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terça-feira, 17 de maio de 2022

Quando é preciso desobedecer

 Marcelo Barros 


A ONU propõe que se consagre o dia 15 de maio para aprofundar o direito de “objeção de consciência” e divulgá-lo para que todos os países o acatem. A objeção de consciência é a atitude de quem, por convicção religiosa, social ou política, se nega a pegar em armas e a participar de guerras ou atos violentos. Objetar é se negar a cumprir uma lei que fere a consciência pessoal ou comunitária. Há objeção de consciência quando a pessoa se nega a cumprir ordens antiéticas, ou que firam a vida. A violência, mesmo se esta é institucional, ou seja perpetrada pelo Estado, nunca construirá um mundo de paz e justiça.

Em Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório se negam a combater palestinos. Nos Estados Unidos, muitos negros e índios e brancos se negam a ir fazer guerra em outros países. Muitos desses rapazes e moças invocam o direito de objeção de consciência. Jornalistas se demitem para não serem obrigados a escrever notícias mentirosas que servem apenas aos interesses dos proprietários dos meios de comunicação e a favorecer a guerra da elite dominante do mundo contra os pobres.

Homens e mulheres, admirados no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, foram ou ainda são, em seus países, considerados como rebeldes e desobedientes. Para os budistas tibetanos, o Dalai Lama, é a 14a reencarnação do Buda da Compaixão, mas, para o governo chinês, é um dissidente, desobediente às leis. Na Índia da primeira metade do século XX, o Mahatma Gandhi foi preso e condenado como subversivo. Atualmente, o mundo inteiro o considera um profeta e libertador do povo. A partir dos anos 1950, nos Estados Unidos, o pastor Martin-Luther King foi, diversas vezes, preso e condenado, mas só assim conseguiu garantir o reconhecimento dos direitos civis da população negra.

O prêmio Nobel da Paz foi dado a dois latino-americanos ilustres: a Rigoberta Menchu que viveu anos sem poder voltar à Guatemala para não ser morta e a Adolfo Perez Esquivel que, durante anos, era constantemente ameaçado de prisão na Argentina. No Brasil da ditadura militar, Dom Hélder Câmara, era escutado no mundo inteiro, enquanto, em nosso país, os meios de comunicação não podiam divulgar nada que falasse em seu nome.

Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com maior razão ainda, as religiões e Igrejas deveriam reconhecer um direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário ou, por qualquer razão, injusto.

Nenhum pastor, padre ou bispo tem direito de impor aos fieis suas preferências políticas ou partidárias. Ninguém tem direito de impor convicções morais em nome da fé.

Conforme a Bíblia, quando as autoridades religiosas de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar no nome de Jesus, estes responderam: “Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus”(At 5, 29). 

A negação do direito à liberdade pessoal de opção social e política abre a porta ao fundamentalismo religioso, hoje, responsável por muitos atos de intolerância e mesmo de violência.

O que, na Bíblia, caracteriza a fé cristã é o aprendizado da liberdade interior e social. Paulo escreveu aos coríntios: “Onde estiver o Espírito do Senhor, aí haverá liberdade” (2 Cor 3, 17). E aos gálatas: “Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou. Vocês não devem aceitar, por nenhum pretexto, voltar à situação de não liberdade” (Gl 5, 1. 13).  

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A MATERNIDADE HOJE E SEMPRE

Maria Clara Bingemer


            Celebrou-se uma vez mais o Dia das Mães, esperado ansiosamente pelo comércio como a data mais lucrativa depois do Natal.  Significa para alguns uma festa em família, alegre e regada a boa comida, e muita alegria. Para outros traz com crueza o vazio da ausência impossível de ser preenchida daquela que já se foi. Filhos e netos riem com a matriarca ainda presente, outros choram com saudades e recordando os dias de convivência que vivem na memória para sempre. 

            Lembrei-me, durante o alegre encontro familiar e também depois dele, de minha netinha mais nova que um dia me perguntou: “Vovó e a sua mãe?  Onde ela está? “Respondi: “Morreu há tempos querida.” Ela então ficou pensativa e disse: “Ah é?  Eu não sabia que mãe morria”. Senti que ali a inocência de sua infância havia recebido um golpe duro.  Ela acabava de descobrir que tudo e todos que vivem, mesmo aquela que é a fonte da vida e cuida da vida incessantemente, morrem. 

            À semelhança de Maria Victoria, minha querida neta, está intrigado com a morte das mães o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, que escreveu: “Por que Deus permite/ Que as mães vão-se embora?” E explica nos versos seguintes a razão de sua pergunta: “Mãe não tem limite/É tempo sem hora/Luz que não apaga/Quando sopra o vento//E chuva desaba”

            Quando falham todos os apoios e as seguranças, quando as ameaças parecem ganhar terreno, mãe é um porto seguro que fala de amor para sempre, de vida gestada, nutrida, abrigada, protegida.  Colo de mãe é o antídoto para perigos e medos.  A aliança da mãe é com a vida.  E quantas já não houve e há que deixam de lado todos os afazeres para estabelecer-se à cabeceira do filho doente? Ou que se dedicam quando todas as esperanças já foram perdidas, a fim de arrancar um minuto a mais, um suspiro além de vida de onde já todo movimento parece haver desertado? Ou ainda aquelas que procuram incessantemente e com o melhor das forças que lhes restam os filhos desaparecidos por alguma cruel ditadura ou pela violência urbana? 

            Mãe não tem limite, como diz Drummond, nem de tempo, nem de espaço, nem de racionalidade nem de previsibilidade.  Amor de mãe faz explodir todas as expectativas e as fronteiras dos ritmos humanos e segue iluminando e aquecendo mesmo quando sopram ventos e chuvas desabam, arrastando destroços e anunciando catástrofes. 

            Não à toa a Bíblia Hebraica nos diz que o amor de Deus se compara com o de uma mãe. É o profeta Isaías quem fala: “Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Contudo, ainda que ela se esquecesse, Eu jamais me esquecerei de ti!” 

            A relação com a mãe é o primeiro canal para a transcendência que o ser humano experimenta.  Já desde a vida aquática e uterina, nadando nessas águas que o protegem e ao mesmo tempo o alimentam e o mantêm vivo.  Uma vez saída do ventre materno, a criança experimenta sua identidade de ser relacional através da mãe, que a pega ao colo, a amamenta, a lava e cuida, e lhe devolve o olhar com o qual começa a vislumbrar a existência. 

            Há, portanto, na maternidade algo de sagrado, se o sagrado é precisamente esse ponto de encontro e conexão entre o biológico e a emergência da representação e da autotranscedência.  São as mães aquelas que primeiro dão à criança a possibilidade de participar da riqueza destas duas dimensões: o biológico e o simbólico; o físico e o espiritual; a unidade e a pluralidade que gera a relacionalidade. É a mãe que começa a ensinar a cada um e cada uma que gestou em seu ventre e pariu para o mundo a bela aventura de viver no cruzamento entre duas exigências: uma fisiológica, corporal, sexual; outra da ordem da representação, dos ideais e dos projetos. 

            Assim também é a mãe que abre ao filho a possibilidade de realizar sua vocação, que é tornar-se um ser de palavra.  A língua mãe será por ela pronunciada e ensinada – ao ouvido, no acalanto, nas canções – e se tornará língua falada, palavra pronunciada nos lábios do bebê que ouve e posteriormente chegará ao milagre da linguagem. 

            Por isso, ela aproxima o filho e através dele, os outros, da eternidade e do divino.  Voltemos sobre isso ao poema de Drummond: “Mãe, na sua graça/É eternidade/Por que Deus se lembra/Mistério profundo/De tirá-la um dia?” Como aquela que tem tão inquebrantável aliança com a vida se vai deixando uma saudade e um vazio que nada preenche?

            Não a resposta, mas um começo dela, está no próprio verso do poeta: Mistério Profundo. O mistério da fé é que Deus jamais abandona aquilo que criou.  As mães são suas parceiras nessa obra eterna de tecer e voltar a tecer a vida, fazendo-a sempre mais complexa e mais bela.  Deus é Espírito, que sopra onde quer e não se sabe de onde vem nem para onde vai.  Assim é com as mães que um dia partem.  Mas partindo permanecem: nos ensinamentos, na memória, nos traços que ficam nos rostos e nos corpos dos filhos, nos rastros de amor que possibilitaram tantas coisas que talvez sem esse excesso de dedicação e ternura não aconteceriam.  

O poeta Drummond, depois de dizer, aborrecido que fosse ele rei do mundo baixaria uma lei de que mãe não morre nunca, chega depois à misteriosa resposta que consola os corações de todas as orfandades: “Mãe ficará sempre/ Junto de seu filho/ E ele, velho embora/ Será pequenino/ Feito grão de milho”.  O desejo expresso pelo poeta, embora não seja decreto do Senhor, de certa forma se realiza. 

Talvez esta seja a melhor resposta para a inocência ferida de minha netinha querida. As mães se vão, mas depois da primeira dor da irreparável perda, os filhos vão perceber que elas, de fato, não os deixaram. Estão com eles de modo mais profundo e forte do que antes.  E os fazem eternamente sentir-se filhos, crianças, oferecendo seu colo uma e outra vez para abrigar todo sentimento e consolar toda dor. 

O Dia das Mães é comemorado por todas nós que tivemos e temos a graça de viver a maternidade. E também aquelas e aqueles que não a viveram, mas experimentam a cada dia a beleza de poder realizar o gesto redentor do cuidado que protege a vida de todas as ameaças:  restaurando forças, tratando feridas e reafirmando que o amor é mais forte que a morte. 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Uma outra agenda (mundial): libertemos a vida ou um outro paradigma civilizatório?

 Leonardo Boff 


 

Nota préviaOrganizou-se um grupo internacional que se propunha “uma outra agenda mundial para libertar a vida”. Realizou-se a primeira sessão no dia 5/5/2022. Cada participante (ao todo uns 20 mas nem todos participaram) tinha 10-15 minutos para apresentar sua visão do tema. O articulador era o conhecido economista italiano, trabalhando na Comunidade Europeia,em Bruxelas.O propósito básico é como democratizar os conhecimentos científicos que reforçam a busca de uma agenda que tenha por objetivo libertar a vida. Apresento aqui minha curta apresentação, feita em francês, com as ideias que tenho proposto e defendido em outros escritos. Até agora, pelo visto, a nova agenda se situa ainda dentro do velho paradigma (a bolha dominante), não se colocando a questão da profunda crise que este paradigma, o da modernidade tecno-científica, provocou e que está pondo em risco o futuro de nossa vida e de nossa civilização. Daí a oportunidade de expor claramente minha posição crítica e totalmente descrente das virtualidades deste paradigma de libertar a vida, antes a está celeremente destruindo. Lboff

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Vou direto o ponto: dentro do atual paradigma civilizatório, da modernidade, é possível outra Agenda ou tocamos nos seus limites intransponíveis e temos que buscar um outro paradigma civilizatório se quisermos continuar ainda viver sobre este planeta?

Minha resposta se inspira em três afirmações de grande autoridade.

A primeira é da Carta da Terra, assumida pela UNESCO em 2003. Sua frase de abertura assume tons apocalípticos: ”Estamos diante de um momento crítico da história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro…A nossa escolha é: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”(Preâmbulo).

A segunda afirmação severa é do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti (2020):”estamos no mesmo barco, ninguém se salva por si mesmo, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32).

A terceira afirmação é do grande historiador Eric Hobsbawn em sua conhecida obra A era dos extremos(1994) em sua frase final: Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro aceitável, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base,  vamos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562).

 

Em outras palavras: o nosso modo de habitar a Terra, que inegáveis vantagens nos trouxe, chegou ao seu esgotamento. Todos os semáforos entraram no vermelho. Construímos o princípio da autodestruição, podendo exterminar toda a vida com armas químicas, biológicas e nucleares por múltiplas formas diferentes. A techno-ciência que nos fez chegar aos limites extremos de suportabilidade do planeta Terra (The Earth Overshoot) não tem condições, por si só, como o mostrou o Covid-19, de nos salvar. Podemos  limar os dentes do lobo pensando que lhe tiramos,ilusoriamente, sua voracidade. Mas esta não reside nos dentes mas em sua natureza.

Portando, temos que abandonar o nosso barco e ir além de uma nova agenda mundial. Chegamos ao fim do caminho. Temos que abrir um outro diferente. Caso contrário, como disse em sua última entrevista antes de morrer Sigmund Bauman: “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”. Somos forçados, se quisermos viver, a nos recriar e reinventar um novo paradigma de civilização.

Dois paradigmas: do dominus  e do frater

 

Vejo nesse momento o confronto entre dois paradigmas: o paradigma do dominus e o paradigma do frater. Em outra formulação: o paradigma da conquista, expressão da vontade de poder como dominação, formulada pelos pais fundadores da modernidade com Descartes,Newton,Francis Bacon,dominação de tudo, de povos, como nas Américas, na África e na Ásia, dominação das classes, da natureza, da vida e dominação da matéria até em sua última expressão energética pelo Bóson Higgs.

O ser humano (maître et possesseur  de Descartes) não se sente parte da natureza, mas seu senhor e dono (dominus) que nas palavras de Francis Bacon “deve torturar a natureza como o torturador faz com sua vítima até que ela entregue todos os seus segredos”. Ele é o fundador do método científico moderno, prevalente até os dias de hoje.

Esse paradigma entende a Terra como mera res extensa e sem propósito, transformada num baú de recursos tidos como infinitos que permitem um crescimento/desenvolvimento também infinito. Ocorre que hoje sabemos cientificamente que um planeta finito não suporta um projeto infinito. Essa é a grande crise do sistema do capital como modo de produção e do neoliberalismo como sua expressão política.

 

O outro paradigma é o do frater: o irmão e a irmã de todos os seres humanos entre si e os  irmãos e as irmãs de todos os demais seres da natureza. Todos os seres vivos possuem como Dawson e Crick mostraram nos anos de 1950, os mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas, a partir da célula mais originária que surgiu há 3,8 bilhões de anos, passando pelos dinosauros e chegando até  nós humanos. Por isso, diz a Carta da Terra e o enfatiza fortemente o Papa Francisco em suas duas encíclicas ecológicas, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli tutti (2020): um laço de fraternidade nos une a todos,”ao irmão Sol, a irmã Lua, o irmão rio e a Mãe Terra”(LS n.92;CT preâmbulo). O ser humano se sente parte da natureza e possui a mesma origem que todos os demais seres, “o humus”(a terra fértil) de onde se deriva o homo, como masculino e feminino, homem e mulher.

Se no primeiro paradigma vigora a conquista e a dominação (paradigma Alexandre Magno e Hernan Cortes), no segundo se mostra o cuidado e a corresponsabilidade de todos com todos( o paradigma Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá).

Figurativamente representando podemos dizer: o paradigma do dominus é o punho cerrado que submete e domina. O paradigma do frater é a mão estendida que se entrelaça com outras mãos para a carícia essencial e o cuidado de todas as coisas.

O paradigma do dominus é dominante e está na origem de nossas muitas crises e em todas as áreas. O paradigma do frater é nascente e representa o anseio maior da humanidade, especialmente aquelas grandes maiorias impiedosamente dominadas, marginalizadas e condenas a morrer antes do tempo. Mas ele possui a força de uma semente. Como em toda semente, nela estão presentes as raízes, o tronco, os ramos, as folhas, as flores e os frutos. Por isso por ele passa a esperança, como princípio mais que com virtudes, como aquela energia indomável que sempre projeta novos sonhos, novas utopias e novos mundos, vale dizer, nos fazem caminhar na direção de novas formas de habitar a Terra, de produzir, de distribuir os frutos da natureza e do trabalho, de consumir e de organizar relações fraternais e sororais entre os humanos e com os demais seres da natureza.

A travessia de um paradigma do dominus para o paradigma do frater.

Sei que aqui se põe o espinhoso problema da transição de um paradigma ao outro. Ele se fará processualmente, tendo um pé no velho paradigma do dominus/ conquista pois devemos garantir nossa subsistência e outro pé no novo paradigma do frater/cuidado para inaugurá-lo a partir de baixo. Aqui vários pressupostos devem ser discutidos, mas não é o momento de fazer isso. Mas uma coisa podemos avançar: trabalhando o território, o bioregionalismo, se poderá implantar regionalmente o novo paradigma do frater/cuidado de forma sustentável, pois tem a capacidade de incluir a todos e criar mais igualdade social e equilíbrio ambiental.

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Nosso grande desafio é este: como passar de uma sociedade capitalista de superprodução de bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida, com valores humano-espirituais, intangíveis como o amor, a solidariedade, a compaixão, a justa medida, o respeito e o cuidado especialmente dos mais vulneráveis. 

 

O advento de uma biocivilização

 

Essa nova civilização possui um nome: é uma biocivilização, na qual a centralidade é ocupada pela vida em toda a sua diversidade, mas especialmente a vida humana, pessoal e coletiva. A economia, a política e a cultura estão a serviço da manutenção e da expansão das virtualidades presentes em todas as formas de vida.

O futuro da vida na Terra e o destino de nossa civilização está em nossas mãos. Temos pouco tempo para fazer as transformações necessárias, pois já entramos na nova fase da Terra, seu aquecimento crescente. Falta a suficiente consciência nos chefes de estado sobre as emergências ecológicas e é muito rara ainda no conjunto da humanidade.

Leonardo Boff,teólogo,filósofo e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres,1999/2018; Habitar a Terra:qual é o caminho para a fraternidade universal? Vozes 2022.

 

quinta-feira, 12 de maio de 2022

LULA, CANDIDATO A PRESIDENTE


Frei Betto

 

      Uma boa notícia neste mês de maio é a oficialização da candidatura de Lula à presidência da República. Diante do descalabro promovido pelo (des)governo Bolsonaro, o candidato do PT desponta como a alternativa preferencial dos eleitores nas eleições do próximo mês de outubro.

      Ainda é cedo para cantar vitória. Não se pode ignorar que, da parte do candidato à reeleição, todas as tramoias são possíveis. E a Justiça Eleitoral se encontra debilitada, acuada diante das frequentes ameaças que o Executivo e as Forças Armadas fazem a todo o sistema judiciário, a começar pelo STF, desmoralizado pelo indulto concedido por Bolsonaro a um deputado federal comprovadamente criminoso. 

      Um processo eleitoral não deveria estar focado na figura do candidato. A centralidade seria o programa de governo, os objetivos que persegue e os princípios que o norteiam. Mas isso é um luxo na atual conjuntura brasileira. Há tempos os partidos se transformaram em meros trampolins eleitorais. Não há seleção ideológica de novos militantes, formação de quadros ou impedimento de filiação daqueles cujas vidas pregressas não se coadunam aos princípios estatutários do partido. São todos caldeirões que contêm os mais variados, estranhos e antagônicos ingredientes. E como na história de José Leon Machado – “A bruxa e o caldeirão”- todos os caldeirões têm seus furos.

      As prioridades dos candidatos que polarizam a eleição estão definidas. Para Bolsonaro, trata-se de reeleger-se e prosseguir o desmonte Brasil e minar as instituições democráticas até que ele possa governar como senhor absoluto da nação. Para Lula, enfrentar as graves questões que afetam o país: desigualdade social, desemprego, inflação, sucateamento da saúde e da educação e retomada dos investimentos. 

      Aqueles que rejeitam as duas candidaturas preferenciais não encontraram, até agora, uma alternativa viável. Prevejo um volume expressivo, nas eleições de 2022, de abstenção e votos nulos e brancos. 

      O que mais me preocupa é o marasmo no qual se encontra a nação. Vide as pífias manifestações no 1º de Maio em pleno ano eleitoral! Nada de protestos de rua, como se a oposição estivesse desarticulada e desprovida de bases populares organizadas. Nada do entusiasmo que se viu em campanhas eleitorais precedentes. Será que os setores progressistas estão intimidados?

Acredito, porém, que o problema maior se resume a dois pontos: os partidos progressistas não têm clareza do Brasil que querem, das reformas estruturais urgentes, da relação orgânica com os marginalizados e excluídos. Há que valorizar a agricultura familiar e acabar com as isenções tributárias para o agronegócio? Há que continuar a manter a economia dependente das exportações de produtos primários (elegantemente chamados “commodities”) ou investir mais em inovações científicas e tecnológicas? 

      O segundo ponto é a falta de trabalho de formação política de militantes e fortalecimento dos movimentos sociais. O poder de mobilização popular dos partidos é mínimo. Paulo Freire permanece na estante. 

Não há tempo para reequacionar todos esses fatores. Resta a todos nós, convencidos de que é preciso tirar Bolsonaro do Planalto definitivamente, abraçar com disposição e ânimo a candidatura Lula. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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