, como eles, guardiães da Vida no planeta Terra.

 

 

 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

O CARNAVAL E SEUS CONTRASTES: A RELIGIÃO NA FESTA PAGÃ

 

                                                           Maria Clara Bingemer


 

É parte constitutiva da identidade do ser humano o elemento da festa.  A festa interrompe o tempo cotidiano e introduz a diferença do ritual e da celebração, para marcar uma ocasião especial em que é preciso deixar a rotina e voltar os olhos para o extraordinário que irrompe no tempo cronológico. 

 Todas as festas são eventos pelos quais se entra em “outra” ordem de coisas, onde a fantasia, a imaginação e o desejo tomam lugar.  Festejar, portanto, é reafirmar nossa condição de ser humano, é sublinhar o fato de que não somos guiados apenas pelos instintos e pelo kronos que implacavelmente passa.  Festejar é demonstrar que temos algum poder sobre o tempo, transfigurando-o com o rito da comemoração e da celebração. 

Em tempo de carnaval, mesmo fora de época como no feriado de 21 de abril, as reflexões acima se aplicariam. Somos instigados a refletir sobre o sentido e  o objetivo da música e da dança, dos espetáculos cheios de luzes e cores, dos corpos desnudados e fantasiados em desfile, do samba na rua, de tudo que compõe os três dias que o povo espera com sofreguidão. Isso torna-se ainda mais importante no Brasil, país onde o carnaval ocupa lugar central no imaginário do povo. Chamado com justeza país do Carnaval, o Brasil parece que entra em câmara lenta no Ano Novo para só recuperar seu ritmo e dinamismo depois dos festejos momescos. E agora, com este carnaval adiado devido à pandemia, impressiona a adesão de muitíssimos foliões saudosos da festa que não puderam celebrar nos dois últimos anos. 

Efetivamente, a maioria daqueles e daquelas que “brincam” o Carnaval conhecem pouco ou nada do seu sentido mais profundo. A primeira dimensão dos folguedos carnavalescos tem a ver com um tempo religioso, cósmico e sagrado, onde a Transcendência é que irrompe e transfigura o kronos.  O antropólogo Roberto da Matta nos chama a atenção, em seu conhecido livro “Carnavais, malandros e heróis”, para o fato de o carnaval ficar suspenso entre o Advento (tempo ligado ao nascimento de Cristo que é celebrado no Natal) e os 40 dias da Quaresma, esse período de penitência e mortificação que visa à conversão (metanoia) e culmina com a  celebração dos mistérios da paixão,  morte e  ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De fato, é como se todo o ritual carnavalesco, tão apaixonadamente preparado e vivido pelo povo e que tantos milhões rende aos bolsos dos donos das festas e desfiles só deixasse brilhar seu verdadeiro sentido quando o silêncio da Quarta-feira de Cinzas se faz, com seu ritual das cinzas aplicadas em cruz sobre a testa dos penitentes acompanhado das palavras: Convertei-vos e crede no Evangelho. A quarta-feira proclama a morte de Cristo, agora assumida pela disciplina da Quaresma, que substitui os folguedos e a descontração carnavalesca. 

O carnaval, portanto, não tem rosto próprio, já que sua identidade é dada por um outro tempo e uma outra ordem de coisas e de sentido. Figura – ainda seguindo Roberto da Matta -  como um momento sem nome ou vez, escondido nas dobras de um calendário sagrado. Situado entre o nascimento e a paixão,  morte e ressurreição de Jesus Cristo, a festa que é o reinado de Momo é efêmera como as alegrias e gozos imediatos.  Assume e resume simbolicamente os momentos crísticos do Natal e da Páscoa. E a numerologia cristã dos três dias de que fala o Novo Testamento.

 O  carnaval é, portanto, um evento relativo.  Com o  brilho e o ruído que atraem todos os focos de atenção, na verdade está simplesmente resumindo algo de fulgor bem maior e duradouro: os três dias de folia se referem e encontram significação no mistério cristão,  já que a festa carnavalesca  nasce, agoniza e morre em três dias. 

     Sendo um evento  sincrônico, repetitivo, prenhe de conteúdos cognitivos e afetivos, o Carnaval tornou-se e passou a ser um tempo social importante, fortemente ligado à experiência vital de uma sociedade, muito especialmente da sociedade brasileira. 

     Em uma leitura informada pela fé, mas aos olhos das Ciências Sociais, o Carnaval só pode ser compreendido no contexto da visão cristã de mundo. Carnaval e Quaresma – no calendário cristão que rege o mundo após a queda do Império Romano -  opõem-se no ciclo anual por seus conteúdos sociais e religiosos, implicando comportamentos individuais e coletivos opostos. Porém, na verdade, encontram seu ponto luminoso e iluminador na pessoa de Jesus Cristo, Sol que nunca se apaga, Vivente por excelência, sobre quem a efemeridade das coisas não tem e poder. 

     A alegria do povo que vai às ruas fazer festa é bendita.  É cura para as dores e catarse para as opressões vividas e padecidas.  Assim foi esse carnaval extemporâneo, acontecido depois da Páscoa, mas onde se expressou uma alegria pascal após tanto luto e tanta morte,  como as que assolaram o povo brasileiro nos últimos dois anos. Essa demonstração de alegria encontra seu paradigma no mistério que configura o cristianismo e sua esperança no amor que é mais forte que a morte. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de teologia da PUC-Rio e autora de “Viver como crentes no mundo em mudança” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

domingo, 1 de maio de 2022

LEMBRANÇAS E BANDEIRAS

 


Marcelo Mário de Melo


 

Tremulam as bandeiras da lembrança.

 

Os estudantes de direito carregando a bandeira de Demócrito de Souza Filho nas passeatas e a levantando, frente aos pelotões da polícia do governo de Cid Sampaio e das tropas do Exército, quando foram expulsos a coronhadas da Faculdade, por ordem do presidente Jânio Quadros, em 1961, durante o movimento nacional que reivindicava a representação estudantil de 1/3 nos conselhos universitários.

 

Na tarde de 1º de abril de 1964, depois de uma assembléia na Escola de Engenharia, ainda funcionando na R. do Hospício, seguíamos em passeata para o Palácio das Princesas, no intento de defender o Governo de Miguel Arraes.

 

Carregando a bandeira brasileira e cantando o hino nacional, formos atingidos por tiros de fuzil, restando mortos os estudantes comunistas Jonas Barros, do Ginásio Pernambucano, e Ivan Aguiar, aprovado no vestibular para Engenharia, e que não chegou a iniciar o curso. Passando por diversas mãos,  restou caída e manchada de sangue, a bandeira brasileira.

 

Em 1964, quando os militares quiseram fazer com o governador Miguel Arraes uma negociata política em troca da sua liberdade, ele lhes respondeu que tinha sido eleito pelo povo e não reconhecia neles autoridade para lhes dar ordens de governo, que tinha nove filhos e, um dia, queria poder lhes contar essa história olhando nos olhos. O governador Miguel Arraes foi coerente com as suas bandeiras e fiel aos seus compromissos com o povo. Os militares o levaram para a prisão em Fernando de Noronha.

 

Quando o Coronel Ibiapina, em 1964, disse na porta da cela do menino David Capistrano Filho, com 16 anos, que a culpa da sua situação era do seu pai, um comunista irresponsável, teve a resposta de que o seu pai era um homem sério e honesto, e ele é que era um golpista. O coronel mandou retirar o colchão de David e o transferiu para o juizado de menores, onde passou três meses, preso entre meninos infratores.

 

Naquele momento histórico, um homem maduro, governador de estado, pai de dez filhos, e um menino, estudante de colégio, foram fieis às bandeiras do povo. mostrando que coerência não tem idade. E também que as bandeiras podem e devem passar de pai para filho, de avô para neto.

 

As conjunturas mudam e há necessidade de se atualizarem estratégias, táticas e formas de luta no processo de mobilização por liberdade, democracia e mudança social. Mas é fundamental que isto ocorra sob a base de uma linha de coerência e continuidade histórica em matéria de campos e objetivos centrais.

 

Acima e além dos interesses de facções e da promoção de grupos ou personalidades, a ampliação dos espaços para as camadas populares, nos dispositivos legais, nas políticas públicas e nas representações políticas formais e informais, deve fundamentar o critério de avaliação. Aí está a substância da simbologia das bandeiras.