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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SOMOS TODOS PÓS-VERDADE?



 Frei Betto

       A resposta é sim, se comungamos essa angústia, esse sentimento de frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags; a chinesa, em capitalismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita? 

       Quem diria que a especulação superaria a produção, e o valor intrínseco de um ser humano se deslocaria para os bens que possui (e seu valor não é reconhecido se não possui bens)? Quem diria que tantas pessoas haveriam de erigir o mercado como um deus ao qual prestam culto, e cuja mão invisível seria capaz de regular o progresso das nações sob a égide da economia? 

       Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da informatização, da robótica, a googletização da cultura, a celularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.

       Na pós-verdade, o sistemático cede lugar ao displicente; o articulado ao disforme; a teoria à conjectura. A razão delira e fantasiada de cínica baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Como proclamou Nietzsche, já “não há fatos, apenas versões.”

       Nesse mar revolto, muitos se apegam às “irracionalidades” do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia servil à Casa Branca, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas. 

       Já não se buscam grandes narrativas, paradigmas históricos, valores universais. Agora sopra o vento da “servidão voluntária”, na expressão La Boétie, e muitos se ajoelham aos avatares, convencidos de que a lei da força deve predominar sobre a força da lei.
       Para a pós-verdade, a história findou, e resta nos adequarmos ao tempo cíclico. O lazer, agora, se reduz a mero hedonismo, e a filosofia, a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade, as luzes da ribalta, o invencível Homem de Ferro. Já não importa a distinção entre urgente e prioritário, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e duradouro.
       A estética se faz esteticismo. E o que vale é o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. Tendemos a ficar reféns da exteriorização e dos estereótipos. 
       Para a pós-verdade, já não cabe o pensamento crítico, e ela abraça a razão cínica como Diógenes a sua lanterna. Prefere, nesse mundo conflitivo, ser espectadora e não protagonista, observadora e não participante, público e não ator. 
       A pós-verdade duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxa. Por isso, não crê em algo ou em alguém. Como a serpente Uroboros, morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesma, indiferente à dimensão social da existência.
       A pós-verdade tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.  
       O discurso pós-verdade é labiríntico, descarta paradigmas, e sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar artistas, autores clássicos e arrivistas que alcançaram 15 minutos de fama.
       A pós-verdade não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Sua visão de mundo é uma colcha de retalhos eivada de subjetivismo. 
       A ética da pós-verdade detesta princípios universais. É a ética de ocasião e conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.  
       A pós-verdade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde as sombras têm mais importância que o nosso ser, e as nossas imagens predominam sobre a existência real. 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA 02




Por Eduardo Hoornaert.

A luta do Papa Francisco por uma palavra evangélica merece ser situada diante de um amplo horizonte histórico. Assim se percebe melhor sua importância. Neste segundo texto acerca da ‘luta pela palavra’, regrido ao século II dC, uma época bem próxima à vida de Jesus, para mostrar que ali já se trava um embate em torno da palavra, algo que tem a ver com a atual luta do Papa Francisco. Embora se possa dizer que toda a história do cristianismo, de certo modo, é uma luta pela palavra evangélica e que a tradição de Jesus, nesse particular, atravessa uma história de sucessos e fracassos, fidelidades e traições, equívocos e acertos, temos de reconhecer que alguns episódios são particularmente significativos. São encruzilhadas. Posições assumidas por muito tempo podem ser abandonadas, novos caminhos trilhados. O Papa Francisco está numa dessas encruzilhadas. Enfim, o que acontece nestes dias na cúpula da igreja católica pode mudar o curso da igreja católica em pontos importantes.

A luta pela Palavra nos inícios do movimento de Jesus.

Os atuais debates em torno do Papa Francisco ganham mais nitidez quando consideramos determinados textos das origens do cristianismo. Quando, por exemplo, voltamos a atenção a textos como o Evangelho de João, que já conserva traços de uma luta pela palavra no seio dos grupos de discípulos na Ásia Menor, apenas 70 anos após a morte de Jesus. Escrito por volta do ano 100, esse evangelho trata de um tema que voltará frequentemente na história do cristianismo, um tema que diferencia o cristianismo dos demais movimentos religiosos da época: o Espírito Santo.

Os evangelhos sinóticos (Marcos dos anos 70, Lucas e Mateus dos anos 80) mencionam também o papel do Espírito Santo na vida de Jesus e se seus discípulos, mas com um realce menor que o de João, que é categórico: o movimento de Jesus é um movimento impulsionado pelo Espírito Santo. O texto fundamental, aqui, narra uma conversa entre Jesus e fariseu Nicodemos, que lemos no capítulo 3 do Evangelho de João. Após desnortear seu interlocutor com considerações aparentemente contraditórias (nascer de novo, etc.), Jesus diz ao fariseu perplexo: o Espírito sopra onde quer. Igual ao vento. Aqui há um eco do Evangelho de Marcos, onde se narra, na nos primeiros versículos do primeiro capítulo, que Jesus, ao subir das águas do Jordão, é imediatamente impulsionado pelo Espírito Santo ao deserto, para um embate de quarenta dias com o Adversário. O Espírito sopra onde quer e leva Jesus para onde quer. No Evangelho de João, quando se aproxima o fim de Jesus, o Espírito Santo aparece como o sustento da comunidade em situações angustiantes. Jesus diz: ele será o ‘Defensor’ (o texto usa o termo ‘Paráclito’) dos discípulos, nas investidas do Adversário que se aproximam: Rogarei ao Pai e ele lhes dará um Defensor a permanecer para sempre com vocês (14, 16); Mas o Defensor lhes ensinará tudo e recordará tudo que eu lhes disse (14, 26); O Espírito da verdade dará testemunho de mim. E vocês também darão testemunho (15, 26); É do interesse de vocês que eu vá embora: pois se não for o Defensor virá a vocês (Jo 16, 7);Quando vier o Espírito da Verdade, ele os conduzirá à plena verdade (16, 13). Jesus confia o futuro do movimento ao Espírito Santo, que ensinará tudo, recordará tudo que eu lhes disse. Podemos dizer que o cristianismo é o Espírito Santo em ação.

É a partir de afirmações tão fortes que teólogos do século II, como Ireneu (ca. 130-202) e Tertuliano (160-220), entendem que o Espírito Santo é ‘unius substantiae’ (da mesma substância) do Filho Jesus, ‘igual ao Filho’ (palavras de Tertuliano em seu escrito ‘Contra Práxeas’). Não há nada, na história do cristianismo, que se compare a esse reconhecimento: o Espírito Santo faz parte da divindade. Isso significa que Deus age que nem um vento ‘que sopra onde quer’. Não há como captar o cristianismo em regulamentos doutrinários e morais. Ele escapa sempre, como o vento, e abre um campo de liberdade, criatividade, inovação, ação revolucionária, profetismo. O Defensor quebra paradigmas universalmente em vigor, derruba cânones e regulamentos, abre horizontes de liberdade. Com ele, o profetismo cristão entra na lista dos movimentos revolucionários, a sacudir a inércia, causar perturbação e insegurança nos que procuram canalizar o movimento de Jesus. Tertuliano, no final do século II, expressa essa ideia com palavras lapidares: ‘quem expulsa a profecia, afugenta o Paráclito’ (prophetiam expullit, Paracletum fugavit).

Com essas considerações abrimos o rol de inúmeras tensões e frequentes conflitos que marcam a história do cristianismo. Aqui, no intuito de reforçar a importância da atual luta do Papa Francisco, comento dois episódios marcantes do século II dC: o caso de Marcião e o caso de Montano, ambos considerados em torno do tema da luta pela Palavra do Espírito Santo.

A palavra do Espírito Santo: Marcião.

O caso de Marcião, ocorrido entre 120 e 144 dC, ilustra bem o que acabo de escrever. Conto brevemente a história, mas antes advirto: toda a documentação disponível em torno de Marcião está imbuída de um forte teor de repulsa diante daquele que será, por longos séculos, considerado o ‘pai dos hereges’, o primeiro grande herege. Temos, pois, que ler essa documentação com espírito crítico e nos deixar guiar, por exemplo, por historiadores do quilate de Adolfo von Harnack, que, em sua ‘História dos Dogmas’, em que descreve a formação do dogma cristão nos três primeiros séculos, assume a postura crítica que se espera de um bom historiador.

Por volta de 120 dC, apenas noventa anos após a morte de Jesus, aparece em Roma um cristão vindo do Oriente do Império, chamado Marcião de Sínope, um importante porto marítimo situado no Mar Negro (chamado, na época, de Pontus Euxinos. no norte da atual Turquia). Filho de um rico armador de navios, ele pede licença para ser aceito numa das comunidades cristãs existentes na metrópole e paga, inclusive, uma fiança.
Marcião é uma personalidade marcante. Não gosta do que vê em Roma e manifesta logo sua discordância. Para ele, o Jesus que se venera entre os cristãos romanos não corresponde ao Jesus de Nazaré. Como se pode praticar ritos que são próprios dos sacerdotes romanos, se Jesus não gosta de sacerdotes? Como se pode seguir regulamentos, se Jesus não liga para regulamentos, não se importa com questões de pureza e impureza, não lembra a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as festas, não insiste no pagamento de impostos estipulados pelas autoridades, enfim, não segue as prescrições legais? Jesus fala em pão, casa, filhos, sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. Eis o que importa para ele. Alerta diante do perigo do enriquecimento (‘não se pode servir a dois senhores’) e ensina que é preciso estar sempre disposto a servir. Marcião não vê nada disso em Roma.

Os fiéis de Roma se assustam, Não encontrando argumentos a contradizer o imigrante do Ponto. Então, para manter a paz entre seus fiéis, os presbíteros resolvem, em 144 dC, devolver a Marcião o dinheiro que ele doou ao se apresentar e pedir que ele se retire de Roma. Decepcionado, o ‘mestre’ vencido regressa para o Ponto onde, longe dos grandes centros, organiza uma igreja, a igreja marcionita, que subsiste até o século VI. Depois desaparece nas brumas da história.

Essa história deixa um gosto amargo na boca. Os cristãos de Roma não conseguem enxergar a ação do Espírito Santo nas palavras e atitudes do imigrante Marcião. A mensagem de Jesus será tão difícil de ser compreendida?

Há de se considerar aqui que, no decorrer do século II, as comunidades cristãs - na medida em que se tornam mais numerosas, com maior número de participantes e maior visibilidade – acolhem pessoas que já não gostam de ver um Jesus tão radicalmente comprometido com os condenados da terra. A tendência é de se alinhar à política do poder do estado, como se pode verificar nos escritos de Justino (100-160 dC), por exemplo. Aparecem diversas tendências. Alguns dizem que o ensino desses mestres prejudica ‘as pessoas simples’ e semeia divisão. Marcião não é o único a ser afastado nesses anos decisivos, a mesma sorte sendo reservada a mestres como Valentino, Taciano e Montano (cuja história conto em seguida). Aparece o termo ‘herege’, que serve para discriminar os que não seguem a linha predominante. Aparecem pastoralistas que, querendo apagar o fogo, aconselham moderação, lutam pela unificação, mas, mesmo assim, concordam em traçar uma linha divisória entre ‘ortodoxos’ e ‘hereges’. Mestres que são exigentes em termos de pobreza e despojamento perdem audiência. O tema Espírito Santo é controverso. Estamos diante de um momento decisivo na história do cristianismo.

A palavra do Espírito Santo: Montano.

Apenas 14 anos após o afastamento de Marcião, em 158 dC, eclode mais um movimento a agitar as mentes dos líderes cristãos durante décadas.

O palco, agora, é a Frígia (centro-oeste da atual Turquia). Um certo Montano, um sacerdote de Cibele convertido ao cristianismo, cria, em Pepusa, uma localidade rural perto de Filadélfia, na Frígia, um movimento de escravos, libertos e trabalhadores rurais da região. Ela vai acompanhado de duas mulheres profetisas, Priscila e Maximila, que – no linguajar da época – falam em línguas, se extasiam e gritam: aparece o Defensor(Paráclito), que se manifesta com gemidos inefáveis (Rm 8, 26) e grita: Abba, Pai (Gl 4, 6). Cita-se o Dito 44 do Evangelho de Tomé: Quem quer que blasfeme contra o Espírito Santo não será perdoado, seja na terra, seja no céu, um Dito que aparece nos evangelhos sinóticos e em textos como o Diatesseron de Taciano, uma frase frequentemente repetida nos primeiros tempos do movimento de Jesus (Harnack, I, 427). Blasfemar contra o Espírito Santo é se desviar do caminho de Jesus. Se o Defensor se revela agora na Frígia, uma região tão desprezada e discriminada quanto a Galileia de Jesus, é prova que ali se pratica a legítima tradição de Jesus.

Antes de continuar, repito aqui o que escrevi acerca da tradição em torno de Marcião: as fontes literárias disponíveis sobre o montanismo estão igualmente recheadas de preconceitos, exageram nos aspectos negativos, tratam o montanismo como se fosse uma heresia.

Pesquisas sérias apuraram que se trata aqui de um movimento de gente pobre, escrava, liberta, gente do campo, iletrada, que retoma textos do Evangelho de João como os que citei acima (Jo 14, 16; 14, 26; 15, 26; 16, 7) e os aplica a Montano, Priscila, Maximila. O Espírito Santo lhes dita o que têm a dizer. Palavras que alimentem a esperança dos pobres, ditas de modo livre imaginoso. Assim, a profetisa Priscila, com ingênua ousadia, se diz Cristo aparecido em forma de mulher (Harnack, I, 429). Um mundo de cristofanias e teofanias, com um entusiasmo ainda não abafado, bem ao gosto do povo. O nascimento de Jesus num presépio, os anjos e os pastores, a fuga ao Egito, Jesus entre os doutores em Jerusalém. O menino Jesus brinca com São João Batista, ajuda seu pai São José na carpintaria. Histórias que o povo guarda com carinho e transmite de geração em geração. Os profetas passam pelas comunidades, ensinam as coisas de Jesus de um modo que as pessoas entendem facilmente, são bem acolhidos pela população. Os documentos aludem a uma ‘explosão de profetismo’ no final do século II, que vai muito além da Frígia e atinge largos espaços das partes orientais do Império Romano.

Os intelectuais cristãos, os chamados ‘Padres da Igreja’, não reagem todos do mesmo modo diante do montanismo. Se, de um lado, percebem que o caráter convulsivo das manifestações pró e contra Montano demonstra que algo está errado com o sistema que se pretende implantar no movimento cristão, de outro lado ficam intimidados com a força de uma reação por parte dos bispos. Como acontece frequentemente na história da humanidade, os mais organizados vencem a parada. No caso do montanismo, os bispos são a parte mais organizada. Sua vitória impõe conformidade e silêncio. Muitos intelectuais hesitam e, com o tempo, acabam se conformando. Enquanto Ireneu ainda demonstra simpatia pelo montanismo, Tertuliano é bem mais reticente. Em princípio, ele simpatiza com os montanistas e, com sua pena afiada, escreve a frase lapidar que talvez melhor descreve o valor perene de movimentos como o montanismo e o profetismo em geral: ‘Ubi tres, ibi ecclesia, licet laici: onde se reúnem três, há igreja, mesmo se são leigos’ (Exortação à Castidade). Mas, paradoxalmente, Tertuliano aceita determinados princípios diametralmente opostos à ideia leiga. Ele aceita a ‘regra apostólica’, a ‘sucessão apostólica’, a ‘reserva exclusiva’, além de concordar com a ideia que o tempo da revelação do Espirito Santo teria expirado com a morte do último apóstolo. Efim, ele acaba pendendo do lado do ‘apostólico’. Segundo von Harnack, essa contradição em Tertuliano se deve ‘a uma convicção não cristã, mas romana, segundo a qual toda religião postula leis firmes e ordenações estáveis’ (Harnack I, 434).

Por volta de 177, o montanismo alcança Roma, onde suscita controvérsias. Ali aparece um certo Praxeas, ‘confessor’ proveniente da Frígia, que vem predispor o bispo local (ainda não se fala em papa) contra o ‘Paráclito’. A repressão é rápida. Quatro bispos romanos sucessivos se pronunciam contra o ‘Paráclito’ (Harnack I, 742) e são logo acompanhados por bispos da Ásia, que cerram fileiras contra Montano. Por volta do ano 200 dC se percebe um recuo dos profetas e um avanço dos bispos. Os primeiros Sínodos episcopais da história do cristianismo são dirigidos contra o montanismo. O tom dos textos conservados é ríspido e severo, tende a desmoralizar os profetas, que só estariam dizendo bobagem, coisas sem sentido, confundindo os fiéis, espalhando ideias contraditórias, agitando as comunidades, desorientando e fanatizando. Significativa a omissão do termo ‘profeta’ e a insistência no termo ‘apóstolo’. Apóstolos contra profetas, eis a questão. Apóstolos apresentados como herdeiros de uma missão recebida de Jesus, que atravessa a história por meio da ‘sucessão apostólica’, de uma dinastia de bispos. O bispo é a atualidade, o profeta é o passado. Os profetas antigos, como Isaías, Jeremias e outros, terminam sua missão com a morte do último apóstolo. Não há mais profetas. Os apóstolos herdam a missão profética.

Em tudo isso, não se pode esquecer que os textos desses primeiros Sínodos são redigidos ‘no calor da hora’, ou seja, marcados pelas emoções do momento. Emoções claramente anti-montanistas, anti-Paráclito. O historiador não atribui a esse tipo de textos um valor além do que ressalta de uma análise contextualizada. Quando os Sínodos afirmam que só os apóstolos são mediadores da revelação, eles estão em guerra contra um movimento que pretende o contrário. Em outras palavras, o confronto com o montanismo postula uma interpretação a ser realizada dentro do princípio do contexto (Harnack, II, 387). Seja como for, a restrita atribuição da revelação ao universo ‘apostólico’ e a retirada de credenciais ao ‘profético’ acabam convencendo muita gente. A ‘auctoritas scripta’ (predominância da tradição escrita sobre a tradição oral) vence as falas de gente iletrada, as falas de Montano, Priscila, Maximila. Por trás, se desvaloriza a ação do Espírito Santo na história, e isso é muito sério.

Nesse sentido se pode dizer que o Credo de Niceia (do ano 325) segue uma conduta já traçada pelos Sínodos do início do século III. Nele, toda a atenção se concentra na figura de Jesus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ‘Theon ek Theou’ (Deus de Deus). Só no final parece, como se fosse um apêndice, a frase ‘kai eis to Agion Pneuma’ (e também no Espírito Santo). E ponto final (o Credo de Calcedônia, no final do século IV, acrescenta: ‘que falou pelos profetas’). Medo de uma igreja por demais profética? De uma igreja liderada por ‘mestres’ livres, diretamente inspirados pelo Espírito Santo? Da influência do ‘mestre’ Ario de Alexandria, contra quem se dirigem todas as baterias em Niceia? Os bispos vêm acompanhados por sacerdotes intérpretes de textos bíblicos. Não há registro da presença de ‘mestres’ (profetas) no Concílio de Niceia, que consagra a vitória dos sacerdotes ‘apostólicos’ sobre os mestres ‘espirituais’.

A Palavra do Espírito Santo: o Papa Francisco.

Eis o que vale rememorar hoje, no embate entre o papa e alguns cardeais. Vale rememorar que o movimento montanista provoca uma divisão de águas no organograma da igreja cristã. Há um antes e um depois da intervenção episcopal daqueles tempos remotos. Muda a política global da instituição cristã. Como escreve Adolfo von Harnack em sua ‘História dos Dogmas’, o que acontece no final do século II determina o curso ulterior do cristianismo. E, de modo ainda mais pungente: a primeira ortodoxia vira heresia. O corpo episcopal toma oficialmente conta dos destinos da tradição cristã, e os resultados dessa decisão perduram até nossos dias. Bispos contra profetas, palavras de ordem contra o Espírito Santo.

À primeira vista, a história do Papa Francisco tem nada a ver com histórias tão antigas como a de Marcião e Montano. Além disso, o atual Papa não costuma evocar o tema do Espírito Santo. Mas não se pode deixar de observar o seguinte: o atual papa não se projeta propriamente como líder de uma religião peculiar, mas como interlocutor em questões que atingem a sociedade humana em geral. Isso é muito importante. É um sinal do Espírito Santo que sopra onde quer.

Num texto que publiquei em meu blog dois meses atrás sob o mesmo título ‘O Papa Francisco e a Luta pela Palavra’, chamei a atenção ao fato que Francisco fala em ‘não julgar’, ‘dar preferência a processos’, ‘ser igreja em saída’, ‘não insistir sempre nas mesmas questões’, etc.  Embora essas expressões esporádicas não explicitem uma tese, penso que não se pode ignorar que Francisco não sai em defesa de ‘princípios católicos’, como fizeram seus antecessores desde o surgimento da Idade Moderna, não aborda temas como ‘tradição apostólica’, ‘sucessão apostólica’ (bispos sucessores dos apóstolos), ‘reserva apostólica’ (a revelação divina reservada aos apóstolos e seus sucessores), os temas de um embate entre bispos e montanistas no início do século III, largamente integrados na tradição da oficialidade cristã. Ele se move num outro patamar.

Se é para evocar aqui essa antiga contenda entre o ‘profético’ e o ‘apostólico’, como faço nestas páginas, há de se dizer que Francisco está do lado do ‘profético’, do ‘Paráclito’, do Espírito Santo. Suas palavras abandonam lugares comuns, desde muito integrados no discurso da oficialidade cristã e isso causa estranheza em muita gente, enquanto cria distância diante do que dizem cardeais como Müller, Brandmüller e Burke, que dizem as coisas de sempre, fáceis de serem entendidas pela maioria dos católicos. Pois a história ensina que, quando uma mesma narrativa se repete ao longo de séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas palavras, das mesmas imagens e dos mesmos ritos, a mente humana passa a considerá-la normal e até normativa. Assimila essa narrativa e dela se apropria. Estamos tão habituados a ver mitras e estolas, capas e casulas, báculos episcopais e invocações solenes, preces codificadas sempre repetidas, estamos tão acostumados a ver o papa falar do evangelho num dos mais suntuosos cenários da Europa Ocidental, que achamos isso normal. A luta pela palavra evangélica é ingrata e dura. Palavras ‘fáceis’, sempre repetidas, garantem sucesso político. Isso em contraste com o Papa Francisco, que opta por palavras ‘difíceis’. Como as do Espírito Santo.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

POR UMA SOCIEDADE NÃO PATRIARCAL





Por Marcelo Barros

O dia dos pais que, no Brasil, foi celebrado nesse domingo nos faz pensar que, apesar dos apelos comerciais desse tipo de comemoração, é sempre bom que haja ocasião como essa na qual os filhos expressam seu amor pelos pais e esses podem pensar em como ser pai em uma sociedade que, a cada dia, passa por profundas transformações.

Estudos arqueológicos e pesquisas antropológicas, feitas no Oriente Médio, na Turquia, na ilha de Creta e na China, nos revelam: há 8 mil anos, a maioria das antigas civilizações antigas se organizava de forma matrilinear. A referência da sociedade era a família da mãe. Nessa forma de organização, homens e mulheres conviviam em situação de maior igualdade e a propriedade da terra era comunitária. Havia certa igualdade sexual e as sociedades eram mais pacificas e não conheciam a guerra.

Há cinco mil anos, mais ou menos, no Oriente Médio e na atual Europa, as sociedades começaram a se organizar a partir da agricultura. Então, os homens passaram a ser chefes da família e as sociedades se tornaram patriarcais. A partir daí, a história da humanidade passou a ser uma sucessão de guerras e conquistas. Conforme essas pesquisas, foram as sociedades patriarcais que geraram as diferenças de classes sociais e inventaram a escravidão, primeiramente dos inimigos conquistados nas guerras e depois de pobres endividados, escravizados para pagar dívidas. (Cf. Walter Link, Engaging the Power, Discernment and Resistance in a World of Domination, Fortress Press, Minneapolis, 1992).

Infelizmente, até hoje, o assunto é atual. As raízes culturais do patriarcalismo são as mesmas. Em tal realidade sócio-política, as famílias não podem respirar clima de diálogo. O modelo patriarcal não funciona mais. Por outro lado, não se encontrou ainda outro estilo de relações familiares. Mães e filhos se desgastam na luta pela sobrevivência e, na maioria das vezes, os homens resolvem o problema pela ausência ou por cumprir meras obrigações econômicas.

Todos sabem que não basta ser pai biológico. Hoje, até as provetas de laboratório garantem isso, sem necessidade de presença humana. O importante e desafiador é ser pai na cotidianidade da construção de uma relação de diálogo familiar, na qual os filhos que crescem precisam de referências de diálogo e apoio afetivo. Não deixa de ser sintomático saber que, no Brasil, a média de duração dos casamentos é de dez anos. Na maioria dos casos, o que sobrevive é uma família nuclear, constituída por mãe e filhos, onde, quase sempre, falta a presença masculina positiva e não dominadora. É claro que, neste modelo, a mulher também tem muita responsabilidade até porque muitas vezes, se apodera dos filhos de forma que não sabe delegar nem repartir responsabilidades. Apesar de sofrer e se queixar, nada faz de positivo na mudança do modelo de pai que o homem tem e pode oferecer.

As comemorações do dia dos pais nos recorda e confirma: o mundo precisa de um novo jeito de ser pai. A função paterna é necessária para o equilíbrio da família, para uma relação mais justa com a mulher, para a saúde psíquica e emocional dos filhos e para a organização de uma sociedade mais paritária e pacífica.

Apesar de que não existem escolas para isso, os movimentos sociais e organizações populares têm sido palcos de discussão deste assunto. Têm conseguido transformar homens e mulheres, formados na cultura patriarcal em protagonistas que ensaiam novas relações familiares e sociais. Novas formas de viver a paternidade não serão descobertas sem a participação das mulheres e de uma relação de gênero tecida na cumplicidade e no diálogo criativo entre todos e todas. Ser pai e mãe em uma forma não patriarcal nem de dominação só podem ser ensaiadas no engajamento pela justiça, no trabalho de criação artística e no compromisso com o futuro do planeta. Pais e mães precisam sempre retomar o apelo dramático do poeta Carlos Drummond de Andrade:

Além da Terra, além do Céu/ no trampolim do sem-fim das estrelas, / no rastro dos astros,/ na magnólia das nebulosas,/ Além, muito além do sistema solar, / até onde alcançam o pensamento e o coração, / vamos!/ Vamos conjugar/ o verbo fundamental essencial,/ o verbo transcendente, acima das gramáticas, e do medo e da moeda e da política, / o verbo sempreamar, /  o verbo pluriamar, / razão de ser e de viver”.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br