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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

PALAVRAS DE PEDRO - 31.08.2022

 





 

Quiero plantar

en esta Amazonía

mi libre grito humano,

mi protestante fe liberadora,

la derramada antorcha de mi sangre.

 

Yo sé que la semilla

será un día cosecha convocada.

 

Pedro Casaldáliga, Cantares de la entera libertad

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

#RomariaDosMártiresDaCaminhada

terça-feira, 30 de agosto de 2022

O Grito dos 200 anos e gritos de cinco séculos

Marcelo Barros


 

Por todo o Brasil ecoam os preparativos para as comemorações do 7 de setembro, quando se completam 200 anos do lendário grito da independência do Brasil, em relação ao reino de Portugal. A história mostra que o Brasil apenas mudou de donos. A imensa maioria da população continuou na servidão e na dependência de uma minoria que se adapta às conveniências do momento, mas mantém o controle social e merece bem o nome dado por Jessé de Souza: “a elite do atraso”.

Desde que os europeus invadiram essas terras, escravizaram os povos originários deste continente e sequestraram milhões de africanos/as como escravos/as, o povo oprimido nunca deixou de se organizar, lutar por seus direitos e sempre gritar por vida e dignidade.

Agora, no contexto das comemorações oficiais dos 200 anos da (in)dependência e da instrumentalização político-partidária que o atual desgoverno federal ameaça fazer no dia 7 de setembro, é importante nos juntarmos todos e todas no Grito dos Excluídos e Excluídas.

Será o 28º grito organizado, a partir da iniciativa, que, desde 1995, reúne movimentos populares e pastorais sociais da Igreja Católica e grupos ecumênicos de outras confissões de fé para gritar “A vida em primeiro lugar”. De modo especial, o grito deste ano ecoará o grito que, por cinco séculos, denuncia o genocídio praticado contra os povos originários, revela a crueldade imensa contra os povos negros e o racismo estrutural que faz do Brasil um dos países mais desiguais e violentos do mundo. 

Esse 28º Gritos dos excluídos e excluídas toma como tema: “Vida em primeiro lugar. Terra, Teto e Democracia. Brasil, 200 anos de (In)dependência. Para quem?”. De fato, como falar em independência, quando trinta milhões de brasileiros/as passam fome e um número bem maior vive em insegurança alimentar? Como fazer festa quando nossas cidades e capitais têm seus centros convertidos em ruínas, como depois de uma guerra?

Nossas praças abrigam uma multidão de pessoas sem teto e sem trabalho, que com suas famílias, tentam sobreviver nos escombros do que antes era um país que, há mais de uma década, tinha saído do mapa da fome.   

O  Grito  dos  Excluídos  e  Excluídas não se restringe apenas a uma manifestação de rua que ocorre no dia 7 de setembro. Significa um conjunto de iniciativas que se dão em um processo de construção coletiva de cuidado popular, de debates e mobilizações nas áreas da educação, saúde e  defesa da natureza agredida. Tudo para que a vida das pessoas  e da Mãe- Terra esteja em primeiro lugar.

Esta mobilização dos Mutirões pela Vida coincide com a campanha eleitoral mais importante e mais difícil das últimas décadas. Para que, de fato, possamos caminhar para uma verdadeira independência do nosso povo, precisamos garantir que a mentira não seja vencedora. O  restabelecimento da democracia, mesmo formal, depende do nosso voto.

Nesse momento, é importante que as pessoas que professam qualquer religião ou simplesmente buscam uma espiritualidade humana testemunhem que, se Deus existe, só pode ser Amor e Justiça. Deus não é de direita e está do lado do povo que busca por Terra, Teto e Democracia. 

 

 

 

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

RELIGIÃO: TOLERÂNCIA OU RESPEITO REVERENCIAL?

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

A religião possui uma força política poderosa. No mundo contemporâneo, é uma força central, talvez a força central que mobiliza as pessoas… Em certas situações vitais, o que em última análise conta não é tanto a ideologia política nem os interesses econômicos, mas as convicções religiosas de fé, a família, o sangue e a doutrina. É por elas que as pessoas combatem e estão dispostas a dar suas vidas.

Muitas vezes, no entanto, a religião é geradora de conflitos.  Intolerância, fechamento à diferença do outro, preconceito acontecem e provocam debates acalorados, atitudes extremas ou até mesmo tragédias. 

Vamos muito longe com as palavras?  Somos radicais em nossa avaliação?  Pois não é de tragédia que se trata o atentado do qual foi vítima o escritor Salman Rushdie há poucos dias, nos Estados Unidos? O ensaísta de ficção britânico, de origem muçulmana indiana, criou-se em Mumbai e estudou na Inglaterra. Escreve livros de grande beleza e é muito bem-sucedido como escritor.  Seu estilo mistura mito e fantasia com a vida real, e tem sido ligado por alguns críticos de sua obra ao realismo mágico, cujo protagonista latino-americano era Gabriel Garcia Márquez. 

O que catapultou Rushdie para as páginas de todos os jornais e um lugar central na mídia foi a publicação, em 1989, do romance “Versos Satânicos”.  Trata-se de um texto complexo, inspirado em acontecimentos reais, como o ataque contra um avião da companhia aérea Air India, em 1985, e a Revolução Iraniana, de 1979.  Ao lado destes, figuram referências biográficas sobre o próprio autor, bem como acontecimentos históricos inspirados na vida do profeta Maomé, ora lendários, ora imaginários. 

O tema central pode ser encontrado em outras obras do autor: o desenraizamento do imigrante dividido entre sua cultura de origem, a partir da qual se afasta, e a cultura de seu país anfitrião, que ele ansiosamente deseja adquirir, e a dificuldade desta metamorfose. Aparecem como cenários a India e a Grã-bretanha, o passado e o presente, o imaginário e a realidade.  E aborda temas como fé, tentação, fanatismo. 

O governo iraniano de então considerou a escrita de Rushdie ofensiva ao profeta, uma blasfêmia contra o Islam, e o autor um apóstata por se declarar no livro desiludido com o Islam. Pronunciou então uma fatwa – sentença – ordenando sua execução.  O aiatolá Khomeini, suprema autoridade religiosa do Irã, determinou que todos os "muçulmanos zelosos" tentassem assassinar o escritor, os editores do livro que soubessem dos conceitos ali descritos e quem tomasse conhecimento de seu conteúdo, conforme a fatwa.

Rushdie foi forçado a viver no anonimato por muitos anos. A fatwa contra ele foi renovada em 2005 por Ali Khamenei, sucessor de Khomeini. 

Em 12 de agosto, na pequena cidade de Chautauqua, Estado de Nova York, EUA, Rushdie foi alvo de um ataque a faca, sendo atingido no rosto, no pescoço e em várias outras partes do corpo.  O agressor, Hadi Matar, de 24 anos foi preso em flagrante e declarou-se inocente.  O escritor sobreviveu, mas permanece em estado grave: fala com dificuldade, embora haja esperança que se recupere das feridas sofridas. 

A sentença da qual Salman Rushdie vinha se escondendo há tantas décadas, acabou atingindo-o. Homem pacífico, o escritor é vítima do desrespeito à liberdade de expressão e de intolerância quanto à prática religiosa.  

Agora o golpe foi desfechado por um islâmico contra outro islâmico.  Mas no passado quantas vezes representantes de religiões diferentes se atacaram entre si.  Nós, cristãos, temos que bater no peito e pedir perdão pelas muitas vezes em que  fizemos o mesmo.  Os outros monoteísmos igualmente. 

Nada se constrói com intolerância e fechamento à diferença do outro, que pode estar em sua etnia, em seu gênero, em sua raça ou em sua religião.  Em um mundo tão violento e conturbado como este em que vivemos, há que cultivar não apenas a tolerância, mas um reverencial respeito pelo outro e tudo que a ele diz respeito.  De maneira muito especial, pela religião que ele professa, que dá sentido a sua vida e é motivadora de suas posições éticas, de seus compromissos concretos e transformadores da realidade.  

Que Salman Rushdie possa recuperar-se e seguir escrevendo em paz.  E que todos e cada um de nós possamos aprender a respeitar, reverenciar e aprender a religião do outro. 

 

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Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia latino-americana:raízes e ramos” (Editora Vozes), entre outros livros.

 

 

Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Uma democracia que forçosamente está por vir

 Leonardo Boff


 

Estamos todos empenhados em salvaguardar uma democracia mínima diante de um presidente desvairado que continuamente a ameaça. Como vivemos uma crise geral, paradigmática e irremissível, convém já agora sonhar com outro tipo de democracia.

Parto de um pressuposto,segundo dados de cientistas sérios,de que enfrentaremos dentro de poucos anos, devido ao acelerado e irrefreável aquecimento climático, grave risco de sobrevivência da espécie humana. A Terra será outra. Se quisermos continuar sobre este planeta temos que, por primeiro, minorar os efeitos danosos, com ciência e técnica e por fim, elaborarmos um outro paradigma civilzatório, amigável à vida e sentidono-nos irmãos e irmãs de  todos os demais seres vivos. Pois possuimos com eles o mesmo código  genético de base. Dizem-me:”você é pessimista”! Respondo com Saramago:”não sou pessimista; a realidade é que é pésssima” Já em 1962 a bióloga estadunidense Rachel Carson em seu famoso “A primavera silenciosa“(Silent Spring) advertia sobre a crise ecológica e concluía:”A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida sem destruir a si mesma e em perder o direito de ser chamada de civilização“. Por isso a urgência de mudarmos de paradigma e de modelo de democracia.

Dentro deste contexto realista proponho a urgência  de um outro tipo de democracia: a sócio-ecológica. Ela representaria a culminância do ideal democrático.

Subjacente a ela vigora também ideia originária de toda a  democracia:tudo o que interessa a todos e a todas deve ser pensado e decidido por todos e por todas.

Há uma democracia direta em pequenas comunidades. Quando são maiores, projetou-se a democracia representativa. Como, geralmente, os poderosos a controlam, propôs-se uma democracia participativa e popular  na qual os do andar de baixo podem participar na formulação e acompanhamento das políticas sociais. Avançou-se mais e descobrimos a democracia comunitária, vivida pelos povos andinos, na qual todos participam de tudo dentro de uma grande harmonia ser humano-natureza. Viu-se que a democracia é um valor universal (N.Bobbio) a ser vivida cotidianamente, uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos). Face ao risco da eclipse da espécie humana, todos para se salvar se  uniriam ao redor da superdemocracia planetária (J.Attali).

Mais ou menos nesta linha, penso numa democracia sócio-ecolôgica.Os sobreviventes das mutações da Terra, estabilizando seu clima médio por volta de 40 ou mais graus Celsius, como forma de sobrevivência, forçosamente, terão que  a se relacionar em harmonia com a natureza e com a Mãe Terra. Dai se propõem a constuir uma democracia sócio-ecológica. È social por envolver a toda a sociedade. É ecológica porque o ecológico será o eixo estruturador de tudo.Não como uma técnica para garantir a sustentabilidade do modo de vida humana e natural mas como uma arte, um novo modo de convivência terna e fraterna com a natureza. Não obrigarão mais a natureza a adaptar-se aos propósitos humanos. Estes se adequarão aos ritmos da natureza, cuidando dela, dando-lhe repouso para se regenerar. Sentir-se-ão não apenas parte da natureza mas a própria natureza, de sorte que cuidando dela, estão cuidando de si mesmos, coisa que os indígenas já sabiam.

Esse tipo de democracia sócio-ecológica possui um base cosmológica. Sabemos pela nova cosmogênese, pelas ciências do universo,da Terra e da vida que todos os seres são interdependentes. Tudo no universo é relação e nada existe fora da relação A constante básica que sustenta e mantém o universo ainda em expansão  é constituída pela sinergia,pela simbiose e pela inter-retro-relacionalidade de todos com todos. Mesmo a compreensão de Darwin da sobrevivência dos mais adaptado se inscreve dentro desta constante universal. Por isso cada ser possui o seu lugar dentro do Todo. Até o mais débil pelo jogo das interrelações tem sua chance de sobreviver.

A singularidade do ser humano e isso foi comprovado pelos neurólogos, geneticistas, bioantropólogos e cosmólogos, é comparecer como um ser-nó-de-relações, de amorosidade, de cooperação, de solidariedade e de compaixão.Tal singularidade aparece melhor quando a comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas com 1,6% de carga genética. Eles possuem também uma vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e hierarquização. Mas nós nos diferenciamos deles pelo surgimento da cooperação. Concretamente, quando nossos ancestrais humanóides saiam para buscar seus alimentos, não os comiam individualmennte. Traziam-nos para o grupo e viviam a comensalidade solidária. Esta os fez humanos, seres de amor de cuidadeo e cooperação.

A ONU admitiu que tanto a natureza quanto a Terra são sujeitos de direitos.São os novos cidadãos com quais devemos conviver amigavelmente. A Terra é uma entidade biogeofísica, Gaia, que articula todos os elementos para continuar viva e produzir todo tipo de vida. Num momento avançado de sua evolução e complexidade, ela começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Surgiu,então, o ser humano, homem e mulher que são a Terra pensante e amante.

Ela se organizou em sociedades, também democráticas, das mais diferentes formas.Mas hoje porque soou o alarme ecológico planetário devemos, com sabedoria,  forjar uma democracia diferente, a  sócio-ecológica.

Se quiermos sobreviver juntos, esta democracia se caracterizará por ser uma biocracia, uma geocracia, uma sociocracia, uma cosmocracia, em fim, uma democracia  ecológico-social ou sócio-ecoógica. O tempo urge. Devemos gerar uma nova consciência e nos preparamos para as mudanças e adaptação que não tardarão em chegar.

Leonardo Boff escreveu com Jürgen Moltmann “Há esperança para a criação ameaçada? Vozes 2014.