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sexta-feira, 19 de março de 2021

SÃO JOSÉ, PADROEIRO DA BOA MORTE


 

Leonardo Boff


 

Um manto de tristeza e de desamparo se estende sobre o inteiro planeta, especialmente, sobre o nosso país. Somos vítimas de um governo cujo chefe de Estado é dominado por uma inequívoca pulsão de morte que o torna insensível aos trezentos mil vitimados pelo Covid-19 e incapaz de palavras de solidariedade aos familiares e até aos auxiliares próximos falecidos. Parece que sofreu uma lobotomia, tornando-se indiferente à dor e à tragédia humana.

Hoje, dia 19 de março, se celebra no mundo cristão a festa de São José. Demorou cerca de 15 séculos para a Grande Instituição-Igreja (Papa, bispos e padres) conceder-lhe algum valor e sentido. Ela não sabia o que fazer com São José, pois ela é uma Igreja da palavra e ele não proferiu nenhuma. Guardou sempre silêncio e só teve sonhos. Como nos ensinam os psicanalistas, o sonho também é uma forma de comunicação, das dimensões do  profundo humano, dos arquétipos mais ancestrais onde se aninham os “Grandes Sonhos”(C.G.Jung), os medos, as preocupações e esperanças da humana existência.Só em 1870 foi proclamado Patrono da Igreja Universal, não pelo Papa Pio IX mas pela Congregação dos Ritos.

Na verdade, ele é mais  o patrono da Igreja-povo-de-Deus, dos humildes, dos anônimos, da “gente boa” e trabalhadora do que da Igreja-Grande-Instituição. São eles  que vivem, sem muita reflexão, os ideais de seu filho Jesus, de boa vontade,  de amor, de solidariedade e de reverência face ao mistério da vida e da morte. Eles deram o nome de José a homens e à mulheres (com por exemplo, Maria José), à cidades, à ruas, à instituições públicas e à escolas.

O Papa Francisco convocou os fiéis para, durante um ano, refletirem sobre a relevância da figura de São José, especialmente como pai numa sociedade sem pai ou do pai ausente.  Publicou uma Carta Apostólica “Patris corde” (coração de pai ou pai de coração) na qual em sete pontos delineia suas principais características:“um pai amável, pai de ternura, pai de obediência, pai de acolhida, pai de coragem criativa, pai trabalhador e pai na sombra”.

No atual contexto, cabe recordar uma devoção muito popular, a de São José, padroeiro da boa morte, já que a morte se alastra no mundo e no Brasil faz as maiores vítimas junto com os EUA.

As informações sobre a morte de São José se encontram apenas num evangelho apócrifo (não canônico) “A história de José, o carpinteiro” escrito entre o século IV e V no Egito (edição da Vozes de 1990). Trata de uma longa narração na qual Jesus conta aos apóstolos como era seu pai José e como morreu.

O apócrifo contextualiza sua vida e sua morte, testemunhando que, ao voltar exílio forçado no Egito, foi viver em Nazaré, onde “meu pai José, o ancião bendito, continuou exercendo a profissão de carpinteiro e, assim com o trabalho de suas mãos, pudemos nos manter; jamais se poderá dizer que comeu seu pão sem trabalhar” (capítulo IX). Narra ainda que “eu chamava a Maria de minha mãe e a José de meu pai; obedecia-lhes em tudo o que me ordenavam, sem me permitir replicar-lhes uma palavra; ao contrário, dedicava-lhes sempre grande carinho”(c. XI).

Mas chegou um momento, já em avançada idade, que adoeceu:”perdeu a vontade de comer e de beber; e sentiu vacilar a  habilidade no desempenho de seu ofício”(c.XV). Narra com pormenores que, deitado na cama, “ficou extremamente agitado” e começou a se lamentar proferindo  muitos ais (c.  XV e XVI). Ao ouvir tais ais Jesus “penetrou no aposento em que se encontrava e saudou-o: salve, José, meu querido pai, ancião bondoso e bendito”. Ao que José  retrucou:”Salve, mil vezes, querido filho! Ao ouvir tua voz, minha alma cobrou a sua tranquilidade (c.XVII).

Não demorou muito e ocorreu o desenlace:”meu pai exalou sua  alma com um grande suspiro”(c.XXI). E conclui: “eu então, me atirei sobre o corpo de meu pai José; fechei seus olhos, cerrei sua boca e levantei-me para contemplá-lo”(c..XXIV). No momento em que é levado ao túmulo, comenta Jesus:”Veio-me à mente a recordação do dia em que me levou ao Egito e das grandes tribulações que suportou por mim. Não me contive e lancei-me sobre seu corpo e chorei longamente”(c.XXVII).

Por fim, Jesus terminando sua narrativa, faz um pedido aos apóstolos:”Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai, isto é, do Espírito Paráclito e fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu querido pai José”(c.XXX).

Com esta pequena reflexão estamos cumprindo o mandato de Jesus. Oxalá São José acompanhe com sua força e carinho paterno os milhares que estão nas UTIs lutando por suas vidas, contra este terrível ataque que a Mãe Terra desferiu contra a humanidade, mandando-nos o Covid-19 como sinal:  não prolonguem o estilo de vida consumista e devastador dos bens e serviços limitados da natureza; assumam um novo modo sustentável de vida e estabeleçam um laço de amor e de respeito para com a natureza e para com todos os seus seres, nossos irmãos e irmãs, dentro da  Casa Comum, o planeta Terra, nossa grande e bondosa Mãe.

Leonardo Boff escreveu São José: o pai, o artesão e o educador, Vozes 2012.

 

quinta-feira, 18 de março de 2021

PÁTRIAS ARMADAS

 


Frei Betto

 

       Estamos ainda muito distantes do mundo de paz. Em 2020, os EUA gastaram US$ 738 bilhões em armamentos. Bastariam dois terços disso para erradicar a fome no mundo. A China, US$ 193,3 bilhões. Detalhe importante: os EUA estão envolvidos em todos os conflitos bélicos que ocorrem no planeta e mantêm bases militares em inúmeros países. A China não possui tropas fora de seu território. A Rússia dispendeu US$ 60,6 bilhões em gastos militares ano passado, atrás da Índia e do Reino Unido.

       Apesar de o PIB mundial ter decrescido 4,4% em 2020, o investimento bélico se ampliou, segundo dados do “Balanço Militar” do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, com sede em Londres. Ao todo foram gastos 1 trilhão e 830 bilhões de dólares em 171 países, sendo que 2/3 desse valor saíram dos cofres dos EUA e da China. Em moeda nacional, cerca de 10 trilhões de reais. A cada 24 horas do ano passado, os governos fizeram gastos militares no valor de R$ 27 bilhões, quantia quase equivalente ao orçamento do Bolsa Família para todo o ano de 2020, que foi de R$ 29,5 bilhões. 

       Comparado a 2019, ano passado houve  aumento em gastos com defesa de US$ 77,2 bilhões (cerca de R$ 417 bilhões). Desse total, 52% foram investimentos usamericanos.

       A humanidade caminha sobre o fio da navalha. Como canta Chico Buarque, qualquer desavença entre nações “pode ser a gota d’água”. Explosiva. Em 2020, os EUA possuíam 5.800 ogivas nucleares; os russos, 6.375; em comparação com 320 chinesas, 290 francesas e 21 britânicas, segundo o Instituto Internacional de Estocolmo para Pesquisa da Paz.

       Em 2020, o Brasil destinou às Forças Armadas  R$ 119 bilhões, pouco mais de 1,5% do PIB. Vale observar que cerca de 80% dessas despesas foram com pessoal, incluindo aposentadorias e pensões. E lembrar que todos os militares que entraram nas Forças Armadas até o ano 2000 têm direito a deixar pensão vitalícia para as filhas, e também para os filhos menores de 18 anos. Naquele ano, houve uma mudança nessa regra, mas válida apenas para quem ingressasse no Exército, na Marinha ou na Aeronáutica a partir dali.

       Sonho com um futuro em que armas e munições serão peças de museu. Como gravado em um muro de Paris, em 1968, “sejamos razoáveis, peçamos o impossível”. Imaginem se esses gastos excessivos fossem destinados à alimentação, saúde e educação da humanidade? 

       A dessolidariedade mundial se reflete na profunda desigualdade social reinante no planeta e nessa ideologia capitalista que situa a apropriação privada da riqueza acima dos direitos humanos. Basta constatar que 80% das vacinas contra a Covid-19 produzidas até agora foram apropriadas pela América do Norte e a Europa, e toda a América Latina conseguiu obter, até agora, apenas 5% dos imunizantes.

       “O objetivo do governo não é transformar os homens de seres racionais em feras ou fantoches, mas permitir que desenvolvam seu corpo e sua mente em segurança, e empreguem sua razão sem dificuldades; que não mostrem ódio, raiva nem desprezo, e não sejam observados com os olhos da inveja e da injustiça. De fato, o verdadeiro objetivo do governo é a liberdade.” (Espinoza, século 17).

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:freibetto.org

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 17 de março de 2021

"ONDE ESTÃO OS JOVENS? EM TEMPOS DE CORONAVIRUS" (2)

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(17/03/2021)

 

     Sempre apreciei uma certa alegoria sobre a temática do amor, que tem como protagonista um jovem apaixonado. Um dia ele decidiu visitar a sua bem-amada e, para isso, caminhou léguas e léguas floresta a dentro, até chegar onde ela morava e bater  à porta. - Quem é? Perguntou uma voz vinda de dentro da casa. - Sou eu, respondeu ele. E a voz replicou - não te conheço. E a porta não se abriu.

 

     Intrigado com esta reação, o rapaz retornou pelo mesmo caminho e, durante meses, demorou-se a refletir sobre o seu significado. Por fim, julgou ter desvendado o segredo e aventurou-se em repetir a jornada. Da mesma voz escutou a pergunta  - quem é? E respondeu de imediato - sou tu, meu amor. E a porta se abriu, e foram felizes para sempre.

 

     É típica de um coração jovem esta total e imediata simbiose do eu com o tu, do sujeito com o  objeto da paixão. À medida em que se vai amadurecendo, vão emergindo as diferenças individuais e os parceiros do amor descobrem que essa utopia de "um só corpo e uma só alma" tem que ser construída ao longo de toda a vida, sem prazo de validade, através mais das diferenças e menos das convergências. Coração e razão se aliam para mudar os arroubos da paixão em consistências do amor.

 

     A despeito de parecer  apenas fruto da imaturidade, estes ímpetos juvenis não são estéreis, não são inúteis, eles tem o poder de fecundar e acionar o processo de renovação do desenvolvimento humano. É melhor comprovar esta verdade por meio de acontecimentos reais do que por especulações teóricas.

 

     Um fato incontestável é que tanto os poderes constituídos quanto os movimentos revolucionários procuram cooptar as paixões juvenis para seus interesses.  Quem são os escolhidos por grupos extremados para virar "homens bombas" ("mulheres bombas") em atentados terroristas? - São jovens na sua grande maioria.

    Por outra parte, quem é que manda o maior contingente de participantes, os mais dinâmicos e criativos, para os encontros do Forum Internacional, que se sucedem, desde décadas e tem como bandeira de frente o slogan "Um Outro Mundo É Possivel"? - É a juventude, a juventude, sempre de novo a juventude.

 

     Daí a indagação dos que viveram, de olhos abertos, as décadas de 60, 70, 80, neste país: onde anda aquela multidão de jovens que ocupavam ruas e praças em protesto contra um mundo que teria de ser um outro, mais humano? - muitos preferiram apagar a memória do seu passado. Outros viram definhar seus sonhos sob a pressão de cansaço e

 desilusões. Sem contar o grande número dos que foram anestesiados pelas seduções do Mercado e tiveram seus sonhos reduzidos a objetos de consumo.

 

    Uma parte deles, no entanto, ultrapassou-se e prossegue na luta, com novo ardor fundado  na Fé, seja de ordem religiosa, seja de outra ordem superior, transcendental. Por isso não consideram a História humana como um dado simplesmente lógico, técnico, racional, e sim como um Reino onde irrompem muitas vezes o inesperado, o imprevisível, surpresas inimagináveis, intervenções divinas. Estes aprenderam a "esperar contra toda esperança." E acabam convertendo-se em um marco reinicial de grandes mudanças históricas. O famoso filósofo dinamarquês Kierkegaard chama esta utopia de "paixão pelo possível". Os jovens daquela época mudaram esta legenda para outra mais apaixonante: "seja realista, exija o impossível."

 

     Estes precedentes nos estimulam a responder: os jovens  estão em alguma parte, em toda parte, à espreita de um novo momento. Precisamos crer nisso, sob pena de não termos mais no que crer, pois neles está o futuro.

Cabe-nos abrir caminhos para que eles se aventurem como protagonistas de mudanças radicais; oferecer-lhes objetivos maiores do que o mero gozo de bens supérfluos, o mero clarão dos holofotes midiáticos, o mero sucesso profissional, descompromissado de outras Causas nobres. Ou o mero e medíocre "bom comportamento"

 

     Enquanto isso, deixemos que eles escutem a voz de um jovem ancião, claudicando de uma perna, mas energizando a juventude do mundo com palavras candentes:

"Queridos jovens, eu peço que vocês sejam revolucionários". "Ficarei feliz vendo vocês correrem mais rápido do que as pessoas lentas e medrosas. Corram atraídos por aquele Rosto tão amável que adoramos na Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre. Precisamos de suas intuições, de sua fé e de seus impulsos. E quando vocês chegarem aonde ainda não chegamos, tenham paciência de esperar por nós" (Papa Francisco, homilia aos jovens, no Rio de Janeiro e  Exortação Apostólica "Cristo Vive")

terça-feira, 16 de março de 2021

AS AMEAÇAS DO VÍRUS E AINDA DE MAIS UMA USINA NUCLEAR

 



Marcelo Barros

 

Neste momento de repique ou de novo pico da pandemia em todo o país, governos estaduais decretam lockdwons; comerciantes se preocupam em não lucrar tanto. E, aliado implacável do governo federal, o vírus continua matando. O papa Francisco tem repetido que “não podemos sair desta pandemia como entramos”.

Por trás dessa afirmação está o fato de que, em quase todo o mundo, a sociedade não estava preparada para enfrentar uma pandemia. Sistemas de saúde desarticulados. A própria vacina que deveria ser considerada bem comum de toda a humanidade se tornou motivo de concorrência entre empresas e mesmo entre países.

Apesar de que a maioria dos estudos liga a difusão do vírus à destruição do ambiente natural do planeta e à crise ecológica, o governo parece irredutível no seu propósito de construir novas usinas nucleares e desta vez na pequena cidade de Itacuruba, às margens do rio São Francisco, no sertão de Pernambuco, às margens do rio São Francisco.

Se essa tragédia humana e ecológica se consumar será a segunda grande agressão aos pobres habitantes daquela região. Na segunda metade da década de 1980, os habitantes da cidade de Itacuruba ficaram sabendo que iriam ser deslocados pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF) para a instalação da Usina Hidrelétrica de Itaparica. A velha cidade ficou debaixo d’água e seus moradores foram reassentados em uma “nova” cidade. A população viu comprovado o descumprimento das promessas, os insucessos das medidas mitigadoras e as diversificadas formas de fazer as pessoas de bobas. O slogan da campanha da CHESF tinha sido “Mudar para melhor”.  Para saber os efeitos reais daquele êxodo forçado, basta saber que, ainda em 2006, portanto 30 anos depois do deslocamento, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (CREMEPE), apontava que, em todo o Brasil, Itacuruba era a cidade com o maior índice percentual de suicídios e detinha 63% de sua população com algum problema de sofrimento mental.

É nessa cidade e com esse quadro histórico que o Ministério de Minas e Energia (MME) decidiu construir a Central Nuclear do Nordeste, com seis reatores nucleares e capacidade total de 6.600 megawatts elétricos. Para isso conta com um investimento de R$ 64,404 bilhões. Quanto ao que isso significará para a população do entorno e para a toda a região e o ecossistema, o Ministério fala muito pouco.

Além do debate ambiental do que significam usinas nucleares, a estocagem de lixo radioativo e a real possibilidade de acidente às margens do São Francisco, todos os poderes envolvidos sabem que a legislação de Pernambuco proíbe a construção de usinas nucleares “enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia hidrelétrica e energia oriunda de outras fontes”. Ora, durante anos, Pernambuco tem sido o sexto maior produtor de energia eólica do país. Conforme dados da Abeeólica,  tem o terceiro maior fator de capacidade de geração de energia. Além disso, uma possível justificativa seria o esgotamento da produção de eletricidade. Todos sabem que isso está longe de ocorrer. Portanto, não há nenhuma razão que justifique usina nuclear no Nordeste, menos ainda nas margens do rio São Francisco que não merece tal castigo.

Remanescentes de Quilombos que vivem no município de  Itacuruba, como os grupos Negros de Gilu, Ingazeira e Poço dos Cavalos e  os Pankará no Serrote dos Campos, Tuxá Campos e Tuxá Pajeú, os três povos indígenas que, desde tempos imemoriais, convivem com aquela terra, se unem aos movimentos e diversas organizações sociais e políticas que protestam contra essa política, na qual os poderosos continuam impondo seus interesses sem levar em conta o povo da região e a natureza.

Em profunda solidariedade ao povo de Itacuruba e aos grupos ameaçados, Dom Gabriele Marchesi, bispo de Floresta, a diocese a qual pertence a paróquia de Itacuruba e toda a Igreja Católica, representada pela CNBB Nordeste II, formada por 21 arquidioceses de quatro estados, se juntou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e se manifestam contrários à instalação do empreendimento e a escolha do sertão nordestino como destino da nova usina.

Uma usina é nuclear quando para gerar eletricidade utiliza o calor proveniente da fissão dos átomos do urânio. O urânio é um recurso mineral não renovável encontrado na natureza, que pode se usado para produzir eletricidade e pode também ser usado na produção de armamentos, como a bomba atômica. O maior problema das usinas nucleares é que os riscos da utilização da energia nuclear são imensos. E além do risco de acidentes nucleares, há o grande problema do descarte do lixo nuclear (resíduos compostos de elementos radioativos, gerados nos processos de produção de energia). Além disso, a contaminação do ambiente provoca danos irreversíveis à saúde, como câncer, leucemia, deformidades genéticas, etc.

Em 2016, a Conferência Episcopal do Japão (CBCJ) fez um apelo ao mundo para o fim da produção de energia nuclear. Em 2020, foi publicado em inglês o livro: “Abolição da energia nuclear: um apelo da Igreja Católica no Japão” e o livro foi lançado na presença do papa Francisco no Vaticano em julho de 2020.

O Japão é um país que sofre até hoje consequências das duas bombas atômicas jogadas pelos norte-americanos em Hiroshima e Nagazaki em 1945 e há poucos anos sofreu o vazamento de uma usina nuclear. Precisamos, nós, aqui no Brasil, evitar esse caminho. Temos de concretizar assim a nossa defesa da vida e o cuidado com a Mãe Terra e com o nosso povo.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br