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terça-feira, 19 de março de 2019

A ÁGUA NOSSA DE CADA DIA NOS DÁ HOJE



Marcelo Barros

Essa semana é marcada pelo 22 de março, dia mundial da Água. Nesse ano, temos mais motivos para valorizar essa comemoração proposta pela ONU. No Brasil, tivemos em janeiro, o rompimento da barragem de Brumadinho com a morte de centenas de pessoas e a destruição da vida no rio Paraopeba, com o risco da lama tóxica atingir até o São Francisco. Há quase quatro anos, rompeu-se a barragem da Samarco em Mariana. Resultou na morte de muitas pessoas e de toda a vida que existia no rio Doce. Até aqui nada foi feito para impedir que desastres desse tipo voltem a acontecer.

Por trás de tudo isso, está o raciocínio que reduz a natureza, as águas e até as pessoas à condição de mercadorias. É importante que movimentos sociais, organizações de base e as Igrejas insistam: a água é um bem comum, direito universal de todo ser vivo. Sem água, não existe vida. Por isso, a água não pode ser privatizada e mercantilizada. Antigamente, esse argumento parecia pouco relevante, porque as pessoas pensavam que a água é um bem que nunca iria faltar. Nas últimas décadas, a experiência da humanidade é justamente o contrário. Na sua carta sobre o cuidado da casa comum, o papa Francisco alerta:

A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos”(Laudatum sii, 28).

O Brasil detém 12% de toda água doce do mundo, mas como em todo o planeta, essa distribuição é desigual e problemática. No cerrado e em todo o planalto central, as pesquisas revelam assustadora diminuição das fontes de água e do nível hidrográfico dos rios. No sertão do Nordeste e no Centro-oeste sempre houve secas sazonais. No entanto, agora, com o desflorestamento e a destruição da natureza, é a sociedade humana que provoca desastres ecológicos como secas, terremotos e inundações. Pesquisas da ONU revelam que, nas últimas cinco décadas, houve uma redução de mais de 60% da água doce disponível do planeta. O estresse hídrico já é uma realidade para mais de um bilhão de seres humanos que vivem com menos de dois litros de água potável por dia.

Cada vez mais, os conflitos entre nações ocorre não mais por territórios e sim pelo direito do uso de águas de rios e lagos. Em Israel, o Estado desviou as águas do rio Jordão e as canalizou em tubos subterrâneos. Assim, acampamentos e assentamentos palestinos não podem delas se beneficiar. Um jornal palestino conta que na cidade de Caná da Galileia, onde, segundo a tradição, Jesus transformou a água em vinho, o prefeito declarou: “Se, hoje, Jesus voltasse por aqui, nós lhe pediríamos para transformar vinho em água”. 

Infelizmente as religiões e tradições espirituais que deveriam dar à humanidade uma cultura amorosa de relação com a terra e as águas, não têm vivido com êxito essa missão. No entanto, a maioria das tradições espirituais acredita que a vida nasceu a partir das águas. Por isso a água é sempre símbolo e instrumento do Espírito de Deus. Na Bíblia e nos evangelhos, Jesus promete o Espírito Santo como água viva que quem beber jamais terá sede.

A espiritualidade ecumênica convida as pessoas e comunidades a verem a água como instrumento de comunhão entre as pessoas e solidariedade entre os povos. É possível aprofundar a relação entre pessoas, como também entre povos através da partilha da água comum.

Em vários países, pessoas e comunidades impregnadas dessa espiritualidade têm vencido importantes lutas legais contra a privatização da água. Têm participado de comissões de defesa de rios, lagos e fontes de água. Os cristãos reconhecem na partilha do pão o próprio Jesus presente. Assim também, agora somos convidados a testemunhar o Espírito Divino presente em cada pouco d´água que partilhamos como sacramento da presença e ação do Espírito Mãe da Vida.   

  MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 18 de março de 2019

FEMINICÍDIO: TERROR NO ESPAÇO DOMÉSTICO




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Há muita coisa digna de nota e de reflexão acontecendo no Brasil: ruptura de barragens, enchentes, violência urbana, descoberta da rede tentacular das milícias etc.  E, no entanto, sinto-me movida a escrever sobre o feminicídio. Talvez porque ele venha aumentando exponencialmente em nosso país, que ocupa o quinto lugar no mundo em números absolutos dessa forma de violência de gênero. A cada duas horas uma mulher é morta no Brasil.  

No entanto, talvez o propulsor mais imediato de minha perplexidade diante desse crime e seus terríveis e abomináveis rostos esteja em um dos últimos casos registrados pela mídia.   Aconteceu no último fim de semana, exatamente após o dia internacional da mulher.   Jonathan escreveu uma mensagem amorosa para Lidiane, com quem vivia há um ano. Postou-a nas redes sociais.  Depois disso, à raiz de uma briga motivada provavelmente por ciúmes, matou-a com várias facadas, atacando igualmente a mãe da jovem.  Lidiane morreu e a mãe se encontra hospitalizada em estado grave. 

Passa-se do amor ao ódio em poucas horas, agride-se aquela a quem antes se abraçava e beijava, ataca-se até matar a companheira um dia depois de declarar nas redes sociais que ela era “a mulher que qualquer homem queria ter”. A casa onde a jovem estudante de direito morava com a mãe tornou-se palco de tragédia e de derramamento de sangue. 

Complexo é o feminicídio justamente porque nele as fronteiras são movediças e dificilmente definidas.  O amor e o ódio convivem, a vítima e o algoz têm relação de proximidade e mesmo de intimidade.  São companheiros, namorados, amantes até que o ódio e a violência tomem a frente da cena e a morte ocupe o lugar da vida. 

O conceito é recente, dos anos 70.  Foi cunhado pela socióloga sul-africana Diana E. H. Russel.  Com ele, a pensadora pretendia contestar a neutralidade presente na expressão “homicídio”, que por sua generalidade contribuiria para manter invisível a vulnerabilidade experimentada pelo sexo feminino em todo o mundo. Enquanto os homicídios dolosos atingem todo tipo de pessoas, idades e gêneros, o feminicídio diz respeito fundamentalmente às mulheres, que em sociedades marcadas pelo patriarcalismo como a nossa, ainda são consideradas – consciente ou inconscientemente – propriedade dos homens. 

Além disso, o feminicídio acontece em geral em casa, no espaço onde o assassino e a vítima vivem relações familiares e íntimas.  A violência é despertada pelo ciúme, ou pela recusa da mulher em levar avante a relação.  E o lar, a casa, passam a ser palco de terror e agressões letais dirigidas contra as mulheres, porque se rebelam ou não se acomodam na condição subordinada na qual séculos de machismo as situaram. 

Argumentos contra a concepção do feminicídio como fenômeno social diferente do homicídio sustentam que a maioria dos assassinatos acontecidos no mundo todo – cerca de 80% - têm como vítimas pessoas do sexo masculino.  É fato.  Mas enquanto tais assassinatos acontecem no espaço público, os feminicídios se produzem na calada da noite, no segredo da casa e do quarto, no avesso do amor que se tornou agressão e terror. E se os motivos para os homicídios são de diversos formatos e procedências, como violência urbana, tráfico de drogas e outros muitos, os feminicídios acontecem por ódio pelas mulheres serem o que são: mulheres. Representam a culminância de um processo de agressões e intimidações, no qual a vítima é abusada em sua inferior força física, em sua fragilidade e vulnerabilidade e em sua sexualidade, que é subjugada, violada até o assassinato. 

Diante desse quadro sombrio, a teologia cristã tem algo a dizer. Naquele tempo, o rabi de Nazaré salvou a vida de uma mulher adúltera que ia ser apedrejada por vários homens religiosos. Aceitou o carinho e a homenagem de uma prostituta conhecida na cidade protegendo-a da condenação a que se expunha por amor a ele. Deixou-se tocar por uma mulher hemorroíssa considerada impura e, em lugar de rejeitá-la, curou-a. Em meio a esta realidade deplorável em que seres humanos tiram a vida de outros – outras – por não aceitar sua diferença, o Cristianismo pode contribuir com uma palavra própria e diferenciada.

A prática de Jesus de Nazaré reflete a fé no Deus que criou a humanidade à sua imagem e semelhança. A imaginação do Criador é fecunda e as diferenças são condição indiscutível para que haja vida e vida em abundância.  Quando a diferença é sufocada e estrangulada para que não se faça visível nem audível; quando a dominação já não consegue exercer seus direitos abusivos e reage com violência assassina, é hora de saber que o feminicídio é o assassinato não de uma ou outra das vítimas sobre as quais lemos nos jornais ou até eventualmente conhecemos.  É o assassinato do futuro da humanidade e de toda a criação. Admiti-lo ou minimizar sua importância é ser cúmplice desse assassinato que encurta os horizontes e condena as novas gerações a uma lamentável esterilidade. 

 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quinta-feira, 14 de março de 2019

BRASIL, DECLÍNIO SOCIAL E ECONÔMICO




Frei Betto

      O IBGE divulgou, na última semana de fevereiro, que o desemprego voltou a crescer no Brasil. Agora são 12,7 milhões de pessoas. Quem se encontra nessa situação, ou já passou por isso, sabe como é terrível estar desempregado. A autoestima se reduz, as incertezas assustam, a insegurança se aprofunda. Como pagar o aluguel, o gás, a luz, o telefone, e as prestações dos eletrodomésticos?
      O trabalho é o nosso fator de identidade social. Quando somos apresentados a uma pessoa não basta saber-lhe o nome. Paira a pergunta: e o que faz? A resposta qualifica socialmente o interlocutor.
       Segundo levantamento do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas, no final de 2018 a desigualdade se agravou devido à dificuldade de os trabalhadores menos qualificados aumentarem seus rendimentos. O governo modificou os critérios de aumento anual do salário mínimo, o que reduziu o poder aquisitivo dessa parcela da população. 
      Desde 2015 o salário mínimo não tem ganho real, porque o PIB, que mede a riqueza do país, encolheu em 2015 e 2016. E piorou com a reforma trabalhista da gestão Temer, porque o emprego informal, quase sempre desqualificado, passou a pagar salários indignos, muito aquém das necessidades básicas dos empregados. 
      O Brasil é, hoje, o 9º país mais desigual do mundo, e o 1º da América Latina. Os outros oito países mais desiguais ficam todos na África. Hoje, a renda média da metade mais pobre da população é de R$ 787,69 por mês, inferior ao valor do salário mínimo (R$ 998). Sessenta por cento dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo por mês. 
              Em 2016, os pobres tinham renda média de R$ 217,63. No ano seguinte, R$ 198,03. Perda de 9%. Já os 10% mais ricos tiveram 2,09% de aumento na renda, que chegou a R$ 9.519,10 por mês. Desses 10%, 12 milhões ganharam até R$ 17,8 mil de renda tributável. E a parcela de 1% mais rico, que abrange 1,2 milhão de brasileiros, teve rendimento médio superior a R$ 55 mil por mês (Oxfam). 
              Portanto, ainda que o PIB volte a crescer, isso não significa que haverá aumento da renda dos trabalhadores. A desigualdade é agravada pela apropriação abusiva que uma pequena parcela da sociedade faz da riqueza nacional.
      O Brasil é um país de jovens. Nessa faixa etária,  segundo a ONU (Pnud), o desemprego em nosso país é de 30,5%, o maior percentual da América do Sul. E 1 em cada 4 jovens integra o time dos “nem nem”, ou seja, aqueles que nem trabalham nem estudam. 
      Ora, não é preciso ter bola de cristal para saber como esses jovens conseguem bancar seus gastos. Ou desfrutam de renda alheia (família, herança etc) ou recorrem a atividades ilícitas (narcotráfico, contrabando, roubos etc). 
      Os economistas do FMI e do Banco Mundial, que controlam as finanças internacionais, defendem que, para o Brasil crescer, é preciso impor austeridade, promover ajuste fiscal, respeitar o teto de gastos e fazer a reforma da Previdência. Como diz Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia (2001), o capitalismo só cresce se contar com produtores e consumidores. Mas hoje o sistema tem como foco principal a financeirização da economia, denunciada por Piketty. 
      Com um PIB de R$ 6,3 trilhões, o Brasil é um país rico. Daria para toda a nossa população viver muito bem. Somos 208 milhões de habitantes. Dividido o valor do PIB pelo número de habitantes, cada um teria uma renda anual de R$ 30 mil. Ou R$ 10 mil por mês para cada família de 4 pessoas, o que asseguraria a todos uma vida digna.
      Portanto, como alerta o economista Ladislau Dowbor, o problema brasileiro não consiste na falta de recursos. Reside na falta de justiça e de distribuição da renda.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
       
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quarta-feira, 13 de março de 2019

RECONCILIAR-SE COM A DIVERSIDADE





Por Kinno Cerqueira
Tendemos ao desconforto quando nos encontramos ante uma face que não é a nossa. Não raras vezes, é demasiado incômodo suportar uma imagem que não seja a que vemos no espelho. Somos tão fascinados pela nossa maneira de ser-no-mundo, que não admitimos outras formas de existir-no-mundo. 

A diversidade aparece-nos como uma ofensa. Tornamo-nos preconceituosos e repressores. A vida de todas as pessoas – pensamos – deve ser conduzida conforme a nossa visão de mundo, que é a “correta”. Adoramos tanto a nós próprios que não conseguimos acolher o outro com suas diferenças.

Mas será que poderíamos nos reconciliar com a diversidade?

Há um poema sagrado segundo o qual Deus criou céus, terra, luz, trevas, fauna, flora, animais, um belo jardim e a humanidade. Ao concluir sua criação, passou a contemplá-la. Sentiu-se cativado pela lindeza do que estava a ver. Seus olhos lacrimejavam de tanta emoção. Nunca pensara que ficaria tão bonito...

Viu Deus
tudo quanto fizera,
e era belíssimo.
(Gn 1,31)

Deus cria a diversidade e se apaixona por ela. Encanta-se com as cores, dança ao cantar dos pássaros, rodopia nas asas do vento, escorrega por entre as folhagens das árvores, encanta-se diante do amor torrencial que, não conhecendo formas fixas nem limites, banha toda a criação, convidando todos os seres vivos para fazer, cada qual a seu modo, a experiência do amor.

Para nos livrar da feiura, Deus cria a diversidade.

A diversidade faz da vida uma sinfonia de muitos ritmos e sons, um texto de muitos textos, uma história de muitas histórias, um poema de muitos amores. Se não fôssemos diversos, estaríamos condenados à monotonia de uma vida pálida e fria. Ser-nos-ia impossível gozar o espanto da descoberta, o assombro da paixão, os imprevistos do amor. 

A diversidade – cultural, sexual, étnica, religiosa etc. – é a tinta com a qual Deus escreve seus poemas de amor no coração da vida planetária.

Somos convidados a fazer as pazes com a diversidade. Reconciliar-se com a diversidade é reconciliar-se com Deus, é voltar a ler seus belíssimos poemas de amor.

Kinno Cerqueira é pastor batista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos