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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

AS DUAS BANDEIRAS AO VIVO E EM CORES

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Certamente não imaginava Inácio de Loyola que uma das meditações centrais de seus Exercícios Espirituais encontraria visibilização tão viva e concreta neste preciso momento da história brasileira. Talvez lendo o parágrafo com que o santo descreve o contraste entre a proposta do demônio e a proposta de Jesus Cristo possamos dar-nos conta com precisão daquilo a que me refiro.

A meditação das Duas Bandeiras é proposta àquele ou àquela que faz os Exercícios logo após a Primeira Semana, quando ele ou ela terá passado vários dias debruçado sobre a realidade do pecado do mundo e do seu próprio.  Tratam-se de meditações que vão permitir conhecer melhor a si mesmo e ao mundo onde se vive, mas sobretudo a graça misericordiosa de Deus, que sempre o alcança e é muito maior e mais poderosa que seu pecado.

Em seguida, começa a Segunda Semana onde, após algumas contemplações importantes sobre a Infância de Jesus, o exercitante é confrontado com as Duas Bandeiras – a de Cristo e a do Inimigo da natureza humana – mostrando qual a estratégia pela qual Cristo e também seu e nosso Inimigo tentam seduzir-nos e conquistar-nos.

A estratégia do demônio é assim descrita por Santo Inácio: “primeiro cobiça de riquezas, para que mais facilmente venham a vã honra do mundo e depois a crescida soberba.  De maneira que o primeiro degrau seja de riquezas, o segundo de honra e o terceiro de soberba, e destes três degraus induz a todos os outros vícios.”

Creio que o santo ficaria impressionado ao ver a estratégia do demônio encarnada tão profunda e explicitamente em pessoas públicas que hoje ocupam os noticiários dos jornais e os meios de comunicação, vítimas das falácias e enganos do demônio que entre os inumeráveis nomes com que é chamado na Bíblia, conta-se Pai da Mentira, Inimigo da Natureza Humana, etc.

Ou seja, a estratégia deste sedutor inescrupuloso se opõe nada mais nada menos que a nossa plena humanidade.  Desvia-nos do caminho de ser plenamente humanos.  E por isso é inimigo. 
  
Curioso ver que o primeiro campo por onde nos tenta é o dinheiro.  E vemos isso comprovado ao sermos levados a ler e ver todo santo dia no noticiário vítimas desta tentação primeira e insidiosa.  Várias pessoas inteligentes, talentosas, que tiveram todas as oportunidades na vida e tudo perdem ao serem descobertas como obcecadas por dinheiro. 

Mestre Zu, nosso querido Zuenir Ventura, refletia sabiamente: “Não bastava o que já havia conseguido?  Não.  Queria mais, e mais e mais”.  Esta é a grande insídia do dinheiro.  Nunca basta, nunca é suficiente, quanto mais se tem, mais se deseja.  E para consegui-lo se valem de todos os meios, mesmo os não éticos, mesmos os que lesam pessoas necessitadas e vulneráveis. 

É verdade que o dinheiro compra coisas boas: viaja-se mais confortavelmente, vive-se luxuosamente, todos invejam, adulam e cercam subservientemente os ricos e milionários.  Mas já se vê que o final do caminho é lamentável.  Os que antes insaciavelmente assaltaram os cofres públicos em benefício próprio, crendo jamais serem descobertos, agora amargam dias duros, em acomodações precárias e condições humilhantes.

A riqueza tornou-se privação de liberdade, a honra vã do mundo transformou-se em chacota e desprezo por parte daqueles e daquelas que se sentem prejudicados pelos atos inescrupulosos desses novos ladrões de terno caro e colarinho branco. Da prisão nos chegam notícias de que os encarcerados sofrem depressão, choram, ficam doentes.  Não é para menos.  A doença interior tem reflexos externos e eles nunca se imaginaram nessa situação.

Fiel discípulo de Santo Inácio de Loyola, o Papa Francisco tem falado constante e abundantemente sobre os perigos do apego desordenado ao dinheiro.  Seja citando sua querida avó Rosa, que dizia sabiamente aos netos: “a mortalha não tem bolsos” até discursos oficiais diante do Congresso estadunidense denunciando o tráfico de armas, essa preocupação está presente em suas palavras.

A ditadura do dinheiro é a pior das opressões que afligem o ser humano. Escraviza e obriga a fazer gestos tresloucados, para manter a roda da fortuna girando sempre mais rápida, mais feroz e mais veloz.  Seu único antídoto é a proposta de Jesus Cristo, que vai na direção exatamente oposta: a vida livre e verdadeiramente humana é feita de simplicidade e humildade, pois só estas são caminhos para a verdade.

Possam as novas gerações aprenderem bem o ensinamento que hoje povoa os noticiários e a mídia brasileira.  Não vale a pena vender a própria dignidade, a própria consciência e sobretudo espoliar outros para enriquecer ilicitamente.  O preço a pagar é alto.  E pior: é justo que assim seja.  Para viver uma vida boa e feliz, ainda não se inventou outro caminho melhor do que o trabalho honesto, as relações abertas e transparentes e o cuidado dos outros e da criação.


Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio A   teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – paixão por Deus em tempo de descrença” , recém lançado pela Editora Rocco.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

DONA MARISA LETÍCIA AO ÓDIO RESPONDEU DOANDO SEUS ÓRGÃOS

Por Leonardo Boff



Dona Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula, morreu num contexto politico conturbado. Nas palavras do próprio Lula, “ela morreu triste” e também traumatizada.
Diz-se que todas as instituições funcionam. Mas não se qualifica o seu funcionamento. Funcionam mal. Em outras palavras não funcionam. Se tomamos como referência a mais alta corte da nação, o STF ai fica claro que as instituições estão corrompidas, incluindo a PF e o MP. Especialmente o STF é atravessado por interesses politicos e um dos seus ministros, de forma escancarada, rompe diretamente a ética de todo magistrado, falando criticando, atacando fora dos autos e tomando claramente posição por um partido; nada acontece, no nosso vale tudo jurídico, quando deveria sentir o rigor da lei e sofrer um impeachment. Esta situação é um sinal inequívoco que estamos numa derrocada política, ética e institucional. O Brasil vai de mal a pior pois todos os dias os itens sociais e politicos se deterioram. E havia senadores e deputados de poucas luzes que propalavam que com a derrubada do PT o Brasil entraria uma nova primavera de progresso.
O que nos parece mais grave é o fato de que se instaurou um real estado de sítio judicial. A operação Lava-Jato mostrou juizes justiceiros que usam o direito como instrumento de perseguição, no caso do PT e diretamente do ex-presidente Lula. A Polícia Federal, bem no estilo da SS nazista, entrou casa adentro da família Lula, revistaram cada canto, reviraram o colção, remexeram a penteadeira de Dona Marisa, revolveram a geladeira, carregaram o que puderam e levaram sob vara, pois é esta a expressão correta, quer dizer, coercitivamente o ex-presidente Lula para interrogatório numa delegacia do aeroporto.
Tal ato de violência física e simbólica traumatizou a ex-primeira dama. Maior foi o trauma quando foi indiciada como criminosa na operação Lava Jato junto com o marido. Isso a encheu de medo e alterou todo seu estado de saúde.
Como se não bastassem aquilo que escreveu corajosamente jornalista Hidegard Angel em seu blog na internet “os oito anos de bombardeio intenso, tiroteio de deboches, ofensas de todo jeito, ridicularia, referências mordazes, críticas cruéis, calúnias até. E sem o conforto das contrapartidas”. E faço minhas as palavra de Hildegard Angel, pois representam o que posso testemunhar em mais de 30 anos de amizade entranhável com Dona Marisa e Lula: “Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo todo. Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram. Não há um único relato de episódio de arrogância ou desfeita feita por ela a alguém, como primeira-dama do país. A dona de casa que cuida do jardim, planta horta, sepreocupa com a dieta do maridão e protege a família formou com Lula, um verdadeiro casal”.
Criticam-na porque como primeira dama não assumiu funções públicas. Mas poucos sabem que foi ela que restitituíu a forma original do palácio do Planalto, resgatando os móveis e tapetes que haviam sido doados a ministros e a outross departamentos. Ela possuía elevado sentido estético. Foi fundamental na reforma da Catedral que acompanhou passo a passo.
Finalmente, foi ela que introduziu no Torto as festas da cultura popular, a celebração de seus santos de devopção que são da maioria do povo brasileiro, Santo Antônio e São João. Lá organizou o carnaval bem no estilo do povo, com as bandeirinhas, a procissão e o pau de sebo. Escândalo da burguesia descolada de nossas raízes e envergonhada de nossas tradições.
Ela sofreu um AVC que foi fatal. Visitei-a na UTI, falei-lhe ao ouvido (dizem que mesmo em coma o ouvido ainda funciona) palavras de confiança e de entrega ao Deus Pai e Mãe que ela acreditava com fé profunda. Deus a estava esperando para que caisse em seu seio materno e paterno para ser feliz eternamente. Abracei o ex-presidente que não escondia as lágriamas. Quando se constatou a morte celebral, o coração ainda pulsava. Ele disse uma palavra verdadeira:”O coração dela pulsa porque o nosso amor vai para além da morte.”
Ao lado de tanta dor se constataram na internet palavras de ódio e de maledicência. Felizes porque morria e merecia morrer daquele jeito. Aí me dei conta de que não temos apenas pedófilos mas também necrófilos, aqueles que amam e celebram a morte dos outros. Pertinente é a frase atribuída ao Papa Francisco:”Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”.
Diante da morte, o momento derradeiro para cada ser humano, pois vai encontrar-se com Suprema Realidade que é Deus, devemos nos calar reverentes. Ou proferimos palavras de conforto e de solidariedade ou emudecemos respeitosamente. Comopodemos ser cruéis e sem piedade diante da morte dolorosa de uma pessoa conhecida como extremamente bondosa, arraigada aos mais pobres, lutadora dos direitos dos trabalhadores e das mulheres e com grande amor ao Brasil? Ao ódio ela respondeu doando generosamente os próprios órgãos para que outros pudessem viver.
Lamentavelmente, o golpe perpetrado contra o povo, impôs uma radical agenda que segundo o joranalista Elio Gaspari”é uma grande máscara, atrás da qual se escondem os velhos e bons oligarcas”(O Globo 5/02/17 p.8). Esses odeiam os pobres como odeiam o PT e Lula e odiaram Dona Marisa Letícia.
Mas a verdade e justiça possuem uma força intrínseca. Elas arrancarão as mascaras dos pérfidos. A luz brilhará. Enquanto isso contemplaremos uma estrela no céu da política brasileira: Dona Marisa Letíca Lula da Silva.
Leonardo Boff é amigo da família Lula da Silva e articulista do JB on line.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

MARISA LETÍCIA

por Frei Betto (*)



Se há uma mulher que não podia ser considerada mero adereço do marido era Marisa Letícia Lula da Silva. Ela não tinha a vocação política de Lula, mas sua aguçada sensibilidade funcionava como um radar que lhe permitia captar o âmago das pessoas e discernir as variáveis de cada situação. 
Nascida em São Bernardo do Campo, numa família de pequenos sitiantes, ela guardava a firmeza de caráter de seus antepassados italianos. Comedida nas palavras, a ponto de preferir não dar entrevistas, não fazia rodeios quando se tratava de dizer o que pensava, doesse a quem doesse. Por isso não podia ser incluída entre as tietes do marido. Nos palanques, preferia ficar atrás e não ao lado de Lula. A admiração recíproca não impedia que, ao vê-lo retornar de uma maratona de reuniões, às 3 da madrugada, ela o convocasse para criticar o desempenho dele numa entrevista na TV ou compartilhar decisões domésticas.
  
Marisa era, com certeza, a única pessoa que, no cara a cara, não corria o risco de se deixar enredar pela lógica política do marido. Defensora intransigente de seu próprio espaço, não chegava a ser o tipo de esposa que competia com o parceiro. Sabia que seus papéis eram diferentes e complementares. Ninguém era aceito na intimidade dos Silva sem passar pelo crivo dela, que sabia distinguir muito bem quem eram os amigos do casal e quem eram os amigos de Lula.
Tanto quanto Lula, Marisa conhecia as dificuldades da vida. Décima filha de Antônio João Casa e Regina Rocco Casa, cresceu vendo o pai carregar a charrete de verduras e legumes que ele plantava e vendia no mercado. Se o sítio era pequeno, suficiente para assegurar a precária subsistência da família de onze filhos, o coração dos Casa era grande o bastante para acolher os necessitados. Dona Regineta – como era tratada sua mãe – ficou conhecida como benzedora em São Bernardo do Campo pois, na falta de médicos e de recursos, muitas pessoas a procuravam, especialmente quem padecia de bronquite.
A filha estudou até a 7ª série. Ainda criança, viu-se obrigada a conciliar a escola com o trabalho, empregando-se como babá na casa de um sobrinho de Portinari. Aos 13 anos de idade, tornou-se operária na fábrica de chocolates Dulcora. Do setor de embalagem Marisa foi promovida a coordenadora de seção antes de, aos 20 anos, trocar a Dulcora por um cargo na área de educação da prefeitura de São Bernardo do Campo, onde trabalhou enquanto solteira.
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Em 1970, ela se casou com Marcos Cláudio dos Santos, motorista de caminhão. Seis meses depois, ele morreu assassinado, quando dirigia o táxi do pai, deixando Marisa grávida do filho Marcos, que Lula considera seu primogênito. Em 1973, ao recorrer ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo para obter um pecúlio deixado pelo marido, Marisa conheceu Lula. De fato, foi paquerada dentro de um verdadeiro cerco estratégico montado pelo presidente do sindicato, que ouvira falar de uma “lourinha muito bonita” que andava por ali. Lula tentou convencê-la de que também era viúvo, sem que a moça acreditasse, até ver o documento que ele, de propósito, deixara cair no chão. A primeira mulher de Lula, Maria de Lourdes, morrera em 1971, com o filho que trazia no ventre, em consequência de uma hepatite mal curada. Em maio de 1974, Lula e Marisa se casaram. Da união nasceram os irmãos de Marcos: Fábio, Sandro e Luís Cláudio.
Nos primeiros anos de casada, Marisa não gostava de política. O progressivo comprometimento de Lula com atividades sindicais alterava a rotina da casa. Obrigada a levantar cedo para despachar as crianças para a escola, ela esperava o marido regressar de reuniões que se prolongavam madrugada adentro. No fogão, a comida pronta para ser requentada, já que Lula prefere não comer em restaurantes.

Depois de deitar os filhos, ela acompanhava as telenovelas sem entusiasmo. E, com razão, se queixava da difícil tarefa de atender a mais de cem telefonemas por dia, muitas vezes sem conseguir convencer os interlocutores de que ela não controlava a agenda do marido e, muito menos, o que ele pensava do último pronunciamento de um ministro.
Em abril de 1980, ela passou pela prova de fogo, quando Lula esteve preso no DEOPS de São Paulo, devido à greve de 41 dias. Preocupada com a segurança dele, sempre fez questão de abrir a porta quando estranhos batiam, evitando expor o marido. No mesmo ano, fez o curso de Introdução à Política Brasileira, promovido pela Pastoral Operária de São Bernardo do Campo. Filiada ao Partido dos Trabalhadores, abriu sua casa para as reuniões do núcleo petista que se organizara no bairro Assunção, onde moravam. O engajamento da mulher levou Lula a participar mais diretamente das tarefas domésticas. Mas era ela quem cuidava das finanças da casa.
Dela dependia também a logística pessoal de Lula, cujas roupas era ela quem comprava geralmente. Como ele costumava andar de bolsos vazios, sequer trazendo consigo a carteira de identidade, da bolsa de Marisa surgiam o talão de cheques e a caneta com a qual Lula dava autógrafos. Durante as campanhas presidenciais, Marisa sempre levava, nas viagens, uma coleção de camisas para que, após cada comício, ele pudesse trocá-las.

Embora Marisa preferisse, em política, o papel de assessora mais íntima do marido e não gostasse de fazer discursos e nem mesmo ser o centro das atenções, ela não dispensava a oportunidade de participar de conversas políticas. Independentemente de quem fosse o interlocutor, Lula jamais pedia a Marisa que se retirasse, exceto para buscar um café. No fogão, ela preferia o trivial: arroz, feijão, bife e salada de alface com tomate, embora o seu prato predileto fosse camarões e um bom copo de vinho. Para quem chegava, havia sempre uma xícara de café. Sair sem aceitá-la era considerado quase uma ofensa. E ela se comprazia em ler toda a correspondência que o marido recebia nos comícios, bem como em distribuir estrelinhas do Partido às crianças.


Devota do Sagrado Coração de Jesus, cuja folhinha jamais dispensava, a ex-Filha de Maria tinha, como Lula, a impressão de que Deus comandava os seus passos. Mas, por curiosidade, gostava de ler seu horóscopo nos jornais.
Habilidosa na arte do silk-screen, Marisa fez a primeira bandeira do PT, num tecido vermelho trazido da Itália. Em 1981, montou em casa uma pequena oficina para estampar camisetas com símbolos do Partido, inclusive criações de Henfil. Para a campanha de Lula a deputado federal, em 1986, ela chegou a estampar cerca de vinte mil camisetas, vendidas para angariar fundos. Ciosa de sua privacidade familiar virava uma fera quando a imprensa tentava entrar pela porta de sua casa ou incluir seus filhos no noticiário. Em tais situações, só o cuidado das plantas era capaz de acalmá-la.
Avessa a protocolos, gostava mesmo era de ficar entre amigos, cercada de muita planta e água, em qualquer lugar em que os filhos pudessem se divertir, livres das normas de segurança. Um bom jogo de buraco, o papo solto, o marido de bermudas ao seu lado e o telefone desligado – era o que bastava para deixá-la em paz.
Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PEÇAMOS A DEUS QUE O PAPA FRANCISCO E SEUS SUCESSORES CONSERTEM A IGREJA, COMO SÃO FRANCISCO FEZ NA PORCIÚNCULA


  por Juracy Andrade


Como o direito canônico obriga os bispos a se aposentarem aos 75 anos, o papa Francisco, nestes últimos quatro anos, teve oportunidade de fazer uma grande quantidade de novas nomeações episcopais. Como ele evidentemente escolhe candidatos que compartilhem sua visão da Igreja, tipo Dom Helder, Dom José Maria Pires, Dom Paulo Evaristo e alguns outros, não estejam contaminados pelos descaminhos adotados por tantos papas-imperadores, pode-se esperar que a Igreja Romana vá retomando os caminhos dos apóstolos, descritos por exemplo no livro dos Atos dos Apóstolos. Mesmo porque ele também tem nomeado cardeais mais cristãos que os de antigamente. E são ainda os cardeais, e não representantes do episcopado mundial e do povo de Deus, que fazem a eleição de um novo papa.

Acredito que ele ou algum sucessor seu tomará a providência de acabar com essa excrescência imperial que é o Colégio Cardinalício, inventado por papas-imperadores para garantir a constante eleição, não de bispos de Roma, mas de senhores imperiais. Com o tempo, teremos uma Igreja renovada e retemperada no Evangelho de Jesus Cristo, o que tornará mais fácil, ou menos difícil, retomar o desejo de Cristo de que “todos sejam um” (oração antes da paixão). Grandes passos já foram dados em relação aos luteranos. Francisco ,inclusive, participou de comemoração do quinto centenário da Reforma. E aos anglicanos. O papa também se encontrou com um dos patriarcas da Igreja Ortodoxa, que há cerca de mil anos separou-se da Romana.

Sem dúvida muitos passos terão que ser dados por todas as igrejas que ainda se conservam cristãs. E a Igreja Romana já não proclama que são as outras confissões que têm de ceder às exigências de Roma. Progressivamente, acredito, dogmas como o da infalibilidade papal terão de ser revistos. Lembramos que foi um concílio de alguns bispos europeus (poucos), o Vaticano I, reunido às pressas em meio a convulsões bélicas e estreitamente pressionado pelo papa da época, que proclamou esse duvidoso dogma, logo contestado por inúmeras igrejas e inclusive por católicos.

Evidentemente, Francisco não poderá consertar sozinho e rapidamente tudo o que se fez de errado na Igreja de Cristo desde que o papa e os bispos resolveram, com raras exceções, se tornarem nobres de um Império Romano repaginado pelo imperador Constantino, que fez do cristianismo uma religião oficial. Todos, papa, bispos, imperador, ignorando solenemente palavras de Cristo como “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” ou “O meu reino não é deste mundo”.

Como em muitos outros casos, a Igreja passou a adotar costumes pagãos, além desse de religião oficial. Por exemplo: construção de templos, o que era ignorado pelos cristãos primitivos; um clero absolutamente segregado dos leigos; perseguição e morte aos que o establishment eclesiástico considerava hereges; a incrível instituição de uma Inquisição para condenar e queimar na fogueira do auto-de-fé hereges e cismáticos. Vamos orar e torcer para que Francisco ainda consiga avançar muito na retomada e renovação cristã. E que tenha sucessores que prossigam com o trabalho dele, certamente inspirado por Deus.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia