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quinta-feira, 6 de abril de 2023

GOVERNO LULA: RESGATE DE UMA PRIORIDADE

 

Frei Betto


 

      Lula já declarou que 4 anos passam muito rápido e ele tem pressa. Sabe que seu desafio prioritário é administrar um conjunto de medidas socioambientais: reduzir a desigualdade social; erradicar a fome e diminuir a insegurança alimentar; fazer a inflação refluir; evitar o desmatamento de nossos biomas; proteger os povos indígenas; preservar a floresta amazônica; reindustrializar o país; aumentar investimentos em infraestrutura.

      São medidas semelhantes às de seus dois primeiros mandatos e que o fizeram deixar o governo com 87% de aprovação. Na época, seu polo opositor era o PSDB que, visto de hoje, pode ser comparado a uma elegante dama que, numa batalha de canhões, empunha luzidia esgrima.

      O golpe liderado por Temer em 2016, que resultou na derrubada da presidenta Dilma; a prisão ilegal de Lula pela dupla Dallagnol-Moro; e a eleição de Bolsonaro em 2018; comprovaram que um governo não se sustenta apenas com boas ações administrativas. Nem com maioria parlamentar. É imprescindível outro ingrediente capaz de respaldar as lideranças políticas ainda que elas se encontrem fora do governo: apoio popular. Maquiavel demonstrou que sem o apoio do povo o príncipe não reina, ainda que não perca a majestade. 

      Como se conquista apoio popular em uma conjuntura na qual a mais extremada direita se parece a um pitbull que ladra forte, enquanto a esquerda emite fracos miados? Eis um desafio que os governos do PT jamais priorizaram em suas pautas – a politização do povo brasileiro. Basta dizer que as prefeituras de Maricá (RJ) e Ipatinga (MG) foram administradas por quatro mandatos petistas e nas eleições de 2022 os dois municípios deram vitória a Bolsonaro no primeiro e no segundo turnos. 

      O leitor talvez se pergunte como Bolsonaro, um obscuro deputado federal, foi capaz de se eleger presidente, arrebatar tantos apoiadores e mobilizar a turba fanática que vandalizou a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro e, ainda hoje, prossegue disseminando o terrorismo presencial e virtual. 

      Bolsonaro apenas serviu de estopim para um bomba que vinha sendo alimentada há décadas, desde que o Brasil cometeu o erro de não acertar contas com três vergonhosas manchas de seu passado: a escravidão (hoje os negros são duplamente discriminados: por serem negros e por serem pobres, pois foi negado aos libertos o acesso à terra); a ditadura de Vargas (derrubado em 1945, o ditador voltou à presidência da República, por voto popular, em 1950); e a ditadura militar (torturadores e assassinos foram inocentados por uma esdrúxula lei da anistia). 

      Além dessas graves omissões, vivemos em um sistema capitalista que favorece as forças de direita ao exaltar a acumulação privada da riqueza acima dos direitos humanos; o supremacismo branco; a lei do talião como medida de justiça; o belicismo como solução às contendas. Toda essa conjuntura foi anabolizada por dois fenômenos, um atual – as  redes digitais e, outro, velho como o cachimbo de Adão - o fundamentalismo religioso.

      As redes digitais, controladas por plataformas visceralmente ligadas ao capital, favorecem o individualismo e o narcisismo, e proporcionam um relativo distanciamento propício à manifestação de nossos impulsos atávicos mais agressivos. Para muitos de seus usuários, elas são convenientes porque cancelam o diálogo e impõem o monólogo (mesmo quando coletivo e fechado em uma bolha identitária); permitem a emoção se sobrepor à razão; promovem a mentira à condição de pós-verdade; encobrem a verdadeira identidade do emissor; e escapam da legislação vigente, o que as torna inimputáveis. 

      O fundamentalismo religioso internaliza nos fiéis a “servidão voluntária”, induzindo-os a identificar a palavra do padre ou pastor com a de Deus; abdicar da razão crítica; negar a laicidade do Estado e mirar a política pela ótica da confessionalização, exigindo leis que reflitam os preceitos religiosos de determinado segmento eclesial. 

      Diante desse quadro, só resta ao governo Lula abraçar, como prioridade número 2, a educação política de nossa população. Tarefa que ele delegou à Secretaria Geral da Presidência da República e requer urgência no seu desempenho, tanto na capilaridade alcançada nacionalmente pelo governo federal (como as 22 milhões de famílias do Bolsa Família), quanto da poderosa máquina de comunicação do governo, como a EBC, a Voz do Brasil e a transversalidade da ação interministerial. 

      Para assegurar sua governabilidade, um governo necessita duas pernas: maioria parlamentar e apoio popular. Sabemos todos que a primeira é falha na atual legislatura. Resta a Lula desencadear intenso trabalho político para reforçar a segunda. E, para isso, não bastam boas ações administrativas, como Minha Casa, Minha vida, aumento do salário mínimo ou do emprego. É preciso trabalhar o universo epistêmico das pessoas, mudar a ótica de visão da realidade, o que só se consegue com educação. 

      É hora de trocar, definitivamente, Paulo Guedes por Paulo Freire. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

quarta-feira, 5 de abril de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - PASTORAL INDIGENISTA

 


Dom Pedro Casaldáliga



 

        A Pastoral Indigenista é:

        - específica;

        - qualificada;

        - de emergência.

        Em Pastoral Indigenista, é bom recordar a constatação de Rahner: "O caminho ordinário (por ser majoritário) da Salvação dos povos são as religiões não-cristãs".

        A Pastoral Indigenista não pode cair na regionalização das Igrejas locais ou dos Regionais do CIMI ou da CNBB, ilhados em si mesmos e desconectados da global Pastoral Indigenista do Brasil e da América. A Pastoral Indigenista deve ser continental.

     

Pedro Casaldáliga, Na Procura do Reino

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

sábado, 1 de abril de 2023

A FOME DO OUTRO: PROBLEMA ESPIRITUAL


      Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Como em todos os anos, a Igreja Católica no Brasil lança a Campanha da Fraternidade por ocasião da Quaresma. Nesse tempo em que os cristãos são convocados a converter-se e preparar-se para celebrar o mistério pascal de Jesus, centro da sua fé, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lança um alerta, um apelo.  Escolhe um tema candente e desafiante para  os quarenta dias que precedem a Páscoa. 

            Este ano o tema é a fome.  A fome que rói as entranhas.  Aquela que impede de pensar e de viver. A fome que atormenta famílias inteiras, cujas crianças sofrem o flagelo da desnutrição.  E por que a fome?  Porque o Brasil voltou a seu macabro mapa. Mais de 30 milhões de brasileiros não têm o que comer.  Ainda que surpreenda, ainda que estarreça em um país com tantos recursos naturais, com uma agricultura pujante, essa é a realidade. Muitos brasileiros passam fome.  E entre esses, não poucos são vitimados e morrem de desnutrição e insegurança alimentar. 

            Perguntarão alguns: mas por que a Igreja tem que se ocupar com este problema, que é econômico, social? Não é uma questão religiosa.   Isso deveria ser pauta dos governos em todos os níveis, inclusive das universidades.  Por que a Igreja situa em seu centro de atenções no tempo litúrgico mais importante do ano esse problema tão material? Não deveria propor algo que toque mais de perto o espírito, a vida de oração, o crescimento devocional de seus fiéis?

            Acontece que a fome é, sim, um problema espiritual.  E dos mais importantes.  Porque está diretamente conectado à vida.  Sem comer, não se vive.  E o Deus que Jesus de Nazaré veio anunciar e chamou de Pai é o Deus da vida.  Tudo que deseja é que seus filhos amados tenham vida em abundância.  A fome portanto é uma agressão das mais  violentas ao projeto de Deus, o Reino da justiça, da paz e do amor. Por isso, a CNBB convoca  todos os cristãos a se responsabilizarem diante deste flagelo que voltou a crescer no país.  

            Os bispos do Brasil, portanto, com a Campanha da Fraternidade 2023 são claros em sua proposta: a fome não é um problema alheio a Deus, à fé e à religião.  Pelo contrário, está no centro da vida e do projeto de Jesus e de todos aqueles e aquelas que nele creem.  Como diz o grande pensador ortodoxo Nikolai Berdiaev: “Se eu tenho fome é um problema biológico.  Se o meu irmão tem fome, é um problema espiritual” .

            A Igreja deseja despertar os sentidos, a cabeça e o coração de todos para uma situação que não pode ser tratada com indiferença e considerada normal.  O fato de uma pessoa, criatura de Deus, passar fome e não ter o que comer; ter que ir para os fundos dos açougues esperando encontrar algum osso para dar a sua família; ter que revirar latas de lixo como os ratos para encontrar sobras das mesas fartas, não pode ser tratado com um dar de ombros indiferente, como se não fosse problema meu.  

            O grande escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu uma memorável crônica  - Notícia de jornal - sobre um homem que passava fome na rua e ali acabou morrendo sem receber o socorro de ninguém. 

“ Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.  Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? O que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

A Igreja do Brasil não quer que isso aconteça.  E mais: deseja dizer aos cristãos que isso não pode acontecer.  Nunca.  A fome do outro é problema meu, nosso.  Por isso, como lema da Campanha da Fraternidade temos a bela frase do Evangelho de Marcos que narra a multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.  

Jesus viu a multidão faminta e compadeceu-se dela.  Os discípulos argumentavam que era melhor mandar todos embora, que não tinham dinheiro para comprar comida.  O Mestre disse, então, que o que tinham pusessem em comum.  E afirma o evangelho que todos comeram e ficaram saciados.  

Não há que delegar, terceirizar, responsabilizar os outros.  Dizer que isso é problema da prefeitura, do governo do estado, da presidência da República.  “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A fome do outro é um problema espiritual e ao mesmo tempo um mandato.  Quem tem fome não pode esperar.  Precisa ser alimentado. E se eu me deparei com alguém com fome, sou eu que devo dar-lhe de comer, repartindo o que é meu para que todos sejam saciados. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Prisão de Bolsonaro será disciplinadora

 Leonardo Boff 


 

Contradizendo vários de meus colegas de que não se deve agora condenar Bolsonro,apenas desgast-lo, pondo à luz seus crimes e só no fim puni-lo pensamente com a prisão, eventualmente levá-lo ao Tribunal Penal de Haia e deixá-lo por lá mesmo,como foi feito com muitos condenados por crimes contra a humanidade. Bolsonaro não fica muito aquém de Hitle e de Pinochet e de outros fascínoras. O Brasil não pode deixar nornalizar sua situação e deixá-lo vagando por aí até encontrar um país, com mentalida dele onde possa se esconder. Sou decidicamente pela extradição e julgamento imediato desse criminoso de milhares de pessoas, beirando o genocídio ou sendo de fato um genocida.

Publicamos este texto corajoso de Hildegard Angel que viveu na própria família o horror da repressão e do assassinato de seu irmão Stuart Angel Jones. Lboff

 

Hildegard Angel, Jornalista, ex-atriz, filha da estilista Zuzu Angel e irmã do militante político Stuart Angel Jones

“Sua prisão não provocará comoção alguma. Ela fará vermes, ratos e lagartos retornarem aos grotões lamacentos de onde emergiram”, diz a colunista

A cada dia mais me escandalizo com a insistência da imprensa brasileira em normalizar uma figura política monstruosa, incompetente e irresponsável como Bolsonaro, enquanto a mídia estrangeira se mantém horrorizada com ele. 

Vejo analistas e comentaristas políticos se referirem ao governo passado como se este tivesse sido algo regular, e não uma evidente anomalia, um governo disfuncional, um período distópico da vida brasileira. 

Todo surto de esquizofrenia necessita tratamento até ser retomada a sanidade. Com o estado brasileiro não será diferente. Não se salta do caos absoluto para o corriqueiro, num piscar de olhos. Há que se providenciar a recuperação até a cura.

Para o Brasil retomar a normalidade suas instituições devem dar o melhor exemplo, a partir da imprescindível responsabilização criminal de Bolsonaro e seus comparsas. Essa alegação de que ele “vai virar mártir” não cabe para quem é um vilão assumido e convicto, vide “Argentina 1985”, em que a condenação dos arrogantes malfeitores

Os efeitos da malignidade de Bolsonaro se espraiaram pela nação brasileira em todos os campos. Bolsonaro estuprou o Brasil, com violência e torpeza. Das florestas à economia, da dignidade ao conhecimento, da saúde à compostura, à inocência, nada foi poupado em sua ação predatória. 

 

De tal forma que as feridas deixadas por ele na vida brasileira dificilmente cicatrizarão. O trauma será longo, se não for perpétua.

Bolsonaro precisa ser responsabilizado, sim, levado aos tribunais, locais e internacionais, julgado e condenado. Precisa ser preso, sim, porque ele fez por onde. Caso isso não ocorra, será uma desmoralização para a Justiça brasileira, terá sido o crime perfeito, abrindo caminho para outros projetos de destruição de nosso estado.

Os que não se deram conta disso, que se mirem no exemplo do próprio Bolsonaro, que se mantém a cuidadosa distância do Brasil, à espera de a poeira baixar. 

Sua prisão não provocará comoção alguma, ao contrário do que alguns receiam. Será uma ação disciplinadora, educativa até. Ela fará vermes, ratos e lagartos retornarem aos grotões lamacentos de onde emergiram – e que jamais deles retornem – confirmando a covardia de suas práticas”

Leonardo Boff, teólogo e filósofo escreveu Homem anjo bom ou satã, Record 2008.