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sexta-feira, 5 de abril de 2019

COMEMORAR 1964? GRUPOS CIVIS CONSERVADORES E REACIONÁRIOS USARAM OS MILITARES PARA O GOLPE.



Por Leonardo Boff
Os 55 anos do golpe militar, pela violência que implicou, agora devidamente tirada a limpo pela Comissão Nacional da Verdade, não pode deixar nenhum cidadão consciente na indiferência. Importa assinalar claramente que o assalto ao poder foi um crime contra a Constituição e uma usurpação da soberania popular, fonte do direito num Estado democrático.
O primeiro Ato Institucional de 9/4/1964 alijou este princípio da soberania popular ao declarar que “a revolução vitoriosa como Poder Constituinte se legitima por si mesma”. Nenhum poder se legitima por si mesmo; só o fazem ditadores que pisoteiam qualquer direito. O golpe militar configurou uma ocupação violenta de todos os aparelhos de Estado para, a partir deles, montar uma ordem regida por atos institucionais, pela repressão e pelo Estado de terror.
Bastava a suspeita de alguém ser subversivo para ser tratado como tal. Mesmo detidos e sequestrados por engano como inocentes camponeses, para logo serem seviciados e torturados. Muitos não resistiram e sua morte equivale a um assassinato. Não devemos deixar passar ao largo, os esquecidos dos esquecidos que foram os 246 camponeses mortos ou desaparecidos entre 1964-1979. E agora está sendo descoberta a eliminação de muitos indígenas, tidos como empecilho ao crescimento econômico. Sobre alguns deles foram lançadas até bombas de napalm.
O que os militares cometeram foi um crime lesa-pátria. Alegam que se tratava de um estado de guerra, um lado querendo impor o comunismo e o outro defendendo a ordem democrática. Esta alegação não se sustenta. O comunismo nunca representou entre nós uma ameaça real pois qualquer manifestação neste sentido era brutalmente reprimida, não sem o apoio da CIA dos EUA.
Na histeria coletiva do tempo da guerra-fria, todos os que queriam reformas na perspectiva dos historicamente condenados e ofendidos – as grandes maiorias operárias e camponesas – eram logo taxados de comunistas e de marxistas, como ocorre atualmente no atual regime no qual as palavras “comunista” e “cultura marxista” são usados como termos de acusão e vitupério, como se estivéssemos ainda no tempo da guerra-=fria de 30 anso atrás.
Bispos como o insuspeito Dom Helder Câmara, sacerdotes trabalhando nas favelas, religiosas nos fundões de nosso país, leigos e leigas, defensores dos ideais democráticos e dos direitos humanos, intelectuais notáveis foram submetidos a rigorosa vigilância Contra eles não cabia apenas a vigilância. Muitos sofreram a perseguição, a prisão, o interrogatório aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores. Os alegados “suicídios” camuflavam apenas o puro e simples assassinato.
Em nome do combate ao perigo comunista, se assumiu a prática comunista-estalinista da brutalização dos detidos. Em alguns casos se incorporou o método nazista de incinerar cadáveres como admitiu o ex-agente do Dops de São Paulo, Cláudio Guerra.
Causa espanto e constitui até um problema filosófico a falta de remorsos que o coronel reformado Paulo Magalhães há tempos, manifestou à Comissão Nacional da Verdade de ter atuado na Casa da Morte de Petrópolis, de ter torturado, assassinado, mutilado cadáveres e ter ocultado o corpo do deputado Rubens Paiva.
Rudof Höss, comandante do campo de extermínio nazista em Auschwitz que segundo seus próprios cálculos em sua autobiografia (Kommandant in Auschwitz,1961) mandou para as câmaras de gás cerca de um milhão de judeus, também não mostrava nenhum arrependimento. Divertia-se atirando ao leu sobre os prisioneiros e chorava com uma criança ao chegar em casa ao saber que seu passarinho preferido havia morrido. É o mistério da iniquidade.
O Estado ditatorial militar, por mais obras que tenha realizado ( “o milagre econômico” foi apropriado apenas por 10% da população, pelos mais ricos, no quadro de um espantoso arrocho salarial), fez regredir política e culturalmente o Brasil. Expulsou ou obrigou ao exílio nossas mais brilhantes inteligências e nossos artistas mais criativos. Afogou lideranças políticas e ensejou o surgimento de súcubos que, oportunistas e destituídos de ética e de brasilidade, se venderam ao poder ditatorial em troca benesses que vão de estações de rádio a canais de televisão e de outros benefícios sociais. E muitos deles estão ai, politicamente ativos e ocupando até altos cargos da administração do Estado “democrático”.
Os que deram o golpe de Estado deveriam ser responsabilizados moralmente por esse crime coletivo contra o povo brasileiro, como vários juristas já o tem pedido. Os militares se imaginam que foram eles os principais protagonistas desta façanha nada gloriosa como ainda pensa o atual presidente Jair Bolsonaro. Na sua indigência analítica, mal suspeitam que foram, de fato, usados por forças muito maiores que as deles. Disse-o acertadamente Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, numa entrevista ao Boletim Carta Maior (30/3/2014): “O poder não foi apropriado diretamente pelos militares para eles próprios. Foi um projeto político dos setores mais conservadores e reacionários (burguesia nacional e os latifundiários) que tiveram nas forças armadas um apoio e um protagonismo muito grande”.
René Armand Dreifuss escreveu em 1980 sua tese de doutorado na Universidade de Glasgow com o título: 1964: A conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe (Vozes 1981). Trata-se de um livro com 814 páginas das quais 326 são cópias de documentos originais. Por estes documentos fica demonstrado: o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar.
A partir dos anos 60 do século passado, se formou o complexo IPES/IBAD/GLC. Explico: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC). Compunham uma rede nacional que disseminava ideias golpistas, composta por grandes empresários multinacionais, nacionais, alguns generais, banqueiros, órgãos de imprensa, jornalistas, intelectuais, a maioria listados no livro de Dreifuss. O que os unificava, diz o autor “eram suas relações econômicas multinacionais e associadas, o seu posicionamento anticomunista e a sua ambição de readequar e reformular o Estado”(p.163) para que fosse funcional a seus interesses corporativos. O inspirador deste grupo foi o maquiavélico General Golbery de Couto e Silva que já em “em 1962 preparava um trabalho estratégico sobre o assalto ao poder”(p.186).
A conspiração pois estava em marcha, há bastante tempo. Aproveitando-se da confusão política criada ao redor da renúncia do Presidente Jânio Quadros e da obstinada oposição ao Presidente João Goulart, que propunha reformas de base e principalmente a reforma agrária, e por isso, tido como o portador do projeto comunista, este grupo viu a ocasião apropriada para realizar seu projeto. Chamou os militares para darem o golpe e tomarem de assalto o Estado. Foi, portanto, um golpe da classe dominante, nacional e multinacional, usando o poder militar.
Conclui Dreifuss: “O ocorrido em 31 de março de 1964 não foi um mero golpe militar; foi um movimento civil-militar; o complexo IPES/IBAD e oficiais da ESG (Escola Superior de Guerra) organizaram a tomada do poder do aparelho de Estado”(p. 397).
Especificamente afirma: ”A história do bloco de poder multinacional e associados começou a 1º de abril de 1964, quando os novos interesses realmente tornaram-se interesses do Estado, readequando o regime e o sistema político e reformulando a economia a serviço de seus objetivos”(p.489). Todo o aparato de controle e repressão era acionado em nome da Segurança Nacional que, na verdade, significava a Segurança do Capital.
O grande golpe de misericórdia ao regime ditatorial foi a publicação, patrocinada pelo Cardeal de São Pulo, Dom Paulo Evaristo Arns, do livro Brasil Nunca mais(1984) Foram  utilizados materiais de 770 processos militares completos com um volume de mais de um milhão de páginas. Ai, em fontes do próprio sistema, apareciam as barbaridades cometidas nos porões da ditadura.
Os militares inteligentes e nacionalistas que existem hoje em dia, deveriam dar-se conta de como foram usados por aquelas elites oligárquicas e antipopulares que não buscavam realizar os interesses gerais do Brasil mas sim, alimentar sua voracidade particular de acumulação, sob a proteção do regime autoritário dos militares.
A Comissão Nacional da Verdade prestou um serviço esclarecedor ao país ao trazer à luz toda esta trama. Ela simplesmente está cumprindo sua missão de ser Comissão da Verdade. Não apenas da verdade de fatos individualizados de violência aos direitos humanos, mas da verdade do fato maior da dominação de uma classe poderosa, (anti)nacional, associada à multinacional, para, sob a égide do poder discricionário dos militares, tranquilamente, realizar seus objetivos corporativos e excludentes. Isso nos custou 21 anos de humilhação, de privação da liberdade, perpetrou assassinatos e desaparecimentos e impôs um oneroso padecimento coletivo. Esta classe está aí ativa, atuou fortemente no impeachment da Presidenta Dilma Rousseff e foi um esteio fundamental na vitória de Jair Bolsonaro.
Por fim, cabe ouvir as palavras da advogada Rosa Cardoso, advogada e defensora da prisioneira política Dilma Rousseff e hoje integrante da Comissão Nacional da Verdade numa entrevista ao Boletim Carta Maior de 20/02/2014: ”Primeiro quero dizer que até hoje as Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira, com o que estariam assumindo uma posição civilizada e democrática, que é, afinal de contas, o que se espera dos militares no século 21. Lamentavelmente, até agora, não recebemos nenhum sinal, nenhuma mensagem, que nos indique que haja algum desejo, por parte dos militares, de pedir desculpas e de fazer uma autocrítica política sobre seu comportamento”.
Esta dívida eles a têm para com todo o povo brasileiro. E deverão um dia saldá-la. Assistimos, envergonhados, no dia 31 de março de 2019, usando os serviços oficiais do Estado, a exibição de um video, ordenado pelo atual Presidente Bolsonaro, exaltando o golpe de 1964. Antes havia baixado ordem que nos quarteis se celebrasse esse fato, tido pelos historiadores, como hediondo, o golpe de 1964.
O dia primeiro de abril de 2019, 55 anos do golpe civil-militar, é um dia de pranto e de luto pelas vítimas da repressão mas também dia de ânimo porque a truculência não pode sufocar o sentimento de dignidade nem abater os ideais democráticos que se firmam mais e mais em nossa consciência nacional.
Infelizmente ascendeu à Presidência em 2019 o ex-capitão Jair Bolsonaro. Ele desavergonhadamente exalta a memória do terrível torturador Ustra, nos USA dedica tempo para visitar a CIA, agência de informação que tantos golpes orquestrou nos anos 60 e posteriores, na América Latina, no Chile, para espanto de toda sociedade chilena e do próprio presidente Piñera saúda o ditador Pinochet e em Israel de Netanhiau apoia o expansionismo israelense contra a população palestina. Esta figura atropela a Constituição, usa as mídias digitais para difundir falsas notícias, para suscitar ódio na sociedade, desrespeitando abertamente as leis. Como asseverou um corajoso magistrado do Rio de Janeiro Rubens R .R. Casara, vivemos num “Estado pós-democrático” e num “Estado sem lei” (títulos de dois livros seus, de 2018 e 2019).
Estamos na iminência de uma nova tomada do poder de Estado por forças militares, dada a degradação da política oficial, inerte, inoperante e totalmente confusa. Talvez nem quereriam assumir um Estado falido, mas as circunstâncias dramáticas da desorganização social, da entrega de bens comuns sociais que fundam a soberania, a grupos estrangeiros, da violência disseminada em toda a sociedade, se sintam forçados a isso.
Ninguém sabe para onde estamos indo. Parece que estamos num voo cego e sem rumo. Mas a nossa crença é que o Brasil é maior que sua atual crise. Tiraremos duras lições dela mas sairemos mais maduros, democráticos e amantes desta porção ridente e maravilhosa do planeta Terra que é o Brasil.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo, escritor e presidente honorário do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis. Escreveu: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.
Dedico este texto ao meu colega de seminário Arno Preis, cheio de fome de justiça e de liberdade, assassinado em Paraiso do Norte- GO no dia 15/2/1972;.


quinta-feira, 4 de abril de 2019

HARMONIA ENTRE CIÊNCIA E FÉ





Por Frei Betto

         O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor da Universidade de Dartmouth (EUA), arrebatou o Prêmio Templeton 2019, considerado o “Nobel” da espiritualidade. As fundação premiadora ressaltou ter ele dado “uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida”.

         Em julho de 2010, Gleiser e eu nos trancamos quatro dias no Hotel Santa Teresa, no Rio, para dialogar sobre fé e ciência, mediados por Waldemar Falcão. Do encontro resultou o livro “Conversa sobre a fé a ciência” (Agir/Nova Fronteira), hoje fora de catálogo.

         De formação judaica e órfão de mãe ainda criança, Gleiser teve a morte como primeiro desafio para encarar o além. Ainda jovem se interessou pelo taoísmo e o hinduismo, praticou ioga e, graças à leitura de Einstein, para quem nada era mais importante do que “experimentar o mistério”, descobriu que temas outrora reservados às religiões, como origens do Universo e da vida, agora eram abordados pela ciência. Recebeu ainda influência do físico e comunista brasileiro Mario Schenberg, que se declarava “materialista místico”.

         Antes de nosso encontro, lemos os livros um do outro. Verificamos haver entre nós mais convergências que divergências. Admirei-me com sua abertura ao transcendente, em especial nas obras “A harmonia do mundo” e “Criação imperfeita”, em um período em que físicos como Stephen Hawking e Richard Dawkins professavam o ateísmo militante.

         Gleiser admitiu ter se surpreendido com os  conhecimentos de astrofísica e física quântica de um frade após ler meus livros “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio) e “Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes).

         Entender o mundo é desvendar a mente de Deus. À minha afirmação de que a ciência é o reino da dúvida, Gleiser completou que “ela se alimenta da dúvida para buscar a verdade. Não existem verdades acabadas. O processo da busca é o processo da transcendência.”

         A ciência trata do “como” e a teologia do “porquê”.  “Não existe incompatibilidade entre espiritualidade e  ciência”, disse Gleiser. “Muito pelo contrário, o cientista dedica a vida ao estudo da natureza porque é apaixonado por ela. Essa relação é espiritual.”

         Admitiu ver “a busca pelo conhecimento científico como uma grande busca espiritual, que responde a anseios que estão conosco desde tempos ancestrais. Nossa visão do mundo caminha de mãos dadas com os avanços da ciência. Nossa espiritualidade também.”

         Agnóstico, o físico teórico concorda que a ideia de Deus não pode ser objeto da ciência, pois, como o amor, não é verificável. Pertence à esfera do mistério, que supera a nossa racionalidade. Talvez, opinou, a ciência jamais venha a obter a Teoria Unificada, capaz de articular todas as forças da natureza, como aspirava Hawking. E Gleiser duvida que, um dia, se possa explicar cientificamente as origens do Big Bang e da vida, e o funcionamento da mente, ainda que o cérebro esteja quase todo mapeado, bem como o mecanismo de suas ondas elétricas.

         Gleiser e eu entendemos que não se deve confundir religião e espiritualidade. A primeira é uma instituição, a segunda, uma experiência, assim como na distinção entre família e amor. E ambos consideramos que o esteio da espiritualidade é a meditação. Em um lago próximo à sua casa, em Hanover, praticava o fly fishing, pesca com isca artificial, em que os peixes são devolvidos vivos à água; o objetivo é esvaziar a mente do pescador. “A meta final de qualquer prática de 
meditação é você se desidentificar de sua mente”, ressaltou.
         Premiar Marcelo Gleiser representa significativo libelo contra a intolerância religiosa e a obsessão de pretender divinizar a ciência e desprestigiar a fé. 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.
         
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terça-feira, 2 de abril de 2019

PARA UM ACORDO MUNDIAL SOBRE OS DIREITOS DA VIDA





Marcelo Barros

A sociedade dominante compreende tudo como mercadoria. Tudo tem preço. A terra, a natureza até as pessoas e a própria vida têm preço. Há alguns anos, a ONU aprovou um documento chamado “A carta da Terra”. Era uma declaração dos direitos do planeta Terra. Agora, diversas organizações sociais, reunidas na Ágora dos Habitantes da Terra, trabalham pela aprovação de uma “Carta da Vida”.

A compreensão de que há bens que são comuns a todos e não podem ser privatizados supõe sociedade que tenha ainda algum senso comunitário. Se cada pessoa pensa apenas em si mesma, a regra é cada um por si, só há lugar para a propriedade privada, a competição e o mercado. Entretanto, já em 1854, nos Estados Unidos, o cacique Seattle escrevia ao presidente dos Estados Unidos : “Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho”.

As comunidades indígenas e afrodescendentes têm profundo senso comunitário. Até mais da metade do século XX, a maioria dos países se orgulhava em ter educação e saúde gratuita para todos e de boa qualidade. Era o que se chamava “sociedade do bem-estar social”. Nas últimas décadas, o Capitalismo destruiu sistematicamente essa cultura e transforma tudo em mercadoria. Por isso, atualmente, no mundo inteiro, vários movimentos e organizações civis trabalham para que a Terra, a Água, o Ar, a educação básica, a Saúde, o Conhecimento e a Energia renovável sejam considerados como bens comuns, patrimônio da humanidade. Na encíclica sobre a Ecologia integral, o papa Francisco afirmou: “o clima é um bem comum, bem de todos e para todos” (Laudatum sii, 23). Alguns desses elementos, como a Terra, a Água, o Ar, as florestas e as árvores são bens necessários a todo ser vivo. Dessas manifestações da Vida no planeta, nós, seres humanos, somos administradores/as, não para dilapidar, mas para, de modo harmonioso e juto, partilhar com os outros seres. Entretanto, essa compreensão tem encontrado barreiras nas legislações nacionais.

A ONU tem dificuldades para aprovar uma carta dos direitos da Terra, da Água, do Ar e de outros recursos dados pelo Criador para uso comum da humanidade e de todo ser vivo. Se esses bens são necessários à vida de todos, ninguém deveria ter o direito de se apropriar deles. Uma empresa pública faz o tratamento da água potável e a transporta à nossa casa. É justo pagar por esse serviço, mas não pela água. Se um norte-americano usa, em média, 44 litros de água por dia, enquanto a maioria dos africanos não tem acesso nem a um litro, considera-se absurdo legislar que os maiores consumidores paguem pelo excesso, para custear o acesso a quem não pode ter nem o necessário. A quantidade mínima de água necessária às pessoas durante um dia deve ser garantida gratuitamente a todos. Toda a humanidade tem direito aos bens indispensáveis à vida.

Já há quase dez anos, uma Rede de organizações de solidariedade na Europa definiu: “Os bens comuns podem ser definidos como o conjunto de recursos, meios e práticas que permitem a um grupo se constituir como comunidade, capaz de assegurar a todos o direito a uma vida digna” (revista Nigrizia, gennaio 2011, p. 79). 

A partir desse critério, as organizações sociais podem lutar pela água como bem público, pela defesa da terra (biodiversidade, soberania alimentar), pela superação da dependência dos combustíveis fósseis, pelo livre acesso à comunicação, ao saber e à saúde. Todas as sociedades, mesmo as mais tradicionais, têm alguma forma de mercado. No entanto, tudo não é mercadoria e, como diria Jesus, o mercado deve ser em função do ser humano e da sua vida e não tudo a serviço do mercado.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade trata da necessidade de políticas públicas que visem o bem comum. Esse bem comum é o progresso das condições sociais e econômicas para todos. É também o cuidado com a vida no planeta. Faz parte das políticas públicas garantir a sustentabilidade e a “comunidade da vida” da qual nós, humanos, fazemos parte. O cacique Seattle que, no século XIX, escreveu ao presidente dos Estados Unidos, concluía sua carta, afirmando: “Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas: a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos. A terra não pertence ao homem. O ser humano pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo”.   

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


segunda-feira, 1 de abril de 2019

VIOLÊNCIA: JOGO MASCULINO




  Por Maria Clara Bingemer

            A grande escritora, filósofa e cineasta estadunidense Susan Sontag sempre foi muito atenta, quase obcecada, pelo mistério da guerra e da violência protagonizados pela espécie humana. Sobre isso escreveu vários ensaios, fez trabalhos fotográficos e filmes em regiões como Sarajevo, tornando-se uma figura icônica de intelectual comprometida com os problemas de seu tempo. 

            Em seu livro “Sobre a dor dos outros” (Regarding the pain of others), de 2004, ela explora as raízes da guerra.  E, a partir de um escrito de Virginia Woolf, reflete sobre a pergunta feita à escritora inglesa por um homem sobre a possibilidade de prevenir a guerra.  Woolf responde com uma perturbadora afirmação:  Os homens fazem a guerra.  A maioria dos homens gosta da guerra, já que para eles há “alguma glória, alguma necessidade, alguma satisfação em lutar” que as mulheres, ou pelo menos a maioria delas não sente nem desfruta. Segundo Woolf - secundada em sua convicção por Sontag – a guerra é um jogo de homens.  A máquina de matar tem um gênero, e é macho. 

            Escrevo isso tendo ainda frescos no coração e na mente os terríveis eventos da escola de Suzano, em São Paulo, quando dois jovens rapazes, ex alunos da instituição, entraram atirando para matar.  Mataram cinco jovens estudantes, além de duas educadoras e o tio de um dos assassinos.  Depois se mataram.  Não havia um objetivo definido: nem vingança, nem roubo, nem intolerância religiosa. Não se tratava tampouco de uma guerra entre nações ou da invasão de um país por uma grande potência estrangeira. E neste sentido o evento difere daquele comentado por Virginia Woolf e refletido por Susan Sontag. Não há nada além da morte alheia e a própria. Apenas o gozo de atirar e atirar para matar. Matar e morrer, esse é o jogo. 

            A tragédia de Suzano tem antecedentes na história recente.  Nos Estados Unidos, em Columbine (Colorado), em 1999, quando dois adolescentes assassinaram 13 pessoas, ou em Newton (Connecticut), onde um jovem matou 20 crianças e seis adultos numa escola infantil.   No Brasil, cabe mencionar a tragédia de Realengo (Rio de Janeiro), em 2011: doze estudantes de uma escola em Realengo, bairro localizado na Zona Oeste, morreram depois que um homem abriu fogo. O agressor, um jovem de 24 anos, era um ex-aluno da escola e cometeu suicídio após o massacre.

            Em todos os casos, o rastro deixado pelas armas é de sangue, dor e lágrimas inconsoláveis.  As mães, os familiares, os amigos, enterram as vítimas perplexos diante da brutalidade de uma violência para a qual não se consegue encontrar explicações. 

            Se observarmos esses tristes eventos, vamos encontrar neles protagonistas e atores masculinos.   Meninos.  Não há meninas em nenhum dos casos.  A violência deliberada tornada matança, gestada em um site da internet, onde os membros incentivam uns aos outros ao ódio e à violência, é coisa de homem, de menino.  Meninos que se vestem de matadores inspirados em filmes ou séries americanas e descarregam suas armas sobre outros e sobre si mesmos, declarando que esse é o sentido de suas vidas. 

            Não se quer aqui afirmar que todos os homens são violentos e as mulheres, pacíficas.  Isso não seria verdade. Porém, se afirma, sim, que o jogo, o ritual, as vestes, o instrumental da violência e da guerra predominam no imaginário masculino muito mais do que no feminino.  A razão disso estaria na forma tradicional como meninos e meninas são educados.  Desde muito cedo  são dadas armas de brinquedo aos meninos,  incentivados a brincadeiras brutas.  E suas brigas são violentas e machucam, enquanto no campo das meninas as atividades são mais tranquilas, criativas e lúdicas.

            Muito se tem questionado esse tipo de educação, que reduziria a mulher a um papel passivo na sociedade e empurraria o homem em direção à violência e à agressividade.  Não se trata, pois, de fazer aqui o elogio deste tipo de dicotomia, em que mulher é princesa e homem, guerreiro. Mas sim de questionar se a formação das novas gerações não estaria sendo reduzida em suas potencialidades a um vazio desesperador, formando homens violentos que só vão encontrar motivação em jogos perigosos e vorazes.  Ao mesmo tempo em que produz mulheres insatisfeitas e frustradas, que se realizarão no consumo e na futilidade. 

            Assim como frente ao crescimento exponencial da violência urbana que mata milhares de jovens do sexo masculino todo ano, e do aumento preocupante do feminicídio, que mata mulheres pelo simples fato de serem mulheres, impõe-se uma conversão.  Formar para a paz e a convivência.  Mais atenção aos meninos, não deixando que os jogos violentos lhes devorem o imaginário e o futuro.  E às meninas, para que ponham a serviço da sociedade como um todo sua profunda e visceral aliança com a vida. 

    Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora  de  Testemunho: profecia, política e sabedoria ( Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial), entre outros livros.