O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

CAMPANHA QUARESMA 2020

São Paulo, Quaresma de 2020

Queridos amigos e amigas,

       Como todos os anos, volto à Campanha de Quaresma – tempo de solidariedade e justiça. Talvez seja a primeira vez que você recebe esta minha carta, remetida todos os anos há mais de duas décadas. Trata-se de uma iniciativa para favorecer um projeto social no qual confio.

       Devido ao modo como o atual governo brasileiro trata a Amazônia, e a importância do Sínodo de Bispos sobre a região convocado pelo papa Francisco, creio que esta é uma oportunidade de manifestar nossa solidariedade aos povos amazônicos.

       Neste ano de 2020, a instituição beneficiária será um projeto da Amazônia - a Comunidade Fazenda São Sebastião, localizada à margem esquerda do igarapé Mapiá, município de Pauiní (AM). O acesso é apenas por via fluvial. A cidade mais próxima, Boca do Acre, dista 70 km. A sede municipal, Pauini, a aproximadamente 200 km da comunidade por via fluvial. Sua população é de 19.426 habitantes (IBGE, 2019). Possui um dos IDHs mais baixos do país: 0,49.

       Cerca de 80 famílias vivem na Fazenda São Sebastião. A comunidade foi fundada em 1983 com a chegada de 60 famílias provenientes de Rio Branco (AC), assentadas pelo Incra. Hoje, sobrevivem do extrativismo e da agricultura de subsistência. A base da alimentação é peixe, caça, farinha de mandioca e culturas anuais, como arroz e feijão, cultivados em áreas férteis às margens do rio Purus e nos roçados de terra firme. A renda das famílias é proveniente de aposentadorias, programas assistenciais do governo, como Bolsa Família, e do extrativismo de produtos florestais, com destaque para o cacau nativo e a castanha.

       A comunidade vive em área isolada, desprovida de serviços básicos como energia elétrica e saneamento. Também não possui serviços de saúde nem recebe visita regular de médico ou agente de saúde. O posto de saúde mais próximo está localizado em Boca do Acre.

       A comunidade possui uma sala de aula multiseriada, com aproximadamente 20 alunos, de 1º ao 9º ano. No entanto, hoje, a escola é desprovida de professor regular. Funciona em espaço de aproximadamente 25m2, com problemas estruturais que não favorecem o aprendizado (goteiras, calor excessivo, falta de mobiliário adequado etc.). Parte da merenda e material escolar são fornecidos pela escola sede Cruzeiro de Céu.

       Tudo depende do serviço voluntário de duas mães, que se revezam no acompanhamento dos alunos e na preparação da merenda. A escola recebe, esporadicamente, a visita de professores da escola sede. As mães que dão suporte possuem escolaridade até o 5º ano, o que praticamente inviabiliza a aprendizagem dos alunos das séries posteriores.

       No entorno da comunidade residem aproximadamente 20 famílias com crianças e jovens em idade escolar, que não frequentam a escola por não haver disponibilidade de transporte até a sala de aula.

       A campanha deste ano está focada na estruturação da escola da comunidade, o que envolve: 1) construção de novo espaço para funcionamento (sala de aula, cozinha, refeitório e banheiros), incluindo toda a estruturação física; 2) contratação de dois professores e uma merendeira; 3) compra de material escolar; 4) compra de alimentos para complementação da merenda escolar; 4) viabilização do transporte escolar.

       Dado que a Associação de Moradores local ainda passa por um processo de reestruturação, a arrecadação das doações será realizada em conta bancária do Instituto Socioambiental de Viçosa (www.isavicosa.org), que desde 2012 mantém campanha permanente de assistência à comunidade. Um dos diretores, Pedro Christo Brandão, é meu sobrinho, casado com Tatiana, abaixo indicada.

       Sua doação, ainda que de R$ 1, pode ser feita através da conta bancária:

Caixa Econômica Federal
Agência 0164
Conta Poupança 103140-0 - Operação 013
Associação Instituto Socioambiental de Viçosa
CNPJ: 09.242.409/0001-99

       Se precisar de recibo ou alguma informação suplementar, entre em contato com: Tatiana Reis – tatirsbrandao@gmail.com ou +55-31- 988612313 (WhatsApp)

       Por favor, divulgue esta campanha nas redes sociais e entre seus familiares e amigos.

       Agradeço a sua solidariedade. Deus lhe pague.
 Meu abraço com amizade e paz


Frei Betto

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

ÉTICA E ESPIRITUALIDADE FACE AOS DESASTRES ECOLÓGICOS ATUAIS



por leonardo boff

As grandes chuvas com inundações desastrosas que afetaram muitas cidades do Brasil e paralelamente os incêndios fenomenais na Austrália, seguidos imediatamente de inesperadas inundações, constituem sinais inequívocos da Terra de que nela algumas mudanças importantes estão ocorrendo. É praticamente consenso de que estas mudanças para pior se devem à ação irresponsável dos seres humanos (a era do antropoceno) em sua relação para com a natureza e para com a totalidade do planeta Terra.
Os vários grupos de cientistas que sistematicamente acompanham o estado da Terra atestam que, de ano para ano, os principais itens que sustentam a vida (água, solos, ar puro, fertilidade, climas e outros) estão se deteriorando dia a dia. Quando isso vai parar? O dia da Sobrecarga da Terra (the Earth Overshoot Day) foi atingido no dia 29 de julho de 2019. Isto significa: até esta data foram consumidos todos os recursos naturais disponíveis. Agora a Terra entrou no vermelho e no cheque especial. Chegaremos até dezembro? Se teimarmos em manter o consumo atual, temos que aplicar violência contra a Terra forçando-a a dar o que já não tem ou não pode repor. Sua reação a esta violência se expressa pelo aquecimento global, pelas enchentes, pelas grandes nevascas, pela perda da biodiversidade, pela desertificação, pelo aumento do dióxido de carbono e do metano e pelo crescimento da violência social já que Terra e Humanidade constituem uma única entidade relacional.
Ou mudamos nossa relação para com a Terra viva e para com a natureza ou segundo S. Bauman,“engrossaremos o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.Desta vez não dispomos de uma Arca de Noé salvadora.
Não temos outra alternativa senão mudarmos.Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito mas não tudo: ela detém os ventos, segura as chuvas, limita o aumento dos oceanos? Não basta diminuir a dose e continuar com o mesmo veneno ou apenas limar os dentes do lobo. A mudança demanda atender a alguns dos seguintes marcos fundamentais.
Primeiro: uma visão espiritual do mundo. Isso não tem a ver com a religiosidade, mas com uma nova sensibilidade e um novo espírito de renúncia à uma relação violenta e meramente utilitarista da natureza. Há que se reconhecer que ela tem um valor em si mesmo, somos parte dela e que há de ser cuidada e respeitada como algo sagrado. Nisso consiste a nova sensibilidade e espiritualidade.
Segundo: resgatar o coração, o afeto, a empatia e a compaixão. Esta dimensão foi descurada em nome da objetividade da tecno-ciência. Mas nela se aninha o amor, a sensibilidade para com os outros, a ética dos valores e a dimensão espiritual. Porque não se dá lugar ao afeto e ao coração não há porquê respeitar a natureza e escutar as mensagens que ela nos está enviando com as enchentes e o aquecimento global. A tecno-ciência operou uma espécie de lobotomia nos seres humanos que já não sentem seus clamores. Imaginam ser a Terra um simples baú de recursos infinitos a serviço de um projeto de um enriquecimento infinito. Temos que mudar de paradigma: de uma sociedade industrialista que exaure a natureza para uma sociedade de conservação e cuidado de toda a vida.
Terceiro: tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução. Ou cuidamos do que restou da natureza e regeneramos o que temos devastado,como o MST que se propôs neste ano plantar um milhão de árvores nas áreas depredadas pelo agronegócio, ou então nosso tipo de sociedade terá dias contados. A precaução exige que não se coloquem atos nem se usem elementos cujas consequências não podemos controlar. Ademais, a filosofia antiga e moderna já viu que o cuidado é a pré-condição para que surja qualquer ser. É também o norteador antecipado de toda ação. Se a vida, também a nossa, não for cuidada, adoece e morre. A prevenção e o cuidado são decisivos no campo da nanotecnologia e da inteligência artificial autônoma. Esta, sem sabermos, pode tomar decisões e penetrar em arsenais nucleares e pôr fim à nossa civilização.
Quarto: o respeito a todo ser. Cada ser tem valor intrínseco e tem seu lugar no conjunto dos seres.Mesmo o menor deles revela algo do mistério do mundo e do Criador. O respeito impõe limites à voracidade de nosso sistema depredador e consumista. Quem melhor formulou uma ética do respeito foi o médico e pensador Albert Schweitzer (+1965). Ensinava: ética é a responsabilidade e o respeito ilimitado por tudo o que existe e vive. Esse respeito pelo outro nos obriga à tolerância,urgente no mundo e entre nós, sob o governo de extrema-direita que nutre desprezo aos negros, índígenas, quilombolas, LGBT e às mulheres.
Quinto: atitude de solidariedade e de cooperação. Esta é a lei básica do universo e dos processos orgânicos. Todas as energias e todos os seres cooperam uns com os outros para que se mantenha o equilíbrio dinâmico, se garanta a diversidade e todos possam co-evoluir. O propósito da evolução não é conceder a vitória ao mais adaptável mas permitir que cada ser, mesmo o mais frágil, possa expressar virtualidades que emergem daquela Energia de Fundo que tudo sustenta, da qual tudo saiu e para qual tudo volta. Hoje, devido à degradação geral das relações humanas e naturais devemos, como projeto de vida, ser conscientemente solidários e cooperativos. Caso contrário, não salvaremos a vida nem garantiremos um futuro promissor para a Humanidade. O sistema econômico e o mercado não se fundam na cooperação mas na competição, a mais desenfreada. Por isso criam tantas desigualdade a ponto de 1% da humanidade possuir o equivalente aos 99% restantes.
Sexto: fundamental é a responsabilidade coletiva. Ser responsável é dar-se conta das consequências de nossos atos. Hoje. construimos o princípio da auto-destruição. O ditame categórico é então: aja de forma tão responsável que as consequências de tua ação não sejam destrutivas para a vida e seu futuro e não ativem a auto-destruição.
Sétimo: colocar todos os esforços na consecução de uma bio-civilização centrada na vida e na Terra. O tempo das nações já passou. Agora é o tempo da construção e da salvaguarda do destino comum Terra e Humanidade. Sua realização não se fará sem pormos em ação os marcos acima elencados.
Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2019.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A FANTASIA SE FAZ REALIDADE





por Frei Betto

         O Carnaval é uma festa litúrgica, momento de transgressão da racionalidade e de efusão do espírito. Sua essência é imprimir realidade à fantasia, por mais paradoxal que pareça. No Carnaval o folião se desafoga, livra-se dos anjos e demônios que o habitam, migra para as múltiplas representações de sua personalidade condicionada, no resto do ano, pelos padrões culturais hegemônicos.
         Nessa festa o folião exibe o seu avesso e desmascara convenções sociais, quebra preconceitos e ridiculariza a empáfia dos que detêm o poder. É a ocasião de extravasar sentimentos e emoções reprimidos, trazer à tona a intimidade contida, inclusive se entrelaçar com estranhos que se tornam próximos pelo simples fato de endossarem o cordão, o bloco, a escola de samba.
         O ser humano não suporta ficar confinado na esfera da necessidade e cuidar apenas da administração da vida como fenômeno biológico: o trabalho em busca de salário; o aluguel; a mensalidade da escola dos filhos; as contas de luz e gás... É preciso emergir eventualmente para a esfera da gratuidade, na qual predominam o lúdico, o festivo, o litúrgico, território no qual a imaginação ou a fantasia assume supremacia sobre a razão e a moral se impõe sobre o moralismo.
         O que se busca no Carnaval? O espelho invertido, trafegar na contramão e deixar Momo se refestelar na alegria. Fazer com que os monstros que protagonizam dias e meses do ano permaneçam calados, recolhidos à sua insana tristeza. Aflorar o júbilo dessa gente sofrida e devolver-lhe a autoestima. Ainda que dure apenas três ou quatro dias, sejam dados vivas e aplausos à faxineira travestida de rainha; ao encanador, de sultão; ao gari, de oráculo divino.
         Festa com gosto de infinitude, tenha o Carnaval um ritmo tão alucinado que faça todos rodopiarem no carrossel da alegria embriagadora. Soem cuícas, tamborins e pandeiros, e exorcizem, de todos os foliões, essa letargia que o medo infunde naqueles que não acreditam que o presente se fará ausência no futuro promissor. Abram alas às alvíssaras!
         Vamos, neste Carnaval, arrancar as roupagens convencionais que nos impelem a ser o que não somos. Desfilar despidos de qualquer sinecura, sem os adornos que, ao longo do ano, nos inserem no bloco dos cínicos. Animados pelo samba-enredo, avancemos rumo à alucinação dos loucos repletos de razão, à subversão poética da palavra desassossegada, à lógica que supera os efeitos e ousa encarar as causas até elevá-las ao cume dos carros alegóricos.
         Não tergiversar nem fazer coro com os que insistem em acobertar o passado. No sambódromo, o ritmo da bateria haverá de ressuscitar todas as crianças assassinadas pelos monoglotas do discurso bélico: Ketellen, Ágatha, Kauê, Kauã, Kauan e Jenifer.
         A comissão de frente ostentará imensa faixa com o verbo AMAR, para que todos os foliões desaprendam a conjugar o verbo armar, pois um simples erre é capaz de desencadear, como pandemia, sementes amargas de rancor, raiva e ruindade.
         Vamos celebrar, neste Carnaval, a união de espíritos, a tolerância de convicções, o diálogo das religiões, e exaltar o direito à diferença, execrando os que insistem em desenterrar torturadores e nazistas para convidá-los à dança macabra da necrofilia ao som de tiros.
         Venha um Carnaval que celebre o Brasil e os brasileiros, essa gente sofrida que, o ano todo, percorre a espinhosa passarela da vida sonegada de direitos, condenada à pobretarização, à educação sucateada, à saúde enferma, ao saneamento restrito e ao emprego loteria.
         Desfilem todos ébrios de utopia e entranhados da convicção de que fantasias podem se fazer realidade, e a imaginação, poder. E ousem romper o cordão que teima em contê-los imolados na sacrílega noção de que o sofrimento merece ser naturalizado.
         A vida nos foi dada para desfilar soberba na cadência da letra efe – bastam-nos, como brasileiros, fé, futebol, feijão, farinha e o fogo inapagável dos direitos de cidadania. O suficiente para nos assegurar festa e fartura.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

®Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

POR UMA VIDA SILENCIOSA





por Kinno Cerqueira [1]


Gilberto Gil, numa de suas canções, anota uma declaração de profundo valor para a espiritualidade bíblica:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz

Vemos, nestas poucas linhas, intuição análoga àquela que perpassa os dois testamentos bíblicos, a saber: que a espiritualidade, para ser aprofundada, requer uma vida que não se esquive do silêncio.

O salmista, por exemplo, silencia a sua alma para acolher a salvação do Senhor: “Somente em Deus espera silenciosa a minha alma; dele vem a minha salvação” (Sl 62,1). E, noutro lugar, ainda escreve: “Ó minha alma, espera silenciosa somente em Deus, porque dele vem a minha esperança” (Sl 62,5).

Como um eco da tradição dos salmos, ouvimos dos lábios de Jesus de Nazaré o convite a que cultivemos uma espiritualidade nutrida pelas águas cristalinas que brotam do silêncio: “...quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá no segredo...” (Mt 6,6).

O silêncio, na experiência espiritual de Jesus, consistia numa maneira de pôr o coração à escuta dos apelos que Deus lhe fazia na vida cotidiana. Calava-se para ouvir a dor de Deus na dor dos pobres, doentes e desprezados (Mc 1,35-45). Seus momentos de silêncio o tornavam a cada dia mais sensível às dores do mundo, que também são as dores de Deus.

No quadro da espiritualidade bíblica, uma “vida silenciosa” consiste em nos calarmos para ouvir os gemidos de Deus nos gemidos dos pobres e desprezados, pois nestes Deus habita e espera ser servido.
  

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.