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terça-feira, 16 de maio de 2017

O DIREITO E DEVER DE DESOBEDECER


Por Marcelo Barros


Enquanto a sociedade dominante e mesmo instituições religiosas pregam a virtude da obediência como base das relações e do bom funcionamento das organizações, os profetas e profetizas revelam que há situações nas quais o dever das pessoas éticas é desobedecer.

A  espiritualidade ecumênica compreende a obediência como a escuta interior do outro e principalmente de quem tem a responsabilidade de representar o coletivo ao qual se pertence. Por isso, a obediência nunca pode ser uma atitude mecânica ou, menos ainda, atentar contra a consciência de alguém A obediência responsável supõe abertura de coração e liberdade interior. Não se realiza sem que haja entre as duas partes envolvidas uma disposição de dialogar. No caminho da fé, se trata de escutar juntos a palavra de Deus através da realidade atual e do que o Espírito pede a cada um/uma e a todos juntos. Por isso, as tradições espirituais falam da obediência como virtude espiritual que pode ajudar a pessoa que obedece a superar seus limites interiores e a aventurar-se nos caminhos do amor. Essa atitude de se colocar junto do outro para acolher a palavra divina e aquilo que se deve fazer inclui sempre uma postura crítica e não ingênua ou apenas submissa. Permite a colaboração no lugar da competição e contém um elemento subversivo à mesquinhez do mundo. Diante de ordens injustas ou que vão contra a vida e a ética, a obediência primeira deve ser a palavra interior da consciência e a atitude correta a seguir será sempre o dissenso e mesmo a desobediência formal.

Essa consciência de obedecer a normas éticas mais profundas e valiosas fazem com que, no Estado de Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório se neguem a combater palestinos. Nos Estados Unidos, soldados se neguem a cumprir ordens racistas. Em todo o mundo, alguns grupos religiosos invocam a sua fé para desobedecer a qualquer ordem que significaria violência contra a população civil. Invocam um direito individual, assegurado pela ONU: o direito de objeção de consciência.

Em vários países, a objeção de consciência é direito civil, reconhecido por lei. No Brasil, o atual governo e o Congresso constituído por maioria de pessoas compradas por grandes empresas, se sentem com o direito de, sem  consultar o povo, mudar a Constituição Cidadã. No entanto, até aqui, a lei maior, mesmo se ainda não foi complementada, garante aos jovens brasileiros o direito de fazer um serviço civil no lugar do serviço militar obrigatório. Poucos brasileiros têm consciência disso. A ONU propõe que se consagre o dia 15 de maio para aprofundar o direito da objeção de consciência e divulgar uma postura pacifista.

Objetar é se opor determinadamente a cumprir uma lei que fere a consciência. A violência, mesmo cometida pelo Estado, nunca será capaz de construir um mundo de paz e justiça. Só se reconhece a dignidade humana onde a consciência individual e a fé de cada grupo forem respeitadas. A ciência e a arte de viver têm progredido mais por conta das pessoas que ousam desafiar as leis e inovar os costumes do que pela ação das que simplesmente seguem caminhos convencionais.

Mulheres e homens, reconhecidos no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, foram ou ainda são, em seus países, considerados como rebeldes e desobedientes. Para os budistas tibetanos, o Dalai Lama, é a 14a reencarnação do Buda da Compaixão. No entanto, para o governo chinês, ele é apenas um subversivo, desobediente às leis. O prêmio Nobel da Paz foi dado a dois latino-americanos ilustres: a Rigoberta Menchu que viveu anos sem poder voltar à Guatemala para não ser morta e a Adolfo Perez Esquivel que, durante anos, era constantemente ameaçado de prisão na Argentina. No Brasil da ditadura militar, o arcebispo Dom Hélder Câmara era escutado no mundo inteiro. Enquanto isso, em nosso país, os meios de comunicação não podiam nem pronunciar o seu nome. No passado, Gandhi e Martin Luther King foram presos e condenados como desobedientes às leis vigentes. Para os cristãos, os mártires são testemunhas da fé. Muitos foram condenados à morte por se negar a reconhecer o imperador como divino; Outros, por objeção de consciência ao serviço militar. Do ponto de vista da fé, são mártires, mas a sociedade da época os condenou como traidores e até criminosos.

Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com maior razão ainda, as religiões e Igrejas deveriam reconhecer um direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder autoritário ou, por qualquer razão, injusto. Atualmente, a maioria das religiões reconhece o direito à objeção de consciência no campo social e político, mas nem sempre aceita a desobediência religiosa.

Até hoje, é frequente que bispos, padres e pastores excluam pessoas e grupos por serem desobedientes e considerem qualquer dissidência como traição à fé e heresia. Essa intolerância e autoritarismo anti-evangélico abre a porta ao fundamentalismo religioso, hoje, responsável por tantos atos de violência física ou simbólica. O que, na Bíblia, caracteriza a fé cristã é o aprendizado da liberdade interior e social. Paulo escreveu aos coríntios: “Onde estiver o Espírito do Senhor, aí haverá liberdade” (2 Cor 3, 17). E aos gálatas: “Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou. Vocês não devem aceitar, por nenhum pretexto, voltar à situação de não liberdade” (Gl 5, 1. 13).  

            
  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 



segunda-feira, 15 de maio de 2017

A FIGURA PARADOXAL DA BELEZA


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



          A beleza é uma das faces de Deus que mais instiga e fascina o homem na revelação de seu mistério. Rodin esclarece que “não há, na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma ideia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade.”.

          Esta afirmação nos remete a uma afirmação teológica fundamental.  Se a fé nos diz que Deus é a verdade, a experiência humana ao longo dos séculos e milênios tem nos revelado que a verdade é bela, ou que o belo é o verdadeiro.  Beleza e Verdade são outros nomes para o Deus que as diversas religiões vêm nomeando ao longo dos tempos, experimentando em suas vidas e vendo-se por elas fascinadas. 

            Contemplar a Deus, experimentar sua presença tem sido descrito com palavras, imagens e metáforas muito próximas daquelas utilizadas para  descrever a experiência estética.  Na tradição judaico-cristã e na rica mística gerada pelo cristianismo, a ética e o apelo ao compromisso no serviço ao outro anda de par com a experiência do fascínio e deslumbramento pela contemplação da beleza desse Outro que fascina e atemoriza com a força de sua sedução.  A mística tem, inegavelmente, uma dimensão estética.


            Porém, de que estética e de que beleza se trata?  Certamente não da beleza dos padrões ditados pelos parâmetros humanos.  A beleza do divino é desconcertante e imprevisível, apresentando-se freqüentemente com visibilidade e signo invertido e paradoxal, deixando aquele ou aquela que a experimenta perplexo e fascinado, buscando captar a direção que lhe é mostrada com tal experiência.

            Desde os primeiros séculos do cristianismo, opõem-se duas concepções relativas à interpretação da figura de Cristo e sua representação.  Orígenes foi um dos primeiros a defender a representação de um Cristo perfeitamente belo.  Apoiava-se no salmo de David, que cantava: “Oh mais belo dos filhos dos homens, reina, triunfa pelo fulgor atraente de tua beleza”.  Esta sublimação do Cristo respondia às concepções teológicas de São Gregório de Nissa, de São Jerônimo, de Santo Agostinho e São João Crisóstomo.

          Por outro lado, os monges e Padres da Igreja da África e da Ásia Menor se recusavam representar um Cristo de beleza fulgurante.  Seguiam nisto o profeta Isaías: “ O Filho do Homem é sem beleza e sem brilho, nós o vimos e o desconhecemos.  Era um objeto de desprezo, o último dos homens, um homem das dores e conhecendo a enfermidade.  Não tinha graça nem beleza que pudesse atrair nossos olhares.” São Cirilo de Alexandria, bispo de Jerusalém, e São Basílio, bispo de Cesaréia, foram partidários de uma representação austera, melhor adaptada ao Cristo, que recusou todas as tentações do mundo, veio para a redenção dos pecadores e foi crucificado vergonhosamente com os escravos. 

          Ao longo da história do Cristianismo, estas duas tendências vão se alternar  sobre as representações da figura de Jesus Cristo.  Ora será representado com esplendor e glória dentro dos cânones de beleza vigentes em cada época, como os Cristos bizantinos e renascentistas, ora  representado e venerado inseparável do mistério de sua cruz, com as mais dolorosas representações de seu sofrimento e suplício, no qual os seres humanos verão sua salvação e esperança, no consolo de seu próprio sofrimento e dor.

          Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia  da PUC-Rio e autora de "Violência e Religião" (Editora PUC-Rio/Edições Loyola), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)


quinta-feira, 11 de maio de 2017

RECLAMAR MENOS, ATUAR MAIS

por Frei Betto



      Quando me perguntam sobre o Brasil, respondo que não vejo luz no fim do túnel porque nem mesmo enxergo o túnel...

      Não lembro de ter vivido conjuntura tão incerta. Na ditadura os atores, de um lado e outro, eram definidos. Agora não. Há um assombroso retrocesso no país, e é praticamente insignificante a reação de quem se lhe opõe.

      A reforma trabalhista jogou por terra mais de 70 anos de conquistas laborais. A terceirização passou ao primeiro lugar. A reforma da Previdência condena os brasileiros mais pobres a uma vida toda de trabalho forçado, pois dificilmente terão sobrevida após 49 anos de aluguel de sua força de trabalho aos patrões, a preço salarial irrisório.

      O Brasil está atolado no retrocesso econômico, no esgarçamento das políticas sociais, na precarização da saúde e da educação, e na corrupção. Os dados são alarmantes: 13 milhões de desempregados; surtos de febre amarela, dengue, zika e chikungunya, violência urbana crescente.

      Para se contrapor a essa conjuntura, não basta abastecer as redes sociais de ofensas, ironias, ressentimentos e piadas. É preciso organizar a esperança. Ter clareza de como proceder nas eleições de 2018 e qual o projeto de Brasil dos nossos sonhos.
      O voto em 2018 deverá estar pautado pelo Brasil que queremos. Essa visão estratégica deve nortear a escolha de partidos e candidatos.

      Eleições, contudo, não mudam um país. O que muda é o fortalecimento dos movimentos sociais, o profundamento ideológico à luz do marxismo, o resgate da utopia e a militância junto aos segmentos empobrecidos da população. Buscar a alternativa socialista brasileira com visão crítica das experiências socialistas historicamente existentes.

      Há que resistir a essa avassaladora cooptação feita pelo neoliberalismo. A direita avança no mundo todo. A desigualdade se acentua: oito indivíduos, segundo a Oxfam, possuem a mesma renda de 3,6 bilhões de pessoas, metade da humanidade.

      Temos apenas duas escolhas: cuidar de nossa vida biológica, como estudar para obter emprego e, graças ao salário, sustentar a família, esperando que a sorte não nos empurre para a pobreza; ou imprimir à vida um sentido biográfico, histórico, ao assumir a militância da luta por justiça, liberdade e defesa intransigente dos direitos humanos.

      Não nos basta informação. É preciso investir em formação, de modo a construir uma alternativa de sociedade que, a meu ver, deve consistir no ecossocialismo.

      Fora Temer? E o que colocar dentro?

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros.
  Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 
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quarta-feira, 10 de maio de 2017

JESUS SALVA


Eduardo Hoornaert


As reflexões abaixo são provocadas pela impressão que, apesar de louváveis esforços, parece que que a liturgia e os comentários, sermões, canções da Semana Santa ainda focalizam predominantemente a figura de um Jesus ‘salvador’. Não tenho estatísticas a respeito, mas suspeito que a imagem de Jesus salvador ainda define predominantemente a ideia que a maioria dos cristãos têm a respeito de Jesus de Nazaré. É principalmente nas celebrações da Semana Santa que isso se patenteia: realça-se a figura de um Jesus que sofre e morre para ‘salvar a humanidade’. Para além das liturgias da Semana Santa, a impressão é de uma liturgia católica permeada de imagens que se referem ao tema da salvação. Basta dar uma olhada no Missal Romano, principalmente naqueles textos que celebrante e participantes rezam ou cantam juntos. Eles são muito antigos: o Kyrie Eleison e o ‘Gloria a Deus nas alturas’ provêm das liturgias ortodoxas do primeiro milênio da história cristã, o ‘Credo’ deriva do Concílio de Niceia (325) e o ‘Agnus Dei’ reflete o imaginário apocalíptico judaico em tempos de Jesus. Envoltos numa aura de sacralidade, fica difícil trazê-los à discussão e é por isso, penso, que muitos participantes da missa os recitam sem prestar muita atenção ao que estão dizendo. Pois estão afirmando (embora ‘liturgicamente’) que o gênero humano é pecaminoso, marcado por um ‘pecado original’, e, portanto, carente de salvação. Afirmam igualmente que Jesus Cristo morreu ‘para nos redimir de nossos pecados’, ou seja, que ‘Jesus salva’. Não é isso que se lê no Missal, desde a confissão no Kyrie Eleison: ‘Senhor, tende piedade de nós’, passando pelo ‘Gloria a Deus nas alturas’, onde se diz que Cristo ’carrega os pecados do mundo’ e pelo Credo, que reza que Cristo é ‘crucificado por nós’, até chegar ao Agnus Dei: ‘Cordeiro de Deus, que carregas os pecados do mundo’? Jesus é o redentor (salvador) do mundo.

A reflexão que desenvolvo aqui é em parte inspirado nas pertinentes reflexões do Padre José Maria Vigil em torno desse tema (veja Internet, Wikipedia), em parte em textos meus, anteriormente escritos em diversas oportunidades.

Donde provém esse modo de pensar? Não provém de um dogma ou de algum tratado teológico, mas de uma narrativa, composta de elementos bíblicos, mitológicos e jurídicos, que permeia o pensamento cristão, embora vagamente, como se fosse por osmose. Ela reza o seguinte: ‘O homem (o adão) é criado por Deus, assim como a mulher, sua auxiliar. Ela convence o homem a comer, com ela, um fruto proibido pelo Ser Supremo. Eis o ‘pecado original’, uma ofensa abominável e insuportável aos olhos da Majestade Divina. Mesmo assim, em sua bondade, Deus elabora um ‘plano dois’, que tome em conta a pecaminosidade fundamental do ser humano. É o plano de redenção (da salvação). Um plano exigente, que exige a vinda do próprio Deus ao mundo, através da sua encarnação em Jesus, a fim de assumir uma representação (humana) que possa ter legalidade diante da Majestade Divina (eis um conceito jurídico proveniente do direito romano, que penetrou na tradição cristã durante a Idade Média, como explico em seguida). Só desse modo sepaga um delito tão abominável como foi o delito de Adão e Eva. É por amor ao gênero humano que Deus se torna homem, na pessoa de Jesus. É a Lei de Deus (reparação da ofensa feita à Majestade Divina) que exige uma reparação tão dolorosa. Se Jesus, como relatam os evangelhos, sofre tormentos indizíveis em sua paixão e se ele finalmente morre, é para consertar um delito de dimensões infinitas, praticada pelo primeiro casal e que passa para a humanidade por meio da procriação. Jesus redime essa humanidade, ele é o ‘novo Adão’, o iniciador de uma nova geração, ao ‘pagar’ o preço da reconciliação com o Deus ofendido. Ele destrói o poder do diabo, que mantém a humanidade em cativeiro. É nosso Salvador’.
Até aqui a narrativa. Sem dono, sem apoio nem desmentido oficial, ela tem uma impressionante longevidade na mentalidade dos cristãos e se expressa principalmente na liturgia. Como escrevi acima, mistura dados bíblicos, jurídicos (derivados do Direito Romano) e mitológicos. Esses últimos elementos são os mais importantes, pois a narrativa acima evocada não é compreensível senão quando lido diante de um fundo histórico que evoca práticas religiosas que se perdem nas brumas dos tempos passados. Textos muito antigos do Oriente Médio (donde nos provêm os primeiros escritos, como por exemplo a Epopeia de Gilgamesh) dão conta de um medo indefinido que paira sobre a humanidade desde tempos imemoráveis, o medo de um Deus que pode a cada momento explodir em violência e ameaçar com a destruição do mundo (como na evocação de um dilúvio na referida epopeia). Nunca se sabe como o Ser Supremo vai reagir. Sentado no trono, seus inimigos debaixo dos pés, cetro na mão direita, rodeado de cortesãos com seus abanos e reverências, no imenso palácio que se ergue no céu, com insígnias de poder por todos os lados (conforme uma imagem do tempo persa), Deus permanece imprevisível. Pode, de repente, explodir em ira contra os pecadores. Explosões de ira que eventualmente retumbam sobre a terra em forma de enchente, tempestade, seca, fome, guerra, doença e morte. Há de se temer a Deus, eis a sabedoria ancestral.
Para entrar em contato com esse Poder Divino, há necessidade de uma mediação exercida por funcionários religiosos. Palavras milenarmente pronunciadas por celebrantes caldeus, assírios, babilônicos, persas, gregos, romanos e judeus, transmitidas de geração em geração, nas mais diversas línguas e nas mais diversas circunstâncias, indicam, em última análise, temas recorrentes em todas as religiões do Oriente Médio: ‘pecado, culpa, falta, condenação, inferno’ e em contraposição, ‘sacrifício, expiação, salvação’. Daí a compreender por que as mais diversas culturas cultivam milenarmente ‘ritos de purificação’ para aplacar a ira divina e tornar a humanidade ‘pura’ diante de Deus, é apenas um passo. Vítimas são sacrificadas para o bem da tribo, do povo ou da nação. Durante milênios, a vitimação é considerada normal, inevitável para a boa organização da sociedade. As próprias vítimas (mulheres, escravos e trabalhadores no Império Romano, por exemplo) nem têm consciência de serem vítimas e acham que sua situação é ‘um dado da natureza’ (assim pensa, por exemplo, Aristóteles). Para remediar um sentimento de mal-estar na sociedade por causa de crimes ou guerras, as civilizações, durante milênios, organizam diversas formas de ‘expiação (ritual) dos pecados’, com a finalidade de se purificar, ou seja, de poder respirar de novo o ar puro da inocência perdida e colocar tudo nos eixos, sacrificando vítimas (é o que acontece, neste momento, na política brasileira). É de se compreender que o judaísmo participe dessas crenças e dessas práticas. Há, por exemplo, a ‘festa da expiação’ (Yom Kippur), até hoje celebrada. No tempo de Jesus, naquela festa, o Sumo Sacerdote, em pé na frente do Santo dos Santos, no Alto do Templo, sangra um bode e depois o joga penhasco abaixo, proclamando em seguida que Israel está de novo puro e imaculado diante de Ihwh. O ‘bode expiatório’ tem longevidade impressionante, pois corresponde a algo que vive dentro do ser humano (veja os livros de René Girard). Os antigos astecas, no México, praticam algo parecido, quando praticam sacrifícios humanos sangrentos no alto de suas pirâmides. E, afinal, não podemos dizer o mesmo acerca do Sumo Sacerdote Caifás quando ele, no sinédrio, dá o voto definitivo a favor da condenação de Jesus, dizendo: ‘um tem de morrer pelo povo’?

E os evangelhos? Eles entram na perspectiva ‘salvadora’? Vou me ater ao Evangelho de Marcos. Ele relata que, por onde Jesus passa, aglomerações se formam. Jesus atende sem cessar, cura, conforta, expulsa demônios. E o povo correndo atrás dele. Aqui, ele parece realmente um ‘salvador’. Em pouco tempo, seu renome ultrapassa a Galileia: ‘uma massa, proveniente da Galileia, da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia, do Além Jordão, das redondezas de Tiro e Sidon, o persegue aonde ele vai’ (Mc 3, 8). As autoridades de Jerusalém mandam emissários para observar o que está acontecendo e Jesus tem de recuar para as margens do Mar da Galileia. Mas ali a cena se repete: ‘muitos caem sobre ele, para que os doentes o toquem’ (Mc 3, 9). ‘Sopros imundos, à sua vista, lançam-se a seus pés e gritam: você é o Filho de Deus’. Jesus sobe num barco e atravessa o Mar da Galileia, para evitar que ‘as massas o sufoquem’ (o mesmo versículo). Mas não adianta: por onde ele vai, ‘as pessoas o reconhecem. Elas vêm de toda a região e começam a trazer doentes em macas, para o lugar onde ouvem falar que Jesus está. E, por toda parte, vilarejos, cidades, sítios do campo, suplicam que ele permita tocar pelo menos a franja do manto. E todos que o tocam ficam curados’ (Mc 6, 55-56).
Como Jesus reage diante do assédio? Ele aceita o papel de ‘salvador de Israel’? Tenho por mim que Marcos, apoiado em quarenta anos de falas entusiastas sobre um Jesus milagreiro e curandeiro (entre a morte de Jesus e a redação de seu Evangelho por volta do ano 70), exagera nas descrições de multidões em torno do homem de Nazaré. Realmente, Marcos pinta um quadro que pode dar a impressão que, efetivamente, um ‘salvador’ percorre as aldeias da Galileia. Mas uma leitura atenta do Evangelho apresenta boas razões para dizer que esse sucesso todo incomoda Jesus. Não só porque essas aglomerações atraem a atenção das autoridades, mas principalmente porque atrapalham o que ele mais deseja fazer: difundir seu programa entre a população. Isso fica claro em repetidas reações de Jesus. Ele não quer atrair a atenção sobre sua pessoa, sua intenção é orientar as pessoas a tomarem conta de sua própria vida. As correrias em seu entorno o incomodam, pois podem constituir um desvio de seu trabalho. A publicidade o atrapalha e é por isso que ele recomenda, a quem por ele for beneficiado (um possesso do demônio, um discípulo, um doente) que guarde discrição. A alegria de Jesus não consiste em ser admirado e considerado ‘salvador do povo’, mas em verificar que seu programa está sendo traduzido em ações concretas.
O programa de Jesus, em seu âmago, é simples, como se desprende de uma leitura do Evangelho de Marcos: abrir a casa ao visitante incômodo no meio da noite; perdoar as dívidas e erros do vizinho (não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes); não cobiçar a mulher do vizinho nem seu animal de carga; não ter inveja de ninguém (pois a inveja destrói os laços de fraternidade); não delatar o vizinho; frequentar as reuniões da comunidade (da sinagoga) onde se ensina a lei de Moisés sem as deturpações divulgadas pelos sacerdotes de Jerusalém; ver em qualquer pessoa um irmão, uma irmã. Esse programa, fácil de ser enunciado, é difícil de ser executado, pois está em oposição diametral com... a ideia da salvação. O programa de Jesus mostra que uma sociedade pode sobreviver sem apelar para um salvador, postular sacrifícios nem produzir vítimas inocentes.

O reino de Deus nas aldeias da Galileia, uma experiência real e histórica, até hoje orienta o cristianismo. A genialidade de Jesus não só consiste na lucidez em detectar o mecanismo sacrifical, mas também na decisão de desativá-lo por onde anda. Sua experiência-modelo implica em nunca jogar a culpa no outro. Isso abre uma nova perspectiva para a humanidade e inaugura um tempo de fraternidade universal e amor incondicional ao próximo. Muitos teólogos interpretam a vida de Jesus segundo esse paradigma evangélico.
Mas nem todos. Apoiados na ideia ancestral do sacrificialismo acima esboçado, alguns teólogos influentes propõem uma ‘leitura sacrificial’ do Evangelho de Marcos. Refiro-me aqui especificamente a um monge teólogo normando de nome Anselmo, que viveu no século XI e chegou a ser arcebispo em Cantuária na Inglaterra. Entre os anos 1097 e 1100, ele escreveu um tratado intitulado em latim ‘Cur Deus homo?’ (Por que Deus [se tornou] homem?), um texto de uma lógica impecável. Anselmo consegue a proeza de interpretar o significado histórico da vida de Jesus por meio da interpretação de uma única palavra do capítulo 8 do Evangelho de Marcos, a palavra grega ‘dei’, que significa ‘é necessário, não há como escapar’. Dada a sua importância, copio aqui integralmente o referido trecho do Evangelho de Marcos (Mc 8, 30-34):

Jesus começou a dizer que era preciso (em grego: dei) que o Filho do Homem sofra muito, que ele seja rejeitado pelos anciões, os grandes sacerdotes e os letrados, que ele seja posto à morte e se levante após três dias. Ele dizia tudo isso abertamente. Pedro o tomou à parte e o repreendeu. Mas Jesus se retornou e, diante dos discípulos, criticou Pedro: Para trás, Satanás! Você não tem o espírito das coisas de Deus, mas o dos homens! E, chamando a multidão a vir mais perto, ele disse a todos: se alguém quiser me seguir, que ele se negue a si mesmo, que ele tome sua cruz e me siga!  

Na leitura de Anselmo, Jesus aceita o horror da morte na cruz por obediência a Deus. Ao concentrar toda a sua atenção no único termo grego ‘dei’ (‘é preciso’), ele nos faz entender que está praticando uma ‘leitura grega’ de um texto semita (pois a Bíblia é semita em seu modo de pensar e se expressar). O que significa isso? Na época (século XI), não constitui nenhuma novidade ler a bíblia através de ‘óculos gregos’, embora seja um empreendimento muito arriscado, como os linguistas hoje demonstram com crescente poder de convencimento. Seja como for, a ‘leitura grega’ caracteriza o modo em que, em geral, a intelectualidade cristã no primeiro milênio (os chamados Padres da Igreja) interpreta a bíblia. O fato que Anselmo, ao ler o referido texto do Evangelho de Marcos, vai direto ao termo grego ‘dei’, passando por cima do contexto (a reação de Pedro, por exemplo, assim como as ulteriores palavras de Jesus sobre compromisso e ‘espírito das coisas de Deus’), revela que ele realmente pratica uma leitura grega. (A quem quiser se aprofundar nessas questões de leitura, lembro que explico ao longo e ao largo o ‘princípio do contexto’ em meu livro ‘Em Busca de Jesus de Nazaré’, publicado pela Paulus de São Paulo em 2016).
Assim Anselmo aterrissa em pleno terreno mitológico grego. Ele situa Jesus diante de  Zeus (Jupiter), que vive no Olimpo (além das nuvens) e está na origem de tudo que acontece no Universo. Quando Zeus fala, o Universo todo estremece. Ele é o Criador, o Patriarca, o Poderoso, o Perfeito, o Dono do mundo. Sua Lei é eterna, seu dito nunca desdito, sua palavra nunca desmentida, seu ‘fato’ (palavra definitiva, ‘fatum’, palavra fatal) nunca contrariado. A ‘Palavra de Deus’ nunca passa, ela reduz à obediência qualquer poder inferior, no céu e na terra, e fundamenta os princípios patriarcais da ordem, do legalismo e do totalitarismo. Fundamenta igualmente o destino trágico da vida de Jesus.
O Jesus de Anselmo está sujeito à palavra definitiva de Deus, ao ‘fatum’, à palavra fatal e imutável de Deus. Se ele ‘deve’ sofrer muito, ser rejeitado pelas autoridades, ser morto e finalmente ressuscitar, é porque existe a Lei inexorável da Majestade Divina ofendida.

A leitura de Anselmo, além de enganosa, é danosa. Ela retira do evangelho seu nervo vivo, individualiza o drama entre Deus e o ser humano, ou seja, passa por cima da dimensão social e política da vida humana. Há de se afirmar com vigor que a leitura de Mc 8, 30-34 não pressupõe necessariamente a ‘fatalidade’ de uma ordem divina. Jesus não enfrenta a morte porque é ‘seu destino’, mas porque resolve manter seu compromisso com os pobres da terra, os desvalidos e esquecidos, custe o que custar. Daí sua reação contra Pedro: ‘você não tem o espírito de Deus, mas o dos homens’. Jesus não aceita modos de pensar baseados em vitimação. Não morre na qualidade de vítima inocente, mas em consequência de uma postura assumida contra os abusos cometidos pelas autoridades de seu país, tanto judaicas como romanas. Jesus sente compaixão pelo povo comum, que em muitos casos não tem consciência da exploração impiedosa que sofre por meio de leis consideradas santas (o código levítico, a torá), mas que na realidade beneficiam os ‘puros’ (sacerdotes) e condenam os ‘impuros’. Com isso, Jesus inaugura um novo tempo para a humanidade.

Mas a leitura de Anselmo vingou. Numerosos comentários e documentos históricos demonstram que a teoria de Jesus salvador encontrou, na época, ampla ressonância em meios eclesiásticos. Ela caiu que nem uma luva na política da igreja católica, involucrada em propagar atitudes de submissão e obediência por parte das populações rurais da Europa, e, nesse sentido, promotora de uma ‘pastoral do medo’ (medo do inferno), descrita pelo historiador francês em seu livro clássico ‘La Peur en Occident’ (Fayard, Paris, 1978), com a intenção de firmar seu poder sobre a sociedade. A doutrina de salvação, defendida por Anselmo, nunca foi contestada pela hierarquia, por mais danosa que tenha sido à vida feliz de inúmeras gerações humanas.

Hoje nos resta saber : Há sinais de superação da ideologia da vitimação em meios eclesiásticos? Sim, o Concílio Vaticano II, pela primeira vez em séculos, toma certa distância diante da hipótese de Jesus redentor, numa abordagem discreta, sem realce. Mas a impressão é que o peso da tradição e a perenidade de ideias do passado na mente das pessoas impedem um posicionamento mais afirmativo. Aliás, essa observação acerca da fraqueza de posicionamentos evangélicos por parte da hierarquia vale para toda a história do cristianismo. Não sem razão. Seria ingenuidade pensar que uma mensagem tão inovadora como a de Jesus tenha sido imediatamente compreendida por todos e posta em prática. Na mente das pessoas, já nos tempos do Evangelho, os modos ancestrais de pensar e viver, assim como os medos não menos ancestrais, não desaparecem de vez diante de uma mensagem como a de Jesus de Nazaré. Sedimentações mentais transmitidas de geração em geração, como a crença na salvação, não desaparecem de vez na vida de pessoas sem um trabalho intensivo e perseverante de conscientização.

Tudo isso nos leva à pergunta: nos nossos dias, a imagem de Jesus Redentor vai esvaecendo aos poucos?  Ela está sendo substituída, aos poucos, pela imagem de Jesus de Nazaré, o profeta destemido que preferiu enfrentar a morte que abandonar seu povo? Faço essa pergunta depois de ter a impressão que a imagem de Jesus redentor permanece central nas celebrações da Semana Santa. O que você acha?