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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O CARNAVAL QUE ANTECIPA NOVOS CARNAVAIS



Por Marcelo Barros

O Carnaval pode cumprir um papel de desafogo e catarse em meio à luta duríssima que os mais pobres enfrentam na vida. No entanto, pode também ser profecia de um mundo novo necessário e possível.

Há quem pense que o Brasil de hoje não está para Carnaval. A desigualdade social aumenta de forma escandalosa. A violência toma conta de nossas cidades. E a insensatez se torna modo de governar. Apesar disso tudo, nesses dias, em todo o Brasil, já se respira o clima de Carnaval. No Rio de Janeiro, Olinda, Salvador e outras cidades tradicionais, os blocos estão nas ruas e as pessoas superam as dores e angústias do cotidiano através da dança, das brincadeiras e da alegria do Carnaval.
Alguns grupos religiosos condenam o que consideram mundanismo. Julgam o Carnaval como produto do diabo. Trata-se de um julgamento moral que não olha as estruturas econômicas que estão por trás de tudo isso. É certo que o Capitalismo quer transformar a vida e as relações humanas em mercadoria e explora um erotismo meramente comercial. Fomenta o uso exagerado de bebidas e mesmo de drogas. Isso cria um circulo vicioso com a violência urbana que explode em alguns fenômenos de massa não bem canalizados. No entanto, apesar desses problemas, toda festa, mesmo a mais aparentemente mundana, reúne as pessoas em uma expressão de alegria. Por isso, tem uma dimensão nobre e, podemos dizer: espiritual.
Em geral, as culturas antigas valorizam a festa como sinal e antecipação do pleno e definitivo encontro com a divindade. No evangelho, Jesus afirmou que o reinado divino vem ao mundo, qual música deliciosa que convida todos a dançarem. Ele se queixa de sua geração que parece com pessoas que, mesmo ao som da música, não reagem e ficam indiferentes (Lc 7, 31- 32). Ninguém deveria ficar apático diante dos sinais do amor e da comunhão humana que tornam a vida, mesmo sofrida, festa de alegria, inspirada pelo Espírito. Jesus começou a anunciar o reinado divino no mundo, transformando água em vinho simplesmente para que não faltasse alegria em uma festa de casamento (Jo 2).
As pessoas e comunidades marcam a vida pela cadência das festas. Cada ano, o aniversário natalício recorda o dom da vida. Conquistas importantes, como conclusão de um curso, obtenção de um novo trabalho e casamentos são celebrados com festas. Todo país tem festas cívicas e cada religião, festividades litúrgicas. O que caracteriza a festa é a liberdade de brincar, o direito de subverter a rotina e de expressar alegria e comunhão, através de uma comida gostosa, a música contagiante e a dança que unifica corpo e espírito. 
A fé faz parte da vida e da cultura do povo. Por isso, é normal que nos símbolos escolhidos como temas de desfile carnavalesco e mesmo nas letras dos sambas-enredos de escolas de samba, apareçam composições que tragam mensagens de caráter religioso. Nesse ano, no Rio de Janeiro, a Mangueira toma como tema do seu desfile a manifestação de Jesus a um Brasil do povo e canta uma belíssima e oportuna profecia que tem como título a palavra de Jesus: A verdade vos libertará. Assim testemunha que Jesus gosta de samba e se manifesta hoje na defesa da vida dos pobres e na caminhada da paz e da justiça.
Nos anos 70, Chico Buarque compôs a melodia para o filme “Quando o Carnaval chegar”. Essa comédia musical de Cacá Diegues tomava o Carnaval como parábola da festa da libertação. Hoje, vivemos uma democracia formal, mas ainda falta muito para alcançarmos igualdade social e uma justiça que signifique verdadeira libertação para todo o povo. Por isso, continua válida a esperança proposta na música que, no filme, Chico canta junto com Maria Bethânia e Nara Leão: “Quem me vê assim, tão parado e distante, parece que eu nem sei sambar. Tou me guardando pra quando o Carnaval chegar”.
É bom que nos Carnavais que passam, não deixemos de esperar e nos preparar para o Carnaval definitivo, mais profundo e transformador da vida.  

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

QUANDO A SEXUALIDADE ERA CELEBRADA NA IGREJA




Por leonardo boff

É ideia comum de que a moral católica no tocante à sexualidade é rigorista e até preconceituosa. Isso se deve, em grande parte, à influência de Santo Agostinho que interpretava a transmissão do pecado original que macula toda a existência humana, através da relação sexual. Todos os que nascem dessa relação são portadores desse pecado. Por causa desta interpretação que se tornou doutrina dominante, se estabeleceu uma relação negativa e até preconceituosa entre sexo e pecado.
Entretanto, nem sempre foi assim. Dentro da mesma Igreja, há tradições e doutrinas que veem no prazer e na sexualidade uma manifestação da criação boa de Deus, uma centelha do Divino e uma participação na natureza mesma de Deus. Esta linha se liga à tradição bíblica que vê com naturalidade e até com regozijo o amor entre um homem e uma mulher. Com forte carga erótica, o livro do Cântico dos Cânticos celebra o jogo do amor, a beleza dos corpos dos amantes, dos seios, dos lábios e dos beijos. Curiosamente neste livro bíblico nunca aparece o nome de Deus. Mesmo sem nomear Deus, este livro foi recolhido no Cânon dos livros tidos como inspirados. Nem precisava referir-se a Deus, pois São João nos revela que a verdadeira natureza de Deus é amor (1 Jo 4,16). Então Deus estava aí.
A base teológica para esta visão positiva radica na fé na encarnação do Filho de Deus. Ele assumiu tudo o que é humano, portanto, também a sexualidade, a libido e o imaginário ligado a ela e o amor. Daí dizer-se que não existe mais nada de profano em si. Tudo foi tocado e transfigurado pela realidade divina, feita humana. Pela encarnação, a sexualidade faz parte do Filho de Deus. A sexualidade aqui não deve ser reduzida à genitalidade, mas significa todo o envolvimento afetivo e as trocas amorosas, com as características próprias do feminino e respectivamente do masculino.
Tal assunção trouxe à sexualidade humana uma dimensão sagrada. Depois da encarnação de Deus, ela não pode mais constituir um tabu, um pesadelo ou um fator que transmite a desgraça do pecado original. É uma dimensão privilegiada na qual o ser humano experimenta a força vulcânica do desejo, a ternura, o amor e o prazer. Tudo isso pode fundar uma experiência prazerosa de Deus. O próprio Deus se revela nas vidas dos seres humanos diferentes e desejantes. Deste encontro nasce o maior fruto da cosmogênese que é a vida humana .
Para ilustrar esta tradição, cabe referir aqui uma manifestação que perdurou na Igreja romano-católica por mais de mil anos, conhecida pelo nome de “risus paschalis”, o “riso pascal”. Ela significava a simbolização do prazer genital-sexual no espaço sagrado, na celebração da maior festa cristã, a da Páscoa.
Trata-se do seguinte fato, estudado com grande erudição por uma teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale, Brescia 2004): Para ressaltar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa devia suscitar o riso no povo. E fazia-o por todos os meios, mas sobretudo recorrendo à simbólica sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos que insinuavam relações sexuais. E o povo ria que ria. Traduzia destarte o caráter inocente e decente do riso pascal.
Esse costume é atestado por fontes históricas já em 852 em Reims na França e se estendeu por todo o Norte da Europa, pela Itália e pela Espanha, até 1911 perto de Frankfurt na Alemanha. O celebrante assumia a cultura dos fiéis em sua forma popularesca e para nós, que perdemos a naturalidade do sexo, parece-nos até obscena. O próprio teólogo Joseph Ratzinger, depois Papa, em um de seus escritos se refere, embora criticamente, ao risus pascalis para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição. Afirmava ainda que somente a partir da crença na Ressurreição voltou verdadeiramente o sorriso na humanidade e não apenas o riso. O sorriso desanuviado e livre, manifestado no “riso pascal” sexual expressaria a alegria que a ressurreição trouxe ao mundo.
Podemos discutir o método pouco adequado para suscitar tal riso. Mas ele revela na Igreja uma outra postura, positiva e não condenatoria da sexualidade. Aventar tais fatos não significa querer escandalizar os fiéis ou questionar a doutrina da Igreja. Mas ela nos obriga a relativizar a rigidez oficial face à sexualidade, acentuada de modo especial nos últimos Papas  mas superada no documento do Papa Francisco Amoris laetitia cujo título diz tudo: “a alegria do amor”. No fundo se trata de devolver sentido e alegria à vida humana, chamada à mais vida e não só à renúncia e ao sacrifício. E por que não expressá-la na linguagem da sexualidade criada e querida por Deus?
Há que se reconhecer que esta visão mais natural predomina na vida concreta dos cristãos. Estes obedecem mais à lógica dos reclamos profundos da existência humana sexuada e perpassada pelo desejo do que às doutrinas frias da moral e da ética cristãs de cariz  rigorista. A alegria da vida que triunfa definitivamente pela ressurreição, encontrou no risus pascalis uma expressão da sexualidade redimida, inocente, prazerosa e sagrada. Por que não gaiamente recordá-la?
Leonardo Boff escreveu com Rose-Marie Muraro Feminino e Masculino:uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record 2003.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

ARTE DE NUTRIR A VIDA




Frei Betto

         Sou filho da mãe. A minha, Maria Stella Libanio Christo, era mestra na arte de cozinhar. Autora de livros de culinária, pesquisou três séculos de receitas para publicar “Fogão de lenha – 300 anos de cozinha mineira”.

         Ela nunca sofisticou o cardápio. Preferia o trivial: bolinho de feijão, canjiquinha com costelinha de porco, feijão tropeiro, inhame com melado, espera-marido. Assim como certas linhagens familiares se estabelecem pela audição, como na família Caymmi, no meu lado materno predomina o paladar. A mesa, ainda hoje, é o centro vital de minha família.

         Minha avó materna, Maria, pilotava admiravelmente seu fogão de lenha, acolitada pela doce Bertula, cozinheira que fazia parte da família. Especialista em roscas-de-rainha e balas delícias, vovó preparava a massa das roscas em grandes tabuleiros negros, trançadas como em ninho de serpentes e, após assadas, a superfície se cobria de um brilho castanho, açucarado, como se envernizadas. Não se partia com a faca; arrancavam-se pedaços com as mãos, seguindo o contorno das tranças.

         As balas delícias, brancas como neve, eram enroladas e cortadas à tesoura sobre a grande mesa de madeira da copa. Açucaradas, desmanchavam na boca. As receitas se transmitiam de mãe para filha em engordurados cadernos preenchidos com letras bordadas a mão.

         Ter sido educado à mesa faz com que o paladar seja o mais apurado de meus cinco sentidos. Nunca fui de comer muito. O peso jamais me incomodou. Nem exijo comidas refinadas. Habituado à vida conventual, espartana, só em casa de amigos ou restaurantes faço da mesa uma liturgia de prazer. Ou quando cozinho.

         Há tempos viajei à Suécia com um grupo de líderes sindicais. Submetidos à culinária escandinava, me confessaram sonharem com um bom bife. Os anfitriões nos levaram a um dos melhores restaurantes de Estocolmo, onde nos serviram filé mignon. O pior de toda a minha vida. A carne, dura, parecia ter passado imediatamente do freezer ao prato, após breve aquecimento. Porém, a vontade era tanta que não rejeitamos a gororoba. É melhor um bife no bucho que dois bois no pasto.

         O ser humano é o único animal que manipula, tempera e cozinha o seu alimento. Comer é um ato cultural, litúrgico. Assim como falamos distintos idiomas, comemos pratos que outros povos abominam só de ouvir falar. Segundo o antropólogo Marvin Harris, no Camboja comem-se coleópteros, como besouros e joaninhas, baratas d’água, tarântulas, lagartixas e morcegos. No Vietnam, cobras e cães. Na Nova Guiné, vermes do saguzeiro, duros por fora e cremosos por dentro. Na China, miolo de macaco. No México, os escamoles são feitos com ovos de formigas. Vale lembrar o que dizia Montaigne, “cada qual denomina barbárie aquilo que não faz parte de seus costumes”.

         Hoje o mundo produz mais alimentos do que consome e, no entanto, a fome atinge 820 milhões pessoas, que dispõem de menos de 1.500 calorias/dia, segundo a ONU (2019). Para uma vida saudável, o ser humano necessita ingerir 2 mil calorias/dia. No Ocidente, a média é de 2.900. Um terço da população mundial consome cerca de 2 mil. E um bilhão de pessoas têm peso acima do normal.

        A ingestão de alimentos suscita, hoje, acalorados debates. Há argumentos para consumir ou não todo tipo de comida. Os vegetarianos se dividem em ovolactovegetarianos. (não consomem nenhum tipo de carne, frango, peixe ou frutos do mar), mas consomem laticínios e ovos; os lactovegetarianos; os vegetarianos estritos; e os veganos (que não consomem nada de origem animal).

Isso não isenta de riscos os ortoréxicos, obcecados por alimentos saudáveis, pois verduras contêm pesticidas; peixes, mercúrio e plásticos; açúcar causa diabetes; manteiga aumenta o colesterol etc. Ou seja, morre-se também pela boca. E no sistema econômico prevalente em nossa sociedade, os alimentos têm valor de troca, e não de uso, e o lucro reluz acima da saúde humana.

Frei Betto é escritor, autor de “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio), entre outros livros.
  
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

HELDER CAMARA: POEMAS DE DESALENTO.




Por Eduardo Hoornaert.

A prosa epistolar de Helder Camara está invariavelmente impregnada de entusiasmo, o que se compreende, pois ela serve basicamente para animar a Família Messejanense, ou seja, o grupo feminino & companhia que o acompanha em pensamento, sonho e espiritualidade. Ela contrasta com a poesia helderiana, como já demonstrei aqui em diversos textos de meu blog. Questionadora, expressando até desânimo, sentimento de abandono e frustração, essa poesia revela um Helder crítico, que não teme emitir opiniões um tanto inconvenientes para um bispo.

O que nos interessa aqui é o seguinte: o contraste entre prosa entusiasta e poesia questionadora nos permite penetrar mais fundo na personalidade e nos posicionamentos de um dos mais importantes expoentes do pensamento brasileiro nos anos 1960-1990. Neste texto me restrinjo a apresentar doze poemas que aparecem nas Cartas Circulares de 13-14 de março 1971 e de 16-17 do mesmo mês (respectivamente pp. 127-130 e 136-138 do Volume V, Tomo III da Edição Cepe, Recife).

Na noite de 13-14 de março aparecem sete poemas, Por sete vezes repetidas, Helder se queixa diante de Deus: por que Te escondes tanto?, por que és tão vingativo? por que quase me levas a resmungar? o pouco que consigo fazer não vale nada? a culpa é toda minha? por que Tu amaldiçoas? por que não me dás a mão? Sete amargas exclamações de impaciência diante do silêncio de Deus. É verdade: o início do ano 1971 é particularmente angustiante para o Bispo Helder, perseguido pelo governo, abandonado por parte do clero, incapaz de realizar o que planeja e que constata que o pouco que consegue realizar não é valorizado.

Por que Te escondes tanto?.

Se perguntarem por Teu Nome
que devo responder?
Se rirem de Ti
e disserem
que já morreste,
já não és necessário
e estás sobrando?
Não precisas de conselhos, é claro.
Se tivesse em Teu lugar,
não esmagaria ninguém,
não faria prodígios para exibir-me.
Mas ficaria menos distante,
menos ausente...
Ao menos dos mais íntimos
Não me esconderia tanto (pp. 127-130).

Por que és tão vingativo?

Viste a miséria
de Teu Povo
no Egito.
Não estás cego,
nem surdo,
nem insensível,
nem sem poder.
Precisarei lembrar-Te
que há continentes inteiros
que viraram Egito?...
Salva-nos,
através do Mar Vermelho.
Mas, por Quem és,
não afogues nas águas
os modernos Faraós
e nem mesmo
os seus cavalos (ibidem).

Por que quase me levas a resmungar?

Não me deixes murmurar
Sei
a impressão tristíssima,
que Te causam
os murmuradores (alusão aos ‘murmuradores’ do Livro Êxodo)
Em lugar
de falar entre os dentes,
de soprar desconfianças,
de envenenar,
especializar-me
em ver
o lado bom da vida
e o que há de positivo
no segundo que passa (ibidem).

O pouco que consigo fazer não vale nada?

É verdade, Senhor
que não tenho figos (alusão a Lc 13, 1-9, a parábola da figueira estéril)
ou, quando muito, produzo
figos abortivos,
que até os animais rejeitam...
Mas não vale
a sombra que ofereço?
Não contam
os ninhos
que as aves constroem
confiantemente
em meus ramos?...
Poda-me, Senhor!
Faze enxertos, se preciso.
Não me deixes falhar
aos planos misteriosos
do Senhor e Pai! (ibidem).

A culpa toda é minha?

Pensas em arrancar-me
porque não produzo figos...
Perdoa que te pergunte:
a culpa é toda minha?
não entras em nada,
não tens parte alguma
na minha condição tristíssima
de figueira estéril? (ibidem).

Por que Tu amaldiçoas?

Não creio que ninguém
seja estéril
pelo gosto de não-produzir.
Não creio
que ninguém se alegre
de ser infecundo,
incapaz de reproduzir-se,
de multiplicar-se,
de vencer a morte
prolongando-se nos frutos.
Revê, Senhor, tuas maldições.
Não amaldiçoes ninguém!
E, sobretudo, cuidado:
não cometas a injustiça
de castigar
quem já arrasta a humilhação
de acabar em si mesmo (ibidem).

Por que não me dás a mão?

Exigiste figos
Tentei um esforço máximo.
Forcei as raízes
a sugar, ainda mais, a terra.
Sacrifiquei folhas
pelos frutos.
Os figos estão aí
sem ninguém
que os apanhe...
Manda, ao menos, teus passarinhos,
para que não experimente
a pior das esterilidades
– a de criar frutos inúteis
que acabam caindo
de maduros e podres! (ibidem).

Na noite entre 16 e 17 do mesmo mês, de novo uma carga de poemas desolados. Desta vez são cinco: cadê a terra onde jorra leite e mel? adianta tentar reconciliar oprimido com opressor? como cultivar a alegria nas condições em que vivo? e se o filho pródigo nem pensa em voltar para casa? Tu também não ficaste por vezes desanimado?

Cadê a terra onde jorra leite e mel?

Senhor, cadê o leite,
cada o mel? (alusão ao Livro Êxodo)
Nem maná,
nem as maravilhas
que prometeste.
Longe de mim murmurar.
Bem vês
como Te defendo,
no meio do nosso Povo.
Mas como salvar a alegria
Que tanto exiges
e é de fato sinal
de confiança plena
e de entrega sem limites,
se meu Povo faminto
nem pode dizer que tem fome,
se meu Povo explorado
se mostrar
o mais leve amuo
é preso,
e espancado,
e morto? (pp. 136-138).

Adianta tentar reconciliar oprimido com opressor?

Reconciliar
o oprimido com o opressor,
se este,
não cede uma linha,
continua a arrancar dinheiro
em nome do povo
e nem deixa o povo ver
a cor do dinheiro? (ibidem).

Como cultivar a alegria nas condições em que vivo?

Estas vendo, Senhor
como sem milagre
a alegria, este ano,
não brotará
da terra estorricada
e do chão
queimado de injustiça!? (ibidem).

E se o filho pródigo nem pensa em voltar para casa?

Senhor, o filho pródigo
não pensa em voltar.
Não está desempregado,
nem passando fome,
nem guardando porcos...
Teu dinheiro,
apesar de gastos loucos,
multiplicou-se.
Nem se lembra de Ti.
Nem sabe se existes! (ibidem).

Tu também não ficaste por vezes desanimado?

O demônio do desânimo e da tristeza
não investiu,
muitas vezes,
contra Ti?...
Quando Teus Apóstolos
não entendiam
parábolas simples
como a do Semeador;
quando insistiam
em discussões ridículas
para saber
quem o maior;
quando os Teus
te desafiavam
a fazer prodígios
e Te chamavam, com desprezo,
‘filho do Carpinteiro’;
quando Te acusavam
por andares
com publicanos e pecadoras
e Te chamavam
filho de Belzebu;
quando os mais íntimos
Te abandonavam,
traindo-Te,
negando-Te,
fugindo de Ti;
quando ficaste na Cruz
entre dois ladroes
e tiveste a impressão
de que o próprio Pai
Te abandonava
– que fazias,
como resistias
ao Mestre das intrigas
e Pai da mentira? (ibidem).

O interessante é que, apenas alguns meses antes, em julho de 1970 (talvez em circunstâncias mais favoráveis), Helder Camara escreve, de novo numa só noite, dois poemas que de certo modo contradizem e invalidam os poemas de março 1971. O silêncio de Deus, que tanto agonia o vigilante de março 1971, resulta ser, em última análise, falta de silêncio por parte de quem dEle se queixa.

No silêncio das árvores
Ainda há
o agitar dos ramos
movidos pelo vento...
No silêncio das águas,
ainda há
o marulho das vagas
ou o cantar da correnteza
atravessando as pedras...
No silêncio dos céus,
ainda há
o palpitar das estrelas,
carregado de mensagens...
Aprende
que não basta não falar
para atingires o silêncio.
Enquanto os cuidados te agitam,
ainda não penetraste
na área do grande silêncio.
E aí, somente aí
se escuta a voz de Deus! (Carta Circular 30-31/7/1970, V, II, pp. 40-41).

E, na mesma noite,

O ruído
que impede de ouvir
a voz de Deus
não é
de modo algum
o vozerio dos homens,
o trepidar das cidades
e, ainda menos,
o agitar dos ventos
ou o marulho das águas...
O ruído
que abafa de todo
a voz divina
é o tumulo interior
do amor próprio que estremece,
das desconfianças que se agitam,
da ambição que não dorme (ibidem).

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.