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quinta-feira, 20 de abril de 2017

PAIXÃO RESSUSCITADA



por Frei Betto

          Sexta-feira da Paixão. Frei Nicolau, pároco da igreja de São Domingos, na capital paulista, pediu-me para encontrar um Cristo sofrido para a procissão do Senhor morto. No templo, o clima litúrgico, com as imagens cobertas de roxo, recordava a prisão, a tortura e a morte de Jesus.

          Fui ao Bexiga atrás do Paco, cenógrafo que trouxera da Espanha a mania de colecionar Cristos. Mostrou-me sua coleção, na qual se destacavam um Cristo lavrador do Vale de Jequitinhonha, com o ventre oco, crucificado nas próprias enxadas; um Cristo peruano com cara indígena, todo retorcido, a cabeça avançada, como que prestes a se desprender do tronco; e um Cristo guatemalteco, amarrado no poste de tortura, tendo sobre a cabeça um capuz por baixo da coroa de espinhos. Emprestou-me os três para que frei Nicolau escolhesse.

          Na volta, parei no Largo do Arouche para comprar flores. Dia seguinte, o altar da igreja deveria ser enfeitado para a noite do sábado de Aleluia. De repente, uma mulher em trajes sumários, descabelada, olhos a brilhar de ódio, invadiu uma das barracas e, com uma jarra nas mãos, começou a derrubar tudo e a xingar o florista. Foi a única vez que vi uma briga de casal sob chuva de pétalas... 

          O homem, acuado, começou a gritar que ela era louca. Três ou quatro fregueses acorremos a segurá-la. Ao conseguir, senti algo quente e pastoso correr pelo meu braço direito. Ela tinha cortado as mãos com a jarra. Acalmada, aceitou que eu a levasse até o Hospital das Clínicas para que fosse medicada.

          ― O que houve com a senhora? – indaguei no caminho.

          ― Frei, ele me largou – disse vacilante, exalando forte cheiro de álcool. – É meu homem, mas agora anda com uma piranha.

          Padres e pastores são como médicos, ainda que não tenham tido a doença devem prescrever algum remédio aos males da alma. Procurei explicar que ela deveria buscar outros métodos para reconquistá-lo. A agressão e a ofensa não eram os mais indicados. Quem sabe ele logo cairia em si e se daria conta da importância de trocar a aventura pelo verdadeiro amor.

          A mulher contou que trabalhava em um restaurante próximo à Praça da República, onde lavava copos, pratos e talheres. Viera da Bahia. O florista era de Minas. Os dois se conheciam há cinco anos. Eles se lavavam no restaurante, comiam o que sobrava das travessas retornadas das mesas e, à noite, dormiam na barraca, cercados de rosas, margaridas, cravos, hortênsias e bicos-de-papagaio.

          ― Prefiro morrer, padre, a viver sem ele.

          Falei do amor, de Deus, da esperança. Por mais que tentasse fugir do discurso convencional, eu sabia que, nas águas da emoção, não se pesca com a rede da razão. Um coração machucado só conhece dois remédios: o amor, que cura e transfigura; ou o tempo, que cauteriza.

          No pronto-socorro do Hospital das Clínicas, ela foi logo atendida. Na saída, me pediu que a deixasse junto ao cemitério do Araçá.

          ― Algum parente enterrado lá? – perguntei.

          ― Não; vou comprar uma flor ali na porta e levar para o meu homem.

          O gesto, que a princípio me pareceu redundante, como oferecer pão ao padeiro, logo me fez entender que, no amor, a atitude fala muito mais alto do que a própria oferenda.

          De volta à igreja de São Domingos, frei Nicolau veio correndo ver os Cristos que eu havia conseguido.

          ― Por que demorou tanto? - perguntou ele.

          ― Porque eu estava acompanhando uma outra paixão. E ela tem nome: Maria das Graças.

          No Domingo de Páscoa, retornei ao Largo do Arouche com uma caixa de chocolates. Das Graças e Antônio, sorridentes, atendiam os fregueses na barraca de flores. 

          ― Olá Maria, olá amigo, então vocês ressuscitaram?

          Ela me reconheceu:

          ― Frei, acho que é isso mesmo o que aconteceu. A gente ressuscitou. O Antônio largou da piranha. 

          ― Agora é pra sempre – disse ele. E acrescentou com um toque de ironia: ― O amor é eterno enquanto dura.

          Corrigi-o:

          ― O amor dura enquanto é terno – e frisei a distinção entre o verbo e o adjetivo.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.


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terça-feira, 18 de abril de 2017

DO CONFRONTO À COMUNHÃO


Por Marcelo Barros



Passar do confronto à comunhão é a proposta-título do documento preparado por uma comissão de católicos e luteranos para celebrar os 500 anos da Reforma. Segundo a tradição, em outubro de 1517, o monge Martinho Lutero pregou suas teses na porta de uma igreja da Alemanha e começou o movimento que culminou com a fundação das Igrejas protestantes. Agora, ao celebrar os 500 anos desse acontecimento, católicos e evangélicos procuram compreender suas consequências históricas. Dialogam sobre os pontos sobre os quais não existe mais divisão e outros elementos sobre os quais ainda há muito a trabalhar.

Há alguns dias, pela primeira vez na história, o papa Francisco reuniu no Vaticano estudiosos da História, católicos e evangélicos para estudar a Reforma. O encontro abordava a história da Reforma e também a sua herança atual para todos os cristãos. No final de semana seguinte (07 a 09 de abril), em Campina Grande, diversas instituições promoveram um encontro ecumênico com a mesma finalidade: ver juntos a realidade e descobrir 500 anos depois da reforma, o que nos une e também o que ainda nos separa.

Atualmente, vivemos tempos radicalmente diferentes da época em que Lutero denunciou os abusos do clero e do papado. Hoje ainda, alguns setores da instituição eclesiástica escondem erros e pecados. No entanto, não se podem mais justificá-los com a autoridade divina. A Igreja Católica não legitima esses erros com doutrinas alheias ao evangelho, nem persegue as pessoas que os denunciam. Além desses fatores religiosos, a reforma de Lutero teve condicionantes culturais importantes. Desde o século XIV, o Renascimento dava aos intelectuais uma autoridade na leitura dos textos antigos como nunca havia ocorrido antes. E, no plano político, a soberania do papa e o poder do Imperador Carlos V começavam a ser postos em questão pelos príncipes alemães. Esses encontraram em Lutero uma boa razão para invocar a independência de Roma.

Com o Concílio Vaticano II que, de 1962 a 1965, reuniu em Roma todos os bispos católicos para levar adiante a renovação da Igreja, a Igreja Católica aderiu ao movimento pela unidade dos cristãos. O papa Paulo VI pediu perdão aos irmãos de outras Igrejas pela parte de culpa que a Igreja Católica teve na divisão. E o Concílio reconheceu como verdadeiros muitos pontos defendidos por Lutero no século XVI e que na época foram condenados pelos papas. Até os anos 60, só os protestantes tinham contato direto com a Bíblia. Hoje, no mundo inteiro, tanto na Igreja Católica, como nas Igrejas evangélicas, o movimento mais importante é a renovação dos estudos bíblicos que atingem todos os fieis e já não distinguem se os estudiosos são dessa ou daquela confissão. Desde então, a prioridade da Bíblia como única fonte de fé, o reconhecimento do sacerdócio real de todas as pessoas batizadas e a convicção de que Jesus Cristo é o único salvador são pontos da fé cristã defendidos por todas as Igrejas. No entanto, no plano institucional, elas continuam separadas. Em 1999, a Igreja Católica Romana e a Federação Luterana Mundial assinaram um acordo sobre a Justificação pela Fé, principal ponto que dividia as Igrejas.  Alguém podia pensar que não havendo mais nenhum motivo profundo de divisão, as Igrejas pudessem ter encontrado sua unidade. Isso não ocorreu e ninguém nega que ainda existem elementos que mantêm a divisão.


No Vaticano, desde o começo do seu ministério como bispo de Roma, o papa Francisco gosta de insistir em um princípio medieval que Lutero retomou em seu tempo: A Igreja Cristã deve se reformar permanentemente. Assim, a comemoração dos 500 anos da reforma de Lutero terá um efeito mais atual se todas as Igrejas se derem conta de que, hoje, precisam urgentemente de outra reforma. Não se trata de romper com a tradição. O objetivo é expressar a proposta do evangelho em termos atuais, de modo que as novas gerações possam compreender e amar. Afinal, os cristãos creem em um Deus, cuja última palavra na Bíblia foi: "Faço novas todas as coisas" (Ap 21, 5- 7).  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O MISTÉRIO PASCAL: SENTIDO DA VIDA HUMANA




    Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Eis-nos novamente prestes a celebrar o mistério maior do cristianismo: a Páscoa do Senhor.  O tríduo pascal começará após a ceia onde o Filho será entregue por alguém mais próximo de seu grupo de discípulos.  Em seguida, seremos convidados a contemplar sua dor quando é julgado, condenado e depois torturado, escarnecido, crucificado para, finalmente, morrer no suplício reservado aos marginais e bandidos, fora das portas da cidade.

            Depois disso, porém, viveremos um hiato, um tempo feito de ausência e silêncio que desembocará então na celebração da Ressurreição daquele que foi crucificado e morto. Trata-se de uma festa de alegria, de vitória, de vida em plenitude. A liturgia é permeada de aleluias e cânticos de louvor, aclamando o Crucificado que venceu a morte e nos deu nova vida.

            Mas a alegria da Ressurreição tem um preço e um custo. Trata-se da vitória de um Crucificado sobre uma morte cruel e violenta, na qual Deus diz ao mundo que o amor vence a morte. De que amor se trata? Não certamente do que os gregos entendiam por philia, amizade entre iguais, prazerosa e simétrica. O amor que levou Jesus à Cruz foi ágape feita de entrega e saída de si, de serviço desinteressado e generoso aos outros; assumiu a perseguição e a rejeição no próprio corpo e na própria vida até perder a vida para que outros possam tê-la. 

Os primeiros cristãos, após o deslumbramento da experiência de verem vivo aquele que haviam contemplado morto, começaram imediatamente a narrar a Paixão do Crucificado. Com isso pretendiam penetrar um pouco mais naquele mistério aparentemente incompreensível de como o amor desemboca na dor mais profunda de que se tem notícia na história da humanidade, para terminar com uma vitória que não apaga o que foi sofrido e doído, mas o transfigura em missão e anúncio jubiloso. O seguimento de Jesus de Nazaré, reconhecido como o Senhor Exaltado, Cristo de Deus, foi sendo sempre mais entendido como uma experiência de paz e de alegria, mas da qual a dor não está ausente.

O mistério da Paixão, que tem como final não o túmulo e o nada, mas a ressurreição, vida nova e pujante, é o que a Igreja celebra neste tempo litúrgico. Em todos os significados, paixão é compatível com excesso, superabundância, seja de sentimentos, gosto, desgosto ou sofrimento. Não entra na zona dos meios termos, dos tons de cinza, a paixão. 

Estar apaixonado é necessariamente estar possuído, repleto, invadido por um excesso de sentimento ou subjugado por um excesso de dor e sofrimento, ou cego por uma superabundância de rancor. É este excesso que se oferece à nossa contemplação nesta Semana que se inicia e que o calendário chama Semana Santa. Infelizmente converteu-se em mais um feriado. E, geralmente, sobra pouco espaço para se viver, experimentar, celebrar a grande protagonista desse evento: a paixão. 

Pois o Mistério Pascal nada mais é do que mistério de Paixão. Paixão de Jesus por Deus que é seu Pai e cujo desejo é preciso acima de tudo realizar. Ainda que doa, que custe, que mate. Paixão de Jesus - o filho do carpinteiro, o filho de Maria, que ia à Sinagoga e conhecia a Lei - pelo projeto do Reino de Deus. Projeto que exigia dedicação integral, que implicava anunciar uma Boa Notícia a tempo e a contratempo por cima dos telhados. Projeto de inclusão que chamava à mesa para a refeição os excluídos de toda espécie: doentes, leprosos, fariseus, publicanos, mulheres, crianças, prostitutas, ladrões. 

Se algo se pode dizer de Jesus é que era um apaixonado. A paixão era o motor de sua vida e sua história, o impulso de sua atuação, a inspiração de suas palavras. Sob a força da paixão curou doentes e endemoniados, e ressuscitou mortos. Por ela impulsionado, acolheu os gestos de amor da prostituta no banquete, do publicano que lhe oferecia hospedagem, do leproso que se apresentava para ser tocado, da samaritana que lhe dava de beber e lhe fazia perguntas. 

E ainda obedecendo à dupla paixão pelo Pai e pelo Reino enrijeceu o rosto e começou a caminhar para Jerusalém, seguido por apavorados e duvidosos discípulos que nada entendiam e cujo coração tardava em arder. Chegando à cidade onde haviam morrido tantos profetas, chorou. Derramou lágrimas de apaixonada compaixão que nada tinha de autocomiseração pelo destino que o aguardava. Mas sim de visceral dor por não haver conseguido reunir em seu misericordioso regaço os filhos de Sião que tanto amava.

 E ali a Paixão de Jesus – pelo Pai, pelo Reino, por aqueles e aquelas que o Pai lhe dera – vai se converter no grande ritual, na grande liturgia da agonia e da morte, que terminará no Gólgota, na hora nona, trazendo as trevas sobre a terra. E ali, aos que o seguiram – e aos que com medo fugiram – será proposta uma nova chave de leitura para a Paixão. O convite é abrir o coração e a vida, para que a Paixão de Jesus se transforme em Paixão por Jesus. 

Viver a Semana Santa, portanto, é ouvir o convite para apaixonar-se. Nada tem de morbidez ou masoquismo tenebroso. Trata-se de um caminho luminoso esse que se descortina no Mistério Pascal.  Luminoso porque é caminho de vida. Apesar da dor, apesar do sofrimento, apesar da morte que ninguém queria... é o caminho do amor. Pois sabemos o fundo mais profundo: se não tivermos algo pelo qual estamos dispostos a morrer... valerá a pena viver? Terá sentido uma vida que se resume à magra moral, raquíticos prazeres, insípida segurança, solitárias sensações? A Paixão de Jesus ensina que viver apaixonado é a única maneira de viver em plenitude.

O teólogo suíço Hans Urs von Balthasar diz que “...Deus expõe à vista humana seu ser mais profundo no sofrimento; um sofrimento que, além de tudo, assume livremente uma culpa alheia, enquanto o resto dos caminhos que conduzem o ser humano a Deus são caminhos de superação da dor, de busca da “vida bem-aventurada”, do desejo de nunca mais ver-se exposto à contingencia e à tribulação. “ 

A alegria pascal que se segue ao sofrimento da Cruz é real e verdadeira. Mas só acontece se não há uma recusa ou uma negação da dor e da morte. Sobretudo da dor e da morte que abatem e oprimem os irmãos. Aquele que segue a Cristo Ressuscitado já não vive para si, mas para Ele. E por Ele é chamado a consolar os tristes e aflitos, a atender os pobres, os órfãos e as viúvas, a alimentar os famintos e vestir os nus. Se buscar a alegria eludindo essas situações negativas que clamam por presença e auxílio, o que encontrará será o vazio de um gozo efêmero e oco, que logo se esvairá entre seus dedos como água. 

A alegria pascal que celebraremos no domingo deve recordar-nos que seguimos um apaixonado que foi condenado à morte, crucificado pelos que odiavam a verdade e eram aferrados a seus privilégios. Nesse seguimento, alguma proporção de responsabilidade participativa nas dores e sofrimentos dos irmãos nos está certamente reservada. Assumi-la com confiança é o que nos cabe. Assim como esperar e acreditar que o Pai pronunciará sobre nossa vida a palavra definitiva da vida que não morre. Enquanto o Espírito derramará em nossos corações a alegria imorredoura que jorrou na noite luminosa em que o Messias venceu a morte e se manifestou vivo e glorioso aos seus.
   
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

OS CRUCIFICADOS DE HOJE E O CRUCIFICADO DE ONTEM


por Leonardo Boff



 Hoje  a maioria da humanidade vive crucificada pela miséria, pela fome, pela escassez de água potável e pelo desemprego. Crucificada está também a natureza devastada pela cobiça industrialista que se recusa a  aceitar limites. Crucificada está a Mãe Terra, exaurida a ponto de ter perdido seu equilíbrio interno que se mostra pelo aquecimento global.
Um olhar religioso e cristão vê o próprio Cristo presente em todos estes crucificados. Pelo fato de ter assumido totalmente nossa realidade humana e cósmica, ele sofre com todos os sofredores. A floresta que é derrubada pela motosserra significa golpes em seu corpo. Nos ecossistemas dizimados e pelas águas poluídas, ele continua sangrando. A encarnação do Filho de Deus estabeleceu uma misteriosa solidariedade de vida e de destino com tudo o que ele assumiu, nossa inteira humanidade, a natureza e tudo o que ela pressupõe em sua base físico-química e ecológica.
O evangelho mais antigo, o de São Marcos, narra com palavras terríveis a morte de Jesus. Abandonado por todos, no alto da cruz, se sente também abandonado pelo Pai de bondade e de misericórdia. Jesus grita:
Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?  E dando um forte brado, Jesus expirou (Mc 15,34.37).
Jesus morreu não porque todos nós morremos. Ele morreu assassinado sob a forma mais humilhante da época: a pregação na cruz. Pendendo entre o céu e a terra, durante três horas agonizou na cruz.
A recusa humana pode decretar a crucificação de Jesus; mas ela não pode definir o sentido que ele  conferiu à crucificação imposta. O crucificado definiu o sentido de sua crucificação como solidariedade para com todos os crucificados da história que, como ele, foram e serão vítimas da violência, das relações sociais injustas, do ódio, da humilhação dos pequenos e do rechaço à proposta de um Reino de justiça, de irmandade, de compaixão e de amor incondicional.
Apesar de sua entrega solidária aos  aos outros e a seu Pai, uma terrível e última tentação invadiu seu espírito. O grande embate de Jesus agora que agoniza é com seu Pai.
O Pai que ele experimentou com profunda intimidade filial, o Pai que ele havia anunciado, como “Paizinho”(Abba), misericordioso e cheio de bondade, Pai com traços de de mãe carinhosa, o Pai cujo Reino ele proclamara e antecipara em sua práxis libertadora, este Pai agora parece tê-lo abandonado. Jesus passa pelo inferno da ausência de Deus.
Por volta das três horas da tarde, minutos antes do desenlace final, Jesus gritou com voz forte: “Elói, Elói, lamá sabachtani: Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste”? Jesus está às raias da desesperança. Do vazio mais abissal de seu espírito, irrompem interrogações aterradoras que configuram a mais apavorante tentação sofrida pelos seres humanos e agora por Jesus, a tentação do desespero. Ele se interroga:
“Será que não foi absurda a minha fidelidade? Sem sentido a luta sustentada por causa dos oprimidos e por  Deus? Não teriam sido vãos os riscos que corri, as perseguições que suportei, o aviltante processo jurídico-religioso a que fui submetido com a sentença capital: a crucificação que estou sofrendo?”
Jesus encontrou-se nu, impotente, totalmente vazio diante de Deus- Pai que se cala e com isso revela  todo o seu Mistério. Jesus não tem mais ninguém a quem se agarrar.
Pelos critérios humanos, ele fracassou completamente. A própria certeza interior se lhe esvai. Apesar de o sol ter tramontado de seu horizonte, Jesus continua a confiar em Deus. Por isso grita com voz forte: “Meu Deus, meu Deus!”. No auge do desespero, Jesus se entrega ao Mistério verdadeiramente sem nome. Ele lhe será a única esperança para além de qualquer desesperança humana. Não possui mais nenhum apoio em si mesmo, somente em Deus que se escondeu. A absoluta esperança de Jesus só é compreensível no pressuposto de seu absoluto desespero. Mas onde abundou a desesperança, superabundou a esperança.
A grandeza de Jesus consistiu em suportar e vencer esta assustadora tentação. Esta tentação lhe propiciou uma entrega total a Deus, uma solidariedade irrestrita a seus irmãos e irmãs também desesperados e crucificados ao largo da história, um total desnudamento de si mesmo, uma absoluta descentração de si em função dos outros. Só assim a morte é verdadeiramente real e  completa: a entrega sem resto a Deus e aos seus filhos e filhas sofredores, seus irmãos e irmãs menores.
As últimas palavras de Jesus mostram esta sua entrega, não resignada e fatal, mas livre: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). “Tudo está consumado” (Jo 19,30)!
A sexta-feira santa continua, mas não é o ultimo capítiulo da história. A ressurreição, como irrupção do ser novo é a grande resposta do Pai e a promessa para  nós. Ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs que somos todos nós.
 Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu:”A vida sacra para quem quer viver,, Vozes 2012.