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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Helder Camara e a atualidade da sua profecia

 

Marcelo Barros


 

Quanto mais a situação social e política se apresenta complexa e difícil, mais a fé suscita manifestações da profecia para assegurar que o projeto divino é de transformar essa realidade. Nesse contexto, neste 07 de fevereiro, recordamos os 113 anos do nascimento do profeta Helder Camara no Ceará, enquanto no sul do Brasil, o povo celebra o martírio do cacique Sepé Tiaraju e a destruição da República Guarani pelos exércitos de Portugal e Espanha (1756).

Quem crê deve atuar para que esse mundo se transforme de acordo com o projeto divino de paz, justiça e comunhão com a Terra e a natureza. Até hoje, a profecia de Helder Camara nos convoca: "Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e com a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça. Esta é a tarefa de todos nós”.

Para crentes e não crentes, é urgente recordar quatro elementos desta profecia:

1 - Qualquer ser humano só pode ser verdadeiramente feliz no dia em que o mundo for um só e justo para todos. Desde que Dom Hélder peregrinou pelo mundo todo afirmando esta profecia da inclusão, o mundo piorou muito. As injustiças se agravaram, fazendo com que os países do norte triplicassem sua riqueza, enquanto o sul explorado e roubado afunda na fome e na miséria.

Os Estados Unidos e a Europa Ocidental erguem novos muros de discriminação e isolamento do mundo dos pobres. Dentro de nosso próprio país, a diferença entre pobres e ricos tem se agravado. É, então, urgente nos pronunciar sobre o grito que ele nos repete ainda hoje: "Nenhuma felicidade pode basear-se na infelicidade dos outros, porque ofenderia o sentido de justiça que diz respeito a todos".

2 – Cada vez mais soa atual o apelo de Helder Camara para nos constituirmos como "minorias abraâmicas" O mundo não mudará pela ação isolada de líderes esclarecidos e sim pelo empenho comunitário de grupos de resistência e de profecia que se consagrem a transformar o mundo a partir de uma profunda convicção de fé no ser humano e na vida. Estes grupos que não precisam ser multidões e podem mesmo ser minoritários na sociedade (Dom Hélder os chamava minorias abraâmicas) são fecundos fermentos de uma humanidade nova. Só neste caminho de humanização, tem sentido falar em fé cristã para as pessoas que querem crer e viver o Evangelho.

3 - O compromisso com a Paz e a não-violência A transformação do mundo começa pelo nosso compromisso com a Paz, através de um método de vida que elimine qualquer violência em nossa forma de ser e de agir. Dom Hélder vivia isso profundamente. Sempre conviveu com pessoas que discordavam de seu pensamento e nunca os agrediu ou se valeu do fato de ser arcebispo para removê-los de suas paróquias ou cargos eclesiais. Mas, sua opção pela não-violência não o levava a ser menos forte na defesa da justiça. Sempre apoiou e defendeu os lavradores sem-terra que continuam indefesos em sua caminhada e incompreendidos em sua causa. O cuidado com a Paz e a não-violência era também sua forma de viver as relações humanas na Igreja e no seu ministério de pastor. É preciso que, ao celebrar agora a sua memória, nos sintamos convocados/as de novo para este mutirão de esperança e solidariedade tão urgente no mundo.

Não pode ser coincidência que neste mesmo dia, recordemos a resistência do povo Guarani que, junto aos outros povos originários, depois de todo esse tempo, continua a recordar ao mundo a profecia da Terra sem Males. Estamos juntos nesse caminho.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Carta ao querido Dom Helder Camara

 Prof. Martinho Condini

Caro Dom,


As pessoas dizem que não é bom dar parabéns antes da data do aniversário, acho isso uma  bobagem, por isso, começo essa carta te parabenizando por mais um aniversário na próxima segunda feira, dia 7 de fevereiro.

Dom, o senhor não imagina quanta falta o senhor está fazendo por aqui. O nosso Brasil de 2015 para cá entrou num processo de degradação, ignorância, reacionarismo, negacionismo e corrupção. Tudo começou com o golpe de 2016 e a instauração do governo golpista.  Mas as coisas pioraram ainda mais a partir de 2019 com a posse do Capetão Cloroquina Bolsonarento para presidente da república. É! Aquele mesmo que o senhor com todo o seu otimismo e esperançar me dizia que não venceria as eleições em 2018. Pois é, venceu e deu no que deu. O Brasil está derretendo e à beira do caos político, econômico e social.

Dom, tudo que o senhor possa imaginar de ruim o desgoverno do  Bolsonarento está fazendo em  prejuízo dos brasileiros e da nação brasileira.

Dom, na economia a inflação no Brasil já chegou a mais de 10%, muita gente passando fome, depois do Brasil ter saído do mapa da fome nos governos petistas de Lula e Dilma.

Dom, a importância da questão ambiental que o senhor já mencionava em suas conferências internacionais nos anos 60 e 70, aqui no Brasil degringolou de vez. Esse desgoverno liberou a exploração de minérios em terras indígenas e queimadas na Amazônia para favorecer o agronegócio inescrupuloso.

Dom, o desemprego está assustador, somado a precarização do trabalho após a reforma trabalhista aprovada pelo congresso golpista.

Dom, neste desgoverno não há investimento em educação e tecnologia, muito pelo contrário, a cortes brutais nos investimentos desses setores e todos os outros que estão ligados a políticas públicas que possam ser benéficos as camadas populares.

Dom, o senhor não vai acreditar, no programa desse desgoverno para educação, eles falam em “expurgar Paulo Freire da educação brasileira”. Daí dá para perceber o alto nível de estupidez e burrice desse desgoverno e daqueles que estão no comando do ministério da educação, começando pelo ministro.

Dom, na área da saúde quem se salva são o SUS, ANVISA, Instituto Butantã e Osvaldo Cruz e todas e todos os trabalhadores dessa área. Se dependesse do ministério da saúde para combater a pandemia estaríamos perdidos, como estivemos durante um bom período.  O ministério da saúde levou quase um ano para comprar vacina, resultado, mais de seiscentos mil mortos pela pandemia. E apesar desse número de mortos o desgoverno bolsonarento e o seu gado continuam negando a eficácia das vacinas.

Dom, todo início de ano a ONU faz um relatório muito detalhado de previsão de crescimento econômico com 180 países. Para este ano de 2022, o Brasil tem a segunda pior previsão de crescimento, ficando à frente apenas da Guiné Equatorial. O senhor percebe o quanto é grave a nossa situação. Com todo respeito à sua fé e religiosidade, nem rezando isso tem jeito, estando nas mãos dessa cambada de incompetentes, não tem reza, oração, despachos que tire o nosso país dessa condição tão desfavorável e desesperadora.   

Dom, a última estupidez cometida (virão muitas outras até o final desse desgoverno) pelo Bolsonarento foi a revogação de aproximadamente vinte e cinco decretos de luto oficial editados por ex-presidentes, dentre eles estavam o senhor e Miguel Arraes.  Mas em menos de 48 horas o decreto foi revogado devido aos protestos contrários a essa medida.

Dom, essas são algumas aberrações desse desgoverno irresponsável apoiado pela elite conservadora canalha, pela classe média ignorante e sem vergonha, pelos eternos vagabundos profissionais das forças armadas, pela elite branca judaico-cristã capitalista e pelos coitados dos pobres de direita.  

Dom, o senhor que sempre dialogou com todas as religiões, não vai acreditar, um dos grupos que dão sustentação a esse desgoverno Bolsonarento, é a ala extremista do movimento evangélico que se denominam Terrivelmente Evangélicos. São a favor da liberação de armas de fogo para população, são negacionistas, homofóbicos, e o pior, constituem uma bancada no congresso nacional para apoiar as propostas reacionárias advindas do executivo desatinado de Brasília.

Dom, mas diante de tantas notícias ruins e estupidas desse desgoverno, temos um alento.

Este ano vamos ter eleições para a presidência da república, e o seu conterrâneo nordestino, o Lula, lidera as pesquisas eleitorais, inclusive apontam que ele possa vencer no primeiro turno e se tornar presidente pela terceira vez. O senhor lembra muito bem como foi o governo Lula, principalmente para os pequeninos, como o senhor costumava chamar os mais vulneráveis em nossa sociedade. Eu me lembro de uma fala sua no período na ditadura, onde o senhor dizia “as coisas estão ruins, mas vai melhorar”. Hoje também as coisas estão muito ruins por aqui, mas há possibilidade de sem medo de ser feliz, sermos feliz de novo.

Sabe Dom, eu fico imaginando se o senhor estivesse aqui para fazer suas análises de conjuntura sempre tão precisas e propositivas, na condição de principal liderança da igreja católica progressista. Hoje faltam lideranças progressistas na igreja do quilate do senhor. 

Dom, vou falar uma coisa que o senhor não irá concordar devido a sua humildade, mas é a pura verdade, o Papa Francisco, é o Dom Helder argentino, que atualmente abrilhanta as relações humanas com sua sabedoria e lucidez, como o senhor fazia quando andarilhava mundo a fora, claro que ele não tem o seu carisma, coragem e nordestinidade tão peculiar.

Dom, o senhor e Francisco caminham pela mesma estrada, da justiça, dos direitos humanos e da busca permanente pela dignidade de todos os seres humanos do planeta.

Dom, vou me despedindo, porque o senhor está ocupado preparando a sua festa de aniversário. Eu sei que o senhor gosta muito de festa de aniversário, principalmente quando o seu aniversário cai no carnaval (que não é o caso deste ano), para que ela seja regada pelo gostoso, alegre e belo frevo da sua querida Recife.

Tenho certeza que será uma festa maravilhosa, com a presença de amigas e amigos muito queridos, como Padre Henrique, Da. Zezita, Ir. Vania, José Comblin, José De Broucker, Dom Lamartine, Dom José Maria Pires, Dom Paulo Evaristo Arns, Frei Carlos Josaph, Dom Pedro Casaldáliga, Miguel Arraes, Paulo Freire e outros grandes companheiros e companheiras de luta e resistência.   

Caro Dom, sua presença entre nós será eterna. Felicidades. Abraço fraterno.

 

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

ECOCÍDIO & GENOCÍDIO

 

Frei Betto


 

       A política antiindigenista adotada pelo atual governo federal se baseia no tripé desconstitucionalização dos direitos; desterritorialização; e tentativa de integração dos indígenas à sociedade majoritária.

       Essa antipolítica inviabiliza os procedimentos de regularização fundiária dos territórios indígenas; não coíbe invasões, exploração ilegal dos recursos naturais, desmatamento (que, em 2021, ultrapassou 8 mil kmna Amazônia), queimadas, grilagem, loteamentos e arrendamentos de terras.

       De acordo com o CIMI, houve 263 casos de invasões, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio, registrados em 2020. Isso representa um número maior do que o de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, quando houve 256 registros.

       Há, por parte do governo federal, uma premeditada ação de extermínio. Enquanto isso, o STF faz vista grossa ao protelar a votação sobre o Marco Temporal, que asseguraria aos povos indígenas a defesa e os direitos previstos na Constituição de 1988, sem subterfúgios jurídicos que visam a restringir o alcance dos preceitos constitucionais.

       Ruralistas, madeireiros, mineradoras e garimpeiros se unem para legitimar a especulação criminosa dos recursos ambientais e legalizar o ecocídio e o genocídio que afetam as florestas e as nações indígenas.

       Enquanto isso, o presidente mente descaradamente. Afirmou, em Dubai, que a floresta amazônica está “exatamente igual quando o Brasil foi descoberto em 1500”. E que “mais de 90% daquela área estão preservados”. 

       Indígenas de três aldeias Munduruku no Pará estão sendo intoxicados por mercúrio que contamina os rios, devido ao garimpo. Segundo pesquisa da Fiocruz, mais de 200 indígenas têm mercúrio no organismo acima dos níveis tolerados pela OMS. Crianças Munduruku de 12 a 14 anos, que comiam peixes três vezes por semana, apresentam problemas de visão, tremores e perda de memória.

       O corpo humano não consegue eliminar o mercúrio quando o ingere através de animais e água contaminados. O metal tóxico causa malformação de bebês e doenças neurológicas, como demência, tonturas, tremores, problemas de audição e visão. O peixe deixou de ser uma alimentação segura na Amazônia. 

       Naquela vasta região, as maiores áreas de garimpo estão em terras Munduruku e Kayapó, no Pará, e Yanomami, no Amazonas e em Roraima. Entre 2010 e 2020, segundo o InfoAmazônia, a atividade garimpeira cresceu 495% em terras indígenas e 301% em parques nacionais e outras unidades de conservação da maior floresta tropical do mundo. 

       Segundo Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace Brasil, “infelizmente, em relação aos alertas de desmatamento, o novo ano (2022) começa como foram os últimos três. A destruição da Amazônia  e outros ecossistemas naturais não só não é combatida pelo governo, como impulsionada por atos, omissões e conluios com os setores mais retrógrados da nossa sociedade, que priorizam o lucro e a economia da destruição, agravando cada vez mais a crise climática em que vivemos na atualidade.”

       Os movimentos sociais, os partidos progressistas e os candidatos de 2022 não podem ignorar a devastação de nossas florestas (ecocídio) e o extermínio dos povos indígenas (genocídio). Eles não representam um número significativo de eleitores, mas são os únicos capazes de assegurar às gerações futuras um planeta habitável, sustentável, no qual haja harmonia entre a natureza e os seres humanos, que são também filhos e filhas da Mãe Terra.

       Para o professor José Ribamar Bessa Freire, coordenador, na UERJ, do Programa de Estudos dos Povos Indígenas, precisamos extirpar de nossas cabeças cinco equívocos em relação aos povos originários:

       “Primeiro equívoco: o indígena genérico. Hoje, vivem no Brasil, mais de 200 etnias, falando 188 línguas diferentes. Cada povo tem sua língua, sua religião, sua arte, sua ciência, sua dinâmica histórica própria, diferentes de um povo para outro. Por essa razão, o padre Antônio Vieira denominou o rio Amazonas de “rio Babel”. 

       “Segundo equívoco: considerar as culturas indígenas atrasadas e primitivas. Elas produzem saberes, ciências, arte refinada, literatura, poesia, música, religião. Suas culturas não são atrasadas, como durante muito tempo pensaram os colonizadores e ainda pensa muita gente ignorante. As línguas indígenas, por exemplo, foram consideradas pelo colonizador, equivocadamente,  “inferiores”, “pobres”, “atrasadas”. Ora, os linguistas sustentam que qualquer língua é capaz de expressar qualquer ideia, pensamento, sentimento e, portanto, não existe uma língua melhor que a outra, nem língua inferior ou mais pobre que outra.” 

       “As religiões indígenas também foram consideradas, no passado, pelo catolicismo colonizador um conjunto de superstições, o que é uma estupidez. Basta entrar em contato com as formas de expressão religiosa de qualquer grupo indígena, para verificar que essa visão é etnocêntrica e preconceituosa. Os Guarani foram classificados, por alguns estudiosos, como “os teólogos da América”, devido à sua profunda religiosidade desta nação indígena, que se manifesta em todo momento, no cotidiano, penetrando nas diversas esferas da vida. Em qualquer aldeia Guarani, a maior construção é sempre a Opy - a Casa de Reza. Nas atuais aldeias do Rio de Janeiro, a reza ou porahêi é feita diariamente, todas as noites, durante os 365 dias do ano, de forma comunitária, contando com a participação de quase toda a aldeia. Começa por volta das 19 horas e vai até meia-noite, podendo algumas vezes estender-se até de manhã. O cacique toca maracá e dirige as rezas, acompanhadas de cantos e danças. Não conheço nenhum grupo da população brasileira que reze mais do que os Guarani. Acho que eles rezam mais do que todos os bispos reunidos numa assembleia geral da CNBB.” 

       “Um desses erros foi percebido no início de 1985, durante o sério acidente sofrido pela usina nuclear de Angra dos Reis, construída num lugar que os índios Tupinambá haviam denominado de Itaorna e que, até hoje, é conhecido por este nome. Nesta área, na década de 1970, a ditadura militar começou a construir a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. Os engenheiros responsáveis pela construção não sabiam que o nome dado pelos indígenas podia conter informação sobre a estrutura do solo, minado por águas pluviais, que provocavam deslizamentos de terra das encostas da Serra do Mar. Só descobriram que Itaorna quer dizer “pedra podre”, em fevereiro de 1985, quando fortes chuvas destruíram o Laboratório de Radioecologia que mede a contaminação do ar na região. O prejuízo, calculado na época em bilhões, talvez pudesse ter sido evitado se não fôssemos tão burros e preconceituosos.” 

       “O terceiro equívoco é o congelamento das culturas indígenas. Enfiaram na cabeça da maioria dos brasileiros uma imagem de como deve ser o indígena: nu ou de tanga, no meio da floresta, de arco e flecha, tal como foi descrito por Pero Vaz de Caminha. E essa imagem foi congelada. Qualquer mudança nela provoca estranhamento. Quando o indígena  não se enquadra nessa imagem, vem logo a reação: “Ah! Não é mais índio”. Na cabeça dessas pessoas, o “índio autêntico” é o do papel da carta do Caminha, não o de carne e osso que convive conosco, que está hoje no meio de nós. O governador Gilberto Mestrinho, por exemplo, para impedir a demarcação das terras indígenas, veio com esse papo mole, que reforça preconceitos. Ele disse: “esses aí não são mais índios, já estão de calça e camisa, já estão usando óculos e relógios, já estão falando português, não são mais índios”. Ele criou uma nova categoria, desconhecida pela etnologia: os ex-índios. Se essa lógica funciona, fico me perguntando se o Mestrinho não é, então, um ex-brasileiro, porque o cotidiano dele está marcado por elementos tomados emprestados de outras culturas. Aliás, isso acontece com todos nós. Você, por exemplo, está vestido com jeans, e muita gente usa um tipo de roupa que não foi inventada por nenhum brasileiro. O computador não é brasileiro, o telefone não é brasileiro, enfim toda essa parafernália que a gente usa – milhares de itens culturais presentes no nosso cotidiano - não tem suas raízes em solo brasileiro. Então, o brasileiro pode usar coisas produzidas por outros povos - computador, telefone, televisão, relógio, rádio, aparelho de som, luz elétrica, água encanada - e nem por isso deixa de ser brasileiro. Mas o índio, se desejar fazer o mesmo, deixa de ser índio?” 

       “O quarto equívoco consiste em achar que os indígenas fazem parte apenas do passado do Brasil. Num texto de 1997 sobre a biodiversidade, vista do ponto de vista de um indígena, Jorge Terena escreveu que uma das consequências mais graves do colonialismo foi justamente taxar de “primitivas” as culturas indígenas, considerando-as como obstáculo à modernidade e ao progresso.” 

       “Por último, o quinto equívoco é o brasileiro não considerar a existência do índio na formação de sua identidade. Há 500 anos não existia no planeta Terra um povo com o nome de povo brasileiro. Esse povo é novo, foi formado nos últimos cinco séculos com a contribuição, entre outras, de três grandes matrizes: 1. As europeias, assim no plural, representadas basicamente pelos portugueses, mas também pelos espanhóis, italianos, alemães, poloneses etc.; 2. As africanas, também no plural, da qual participaram diferentes povos como os sudaneses, yorubás, nagôs, gegês, ewes, haussá, bantos e tantos outros; 3. Finalmente, as indígenas, formadas por povos de variadas famílias linguísticas como o tupi, o karib, o aruak, o jê, o tukano e muitos outros. Depois, as migrações de outros povos como os japoneses, os sírio-libaneses, os turcos, vieram diversificar e engrandecer ainda mais a nossa cultura. No entanto, como os europeus dominaram política e militarmente os demais povos, a tendência do brasileiro, hoje, é se identificar apenas com o vencedor – a matriz europeia –, ignorando as culturas africanas e indígenas. O indígena, no entanto, não foi “’eliminado” nem “assimilado”. Suas culturas se modificaram da mesma forma que a brasileira, a portuguesa ou qualquer outra cultura. No entanto, hoje, além de mais de 220 povos viverem falando suas línguas, mantendo organizações sociopolíticas próprias, o indígena  permanece vivo dentro de cada um de nós, mesmo que a gente não saiba disso.” 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Uala, o amor” (infantojuvenil sobre indígenas e meio ambiente), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Se Deus é de direita ou de esquerda

 

Marcelo Barros


 

Por vários motivos, no Brasil, esse assunto parece ser dos mais atuais e importantes. Antes de tudo, porque, há várias eleições, não poucos bispos e pastores pentecostais e evangélicos, assim como também alguns padres e bispos católicos, fazem de tudo para mostrar que Deus aceitou ser cabo eleitoral dos candidatos que eles, pastores, defendem. Além disso, querem desmoralizar e demonizar os seus adversários aos quais, indiscriminadamente, denominam como sendo de esquerda, sem se preocupar em saber o que isso possa significar. Não basta terem muito mais dinheiro do que os outros e contarem com o apoio de grandes meios de comunicação. Procuram desviar a discussão dos problemas do país e trazer para o centro das campanhas eleitorais o projeto de manutenção da moral sexual e dos padrões da família brasileira.

Recentemente, no domingo, 23 de janeiro último, Renato Cardoso, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, espalhou à imprensa uma declaração na qual afirma que “cristão de verdade não pode, nem deve compactuar com ideias esquerdistas” e explica: “A esquerda prega contra o casamento convencional e destrói a rede familiar para salvar o povo, usando assistencialismo manipulador” (Cf. Carta Capital, 24/01. 2022).

Qualquer pessoa medianamente informada e com o mínimo de senso crítico percebe que esses ministros religiosos falam de Deus e da fé, como se fossem proprietários da marca Deus. Como se Deus tivesse assinado contrato de exclusividade com eles e os seus grupos.

Para todas as religiões, Deus é Mistério e, como afirmava o Mestre Eckhart, místico medieval: “tudo o que se disser dele, revela mais da pessoa que fala aquilo do que, propriamente, de Deus”. No Budismo, não se fala em Deus. Nas tradições de matriz africana e de povos originários, os cultos e expressões de piedade se fazem às manifestações divinas na natureza.

De acordo com a Bíblia, a primeira recomendação divina no Sinai foi nunca pretender usar o nome de Deus. Um documento cristão do primeiro século afirma que “muitas vezes e de vários modos, Deus nos fala pelos profetas e profetizas, assim como fala, particularmente, por Jesus” (Hb 1, 1). No entanto, nunca os profetas, nem Jesus, se comportaram como donos de Deus. Para receber sua Palavra, tiveram de, em primeiro lugar, receber essa Palavra para si mesmos e viver aquilo que deveriam transmitir aos outros.

Por toda a Bíblia, do início ao final, há uma pergunta que precisa sempre ser respondida: como se sabe se a profecia que é falada vem mesmo de Deus. Para essa pergunta, o apóstolo Paulo propõe dois critérios: 1º - confessar Jesus como Senhor. (É Jesus e não a Igreja).  2º - verificar se aquilo que fala serve para edificar (construir) a comunhão da comunidade (1 Cor 12). As falas que são para semear divisão, jogar pessoas umas contra as outras e criar uma cultura de fake-news só podem vir de falsos profetas.

Construir a comunidade é continuar a ação de Jesus que, conforme os evangelhos, “passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10). Não anunciou a si mesmo e sim testemunhou o projeto de amor e justiça que Deus tem para o mundo (o reinado divino). Assim sendo, quando vocês virem pastores pentecostais ou bispos e padres católicos, compactuando com governante genocida ou com juiz venal e desonesto, saibam que esses ministros religiosos são impostores e merecem o que deles afirmava o cineasta Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas esses amigos dele, eu não recomendo a ninguém”.