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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

“Eu só sou eu através de você”:Ubuntu: uma saída da barbárie

 Leonardo Boff


A pandemia mostrou uma abissal desigualdade mundial e uma falta cruel de solidariedade para com aqueles que não podem fazer o distanciamento social e deixar de trabalhar senão não têm o que comer.Para sermos concretos: não abandonamos ainda o mundo da barbárie e se já a havíamos deixado, retornamos a ele. O nosso mundo não pode ser chamado de civilizado porque um ser humano não reconhece e acolhe outro ser humano,independente do dinheiro que carrega no bolso ou tem depositado no banco ou de sua visão de mundo e de sua inscrição religiosa. A civilização surge quando os seres humanos se entendem iguais e decidem conviver pacificamente. Se isso é assim, estamos ainda na antessala da civilização e navegamos em plena barbárie. Esse cenário é dominante no mundo de hoje, agravado ainda mais pela intrusão do Covid-19.Ele ganhou sua mais perversa expressão pela cultura do capital,competitiva,pouco solidária, individualista, materialista e sem nenhuma compaixão para com a natureza.

Neste contexto vexaminoso duas alternativas nos podem salvar: a solidariedade e o internacionalismo.

solidariedade pertence à essência do humano, pois se não tivesse havido um mínimo de solidariedade e de compaixão, ninguém de nós estaria aqui falando destas coisas. Foi necessário que nossas mães nos tivessem solidariamente acolhido, nos abraçado, alimentado e amado para podermos existir. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade de nossas ancestrais antropoides que se tornaram humanos e, com isso, civilizados, quando começaram a trazer a comida ao grupo, repartirem-na solidariamente entre si e exercerem a comensalidade. Esta ação continua ainda hoje, quando muitos grupos, especialmente os Sem Terra, se mostraram solidários distribuindo dezenas de toneladas de agro alimentos e muitas centenas de marmitas para saciar a fome de milhares nas ruas e periferias de nossas cidades.

internacionalismo acompanha a solidariedade.Ele parece óbvio: se o problema é internacional,deveria haver também uma solução internacionalmente consertada. Mas quem cuida do internacional? Cada país cuida de sei mesmo como se não houvesse nada para além de suas fronteiras. Ocorre que atualmente inauguramos a fase nova da história da Terra e da Humanidade: a fase planetária, a da única Casa Comum. Os vírus não respeitam as fronteiras nacionais. O Covid-19 atacou a Terra inteira e ameaça a  todos os países sem exceção. As soberanias mostraram-se obsoletas. Que seria dos velhinhos da Itália, gravemente infectados pelo Covid-19, se não fosse a solidariedade de Angela Merkel da Alemanha que salvou a grande maioria deles? Mas isso foi uma exceção para mostrar que é pela superação do nacionalismo envelhecido em nome do internacionalismo solidário que poderá ser encontrado um caminho de saída para a nossa barbárie.

É nesta perspectiva que consideramos inspiradora uma categoria fundamental, vinda da África. Muito mais pobre que nós,  ela é  mais rica em solidariedade. Esta vem expressa pela palavra Ubuntu, que significa: eu só sou eu através de você. O outro, portanto, é essencial para que eu exista enquanto humano e civilizado. Inspirado pelo Ubuntu, o recém-falecido arcebispo anglicano Desmond Tutu encontrou, para a África do Sul, uma chave para a reconciliação entre brancos e negros, na Comissão da Verdade e da Reconciliação.

Como ilustração como o Ubuntu está enraizado na culturas africanas, consideremos este pequeno testemunho: um viajante europeu e branco  se extasiou com o fato de que, sendo mais pobres que a maioria, os africanos eram menos desiguais. Quis saber o porquê. Idealizou um teste. Viu um grupo de jovens jogando futebol num campo cercado de árvores. Comprou um bela cesta de diversos e coloridos frutos e a colocou no alto de um pequeno morro. Chamou os jovens e lhes disse: “Lá no alto há uma cesta cheia de saborosos frutos. Vamos fazer uma aposta: vocês se coloquem todos em fila e quando der o sinal, comecem  correr. Quem chegar primeiro lá no alto, ganhou a cesta de frutos e poderá comer sozinho quanto quiser”.

Deu o sinal de partida. Coisa curiosa: todos se deram as mãos e juntos correram para o alto, onde estava a cesta. Começaram a saborear solidariamente os frutos.

O europeu, estupefacto, perguntou: por que fizeram isso? Não era o primeiro a chegar e poder comer sozinho os frutos? Todos gritaram unanimemente: Ubuntu! Ubuntu! E um jovem, um pouco mais idoso, lhe explicou:“Como um de nós poderia ficar feliz sozinho se todos os demais ficariam tristes?” E acrescentou:

“Meu senhor, a palavra Ubuntu significa isso para nós“Eu só posso ser eu por meio do outro”. “Sem o outro eu não sou nada e ficaria sempre sozinho. Sou quem sou porque sou através dos outros. Por isso que repartimos tudo entre nós, colaboramos uns com os outros e assim ninguém fica de fora e triste. Assim fizemos com a sua proposta. Comemos todos juntos. Todos ganhamos a corrida e juntos desfrutamos dos bons frutos que nos trouxe. Entendeu agora?

Este pequeno relato é o contrário da cultura capitalista. Esta imagina que alguém é tanto mais feliz quanto mais pode acumular individualmente e usufruir sozinho. Por causa desta atitude reina a barbárie, há tanto egoísmo, falta de generosidade e ausência de colaboração entre as pessoas. A alegria (falsa) é de poucos ao lado da tristeza (verdadeira) de muitos.Para viver bem, em nossa cultura, muitos têm que viver mal.

Entretanto, por todas as partes na humanidade, estão fermentando grupos e movimentos que ensaiam viver essa nova civilização da solidariedade entre os humanos e também para com a natureza. Cremos que começou a construção da Arca de Noé. Ela nos poderá salvar se o Universo e o Criador nos concederem o tempo necessário.Fora da solidariedade e o do sentido internacionalista pereceremos em nossa barbárie.

Leonardo Boff é eco-teólogo e escreveu Covid-19, a Mãe Terra contra-ataca a humanidade, Vozes 2020; Habitar a Terra: qual o caminho para fraternidade universal? Vozes 2121.

 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

CARTA COMPROMISSO DE LULA

 Frei Betto


 

       Candidato a presidente da República, Lula alerta que “chegou a hora de rompermos com a tradição de poder das elites brasileiras”. “Proponho-me a fazer do poder político um instrumento capaz de promover as profundas reformas exigidas pela nossa sociedade”. 

       Lula assume publicamente os compromissos de “fazer, da geração de empregos, a prioridade número um do meu governo; de livrar o Brasil da vergonha histórica de ser uma Nação ainda com legiões de famintos e flagelados, doentes e analfabetos, desempregados e humilhados, sobreviventes da dor; de acabar com a vergonha de termos uma infância abandonada e garantir a todas as crianças do Brasil um lugar assegurado em uma escola com qualidade; e fazer da saúde um dever do poder público.”

       Lula assume também “o compromisso de fazer uma verdadeira reforma agrária, desapropriando terras ociosas como determina a nossa Constituição e assentando as famílias sem terra”. Compromete-se ainda a tornar o Brasil “uma economia industrial forte, preservando as grandes empresas nacionais capazes de competir nos mercados globalizados e estimulando a micro, a pequena e a média empresas, que são as maiores geradoras de empregos”.

       O candidato petista garante que haverá de “implantar gradativamente um programa de renda mínima para que todos neste país tenham o direito de sobreviver com dignidade e partilhar da riqueza desta Nação”. E também assume o compromisso de “empenhar todos os meus esforços para acabar com a corrupção e a sonegação de impostos e, assim, transformar cada real arrecadado em benefícios sociais e investimentos de interesse público”. E assegura: “No meu governo, a luta contra a corrupção será um imperativo ético irrenunciável. A corrupção mina a democracia e degrada a política. Não permitirei a prática do `toma-lá-dá-cá´”. Garante ainda:  “combateremos a corrupção com todo vigor para acabar com a triste imagem do país da impunidade”.

       Lula promete que, se eleito, “as relações com o Congresso Nacional e os partidos políticos serão feitas à luz do dia, com respeito e sem fisiologismos”. E admite que “já passou da hora de resgatarmos o idealismo da nossa juventude, livrá-la do consumismo desenfreado e das drogas, da apatia e do desinteresse, despertando o melhor de suas energias culturais e espirituais”.

       Quanto à mulher, ele se compromete a “jogar todo o peso da lei na garantia dos direitos iguais para homens e mulheres”, como também declara que haverá de “defender o meio ambiente, preservar os recursos naturais da Amazônia, combater a poluição nas cidades, nos campos, nos rios, nos lagos e no mar”. Promete que, uma vez eleito, “vamos impedir a destruição de nossas florestas e defender os direitos dos povos indígenas, que são também filhos desta terra e aqui nos antecederam”.

       Lula quer “arrancar o Brasil da humilhante posição de campeão mundial de desigualdades sociais”. E assegura: “No meu governo, vou garantir a estabilidade monetária, mas também a estabilidade econômica e social. Serei o fiador de um novo contrato social com este país, que se fundamentará numa nova hegemonia democrática, capaz de efetivamente construir a Nação brasileira para todos os brasileiros. Uma Nação sem medo de ser feliz e com coragem para assumir o seu destino”. 

       Esta a síntese dos compromissos assumidos por Lula na campanha eleitoral para presidente da República, em 1998, tendo como vice Leonel Brizola. Fernando Henrique Cardoso foi reeleito presidente com 53,06% dos votos; Lula mereceu 31,71%; e Ciro Gomes, 10,97%.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

 

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

“Meu quintal em sua cesta”


Padre Francisco Aquino Júnior


 

Comunidade que Sustenta a Agricultura

 

O Estado brasileiro sempre esteve a serviço das elites. Para o povo, quando muito, sobra “bolsa” ou “auxílio”. E até isso incomoda nossa elite que sempre atribui as crises econômicas aos direitos trabalhistas e às políticas sociais: endivida o país, impede o crescimento… E sempre retorna com a mesma receita: acabar com os direitos trabalhistas, reformar a previdência, diminuir os gastos sociais… E as consequências são sempre as mesmas: precarização do trabalho, crescimento da pobreza e da miséria… Estamos vivendo mais um capítulo trágico dessa novela. Com o desmonte dos direitos trabalhistas e das minguadas políticas sociais, cresce assustadoramente os índices de pobreza e miséria no país. Dados oficiais do governo federal indicam que mais de 23% da população brasileira (cerca de 52 milhões de pessoas) vive em situação de pobreza ou de extrema pobreza. No Nordeste, mais de 40% da população vive nessa situação.

Mas é importante ver como o povo resiste criativamente, construindo alternativas de sobrevivência no campo e na cidade. Alternativas que, além de possibilitar seu sustento (“pão nosso de cada dia”), resgatam o verdadeiro sentido da economia (satisfação das necessidades materiais) e indicam caminhos de transformação da sociedade (economia a serviço da vida). São alternativas vividas de forma individual, familiar, comunitária, associativa. Elas existem em todos os cantos desse país. Basta pensar na agricultura familiar camponesa, no trabalho de catadores/as de material reciclável e nas mais diversas formas de produção, comércio e serviço nos centros urbanos.

Exemplo disso é o projeto “Meu quintal em sua cesta”, uma experiência de Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), desenvolvido por famílias camponesas da Chapada do Apodi, no município de Tabuleiro do Norte – CE (às quais se juntaram famílias de outros territórios). Trata-se de uma experiência de comercialização direta de produção agroecológica entre agricultores/as (produtores-abastecedores) e co- agricultores/as (consumidores-sustentadores).

Desde 2016, a Caritas Diocesana de Limoeiro do Norte vem atuando junto a famílias camponesas nessa região em torno da problemática terra-água-produção. Foram implantadas 35 unidades de Sistema Bioágua Familiar (tecnologia de reuso de água: trata as águas cinzas e potencializa a produção de alimentos) em quintais com cerca de 300 metros quadrados. As famílias começaram a organizar feiras agroecológicas no território e a monitorar a produção. Em 2020, elas produziram em torno de 6,5 mil kg de alimentos, quase 6 mil kg de forragem e quase 500 kg de húmus de minhoca.

Com o início da pandemia, impossibilitando a realização das feiras agroecológicas, mas animadas com os resultados da experiência, as famílias deram mais um passo na organização e começaram o Projeto “Meu quintal em sua cesta” – Comunidade que Sustenta a Agricultura. Elas reúnem a produção (cada uma leva o que tem para comercializar), organizam cestas e vendem coletivamente aos co-agricultores (que não apenas compram/consomem produtos agroecológicos, mas colaboram com a agricultura familiar camponesa). O projeto começou no dia 19 de março de 2021 – dia de São José. Envolve 13 famílias de agricultores/as e 30 co-agricultores/as. Entre março e dezembro de 2021, comercializou 76 produtos, que varia de hortaliças e legumes (2.317,80 kg), a frutas (2.063,25 kg), alimentos processados (2.040 unidades), carnes (1.085,52 kg) e adubos orgânicos (339 kg), gerando uma receita de mais de 33 mil reais.

As dificuldades vão do acesso à terra e à água (até para o consumo!), embora a Chapada tenha as melhores terras e esteja em cima dos Aquíferos Jandaíra e Açu, à ausência de políticas públicas de incentivo e desenvolvimento da agricultura familiar camponesa. E a chegada de uma grande empresa do agronegócio, viabilizada por um programa do governo do Estado do Ceará para retomada da cotonicultura (produção de algodão), ameaça seriamente o território. Ela já adquiriu mais de 24 mil hectares, têm perfurado poços, utilizado veneno e desmatado grandes áreas, até com o uso do correntão, prática ilegal conforme o Código Florestal.

Mas as famílias estão animadas. Além do impacto positivo na renda familiar, o projeto tem mobilizado as comunidades na luta por água e na defesa de seu território e tem desenvolvido, em pequena escala, um modelo de economia agroecológica que promove o sustento das famílias e o potencial econômico da região, fortalece os vínculos familiares e comunitários, produz alimentos saudáveis, respeita e conserva o meio ambiente. E isso num município em que 38% de sua população vive em situação de pobreza e/ou extrema pobreza.

Viva a agricultura familiar camponesa!

 

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Vacina contra a intolerância religiosa

 Marcelo Barro


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Em meio ao terrível sofrimento provocado por nova explosão de contaminações pela Covid e a epidemia de influenza (gripe), ao menos contamos com vacinas que, de fato, se revelam eficazes. Lutamos para que a ONU proclame as vacinas contra vírus como bens comuns da humanidade. É preciso denunciar como iniquidade o fato de indústrias da saúde triplicarem os seus lucros a partir da dor e das doenças da imensa maioria da humanidade. Parece que, para não mudar essa realidade cruel e desumana, a elite que multiplica sua riqueza a partir da desgraça da multidão usa como arma eficiente os vírus da intolerância. No mundo inteiro, há um surto de intolerância e discriminação contra grupos culturais e religiosos diferentes da cultura dominante.

No Brasil, a cada dia e por horas e horas, os canais de rádio e televisão transmitem cultos e pregações do Cristianismo ritual, alienado e alienante, seja católico, seja evangélico, ou pentecostal. É claro que há um público de pessoas idosas que tem o direito de terem em casa suas missas tradicionais, ou cultos de suas Igrejas. No entanto, ao mesmo tempo que os canais se abrem para esse tipo de expressões cultuais  não permitem nem aceitam comunicar nada que, mesmo no âmbito de celebrações católicas ou evangélicas,  sejam de conteúdo mais profético e crítico. E mantêm um muro de censura e silêncio cúmplice sobre a violência cotidiana que sofrem grupos religiosos minoritários, principalmente, comunidades das religiões afro-brasileiras, a cada dia, vítimas de ataques e perseguições. Apesar da Constituição Brasileira defender a liberdade de culto para todas as religiões, ainda existem programas de rádio e televisão nos quais se prega a intolerância e se combatem os cultos afro. Esses atos de violência religiosa não são praticados por ateus dogmáticos, contrários à religião. São cometidos por grupos que se dizem cristãos e agem em nome de Deus. Apoiam-se em uma leitura ao pé da letra e fanática de certos textos bíblicos para justificar uma imagem de Deus cruel, violento e intolerante.

No Brasil, a cada ano, apesar do atual governo federal que promove o ódio e a violência, o 21 de janeiro é comemorado como “o dia nacional de combate à intolerância religiosa”. Essa data foi criada pelo presidente Lula, através da lei federal n. 11.635 de 27 de dezembro de 2007. Ao escolher esse dia, se quis homenagear a Mãe Gilda, Ialorixá do Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de perseguição e ataque de um grupo neopentecostal fundamentalista que invadiu o templo do Candomblé, desrespeitou os símbolos sagrados ali representados e ofendeu gravemente a mãe de santo.

Ainda bem que, até aqui, esses grupos pentecostais e católicos de linha carismática não descobriram ainda que os mesmos livros da Bíblia que mandam perseguir e destruir cultos de religiões estrangeiras,  ordenam também apedrejar mulheres adúlteras, pessoas que transem com animais ou simplesmente que não respeitem o sábado. O que farão esses cristãos, quando descobrirem que as mesmas leis bíblicas que condenam outros cultos, permitem a escravidão de estrangeiros e mandam vender pessoas como escravas, para saldar dívidas não pagas? Será que, em pleno século XXI, essas pessoas que querem cumprir a Bíblia ao pé da letra passarão a praticar essas leis culturais da Ásia antiga?

Em outras épocas, quase todas as Igrejas históricas condenaram hereges à morte. Queimaram na fogueira mulheres consideradas feiticeiras ou bruxas e pessoas que praticassem formas de sexo não aprovadas pela Igreja. Durante séculos, a Igreja Católica se proclamou como a única religião verdadeira e sistematicamente combatia as outras. Somente há 50 anos, em 1965, ao concluir o Concílio Vaticano II que, em Roma, reuniu todos os bispos do mundo, a Igreja Católica publicou a declaração Nostra Aetate, que reconhece o valor das outras religiões e incentiva os fieis a valorizar o diferente e praticar o diálogo. Da parte das outras Igrejas, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 340 confissões evangélicas e ortodoxas, em sua assembleia geral em Nova Dehli, pediu às Igrejas-membros uma atitude de respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas.

No mundo atual, a diversidade cultural e religiosa faz com que os diferentes caminhos espirituais possam se complementar e se enriquecer mutuamente. Faz com que cada grupo reconheça os elementos de verdade que existem em outros grupos  e se abram ao que Deus revela a cada um, não somente a partir da sua própria tradição, mas também através dos outros caminhos religiosos.

Nas últimas décadas, em diálogo com a humanidade, muitos cristãos descobriram como critério da fé o que apóstolo Paulo escreveu ao grupo de Corinto: “Deus nos fez servidores de uma nova aliança, não da letra da lei, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito é quem faz viver” (2 Cor 3, 6). Do mesmo modo, a imagem que Jesus transmite de Deus é a de um paizinho carinhoso que “faz nascer o sol sobre os bons, mas também sobre os maus e faz chover sobre quem é justo e quem é injusto” (Mt 5, 45).